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Quarta Parte - Os Grandes Segredos Práticos ou as Realizações da Ciência

Introdução

As altas ciências da Cabala e da magia prometem ao homem um poder excepcional, real, efetivo, realizador, e deve-se encará-las como vãs e mentirosas se não o dão.

Vós julgareis os doutores por suas obras, dizia o mestre supremo, e essa regra de julgamento é infalível.

Se quereis que eu acredite no que sabeis, mostrai-me o que fazeis.

Deus, para elevar o homem à emancipação moral, esconde-se dele e de certo modo abandona-lhe o governo do mundo. Deixa-se adivinhar pelas grandezas e harmonias da natureza, a fim de que o homem se aperfeiçoe progressivamente, sempre ampliando a idéia que faz de seu autor.

O homem conhece Deus apenas pelos nomes que dá a esse Ser dos seres e só o distingue pelas imagens que dele tenta traçar. Assim, ele é de certo modo o criador daquele que o criou. Acredita-se o espelho de Deus e, ampliando indefinidamente sua própria miragem, acredita poder esboçar no espaço infinito a sombra daquele que é sem corpo, sem sombra e sem espaço.

CRIAR DEUS, CRIAR-SE A SI PRÓPRIO, TORNAR-SE INDEPENDENTE, IMPASSÍVEL E IMORTAL: aí está com certeza um programa mais temerário do que o sonho de Prometeu. Pois bem, esse programa é paradoxal apenas na forma que empresta a uma falsa e sacrílega interpretação. Num sentido ele é perfeitamente razoável, e a ciência dos adeptos promete realizá-lo e dar-lhe uma perfeita execução.

O homem, com efeito, cria um Deus conforme à sua própria inteligência e à sua própria bondade, não pode elevar seu ideal mais alto do que lhe permite seu desenvolvimento moral. O Deus que ele adora é sempre seu próprio reflexo aumentado. Conceber o que seja o absoluto em bondade e em justiça é ser ele próprio muito justo e muito bom.

As qualidades do espírito, as qualidades morais são riquezas, e as maiores de todas as riquezas. É preciso adquiri-las pela luta e pelo trabalho. Objetar-nos-ão a desigualdade das aptidões e as crianças que nascem com uma organização mais perfeita. Mas devemos crer que tais organizações são o resultado de um trabalho mais avançado da natureza e que as crianças delas dotadas adquiriram-nas, senão por seus próprios esforços, ao menos pelas obras solidárias dos seres humanos a quem sua existência está ligada. É um segredo da natureza, que nada faz ao acaso; a propriedade das faculdades intelectuais mais desenvolvidas como a do dinheiro e das terras constitui um direito imprescritível de transmissão e de herança.

Sim, o homem é chamado a terminar a obra de seu Criador, e cada um dos instantes por ele empregados para tornar-se melhor ou perder-se é decisivo para toda uma eternidade. É pela conquista de uma inteligência para sempre reta e de uma vontade para sempre justa que ele se torna vivo para a vida eterna, pois que nada sobrevive à injustiça e ao erro, a não ser a pena por sua desordem. Compreender o bem é querê-lo, e, na ordem da justiça, querer é fazer. Eis por que o Evangelho nos diz que os homens serão julgados segundo suas obras.

Nossas obras tanto nos fazem o que somos, que, como já dissemos, nosso corpo sofre modificação com nossos hábitos e, algumas vezes, transformação total de sua forma.

Uma forma conquistada ou suportada torna-se para toda a existência uma providência ou uma fatalidade. Essas figuras estranhas que os egípcios davam aos símbolos humanos da divindade representam as formas fatais. Tífon, por sua boca de crocodilo, está condenado a devorar incessantemente para encher seu ventre de hipopótamo. Assim, por sua voracidade e sua fealdade, é consagrado à destruição eterna.

O homem pode matar ou vivificar suas faculdades pela negligência ou pelo abuso. Pode criar para si faculdades novas pelo bom uso das que recebeu da natureza. Freqüentemente se diz que as afeições não podem ser comandadas, que a fé não é possível a todos, que não se refaz o caráter, e todas essas asserções são verdadeiras apenas para os preguiçosos ou os perversos. Alguém pode se tornar crente, piedoso, amante, devoto, quando sinceramente o quer. Pode-se dar a calma da justeza ao espírito como a onipotência da justiça à vontade. Pode-se reinar no céu pela fé, e na terra pela ciência. O homem que sabe comandar a si próprio é rei de toda a natureza.

Vamos mostrar, neste último livro, por que meios os verdadeiros iniciados tornaram-se mestres de vida comandando a dor e a morte; como operam em si mesmos e nos outros as transformações de Proteu; como exercem as adivinhações de Apolônio; como fazem o ouro de Raimundo Lúlio e de Flamel; como possuem, para renovar sua juventude, os segredos de Postel, o Ressuscitado, e do fabuloso Cagliostro. Vamos dizer, enfim, a última palavra da magia.

Capítulo I - Da transformação. A vara de Circe. O banho de Medéia. A magia vencida por suas próprias armas. O grande arcano dos jesuítas e o segredo de seu poder

A Bíblia conta que o rei Nabucodonosor, no auge de seu poder e orgulho, foi repentinamente transformado em besta.

Fugiu para lugares selvagens, pôs-se a pastar a relva, deixou crescer a barba, os cabelos e todo o pêlo do corpo, bem como as unhas, e permaneceu nesse estado durante sete anos.

Em nosso Dogma e Ritual da Alta Magia, dissemos o que pensamos dos mistérios da licantropia, ou seja, da metamorfose dos homens em lobisomens.

Todos conhecem a fábula de Circe e compreendem sua alegoria.

O ascendente fatal de uma pessoa sobre outra é a verdadeira vara de Circe.

Sabe-se que quase todas as fisionomias humanas portam alguma semelhança com um animal, isto é, a assinatura de um instinto especializado.

Ora, os instintos são balanceados pelos instintos contrários e dominados por instintos mais fortes.

Para dominar os carneiros, o cão explora o medo do lobo.

Se vós sois cão, e se quereis que uma linda gatinha vos ame, tendes apenas uma medida a tomar: metamorfosear-vos em gato.

Como? Pela observação, imitação e imaginação. Pensamos que se compreende aqui nossa linguagem figurada, e recomendamos essa revelação a todos os magnetistas; aí está o mais profundo de todos os segredos de sua arte.

Eis sua fórmula em termos técnicos:

"Polarizar sua própria luz animal, em antagonismo equilibrado com um pólo contrário."

Ou então:

Concentrar em si mesmo as especialidades absorventes para dirigir as irradiantes para uma morada absorvente; e vice-versa.

Esse governo de nossa polarização magnética pode ser feito com o auxílio das formas animais de que falamos, e que servirão para fixar a imaginação.

Demos um exemplo:

Quereis agir magneticamente sobre uma pessoa polarizada como vós, o que sabereis no primeiro contato, se fordes magnetizador; porém, ela é um pouco menos forte que vós: é um rato, sois uma ratazana. Fazei-vos gato, e tomá-la-eis.

Num dos admiráveis contos que não inventou, mas que narrou melhor do que ninguém, Perrault põe em cena um mestre gato que, por seus ardis, induz um ogro a metamorfosear-se em rato; mal ele acabara de fazê-lo, foi devorado pelo gato. Os contos da Mamãe Gansa seriam, como o Asno de Ouro, de Apuleio, verdadeiras lendas mágicas, e ocultariam, sob a aparência pueril, os formidáveis segredos da ciência?

Sabe-se que os magnetizadores dão à água pura, apenas com a imposição das mãos, isto é, de sua vontade expressa por um sinal, as propriedades e o sabor do vinho, dos licores e de todos os medicamentos possíveis.

Sabe-se também que os domadores de animais ferozes subjugam os leões fazendo-se eles mesmos mental e magneticamente mais fortes e mais ferozes que os leões.

Jules Gérard, o intrépido matador de leões da África, seria devorado se tivesse medo. Mas, para não ter medo de um leão, é preciso, por um esforço de imaginação e de vontade, fazer-se mais forte e mais selvagem que o próprio animal; é preciso dizer a si mesmo: O leão sou eu, e este animal diante de mim é apenas um cão que deve sentir medo.

Fourier sonhara os antileões: Jules Gérard realizou essa quimera do sonhador falansteriano.

Mas, para não temer os leões, basta ser um homem corajoso e ter armas, dirão.

Não, isso não basta. É preciso, por assim dizer, conhecer de cor seu leão, calcular as investidas do animal, adivinhar seus ardis, evitar suas garras, prever seus movimentos, numa palavra, ser mestre na profissão de leão, como diria o bom La Fontaine.

Os animais são os símbolos vivos dos instintos e das paixões dos homens. Se tornais um homem temeroso, vós o transformais em lebre; se, ao contrário, impeli-o à ferocidade, fazeis dele um tigre. A vara de Circe é o poder fascinador da mulher; e os companheiros de Ulisses transformados em porcos não são uma história apenas daquele tempo.

Mas nenhuma metamorfose se opera sem destruição. Para transformar um gavião em pomba, é necessário primeiro matá-lo, depois cortá-lo em pedaços, de modo a destruir até o menor vestígio de sua primeira forma, depois fervê-lo no banho mágico de Medéia.

Vede como os hierofantes modernos procedem para realizar a regeneração humana; como fazem, por exemplo, na religião católica para transformarem um homem mais ou menos fraco e apaixonado num estóico missionário da Companhia de Jesus.

Aí está o grande segredo dessa ordem venerável e terrível, sempre desconhecida, freqüentemente caluniada e sempre soberana.

Lede atentamente o livro intitulado os Exercícios de Santo Inácio e vede com que mágico poder esse gênio opera a realização da fé.

Ele ordena a seus discípulos que vejam, toquem, cheirem, degustem as coisas invisíveis; quer que os sentidos sejam exaltados na oração até a alucinação voluntária. Meditais sobre um mistério da fé, Santo Inácio quer primeiramente que construais um lugar, que o sonheis, vejais, toqueis. Se é o inferno, ele vos faz tatear rochas ardentes, nadar em trevas espessas como o pez, coloca em vossa língua enxofre líquido, enche vossas narinas de um abominável mau cheiro; mostra-vos atrozes suplícios, vos faz ouvir gemidos sobre-humanos; diz à vossa vontade para criar tudo isso através de exercícios persistentes. Cada um o faz a seu modo, mas sempre da forma mais capaz de impressioná-lo. Não é mais a embriaguez do haxixe servindo à fraude do Velho da Montanha; é um sonho sem sono, uma alucinação sem loucura, uma visão racional e intencional, uma criação verdadeira da inteligência e da fé. Daí em diante, ao pregar, o jesuíta poderá dizer: É o que vimos com nossos olhos, o que ouvimos com nossos ouvidos, o que nossas mãos tocaram, é isso o que vos anunciamos. O jesuíta assim formado comunga com um círculo de vontades exercitadas como a sua: desse modo, cada um dos padres é forte como a sociedade, e a sociedade é mais forte que o mundo.

Capítulo II - Como se pode conservar e renovar a juventude. Os segredos de Cagliostro. A possibilidade da ressurreição. Exemplo de Guilherme Postel, dito o Ressuscitado. De um operário taumaturgo, etc.

Sabemos que uma vida sóbria, moderadamente laboriosa e perfeitamente regular geralmente prolonga a existência. Mas é pouco, a nosso ver, a prolongação da velhice; temos o direito de pedir à ciência que professamos outros privilégios e outros segredos.

Ser por muito tempo jovem, ou mesmo voltar a sê-lo, eis o que pareceria, com razão, desejável e precioso para a maioria dos homens. É possível? É o que vamos examinar.

O famoso conde de Saint-Germain morreu, não duvidamos disso; mas nunca o viram envelhecer. Aparentava sempre quarenta anos, e no auge de sua celebridade afirmava ter mais de oitenta.

Ninon de l’Enclos, tendo atingido uma idade avançada, era ainda uma mulher jovem, bela e sedutora. Morreu sem ter envelhecido.

Desbarrolles, o célebre quiromante, há muito tempo é para todo o mundo um homem de trinta e cinco anos. Sua certidão de nascimento diria outra coisa, se ousasse mostrar-se; mas ninguém acreditaria.

Cagliostro sempre foi visto com a mesma idade, e não apenas pretendia possuir um elixir que devolvia aos idosos, por um instante, todo o vigor da juventude, como também gabava-se de operar a regeneração física por meios que detalhamos e analisamos em nossa História da Magia.

Cagliostro e o conde de Saint-Germain atribuíam a conservação de sua juventude à existência e ao uso da medicina universal, inutilmente procurada por tantos sopradores e alquimistas.

Um iniciado do século XVI, o bom e sábio Guilherme Postel, não afirmava possuir o grande arcano da filosofia hermética; e no entanto, após o terem visto velho e alquebrado, viram-no novamente com uma tez vermelha e sem rugas, barba e cabelos negros, corpo ágil e vigoroso. Seus inimigos pretenderam que ele se maquiava e que tingia os cabelos; pois os zombeteiros e os falsos sábios necessitam de uma explicação qualquer para fenômenos que não compreendem.

O grande meio mágico para conservar a juventude do corpo é impedir a alma de envelhecer, conservando-lhe preciosamente o frescor original de sentimentos e pensamentos que o mundo corrompido denomina ilusões, e a que chamaremos miragens primitivas da verdade eterna.

Acreditar na felicidade da terra, na amizade, no amor, numa Providência materna que conta todos os nossos passos e recompensará todas as nossas lágrimas é ser perfeitamente ingênuo, dirá o mundo corrompido; e não vê que o ingênuo é ele, que se acredita forte privando-se de todas as delícias da alma.

Acreditar no bem da ordem moral é possuir o bem: e é por isso que o Salvador do mundo prometia o reino do céu aos que se tornassem semelhantes às criancinhas. O que é a infância? É a idade da fé. A criança ainda nada sabe da vida; desse modo, resplandece de imortalidade confiante. Como poderia duvidar da dedicação, da ternura, da amizade, do amor, da Providência, quando está nos braços de sua mãe?

Fazei-vos crianças de coração e permanecereis jovens de corpo.

As realidades de Deus e da natureza superam infinitamente em beleza e bondade toda a imaginação dos homens. Assim, os empedernidos são pessoas que nunca souberam ser felizes; e os desiludidos provam, por seus dissabores, que beberam apenas em fontes lamacentas. Para gozar os prazeres, mesmo sensuais, da vida, é preciso ter o sentido moral; e os que caluniam a existência certamente deles abusaram.

A alta magia, como provamos, reconduz o homem às leis da mais pura moral. Vel sanctum invenit, vel sanctum facit, disse um adepto; pois ela nos faz compreender que, para ser feliz, mesmo neste mundo, é preciso ser santo.

Ser santo! é fácil dizer; mas como dar-se a fé, quando não se acredita mais? Como reencontrar o gosto da virtude num coração tornado insípido pelo vício?

Trata-se aqui de recorrer aos quatro verbos da ciência: saber, ousar, querer e calar-se.

É preciso impor silêncio aos dissabores, estudar o dever e começar por praticá-lo como se o amasse.

Vós sois incrédulo, por exemplo, e gostaríeis de tornar-vos cristão.

Fazei os exercícios de um cristão. Orai regularmente, servindo-vos das fórmulas cristãs; aproximai-vos dos sacramentos supondo a fé, e a fé virá. Aí está o segredo dos jesuítas, contido nos exercícios espirituais de Santo Inácio.

Por exercícios análogos, um tolo, se o quisesse com perseverança, tornar-se-ia um homem inteligente.

Mudando-se os hábitos da alma, mudam-se certamente os do corpo: já o dissemos e explicamos como.

O que contribui, sobretudo, para envelhecer-nos tornando-nos feios são os pensamentos rancorosos e amargos, os julgamentos desfavoráveis que fazemos dos outros, nossas raivas por orgulho ferido e paixões malsatisfeitas. Uma filosofia benevolente e doce evitar-nos-ia todos esses males.

Se fechássemos os olhos aos defeitos do próximo, levando em conta apenas suas boas qualidades, encontraríamos o bem e a benevolência em toda a parte. O homem mais perverso tem seu lado bom e abranda-se quando se sabe abordá-lo. Se nada tivésseis em comum com os vícios dos homens, nem mesmo os perceberíeis. A amizade e as dedicações que ela inspira encontram-se até nas penitenciárias e nas prisões de forçados. O horrível Lacenaire devolvia fielmente o dinheiro que lhe haviam emprestado, e várias vezes teve atos de generosidade e beneficência. Não tenho dúvidas de que na vida criminosa de Cartouche e Mandrin tenha havido lances de virtude capazes de tirar lágrimas dos olhos. Nunca houve ninguém totalmente mau nem totalmente bom. "Ninguém é bom, a não ser Deus", disse o melhor dos mestres.

O que tomamos em nós por zelo da virtude é freqüentemente apenas um secreto amor-próprio dominador, um ciúme dissimulado e um instinto orgulhoso de contradição. "Quando vemos desordens manifestas e pecadores escandalosos", dizem os autores da teologia mística, "cremos que Deus os submete a maiores provas do que nós, que certamente, ou pelo menos muito provavelmente, não as merecemos, e que faríamos bem pior em seu lugar."

A paz! a paz! Tal é o bem supremo da alma, e foi para nos dar esse bem que Cristo veio ao mundo.

Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens que desejam o bem!, clamavam os espíritos do céu quando o Salvador acabava de nascer.

Os antigos pais do cristianismo contavam um oitavo pecado capital: a tristeza.

De fato, o próprio arrependimento para o verdadeiro cristão não é uma tristeza, é um consolo, uma alegria e um triunfo. "Queria o mal e não o quero mais, estava morto e estou vivo. O pai do filho pródigo matou o novilho gordo porque seu filho voltou, que pode fazer o filho pródigo? Chorar, um pouco de confusão, mas sobretudo de alegria!

Existe apenas uma coisa triste no mundo, é a loucura e o pecado. Visto que estamos livres, riamos e gritemos de alegria, pois estamos salvos e todos os mortos que nos amam regozijam-se no céu!

Todos trazemos em nós um princípio de morte e um princípio de imortalidade. A morte é a besta, e a besta sempre produz a tolice. Deus não ama os tolos, pois seu espírito divino denomina-se espírito de inteligência. A tolice expia pela dor e escravidão. O bastão é feito para as bestas.

Um sofrimento é sempre uma advertência, tanto pior para o que não sabe compreender. Quando a natureza puxa a corda é porque estamos andando de lado, quando bate é porque o perigo urge. Ai, então, de quem não reflete!

Quando estamos maduros para a morte, deixamos a vida sem pesar e nada nos faria retornar; mas quando a morte é prematura a alma lamenta a perda da vida, e um taumaturgo hábil poderia chamá-la de volta ao corpo. Os livros sagrados indicam-nos o procedimento que se deve, então, adotar. O profeta Elias e o apóstolo São Paulo empregaram-nos com sucesso. Trata-se de magnetizar o defunto colocando os pés sobre seus pés, as mãos sobre suas mãos, a boca sobre sua boca, depois reunir toda a vontade e chamar a si longamente a alma evadida com todas as benevolências e carinhos mentais de que se é capaz. Se o operador inspira à alma defunta muita afeição, ou um grande respeito, se no pensamento que lhe comunica magneticamente o taumaturgo pode persuadi-la de que a vida lhe é ainda necessária e que dias felizes lhe estão ainda prometidos aqui embaixo, ela certamente retomará, e para os homens de ciência vulgar a morte aparente terá sido apenas uma letargia.

Foi após uma letargia semelhante que Guilherme Postel, chamado de volta à vida pelos cuidados da mãe Joana, reapareceu com uma juventude nova e passou a chamar-se Postel, o Ressuscitado, Postellus restitutus.

No ano de 1799, havia no subúrbio de Santo Antônio, em Paris, um ferrador que se fazia passar por adepto da ciência hermética, chamava-se Leriche e passava por ter operado, pela medicina universal, curas milagrosas e até mesmo ressurreições. Uma dançarina da ópera, que acreditava nele, um dia foi procurá-lo em lágrimas e disse-lhe que seu amante morrera. O senhor Leriche acompanhou-a à casa mortuária. Quando entrava, uma pessoa que saía disse-lhe: "É inútil o senhor subir, ele morreu há seis horas." "Não importa", disse o ferrador, "já que eu vim, vou vê-lo." Subiu, encontrou um cadáver com o corpo todo gelado, exceto na cavidade do estômago, onde ele acreditou sentir ainda um pouco de calor. Mandou acender um grande fogo, operou fricções em todo o corpo com toalhas quentes, esfregou-o com medicina universal diluída em álcool (sua pretensa medicina universal devia ser um pó mercurial análogo ao quermes das farmácias), enquanto isso a amante do morto chorava e chamava-o à vida com as mais ternas palavras. Após uma hora e meia de semelhantes cuidados, Leriche pôs um espelho diante do rosto do paciente e achou-o levemente embaçado. Os cuidados foram redobrados e logo houve um sinal de vida mais acentuado; colocaram-no, então, num leito bem aquecido e poucas horas depois ele retomara inteiramente à vida. Esse ressuscitado chamava-se Candy, viveu, desde então, sem nunca adoecer. Em 1845, vivia ainda e morava na praça Chevalier-du-Guet, n° 6. Contava sua ressurreição a quem quisesse ouvir, e provocava o riso dos médicos e dos membros do conselho profissional de seu bairro. O bom homem consolava-se à maneira de Galileu e respondia-lhes: "Oh! riam o quanto quiserem. Tudo o que sei é que o médico-legista tinha vindo, que a inumação estava permitida, que dezoito horas mais tarde iam me enterrar e que aqui estou."

Capítulo III - O grande arcano da morte

Entristecemo-nos com freqüência ao pensar que a mais bela vida deve terminar, e a aproximação deste terrível desconhecido a que se denomina morte faz com que nos enfastiemos com todas as alegrias da existência.

Por que nascer, se se deve viver tão pouco? Por que educar com tantos cuidados crianças que morrerão? Eis o que pergunta a ignorância humana em suas mais freqüentes e mais tristes dúvidas.

Eis também o que vagamente se pode perguntar o embrião humano ao aproximar-se o nascimento que vai lançá-lo num mundo desconhecido, despojando-o de seu invólucro protetor. Estudemos o mistério do nascimento e teremos a chave do grande arcano da morte.

Lançado pelas leis da natureza no ventre de uma mulher, o espírito encarnado acorda aí lentamente, e com esforço cria em si órgãos indispensáveis mais tarde, mas que, à medida que crescem, aumentam seu mal-estar na situação presente. O tempo mais feliz da vida do embrião é aquele em que, sob a simples forma de uma crisálida, estende à sua volta a membrana que lhe serve de abrigo e que nada com ele num fluido nutriente e conservador. Ele é, então, livre e impassível, vive da vida universal e recebe o cunho das lembranças da natureza que determinarão, mais tarde, a configuração de seu corpo e a forma dos traços de seu rosto. Essa idade feliz poderia chamar-se a infância do embrião.

A seguir vem a adolescência, a forma humana torna-se distinta e o sexo determina-se, um movimento opera-se no ovo materno semelhante aos vagos devaneios da idade que sucede à infância. A placenta, que é o corpo externo e real do feto, sente germinar em si algo de desconhecido que já tende a escapar-se, rompendo-a. A criança, então, entra mais distintamente na vida dos sonhos, seu cérebro, invertido como um espelho de sua mãe, reproduz com tanta força as imaginações desta, que comunica sua forma aos próprios membros. Sua mãe, então, é para ele o que Deus é para nós, é uma providência desconhecida, invisível, a que ele aspira a ponto de identificar-se em tudo com o que ela admira. Está preso a ela, vive através dela e não a vê, nem mesmo pode compreendê-la, e se pudesse filosofar talvez negasse a existência pessoal e a inteligência dessa mãe que para ele ainda é apenas uma prisão fatal e um aparelho conservador. Pouco a pouco, no entanto, essa sujeição incomoda-o, agita-se, atormenta-se, sofre, sente que sua vida vai terminar. Chega uma hora de angústia e convulsão, seus liames desprendem-se, sente que vai cair no abismo do desconhecido. Está feito, ele cai, uma sensação dolorosa oprime-o, um frio estranho invade-o, solta um último suspiro que se transforma num primeiro grito; morreu para a vida embrionária, nasceu para a vida humana!

Na vida embrionária, parecia-lhe que a placenta era seu corpo, e de fato era seu corpo especial embrionário, corpo inútil para uma outra vida e que deve ser rejeitado como uma imundície no instante do nascimento.

Nosso corpo na vida humana é como um segundo invólucro inútil para a terceira vida e é por isso que o rejeitamos no instante de nosso segundo nascimento.

A vida humana comparada à vida celeste é um verdadeiro embrionato. Quando as más paixões nos matam, a natureza aborta e nascemos antes do tempo para a eternidade, o que nos expõe à dissolução terrível a que São João chama segunda morte.

Segundo a tradição constante dos extáticos, os abortos da vida humana permanecem nadando na atmosfera terrestre que eles não podem ultrapassar e que aos poucos os absorve e os afoga. Têm a forma humana, mas sempre imperfeita e truncada: a um falta a mão, a outro um braço, este já tem só o tronco, este último é uma cabeça pálida que rola. O que os impediu de subirem ao céu foi um ferimento recebido durante a vida humana, ferimento moral que causou uma disformidade física e, por esse ferimento, pouco a pouco toda sua existência se vai.

Logo, sua alma imortal ficará nua e, para esconder sua vergonha criando a qualquer preço um novo véu, será obrigada a arrastar-se nas trevas exteriores e a atravessar lentamente o mar morto, isto é, as águas adormecidas do antigo caos.

Essas almas feridas são as larvas do segundo embrionato, alimentam seu corpo aéreo com o vapor do sangue propagado e temem a ponta das espadas. Freqüentemente ligam-se aos homens viciados e vivem de sua vida como o embrião vive no seio da mãe; podem, então, tomar as mais horríveis formas para representar os desejos desenfreados dos que as alimentam, e são elas que aparecem sob a forma de demônios aos miseráveis operadores das obras sem nome da magia negra.

Essas larvas temem a luz, sobretudo a luz dos espíritos. Um clarão de inteligência basta para fulminá-las e precipitá-las nesse mar morto que não se deve confundir com o lago Asfaltite, na Palestina. Tudo o que aqui revelamos pertence à tradição hipotética dos videntes e só pode ser afirmado diante da ciência em nome dessa filosofia excepcional que Paracelso chamava a filosofia da sagacidade, philosophia sagax.

Capítulo IV - O grande arcano dos arcanos

O grande arcano, isto é, o segredo indizível inexplicável, é a ciência absoluta do bem e do mal.

"Quando tiverdes comido o fruto desta árvore, sereis como deuses", diz a serpente.

"Se comerdes, morrereis", responde a sabedoria divina.

Assim, o bem e o mal frutificam numa mesma árvore e brotam de uma mesma raiz.

O bem personificado é Deus.

O mal personificado é o diabo.

Saber o segredo ou a ciência de Deus é ser Deus.

Saber o segredo ou a ciência do diabo é ser o diabo.

Querer ser ao mesmo tempo Deus e diabo é absorver em si a antinomia mais absoluta, as duas forças contrárias mais tensas; é querer abrigar um antagonismo infinito.

É beber um veneno que apagaria os sóis e que consumiria mundos.

É vestir a túnica devorante de Dejanira.

É votar-se à mais pronta e mais terrível de todas as mortes.

Ai daquele que quer saber demais! Pois se a ciência excessiva e temerária não o matar o tornará louco!

Comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal é associar o mal ao bem e assimilá-los um ao outro.

É cobrir com a máscara de Tífon o rosto irradiante de Osíris.

É erguer o véu sagrado de Ísis, é profanar o santuário.

O temerário que ousa olhar o sol sem sombra torna-se cego e, então, para ele o sol é negro!

É proibido contarmos mais, terminaremos nossa revelação pela figura de três pentáculos.

Essas três estrelas dizem o bastante, pode-se compará-las àquelas que desenhamos no início de nossa história da magia, e reunindo as quatro será possível chegar a entrever o grande arcano dos arcanos.

Primeiro Pantáculo, a estrela branca

A estrela dos Três Magos

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Segundo Pantáculo, a estrela negra

A má estrela

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Terceiro Pentáculo, a estrela vermelha

Pentagrama do divino Paracleto

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Agora, para completar nossa obra, resta-nos dar a grande chave de Guilherme Postel.

Essa chave é a do tarô. Vêem-se aí os quatro naipes, paus, copas, espada, ouros ou círculo, que correspondem aos quatro pontos cardeais do céu e aos quatro animais ou signos simbólicos, os números e as letras dispostos em círculo, depois os sete signos planetários com a indicação de sua tríplice repetição expressa nas três cores, para significar o mundo natural, o mundo humano e o mundo divino, cujos emblemas hieroglíficos compõem os vinte e um grandes trunfos de nosso jogo atual de tarô.

No centro do anel, vê-se o duplo triângulo formando a estrela ou selo de Salomão, é o ternário religioso e metafísico análogo ao ternário natural da geração universal na substância equilibrada.

c

s

t

n h v k t n h k t

a

h

,

n h v k t s n t h u

s u t h t h u s u t h t h

Em volta do triângulo está a cruz que divide o círculo em quatro partes iguais, assim os símbolos da religião reúnem-se às linhas da geometria, a fé completa a ciência e a ciência dá a razão da fé.

Com o auxílio dessa chave pode-se compreender o simbolismo universal do antigo mundo e comprovar suas surpreendentes analogias com nossos dogmas. Reconhecer-se-á assim que a revelação divina é permanente na natureza e na humanidade; sentir-se-á que o cristianismo não trouxe senão a luz e o calor ao templo universal ao fazer descer nele o espírito de caridade que é a vida do próprio Deus.

A Chave do Grande Arcano

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Source:

Fonte: http://www.dhnet.org.br/w3/henrique/espiritualidade/salomao/eliphaslevi.htm