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Ciência e Budismo

(1903)

(Escrito à reverenciada memória de
Thomas Henry Huxley)

por Aleister Crowley

I.

O propósito deste ensaio é fazer uma comparação estrita entre as concepções científicas modernas sobre os Fenômenos e sua explicação, onde houver, e as antigas ideias dos budistas; mostrar que o budismo, tanto na teoria como na prática, é uma religião científica; uma superestrutura lógica com base em verdades verificáveis ​​experimentalmente; e que seu método é idêntico ao da ciência. Devemos resolutamente excluir as características acidentais de ambos, especialmente do budismo; e infelizmente, em ambos os casos, temos de lidar com tentativas desonestas e desavergonhadas de impingir opiniões que não estão dispostas a ser amparadas por nenhum dos dois lados. O Professor Huxley lidou com uma em seu “Realismo Pseudocientífico”; o Professor Rhys Davids demoliu a outra em um comentário mordaz sobre o “Budismo Esotérico” de que “não era Esotérico e certamente não era Budismo”. Mas parte da lama teosófica ainda adere à carruagem budista; e ainda há pessoas que acreditam que a ciência sã finalmente tem uma saudação amigável para o Ateísmo e o Materialismo em suas formas mais grosseiras e mais militantes.

Então que seja compreendido desde o início que se eu incluo a metafísica na Ciência, e as práticas de meditação no Budismo, não me presto nem aos decepadores nem aos “reconciliadores” por um lado, nem aos malabaristas animistas por outro. Além da baboseira teosófica, encontramos Sir Edwin Arnold escrevendo:

“Se alguém disser que o Nirvāṇa é cessar,
Diga que ele mente.”

Mente é uma palavra forte, e dever-se-ia ler “traduz corretamente”[1].

Suponho que não escande, nem rime: mas Sir Edwin é a última pessoa a ser dissuadida por uma coisinha dessas.

Também o Dr. Paul Carus, no “Evangelho de Buda”, tem o prazer de representar o Nirvāṇa como um paralelo para o Céu do Cristão. É suficiente se eu reiterar a opinião unânime de estudiosos competentes, que não há fragmento de evidência suficiente em qualquer livro canônico para estabelecer tais interpretações defendidas pela tradição e prática budista; e que qualquer pessoa que assim persista em sintonizar o budismo à sua própria harpa judaica está arriscando sua reputação, seja a da sua erudição ou da sua boa-fé. Homens científicos são bastante comuns no Ocidente, embora budistas não; e posso seguramente deixar em suas mãos a tarefa de castigar os ladrões furtivos da área Física.

II.

As características essenciais do budismo foram resumidas pelo próprio Buda. Para mim, é claro, o que Buda disse ou não disse é irrelevante; uma coisa ou é verdadeira ou não é, não importa quem disse. Acreditamos no Sr. Savage Landor quando ele afirma que Lāsà é uma cidade importante do Tibete. Onde apenas as probabilidades estão relacionadas, somos naturalmente influenciados pelo caráter moral e pelas realizações mentais do locutor; mas aqui não tenho nada a ver com o incerto[2].

Existe um excelente teste para determinar o valor de qualquer passagem em um livro budista. Acredito que é justo descartar histórias que são claramente ficção oriental, assim como a crítica moderna, embora secretamente teísta, descarta a História de Hasisadra ou Noé. Fazendo justiça ao budismo, não vamos cobrar de sua Escritura a tarefa de Sísifo de sustentar seriamente a interpretação literal de passagens obviamente fantásticas[3]. Que os nossos fanáticos budistas estejam avisados pelo destino da antiquada ortodoxia inglesa! Mas quando o budismo condescende a ser vulgarmente científico; a observar, classificar, pensar; concebo que podemos levar o assunto a sério e conceder uma investigação razoável sobre suas afirmações. Exemplos de tal concisão e clareza podem ser encontrados nas Quatro Nobres Verdades; nas Três Características; nos Dez Grilhões; e há claramente uma teoria definida sobre a ideia de Karma. Tais ideias são básicas, e são como um fio no qual as contas das Mil e Uma Noites são colocadas[4].

Portanto, eu proponho tratar destes e alguns outros pontos menores da metafísica budista, e traçar suas analogias científicas, ou, como espero demonstrar, mais frequentemente identidades científicas.

Então primeiramente vamos examinar aquele grande Resumo da Fé Budista, as Quatro Nobres Verdades.

III.
As Quatro Nobres Verdades.

(1) Sofrimento. — A Existência é Sofrimento. Isso significa que “nenhuma forma conhecida de Existência é separável do Sofrimento”. Esta verdade é afirmada por Huxley, quase nas mesmas palavras, em Evolution and Ethics. “Estava tão claro para alguns desses filósofos antigos quanto está para os pais da filosofia moderna que o sofrimento é o emblema de toda a tribo das coisas sencientes; que não é um complemento acidental, mas sim um constituinte essencial do Processo Cósmico”. E no mesmo ensaio, embora ele esteja disposto a negar mais do que os rudimentos da consciência nas formas inferiores de vida, ele é bem claro ao dizer que o sofrimento varia diretamente (parafraseando) com o grau de consciência. Consulte também Animal Automatism, pgs. 236 e 237.

(2) A Causa do Sofrimento. — A causa do sofrimento é o desejo. Assumo aqui que o desejo inclui fenômenos tais como a tendência de duas moléculas de hidrogênio e cloro se combinarem sob certas condições. Se a morte é dolorosa para mim, presumivelmente também é para uma molécula; se representarmos uma operação como agradável, o inverso é presumivelmente doloroso. Embora eu não esteja consciente da dor individual das inúmeras mortes envolvidas neste meu ato de escrever, ela pode existir. E o que chamo de “fadiga” pode ser o eco em minha consciência central do grito de uma angústia periférica. Aqui deixamos o domínio do fato; mas pelo menos até onde nosso conhecimento se estende, todas ou quase todas as operações da Natureza são vaidade e aflição de espírito. Considere a comida, cujo desejo surge periodicamente em todos os seres conscientes[5].

A existência desses desejos, ou melhor, necessidades, que percebo serem minhas, é desagradável. É esse desejo inerente a mim pela consciência contínua que é responsável por tudo isso, e isso nos leva à Terceira Nobre Verdade.

(3) A Cessação do Sofrimento. A cessação do desejo é a cessação do sofrimento. Esta é uma simples inferência lógica da segunda Verdade, e não precisa de comentários.

4) O Nobre Caminho Óctuplo. — Há uma maneira, a ser considerada adiante, de realizar a Terceira Verdade. Mas devemos, antes de podermos perceber sua possibilidade por um lado, ou sua necessidade por outro, formar uma ideia clara de quais são os princípios budistas em relação ao Cosmos; e, em particular, ao homem[6].

IV.
As Três Características.

As Três Características (que podemos predicar de todas as coisas existentes conhecidas):

(a) Mudança. Anicca.

(b) Sofrimento. Dukkha.

(c) Ausência de um Ego. Anattā.

Esta é a afirmação budista. O que a Ciência diz?

(a) Huxley, Evolution and Ethics:

“Assim como ninguém que perambula em um córrego com correnteza rápida pode mergulhar seu pé duas vezes na mesma água, assim também nenhum homem pode, com exatidão, afirmar qualquer coisa no mundo sensível que seja. Conforme ele pronuncia as palavras, ou melhor, conforme ele as pensa, o predicado deixa de ser aplicável; o presente se tornou o passado; o ‘é’ deveria ser ‘era’. E quanto mais aprendemos sobre a natureza das coisas, mais evidente é que o que chamamos de repouso é apenas uma atividade imperceptível; aquela paz aparente é uma batalha silenciosa, mas árdua. Em todas as partes, a todo momento, o estado do cosmos é a expressão de um ajuste transitório de forças conflitantes, uma cena de confronto, em que todos os combatentes caem um de cada vez. O que é verdadeiro sobre cada parte é verdadeiro sobre o todo. O conhecimento natural tende cada vez mais à conclusão de que ‘todo o coro celestial e o mobiliário da terra’ são as formas transitórias de parcelas de substância cósmica que percorrem o caminho da evolução, da potencialidade nebulosa, através de crescimentos intermináveis de sol e planeta e satélite, através de todas as variedades de matéria; através de infinitas diversidades de vida e pensamento, possivelmente, através de modos de ser dos quais não temos sequer uma concepção, nem somos competentes para formar uma, de volta à latência indefinível da qual eles surgiram. Assim, o atributo mais óbvio do cosmos é sua impermanência. Ele assume o aspecto não tanto de uma entidade permanente, mas sim de um processo mutável, no qual nada dura, exceto o fluxo de energia e a ordem racional que o permeia”.

Este é um resumo admirável da doutrina budista.

(b) Veja acima a Primeira Nobre Verdade.

(c) Esta é a grande posição que Buda tomou contra os filósofos hindus. Em nosso próprio país, é o argumento de Hume, seguindo Berkeley para um lugar onde Berkeley certamente nunca quis ir — um curioso cumprimento paralelo da maldição de Cristo contra Pedro (João XXI). O Bispo destrói a ideia de um substrato da matéria, e Hume segue aplicando aos fenômenos da mente um processo de raciocínio idêntico[7].

Vamos considerar a teoria hindu. Eles classificam os fenômenos (não importa se bons ou maus), mas representam todos como se retratados, mas não afetando, uma certa existência imutável, onisciente e bem-aventurada chamada Ātman. Agarrando-se ao Teísmo, a existência do mal os obriga à posição fichteana de que “o Ego postula o Não-Ego”, e aprendemos que afinal nada realmente existe exceto Brahmā. Eles então distinguem entre Jīvatma, a alma condicionada; e Paramātmā, a alma livre; a primeira é a base da nossa consciência normal; a segunda da consciência Nirvikalpa-Samādhi; esta sendo a única condição em que a moral, a religião e as taxas dos sacerdotes podem continuar. Pois o Deísta tem apenas que avançar em sua ideia fundamental para ser forçado a rondar um círculo vicioso de absurdos[8].

O budista varre para fora todo esse tipo de absurdo. Ele analisa os fenômenos da mente, adotando o paradoxo de Berkeley de que “a matéria é imaterial”, de uma maneira sã e ordenada. O “Filósofo de senso comum”, que deixo mastigando as folhas amargas do ensaio do Professor Huxley On Sensation and the Unity of the Structure of Sensiferous Organs, observa, ao levantar seu braço, “Eu levanto meu braço”. O budista examina essa proposição de perto, e começa:

“Há um levantar de um braço”.

Com essa terminologia ele evita discussões teutônicas sobre o Ego e o Não-Ego[9]. Mas como ele sabe que essa proposição é verdadeira? Pela sensação. Portanto, o fato é:

“Há uma sensação do levantar um braço.”

Mas como ele sabe disso? Pela percepção. Por isso ele diz:

“Há uma percepção de uma sensação, etc.”

E por que essa percepção? Da tendência inerente.

(Note cuidadosamente o ponto de vista determinista envolvido na enunciação deste Quarto Skandha; e que ele vem inferior a Viññāṇaṃ.)

“Há uma tendência de perceber a sensação, etc.”

E como ele sabe que há uma tendência? Pela consciência. A análise final diz:

“Há uma consciência de uma tendência de perceber a sensação de um levantar de um braço.”

Ele não retrocede mais porque não consegue. Ele não irá supor, sem nenhum tipo de evidência, um substrato de Ātman unindo consciência a consciência por sua eternidade, enquanto fixa um grande abismo entre eles por sua imutabilidade. Ele declara o cognoscível, afirma-o com precisão e o deixa lá. Mas há uma aplicação prática desta análise, da qual tratarei mais adiante. (Veja VIII. Mahāsatipaṭṭhāna.)

Dizem-nos que a memória é uma prova de um “eu” verdadeiro. Mas quão traiçoeiro é esse terreno! Será que um evento passado da minha vida não aconteceu só porque eu esqueci dele? A analogia acima, da água do rio, é das mais válidas! Eu que escrevo isto não sou o eu que lê e corrige. Eu desejo brincar com soldadinhos de chumbo? Sou o velho aleijado que deve ser levado em uma cadeira de rodas e alimentado com uísque, pão e leite? E a minha diferença para com eles é tão conspicuamente menor do que a para o corpo morto, que quem ver dirá: “Este era Aleister Crowley”?

Que besteira é supor que uma substância eterna, senciente ou não, onisciente ou não, dependa, para sua informidade, de uma série tão absurda de corpos agrupados sob aquele “Crowley”!

No entanto, o budista atende a todos os argumentos da ordem espiritual com uma afirmação simples que, se não for correta, pelo menos não é improvável. Há, ele dirá a você, um mundo “espiritual”, ou para evitar quaisquer mal entendidos (muito injustificáveis), digamos um mundo de matéria mais sutil que o visível e tangível, que tem suas próprias leis (análogas, se não idênticas, às leis da matéria com as quais estamos familiarizados) e cujos habitantes mudam, e morrem, e renascem praticamente como os seres mortais comuns. Mas como eles são de matéria mais sutil, seu ciclo é menos rápido[10].

Como um nominalista, espero não ser mal compreendido quando comparo isso com a relativa mutabilidade do indivíduo e da espécie[11]. Temos exemplos suficientes livres de tal possibilidade de má interpretação em nossos próprios corpos. Compare a longevidade de um osso com a de um corpúsculo. Mas é esse universo “Substrato”, que não deve ser confundido com o substrato, os argumentos para cuja existência Berkeley tão completamente destruiu[12], que pode conservar a memória por um período muito superior ao de um dos seus avatares particulares. Daí o “Jātaka”. Mas a doutrina não é muito essencial; seu principal valor é mostrar quais dificuldades sérias nos confrontam e fornecer uma razão para a luta por algum estado melhor. Pois se nada sobrevive à morte, o que isso importa para nós? Por que devemos ser tão altruístas a ponto de evitar a reencarnação de um ser em todos os pontos diferentes de nós mesmos? Como disse o menino: “O que a posteridade fez por mim?” Mas algo persiste; algo mudando, embora menos vagarosamente. Que evidência temos, afinal de contas, de que um animal não se lembra de sua encarnação humana? Ou, como diz Levi: “Nos sóis eles se lembram, e nos planetas se esquecem”. Acho improvável (talvez), mas na total ausência de todas as provas a favor ou contra – pelo menos no que diz respeito à última hipótese! – eu suspendo meu julgamento, deixo a questão em paz, e passo para pontos mais práticos do que os oferecidos por essas especulações metafísicas interessantes, mas não muito úteis.

V.
Karma.

A lei da causalidade é formalmente idêntica a ele. Karma significa “aquilo que é feito”, e acho que deve ser considerado com rigor e precisão etimológica. Se eu colocar uma pedra no telhado de uma casa, certamente ela cairá mais cedo ou mais tarde; ou seja, assim que as condições permitirem. Além disso, em sua ultimação, a doutrina do Karma é idêntica ao determinismo. Foi escrita muita sabedoria, com uma quantidade infinita de besteira, sobre este assunto. Por isso, me despeço dele com poucas palavras, confiante de que a identidade estabelecida jamais poderá ser abalada.

VI.
Os Dez Grihões ou Saṃyojanas.

1. Sakkāya-diṭṭhi. Crença em uma “alma”.

2. Vicikitsā. Dúvida.

3. Sīlabbata-parāmāsa. Confiança na eficácia de ritos e cerimônias.

4. Kāma. Desejos corporais.

5. Paṭigha. Ódio.

6. Rūpa-rāga. Desejo pela imortalidade do corpo.

7. Arūpa-rāga. Desejo pela imortalidade espiritual.

8. Māna. Orgulho.

9. Uddhacca. Presunção.

10. Avijjā. Ignorância.

(1) Pois este é um petitio principii.

(2) Isso, para um cientista, aparentemente é anátema. Mas isso só significa, penso eu, que se não estivermos bem resolvidos em nossas mentes, não conseguimos trabalhar. E isso é inquestionável. Suponha que um químico comece a trabalhar para determinar o ponto de ebulição de uma nova substância orgânica. Ele para na metade, aflito com o medo de que seu termômetro seja impreciso? Não! a menos que seja um tolo, ele testou termômetro antes. Nós devemos ter nossos princípios fixos antes que possamos fazer um trabalho de pesquisa.

(3) Um cientista dificilmente requer convicção sobre este ponto!

(4) Você pensa em combinar Newton e Calígula? As paixões, se permitirmos que elas nos dominem, interferem na concentração da mente.

(5) Pensar em suas antipatias o ajudará em uma observação precisa? Admito que uma controvérsia pode atiçá-lo a fazer prodígios no trabalho, mas, enquanto você está de fato trabalhando, não sofre interferências na concentração da sua mente.

(6 e 7) Este Grilhão e o próximo são contingentes em se ter percebido o sofrimento de todas as formas de existência consciente.

(8) Não precisa de comentários. O orgulho, assim como a humildade, é uma forma de engano.

(9) É parecido, mas no plano moral.

(10) O grande inimigo. Os teístas por si sós tiveram a infame audácia de exaltar os méritos desse distintivo de servidão.

Vemos, então, que um cientista concordará com essa classificação. Não precisamos discutir a questão de saber se ele encontraria ou não outros grilhões para adicionar. O budismo pode não ser completo, mas, na medida do possível, é preciso.

VII.
A Realidade Relativa de Certos Estados de Consciência.

Não importa se adotamos ou não o dito de Herbert Spencer de que o testemunho primário da consciência é a existência de externalidade[13]; ou se partimos ou não para a posição idealista extrema; não há dúvida de que, para a nossa consciência normal, as coisas como elas se apresentam — à parte da ilusão óbvia, se é que nos atrevemos a excluí-la — são irrefutáveis para a apreensão imediata. Seja lá o que for que a nossa razão possa nos dizer, agimos exatamente como se Berkeley nunca tivesse vivido, e como se o herculeano Kant tivesse sido estrangulado ainda em seu berço pelas serpentes gêmeas de sua própria perversidade e terminologia.

Que critério devemos aplicar às realidades relativas da consciência normal e da dos sonhos? Por que afirmo com confiança que o estado dos sonhos é transitório e irreal?

Naquele estado, estou igualmente confiante de que a minha consciência normal é inválida. Mas como meus sonhos ocupam uma parte relativamente pequena do meu tempo, e como a lei da causalidade parece suspensa, e como sua vivacidade é menor do que a da consciência normal, e acima de tudo, como na grande maioria dos casos eu posso demonstrar uma causa para o sonho, datando das minhas horas de vigília, tenho quatro fortes razões (a primeira explicativa, até certo ponto, das minhas razões para aceitar as outras) para concluir que o sonho é fictício.

Mas e o estado “sem sonhos”? Para o sonhador, suas faculdades e lembranças normais às vezes surgem, e são consideradas fragmentárias e absurdas, assim como a lembrança de um sonho é para o homem que está acordado. Não podemos conceber então uma vida “sem sonhos”, da qual os nossos sonhos são a transição vaga e perturbada para a consciência normal?

A evidência fisiológica literalmente não serve para nada. Mesmo se fosse provado que o aparelho receptor-motor de um adormecido “sem sonhos” estava relativamente inativo, isso forneceria algum argumento válido contra a teoria que eu sugeri? Sugeri, pois admito que nossa posição atual é completamente agnóstica em relação a isso, já que não temos nenhuma evidência que lance luz sobre o assunto; e o estudo do assunto parece ser mera perda de tempo.

Mas a sugestão é valiosa, pois nos dá uma explicação possivelmente racional, consistente para o homem desperto, que o sonhador rejeitaria com indignação.

No entanto, suponha um sonho tão vívido que o homem acordado inteiro seja rebaixado diante de sua memória, que sua consciência do sonho pareça mil vezes mais real do que a das coisas ao seu redor; suponha que toda a sua vida seja moldada para se adequar aos novos fatos assim revelados a ele; que ele renunciaria alegremente a anos da vida normal para obter minutos daquela vida dos sonhos; que seu senso de tempo é desenraizado como nunca antes, e que essas influências são permanentes. Então, você dirá, o delirium tremens (e a intoxicação do haxixe, mais particularmente em relação ao sentido do tempo) nos proporcionam um paralelo. Mas os fenômenos do delirium tremens não ocorrem em pessoas saudáveis. Quanto à sugestão de auto hipnose, a lembrança do “sonho” é uma resposta suficiente. Seja como for, o simples fato da aparente realidade superior — uma convicção inabalável, inépuisable (pois o inglês não tem palavra para isso), é um teste suficiente. E se condescendemos em argumentar, é por prazer, e à parte do fato vital; uma discussão, e não uma batalha campal.

O “sonho” que descrevi é o estado chamado de Dhyāna pelos hindus e pelos budistas. O método para alcançá-lo é sensato, saudável e científico. Eu não tomaria as dores para descrever esse método, se iletrados, que frequentemente são defensores místicos da prática, não obscurecessem a simples grandeza de nosso edifício com pináculos mal decorados de estuque — como quem penduraria luzes de fadas e chita no Taj Mahal.

Ele é simples. A mente é compelida a fixar sua atenção em um único pensamento; enquanto o poder de controle é exercido e uma vigilância profunda é mantida para que o pensamento não se desvie nem mesmo por um momento[14]. A próxima etapa é, em minha opinião, a parte essencial. O trabalho é comparável ao de um eletricista que deve se sentar por horas com seu dedo em uma caixa de resistência delicadamente ajustada e seu olho no ponto de luz de um galvanômetro, encarregado de manter o ponto imóvel, pelo menos para que ele nunca ultrapasse um certo número de graus, e registrar os detalhes mais importantes de sua experiência. Nosso trabalho é idêntico no modelo, embora trabalhado com meios — se menos complexos — mais sutis. Nós substituímos o dedo na caixa de resistência pela Vontade; e seu controle se estende apenas à Mente; substituímos o olho pela Faculdade Introspectiva com sua aguda observação da mais minúscula perturbação, enquanto o foco da luz é a própria Consciência, o ponto central da escala do galvanômetro é o objeto predeterminado, e as outras figuras na escala, são outros objetos, conectados com o primário por ordem e grau, às vezes obviamente, às vezes obscuramente, talvez até de maneira inexplicável, de modo que não temos nenhum direito real de predicar sua conexão[15].

Está além da minha compreensão como qualquer pessoa sã pode descrever esse processo como ilusório e pouco saudável; que qualquer cientista faça isso implica uma ignorância dele dos fatos.

Posso acrescentar que existe a mais rígida necessidade de perfeita saúde física e mental antes que esta prática possa começar; o ascetismo é tão severamente desencorajado quanto a indulgência. Como o eletricista faria seu trabalho depois de um banquete no Guildhall? O esforço de observar seria demais e ele dormiria. O mesmo ocorre com aquele que medita. Se, por outro lado, ele ficasse sem comida por vinte e quatro horas, ele poderia — na verdade isso tem sido feito com frequência — realizar prodígios de trabalho pelo período necessário; mas uma reação de severidade proporcional deve seguir. Ninguém vai fingir que o melhor trabalho é feito passando fome[16].

Agora, para tal observador, certos fenômenos se apresentam mais cedo ou mais tarde, os quais têm as qualidades acima predicadas do nosso “sonho” imaginário precedido por um estado de transição, muito semelhante à perda total da consciência. Esses fenômenos são da fadiga? Será que esta prática, por alguma razão ainda desconhecida, estimula algum centro nervoso especial? Quem sabe sim; o assunto requer investigação; e eu não sou um fisiologista. Seja lá o que for que a fisiologia diga, está pelo menos claro que se este estado é acompanhado de uma felicidade intensa e sem paixão além de qualquer coisa que o homem normal possa conceber, e desacompanhada do menor prejuízo para a saúde mental e física, então ele é altamente desejável. E, para o cientista, apresenta um magnífico campo de pesquisa.

Das teorias metafísicas e religiosas que foram construídas em cima dos fatos aqui expostos, não tenho nada a dizer neste lugar. Os fatos não estão à disposição de todos; cada homem deve ser sua própria testemunha da natureza do assunto. Certa vez fui repreendido por uma pessoa rasa com o fato de que minha posição não pode ser demonstrada em laboratório e, portanto, (lembre-se disso!) eu devo ser um místico, um ocultista, um teosofista, um mistificador, e o que não mais. Eu não sou nada disso. A crítica acima se aplica a todo psicólogo que já escreveu, e ao homem que faz a crítica pelo fato de ter feito isso. Só posso dizer: “Você tem seu próprio laboratório e aparelho, a sua mente; e se a sala estiver suja e o aparelho mal colocado, certamente não deverá me culpar por isso”.

Sendo os fatos de importância individual, então há pouco uso em detalhar os resultados de minha própria experiência. E a razão para essa reticência — pois eu me declaro culpado de ser reticente — é que explicar danificaria o próprio aparelho cujo uso estou defendendo. Pois se eu dissesse que tal e tal prática levam alguém a ver um porco azul, a sugestão é suficiente para fazer com que uma classe de pessoas veja um porco azul onde não existisse um, e outra classe a negar ou suspeitar do porco azul quando ele realmente aparecesse, embora a segunda alternativa seja improvável. O fenômeno da consciência e da bem-aventurança são de natureza tão estupenda e bem definida que não consigo imaginar nenhuma ideia preconcebida suficientemente poderosa para diminuí-la apreciavelmente. Mas, por causa da primeira classe de pessoas, eu seguro minha língua[17].

Espero que agora esteja perfeitamente claro, se minhas afirmações forem aceitas — e só posso lhe assegurar, o mais seriamente, que uma experiência laboriosa e honesta poderá verificá-las em cada detalhe — que quaisquer que sejam os argumentos apresentados que sejam destrutivos da realidade do Dhyāna, aplicam-se com muito mais força ao estado normal, e é evidente que negar este último seriamente ipso facto perder a seriedade. Se o testemunho normal pode ser atacado de cima, insistindo na realidade superior do Dhyāna — e à fortiori na do Samādhi, que eu não experimentei[18] e consequentemente não abordo, estando contente em aceitar as declarações altamente prováveis daqueles que professam saber, e que até agora não me enganaram (ou seja, quanto a Dhyāna), é uma questão que não é pertinente ao presente argumento discutir[19]. No entanto, eu sugiro certas ideias na seção seguinte, na qual proponho discutir a mais famosa das meditações budistas (Mahāsatipaṭṭhāna), seu método, objetivo e resultados.

VIII.
Mahāsatipaṭṭhāna.

Essa meditação difere fundamentalmente dos métodos usuais hindus pelo fato de que a mente não está restrita à contemplação de um único objeto, e não há interferência nas funções naturais do corpo como há, por exemplo, no Prāṇāyāma. É essencialmente uma prática de observação, que mais tarde assume um aspecto analítico em relação à pergunta: “O que é que realmente é observado?”

A ideia-do-Ego é resolutamente excluída desde o início, e até aqui o Sr. Herbert Spencer não terá nada a objetar (Principles of Psychology, ii, 404). A respiração, os movimentos do caminhar, etc., são meramente observados e registrados; por exemplo, pode-se sentar em silêncio e dizer: “Há uma inspiração de ar”, “Há uma expiração de ar”, etc. Ou, caminhando, “Há um levantar do pé direito”, e assim por diante, conforme acontece. É claro, o pensamento não é rápido o suficiente para notar todos os movimentos ou suas causas sutis. Por exemplo, não podemos descrever as complicadas contrações musculares, etc.; mas isso é desnecessário. Concentre-se em alguma série de movimentos simples.

Quando por meio do hábito isso tornar-se intuitivo, de modo que o pensamento realmente é “Há um levantar”, em oposição a “eu levanto” (o posterior sendo, na verdade, uma ideia complexa e adulta, como os filósofos frequentemente demonstraram, desde que Descartes caiu na armadilha), pode-se começar a analisar, como explicado acima, e o segundo estágio é “Há uma sensação (Vedanā) de um levantar, etc.”. As sensações também são classificadas como agradáveis ou desagradáveis.

Quando este for o verdadeiro testemunho intuitivo instantâneo da consciência (de modo que “Há um levantar, etc.” é rejeitado como uma mentira palpável[20]), procedemos à percepção de Sañña.

“Há uma percepção de uma sensação (agradável ou desagradável) de um levantar, etc.”

Quando isso se tornar intuitivo — por quê? tem um resultado estranho aqui! As emoções de dor e de prazer desapareceram. Eles são sub-incluídos no Skandha menor de Vedanā, e Sañña está livre delas. E àquele que pode viver neste terceiro estado, e viver assim para sempre, não haverá mais dor; apenas um interesse intenso semelhante àquele que permitiu aos homens da ciência observarem e notarem o progresso de sua própria agonia de morte. Infelizmente, a vida em tal estado está condicionada à saúde mental, e pode ser encerrada pela doença ou pela morte a qualquer momento. Se não fosse assim, a Primeira Nobre Verdade seria uma mentira.

Os dois estágios seguintes, Saṅkhāra e Viññāṇaṃ, levam a análise à sua ultimação, sendo a forma final: “Há uma consciência de uma tendência a perceber a sensação (agradável ou desagradável) de um levantar de um pé direito”. E suponho que nenhum psicólogo de qualquer posição argumentará contra isso[21]. O raciocínio de fato nos leva a essa análise; o budista vai mais longe apenas na medida em que se pode dizer que ele derruba os andaimes dos processos de raciocínio e assimila a real verdade da questão.

É a diferença entre o aluno de escola que dolorosamente interpreta “Balbus murum ædificavit”[22] e o romano que anuncia esse fato histórico sem pensar em sua gramática.

Chamei essa meditação de a mais famosa das meditações budistas, porque é declarado pelo próprio Buda que, se alguém a praticar de forma honesta e inteligente, um resultado é certo. E ele não diz isso de nenhuma outra.

Eu pessoalmente não consegui tempo para me dedicar seriamente a este Mahāsatipaṭṭhāna, e as declarações aqui feitas são aquelas derivadas da razão e não da experiência. Mas posso dizer que a irrealidade do mais grosseiro (Rūpa) relativamente ao Vedanā mais sutil e ao Sañña ainda mais sutil se torna rapidamente aparente, e só posso concluir que com o tempo e trabalho o processo continuaria.

O que ocorrerá quando alguém chegar ao estágio final de Viññāṇaṃ e não encontrar nenhum Ātman por trás dele? Certamente o estágio de Viññāṇaṃ logo parecerá tão irreal quanto os primeiros se tornaram. É inútil especular; mas se eu puder escapar da imputação de explicar o obscuro pelo mais obscuro, posso sugerir que tal pessoa deve estar muito perto do estado chamado Nirvāṇa, o que quer que seja que esse termo signifique. E estou convencido, em minha mente, de que a Ānanda (felicidade) de Dhyāna certamente surgirá muito antes de se passar a Saṅkhāra.

E, quanto à realidade, será uma piada corajosa, meus senhores, jogar de volta para os materialistas aquele escárnio terrível de Voltaire sobre os mistificadores de sua época: “Ils nient ce qui est, et expliquent ce qui n’est pas”[23].

Nota Sobre a Seção VIII.
Realismo Transfigurado

Não vou desperdiçar meu próprio tempo e o de meus leitores com qualquer discussão longa sobre o “Realismo Transfigurado” do Sr. Herbert Spencer. Não vou apontar em maiores detalhes como ele propõe, por uma corrente de raciocínio, derrubar as conclusões que ele admite como sendo as da razão.

Mas sua afirmação de que o Idealismo é apenas verbalmente inteligível é, para mim, a coisa mais admirável que ele poderia ter dito.

Ele está errado em dizer que os idealistas ficam perplexos com sua própria terminologia; o fato é que as conclusões idealistas são apresentadas diretamente à consciência, quando essa consciência é Dhyânica. (Veja também a Seção XI.)

Nada está mais claro para minha mente do que a ideia de que a grande dificuldade habitualmente experimentada pela mente normal na assimilação da metafísica é devido à própria falta de experiência com os fenômenos discutidos, na mente do leitor. Eu vou ao ponto de dizer que talvez o próprio Sr. Spencer seja tão amargo porque ele mesmo tem experiência real do “Realismo Transfigurado” como um fenômeno diretamente apresentado; pois se ele supõe que a mente normal e saudável pode perceber aquilo que ele percebe, os argumentos de Berkeley devem parecer-lhe mera estupidez.

Eu classifico a filosofia hindu com a Idealista; a budista com a do Sr. Herbert Spencer; a grande diferença entre as duas é que os budistas reconhecem claramente essas conclusões (ou similares) como fenômenos, o Sr. Spencer, inconsistentemente o suficiente, as reconhece apenas como verdades verificadas por um raciocínio mais elevado e mais correto do que o de seus oponentes.

Reconhecemos, com Berkeley, que a razão nos ensina que o testemunho da consciência é inverídico; é absurdo, com Spencer, refutar a razão; em vez disso, tomamos meios para levar a consciência a um sentido de sua improbidade. Agora nosso diagnóstico (empírico) é que é a dissipação da mente que é a principal responsável por sua falsidade. Nós procuramos (ai! também por meios empíricos) controlá-la, concentrá-la, observar com mais precisão — esta fonte de possíveis erros foi suficientemente reconhecida? — o que seu testemunho realmente é.

A experiência me ensinou, até onde eu pude chegar, que a Razão e a Consciência se encontraram; a Apreensão e a Análise se beijaram. A reconciliação (em fatos, lembre-se disso, e não em palavras) é pelo menos quase tão perfeita que posso prever com confiança que uma busca adicional do caminho (empiricamente indicado) certamente levará a uma unidade ainda mais além e mais elevada.

A concepção das esperanças da hipótese é, então, de claro valor evidencial em apoio a essa hipótese, empírica como era, e é. Mas, com o crescimento e a combinação, a classificação e a crítica de nossos fatos, estamos bem no caminho de erigir uma estrutura mais segura sobre uma base mais ampla.

IX.
Agnosticismo.

Deve ser claramente entendido, e bem lembrado, que através de todas essas meditações e ideias, não há nenhum caminho necessário para qualquer ontologia ortodoxa. Quanto ao caminho da salvação, não devemos confiar no Buda; a mentira viciosa da expiação vicária não acha lugar aqui. O próprio Buda não escapa da lei da causação; se isso for metafísica, o budismo só é metafísico até esse ponto, mas não mais. Enquanto nega mentiras óbvias, ele não estabelece dogmas; todas as suas afirmações são suscetíveis à prova — uma criança pode concordar com todas as mais importantes. E isso é Agnosticismo. Nós temos uma religião científica. Até que ponto Newton teria chegado se tivesse se apegado a Tycho Brahe como o Único Guia? Quão longe teria chegado o Buda se ele tivesse reverenciado os Vedas com fé cega? Ou até que ponto podemos avançar até mesmo a partir da verdade parcial, a menos que uma mente perfeitamente aberta seja mantida em relação a ela, consciente de que algum fenômeno novo pode derrubar nossas hipóteses mais fundamentais? Dê-me uma prova razoável de alguma existência (inteligente) que não seja passível de sofrimento, e vou lançar a Primeira Nobre Verdade aos cães sem chorar. E, sabendo disso, quão esplêndido é ler as grandes palavras proferidas há mais de dois mil anos atrás: “Portanto, ó Ānanda, sede a vós mesmos lâmpadas. Sede a vós mesmos refúgio. Não recorrais a nenhum refúgio externo. Segurai firme a verdade como uma lâmpada. Segurai firme como um refúgio para a verdade. Não procurai refúgio com ninguém além de vós mesmos. (Mahāparinibbāṇa Sutta, ii. 33.) E para aqueles que apenas buscam, Buda promete “a Altura máxima” — se eles tiverem ao menos “ansiosos para aprender”. Este é o pilar do budismo; os homens científicos podem negar sua concordância com essas palavras quando olham para trás na história do Pensamento Ocidental; a tortura de Bruno, a vergonha de Galileu, o obscurantismo dos escolásticos, o “mistério” dos sacerdotes duramente pressionados, as armas carnais e espirituais da estaca e da tortura, os labirintos da mentira e da vil intriga com que a criança chamada Ciência foi deformada, distorcida, atrofiada, pelo interesse da proposição contrária?

Se você me perguntar por que você deveria ser budista e não indiferentista, como é agora, digo-lhe que vim, por indigno que seja, pegar a espada que Huxley empunhava; eu lhes digo que o Opressor da Ciência em sua infância já está trabalhando para violentar a virgindade dela; que a hesitação, a ociosidade, a segurança de um momento pode nos forçar a recuar das posições tão duramente conquistadas. Além disso, não devemos nunca seguir em frente? Será que nossos filhos ainda devem aprender como fatos as fábulas estúpidas e indecentes do Velho Testamento, fábulas que o próprio Arcebispo de Cantuária repudiaria indignado? As mentes devem ser distorcidas cedo, o método científico e a imaginação reprimidos, a faculdade lógica frustrada — milhares de trabalhadores perdidos pela Ciência a cada ano?

E a maneira de fazer isso não é apenas através do senso comum negativo de indiferença; se organizem, se organizem, se organizem! Como uma bandeira, lhes oferecemos a bandeira imaculada de lótus do Buda, em defesa da qual nenhuma gota de sangue jamais foi, nem jamais será derramada, uma bandeira sob a qual vocês unirão forças com quinhentos milhões de seus companheiros. E vocês não serão soldados no exército; para vocês o lugar mais alto, o lugar dos líderes, espera; no que diz respeito aos triunfos do intelecto, é para a Ciência Ocidental que olhamos. Suas realizações destruíram o esquema de batalha do dogma e do despotismo; suas fileiras rolam em poder triunfante através das brechas da falsa lógica metafísica e infundada; vocês lutaram essa batalha, e os louros estão em suas frontes. A batalha foi travada por nós há mais de dois mil anos; a autoridade dos Vedas, as restrições das castas, foram destruídas pela espada invulnerável da verdade nas mãos de Buda; nós somos seus irmãos. Mas na corrida do intelecto nós nos atrasamos um pouco; vocês não se interessarão por nós, que fomos seus companheiros? O Budismo clama pela Ciência: Guie-nos, nos reforme, nos dê ideias claras sobre a Natureza e suas leis; nos dê essa base de lógica irrefragável e amplo conhecimento que precisamos, e marche conosco rumo ao Desconhecido!

A fé budista não é uma fé cega; suas verdades são óbvias para todos os que não são cegados pelos espetáculos da bibliolatria e ensurdecidos pelo clamor dos padres, presbíteros, ministros: qualquer que seja o nome que escolham para si mesmos, podemos pelo menos colocá-los de lado em uma grande classe, os sufocadores do Pensamento; e essas verdades são aquelas que há muito aceitamos e às quais você recentemente e dificilmente conquistaram.

É para os homens do vosso caráter, homens de pensamentos independentes, de profundo êxtase de amor ao conhecimento, de treinamento prático, que a Buddhasanana Samāgama[24] apela; é hora do budismo se reformar a partir de dentro; embora suas verdades sejam mantidas inalteradas (e mesmo isso não acontece em todo lugar), seus métodos, sua organização, infelizmente precisam ser reparados; pesquisas devem ser feitas, os homens devem ser aperfeiçoados, o erro deve ser combatido. E se no Ocidente uma grande sociedade budista for constituída por homens de intelecto, por homens em cujas mãos está o futuro, há então um despertar, uma verdadeira redenção, dos empobrecidos e esquecidos Impérios do Oriente.

X.
O Nobre Caminho Óctuplo.

Voltemos de nossa pequena digressão ao plano original do nosso artigo. É hora de observar o “Nobre Caminho Óctuplo” mencionado na Seção III, cuja consideração foi adiada.

Nesta Quarta Nobre Verdade abordamos a verdadeira direção do budismo; o progresso é apenas outra palavra para mudança; é possível mover-se em uma direção cujo objetivo é o imutável? A resposta é Sim e Amém! e está detalhada no Nobre Caminho Óctuplo, do qual proponho dar um breve resumo. Primeiro, no entanto, quanto ao objetivo. Ele pode ser prontamente posto em silogismo:

Todas as coisas existentes estão (por natureza, inevitavelmente) sujeitas à mudança.

No Nirvāṇa não há mudança.

∴ Nenhuma coisa existente está ou pode estar no Nirvāṇa.

Agora aqui está a grande dificuldade; pois este silogismo é perfeitamente válido, e ainda assim falamos em alcançar o Nirvāṇa, saborear o Nirvāṇa, etc.

[Devemos distinguir o Nirvāṇa hindu, que significa Cessação da Existência em certos Lokas; nunca a Cessação absoluta, como a tradição budista, a etimologia e o valor lógico requerem para a palavra conforme aplicada ao objetivo budista. Consulte Childres, Pali Dictionary, sub voce Nibbana.]

Na verdade a explicação é a seguinte: somente por esse termo Nirvāṇa podemos lhe prever a realidade; pois, assim como até mesmo o Amanhecer de Dhyāna é indescritível pela linguagem, à fortiori o Nirvāṇa também é assim. Para dar um exemplo, pois eu livremente admito que algo do tipo seja necessário, para defender uma declaração aparentemente tão mística, posso dar o seguinte da minha própria experiência.

Em certa meditação, um dia registrei:

“Eu estava (a) consciente de coisas externas vistas de trás, depois que meu nariz desapareceu. (b) Consciente de que eu não estava consciente dessas coisas. Estes (a) e (b) foram simultâneos.”

Subsequentemente, descobri este estado peculiar de consciência classificado no Abhidhamma. Estou perfeitamente consciente de que é uma contradição nos termos; atribuir qualquer significado a isso está francamente além de mim; mas tenho tanta certeza de que tal estado existiu em mim como tenho de qualquer outra coisa.

Da mesma forma com o Nirvāṇa e sua definição. O Arhat sabe o que é e descreve-o por seus acessórios, como a bem-aventurança. Eu devo levantar, muito relutantemente, um protesto contra a ideia do Professor Rhys Davids (se é que eu a entendi corretamente) de que o Nirvāṇa é o estado mental resultante da prática contínua de todas as virtudes e métodos de pensamento característicos do budismo. Não; Nirvāṇa é um estado pertencente a um plano diferente, a uma dimensão mais elevada do que qualquer coisa que no presente possamos conceber. Possivelmente ele tem suas analogias e correspondências nos planos normais, e assim também encontraremos dos passos bem como do Objetivo. Até mesmo o simples primeiro passo, que todo verdadeiro budista tomou, Sammādiṭṭhi, é uma coisa muito diferente do ponto de vista de um Arhat. O Buda declarou expressamente que ninguém, a não ser um Arhat, poderia realmente compreender o Dhamma.

E assim também para todos os Oito Estágios; no que diz respeito ao seu significado óbvio no plano moral, não posso fazer nada melhor do que citar meu amigo Bhikkhu Ananda Maitreya, em seu Four Noble Truths.

“Aquele que alcançou, pela força do puro entendimento, a realização das Quatro Nobres Verdades, que compreendeu o fato que depende dessa compreensão, a saber, que todos os constituintes do ser são por natureza dotados das Três Características de Sofrimento, Transitoriedade, e Ausência de qualquer princípio imortal ou Ātman — tal é dito ser Sammādiṭṭhi, para manter pontos de vista corretos, e o termo passou a significar alguém de Fé budista. Podemos não ter dado os outros e mais altos passos no Nobre Caminho Óctuplo; mas devemos ter percebido essas Quatro Verdades e suas três sequenciais Características. Aquele que atingiu Sammādiṭṭhi pelo menos entrou no Caminho Sagrado e, se ele apenas tentar, virá a ele o poder de superar os outros grilhões que restringem seu progresso. Mas antes de tudo ele deve abandonar todas essas falsas esperanças e crenças; e aquele que fez isso é chamado de budista. E esse domínio das Visões Corretas, Sammādiṭṭhi em páli, é o primeiro passo no Nobre Caminho Óctuplo.

A segunda etapa é a Aspiração Correta — Sammāsaṅkappa. Tendo percebido a aflição, a transitoriedade e o desalento de toda a vida, surge na mente essa Aspiração Correta. Quando todas as coisas sofrem, pelo menos não aumentaremos seu fardo, assim aspiramos a nos tornar piedosos e amorosos, a não fomentar má vontade contra ninguém, a nos retirar dos prazeres dos sentidos que são a frutífera causa da aflição. A vontade, todos nós sabemos, está sempre mais pronta do que a mente, e assim, pensamos que aspiramos a renunciar aos prazeres dos sentidos, a amar e a ter pena de tudo o que vive, mas talvez muitas vezes fracassemos na realização de nossa aspiração. Mas se o desejo de se tornar piedoso e puro for apenas honesto e sincero, conquistamos o Segundo Passo no Caminho — Sammāsaṅkappa, Aspiração Correta.

Aquele cujos motivos são puros não tem necessidade de ocultar a Verdade — aquele que ama verdadeiramente e que não tem malícia contra ninguém, só falará palavras justas e suaves. Pela fala de um homem, aprendemos sua natureza, e aquele cujas Aspirações Corretas estão dando frutos alcança o Terceiro Passo, a Fala Correta, Sammāvācā. Falando apenas a Verdade em todas as coisas, nunca falando asperamente ou indelicadamente, em seu discurso percebendo o amor e a piedade que está em seu coração — aquele homem alcançou o Terceiro Estágio.

E por causa do grande poder dos pensamentos e das palavras de um homem para mudar seu ser, porque pensando nos miseráveis nossos atos crescem cheios de misericórdia, o Quarto Estágio é chamado de Conduta Correta. Para aquele que alcançou este Quarto Estágio, sua intensa aspiração, seu entendimento correto, seu discurso cuidadosamente guardado — talvez por muitos anos de autocontrole — finalmente deram frutos externos, até que todos os seus atos sejam amorosos, puros e feitos sem esperar retribuição, ele alcançou o Quarto Passo, chamado Sammākammanta.

E quando, se tornando ainda mais santo, esse hábito de Ação Correta se torna firme e inalienável, quando toda a sua vida é vivida pela Fé que há nele, quando todo ato de sua vida cotidiana, sim, e de seu sono também, é destinado ao propósito sagrado, quando nem um pensamento ou ação cruel ou impiedoso puder manchar seu ser — quando, nem mesmo como um dever, ele infligirá dor por ação, palavra ou pensamento — então ele alcançou o Quinto Alto Caminho, Viver a Vida que é Correta — Sammā-ājīva. Abstendo-se de tudo o que pode causar dor, ele se torna irrepreensível e só pode viver por ocupações que não tragam tristeza em sua jornada[25].

Para aquele que viveu assim, dizem os Livros Sagrados, vem um poder que é desconhecido aos homens comuns. Longo treinamento e contenção lhe deram a conquista de sua mente, ele pode agora trazer todos os seus poderes com uma tremenda força para suportar qualquer objeto que ele possa ter em vista, e essa habilidade de usar as energias de seu ser para usar diante de um constante e tremendo esforço da vontade, marca a realização do Sexto Estágio, Sammāvāyāma, geralmente traduzido como Esforço Correto, mas talvez Força-de-Vontade Correta se aproxime mais do significado, ou Energia Correta, pois esforço foi feito até para alcançar Sammādiṭṭhi[26]. E este poder sendo obtido pelo seu uso, ele é capaz de concentrar todos os seus pensamentos e mantê-los sempre sobre um único objeto — acordando ou dormindo, ele se lembra de quem ele é e de qual é seu objetivo na vida — e essa lembrança constante e manter na mente as coisas sagradas, é o Sétimo Estágio, Sammāsati. E pelo poder desta faculdade transcendente, elevando-se através dos Oito Altos Trances até o limiar do Nirvāṇa, ele finalmente, no Trance chamado Nirodha-samāpatti, alcança, mesmo nesta vida, a Costa Imortal de Nirvāṇa, pelo poder de Sammā-samādhi, Concentração Correta. Tal pessoa terminou o Caminho — ele destruiu a causa de toda a sua cadeia de vidas, e se tornou ele mesmo um Arhat, um santo, um Buda.”

Mas ninguém sabe melhor do que o próprio venerável Bhikkhu, como de fato ele deixa claro em relação aos passos de Sammāvāyāma e acima, que essas interpretações são apenas reflexos daquelas em um plano superior — o plano científico. Elas são (tenho poucas dúvidas) para aqueles que alcançaram chaves mnemônicas para classes inteiras de fenômenos da ordem antigamente denominada de fenômenos mágicos, os quais, dada a presente constituição da mente humana, foram traduzidos para linguagem, classificados, buscados, sempre acima da linguagem, mas não além de uma classificação sã e científica, um método rígido e satisfatório, como acredito mais firmemente. É para estabelecer tal método; registrar seus resultados não na linguagem do templo, mas do laboratório, que faço este apelo; que busco recrutar homens genuínos, não pseudocientíficos, para a Pesquisa; para que nossos filhos possam estar tão adiantados em relação a nós no estudo dos fenômenos supranormais da mente quanto estamos diante de nossos pais nas ciências do mundo físico[27].

Observe atentamente este sentido prático da minha intenção. Não me preocupo com os significados acadêmicos dos passos no Caminho; o que eles significavam para os Arhats de antigamente é indiferente para mim. “Deixa que os mortos enterrem seus mortos!” O que eu exijo é um avanço no Conhecimento do Grande Problema, derivado não mais da revelação via boatos, do fanatismo exaltado, da histeria e da intoxicação; mas sim do método e da pesquisa.

Feche o templo; abra o laboratório!

XI.
O Crepúsculo dos Alemães[28].

É trivial para os homens científicos que a metafísica é, em grande parte, disparate; que é em grande parte um argumento em círculos que não pode ser facilmente contestado; que ninguém pode duvidar que o avanço desde Aristóteles é principalmente verbal; que é certo que não foi feito nenhum avanço paralelo ao da ciência nos últimos cinquenta anos.

O motivo é óbvio.

A filosofia tem duas armas legítimas — a introspecção e a razão; e a introspecção não é experimento.

A mente é uma máquina que raciocina: aqui estão seus resultados. Muito bem; ela pode fazer mais alguma coisa? Esta não é apenas a questão do budista; mas também do hindu, do muçulmano, e do místico. Todos experimentam seus métodos diversos; todos alcançam resultados de algum tipo; nenhum deles teve o treinamento genuíno que lhes permitiria registrar esses resultados de forma inteligível e ordenada.

Outros deliberadamente se opuseram contra tal tentativa. Eu não sou um deles; a humanidade cresceu; se o conhecimento for perigoso de maneiras inesperadas, então o que dizer da bacteriologia? Eu obtive um resultado; um resultado marcante na própria condição de consciência; que eu posso formular da seguinte forma:

“Se um único estado de consciência persistir inalterado por um período superior a alguns segundos, sua dualidade é aniquilada; sua natureza é violentamente derrubada; esse fenômeno é acompanhado por uma sensação indescritível de felicidade”.

Muito bem! mas quero que essa fórmula seja verificada cem vezes, mil vezes, por pesquisadores independentes. Eu quero que ela seja melhor declarada; suas condições modificadas, definidas com exatidão. Eu quero que ela deixe sua humilde posição de ser minha observação, e colocá-la na classe dos fenômenos regulares.

Mas eu estou voltando para a filosofia hindu, e esse é um lembrete bem necessário neste momento. Pois essa experiência de destruição da dualidade, este primeiro fenômeno da série, foi, em toda a sua beleza ilusória, apoderado e generalizado pelos filósofos, e é a esse fato parcial e, portanto, enganoso, que devemos os sistemas do Vedanta e do Idealismo, com suas suposições grotescas e “reconciliações” confusas, todas completas.

Um fato, ó Śrī Śaṅkarācārya, não cria uma teoria; vamos nos lembrar do seu destino e evitar generalizar evidências insuficientes. Com estas palavras de advertência, deixo o metafísico mergulhar em sua lama, e olho em direção a tempos melhores para os grandes problemas da filosofia. Lembre-se de que quando a solução é alcançada, não é a solução de um homem erudito para seus companheiros, mas sim uma que é percebida e assimilada por todo homem em sua própria consciência.

E nenhum de nós pode prever o que a solução pode ser. Içar o problema pelos chifres de um dilema não valerá nada quando A = A não for mais verdadeiro; e isto sem nenhum malabarismo hegeliano; mas por apercepção direta tão clara quanto o sol ao meio-dia.

Portanto; mais nenhuma palavra, porém — ao trabalho!

XII.
Os Três Refúgios.

Buddhaṃ śaraṇaṃ gacchāmi.

Dharmaṃ śaraṇaṃ gacchāmi.

Saṃghaṃ śaraṇaṃ gacchāmi.

Eu tomo meu refúgio no Buda.

Eu tomo meu refúgio no Dhamma.

Eu tomo meu refúgio no Saṅgha.

Esta fórmula de adesão ao budismo é repetida diariamente por incontáveis milhões de pessoas; o que ela significa? Não é uma vã proclamação de confiança nos outros; não há covardes fugas de obrigações — obrigações que não podem ser evitadas. É uma consideração clara de nossos auxiliares na batalha; os fatos cósmicos sobre os quais podemos confiar, assim como um cientista “confia” na conservação da energia ao fazer um experimento.

Se esse princípio fosse de aplicação incerta, o experimento quantitativo mais simples fracassaria irremediavelmente.

Assim também para o budista.

Eu tomo meu refúgio no Buda. Que uma vez houve um homem que encontrou o Caminho é meu encorajamento.

Eu tomo meu refúgio no Dhamma. A Lei subjacente aos fenômenos e sua certeza imutável; a Lei dada pelo Buda para nos mostrar o Caminho, a inevitável tendência à Persistência em Movimento ou Repouso — e Persistência, mesmo no Movimento, nega a mudança na consciência — essas ordens de fato observadas são nossas bases.

Eu tomo meu refúgio no Saṅgha.

Estes não são esforços isolados da minha parte; embora em certo sentido o isolamento seja eternamente perfeito e nunca possa ser superado[29], em outro sentido, associados são possíveis e desejáveis. Um terço da humanidade é budista; acrescente os homens da ciência e formamos uma maioria absoluta; entre os budistas, uma proporção muito grande saiu deliberadamente da vida social de qualquer tipo para trilhar esses caminhos de Pesquisa.

O Caminho é muito difícil? O cérebro está cansado? Os resultados demoram a chegar? Outros estão trabalhando, fracassando, lutando, coroados aqui e ali com raras guirlandas de sucesso. Sucesso para nós mesmos, sucesso para os outros; não é a Compaixão que nos une mais do que todos os laços mais terrenos? Ai, na alegria e na tristeza, na fraqueza e na força, eu tomo meu refúgio no Saṅgha.

XIII.
Conclusão.

Deixe-me dar um breve resumo do que abordamos.

(a) Despojamos a Ciência e o Budismo de seus trajes acidentais, e administramos uma repreensão àqueles que assim os trajam.

(b) Mostramos a identidade da Ciência e do Budismo em relação a:

(1) Sua factualidade.

(2) Sua teoria.

(3) Seu método.

(4) Seus inimigos.

(c) Ao mesmo tempo em que admitimos que o budismo é meramente um ramo da Ciência, mostramos que ele é um ramo muito importante, já que sua promessa é derrubar a parede na qual toda a Ciência para.

Quando o professor Ray Lankester tem que escrever: “Toda a ordem da natureza, incluindo matéria viva e sem vida — homem, animal e gás — é uma rede de mecanismos, cujas principais características e muitos de seus detalhes se tornaram mais ou menos óbvios à inteligência inquisitiva da humanidade pelo trabalho e ingenuidade dos pesquisadores científicos. Mas nenhum homem são jamais fingiu, desde que a ciência se tornou um corpo definido de doutrina, que sabemos ou podemos esperar saber ou conceber a possibilidade de saber, de onde veio esse mecanismo, porque está lá, para onde está indo, e o que pode ou não estar além dele e fora dele, que nossos sentidos são incapazes de apreciar. Essas coisas não são ‘explicadas’ pela ciência, e nem nunca podem ser”, ele dá um exemplo curioso daquele singular orgulho científico que conhece os limites de seus poderes, e se recusa a entreter a esperança de transcendê-los. Infelizmente, ele é como alguém que, há cem anos, deveria ter declarado impossível qualquer conhecimento da química das estrelas fixas. Inventar novos métodos e revolucionar as funções dos sentidos pelo treinamento ou doutra forma, é o trabalho rotineiro do amanhã[30]. Mas, ai de mim! ele vai ainda mais longe.

“Semelhantemente, buscamos pelo estudo de doenças cerebrais rastrear a gênese dos fenômenos que alguns fisicistas supõe que se desviaram para campos biológicos para justificá-los ao anunciar a ‘descoberta’ da ‘telepatia’ e a crença em fantasmas.”

Falar de doença cerebral como a característica de alguém que simplesmente difere de você (e isso porque ele tem mais conhecimento do que você) é em si um sintoma familiar aos alienistas. (Eu posso dizer que não apoio o Professor Lodge, aqui atacado. Eu não estou nem sequer interessado em quaisquer de seus resultados, pois aqueles com os quais eu estou familiarizado tratam de fenômenos objetivos e triviais.)

É claro, uma vez que aquilo que Darwin chamou de variação é chamado de doença pelo Professor Ray Lankester, consideraremos (se aceitarmos suas opiniões, e ai de nós se não aceitarmos!) todo progresso em qualquer direção como sendo mórbido. Assim (como com Lombroso), “doença” se tornará uma mera palavra, como sua antecessora “infidelidade”, e deixará de transmitir qualquer desonra.

Se a Ciência nunca for além de seus limites atuais; se as barreiras que a especulação metafísica mostra existirem nunca forem transcendidas, então de fato somos jogados de volta à fé, e todo o resto da bagunça nauseante da superstição medieval, e podemos também ter princípio vital e poder criativo, pois a Ciência não pode nos ajudar. Verdade, se não usarmos todos os métodos à nossa disposição! Mas nós vamos além. Admitimos que todos os métodos mentais conhecidos estão singularmente sujeitos a ilusões e imprecisões de todo tipo. Assim foram as primeiras determinações do calor específico. Até os biólogos erraram. Mas para o verdadeiro cientista, toda falha é um trampolim para o sucesso; todo erro é a chave para uma nova verdade.

E a história da nossa Ciência é a história de toda a Ciência. Se você escolher imitar a cristandade e colocar os pioneiros da investigação racional da natureza da consciência na estaca (ou seja, em asilos para lunáticos), duvido que não encontremos nosso Bruno. Mas acrescentará uma aflição extra de que a perseguição virá da casa de nossos amigos.

No entanto, vamos nos afastar do aspecto da crítica que uma controvérsia acidental me fez perceber, e assim antecipar a óbvia linha de ataque que o crítico do tipo mais frívolo empregará, e retornar ao nosso negócio em si, o resumo de nossa própria posição em relação ao budismo.

O budismo é um desenvolvimento lógico de fatos observados; quem está comigo até agora é Sammādiṭṭhi, e deu o primeiro passo no Nobre Caminho Óctuplo.

Que ele aspire ao conhecimento, e o Segundo Passo estará sob seus pés.

O resto fica com a Pesquisa.

Aum! Eu tomo meu refúgio santo na Luz e na Paz de Buda.

Aum! Eu tomo o meu refúgio, lentamente realizando Sua Lei do Bem.

Aum! Eu tomo meu refúgio humildemente em Sua Irmandade Piedosa.


[1] Consulte Childers, Pali Dictionary, s.v. Nibbana.

[2] Consulte o clássico exemplo de Huxley, do cavalo, da zebra e do centauro.

[3] Da mesma forma, onde as parábolas budistas são de natureza mística, onde um simbolismo complicado de números (por exemplo) tem a intenção de obscurecer uma verdade, devemos descartá-las. Minha experiência com o misticismo é um tanto grande; seu ditado final é que a parábola x pode ser equiparada a a, b, c, d… z por vinte-e-seis pessoas diferentes, ou por uma pessoa em vinte-e-seis estados de espírito diferentes. Mesmo se tivéssemos uma forte explicação tradicional, eu deveria manter minha posição. As armas da Crítica Superior, complementadas pelo Senso Comum, são perfeitamente válidas e inevitavelmente destrutivas contra qualquer estrutura desse tipo. Mas estou certamente em perigo de ser ridicularizado ao escrever desta forma para o mundo científico. O que eu realmente quero mostrar é que não é preciso procurar todos os pratos chiques budistas para serem servidos na mesa científica para não prejudicar a digestão científica. E, por um golpe indireto, desejo reforçar tão profundamente quanto possível aos meus amigos budistas que muito zelo pelos acessórios de nossa religião certamente resultará na esmagadora maioria de seus fundamentos na maré de uma crítica justamente desdenhosa ou casuística. — A.C.

[4] Consulte a obra do Prof. Rhys Davids sobre “Jātaka”.

[5] A mudança é o grande inimigo, a causa imediata da dor. Incapaz de encerrá-la, eu retardo o processo e a deixo temporariamente indolor, comendo. Em certo sentido, sem dúvidas esta é uma concessão à fraqueza. Eu realmente como para reprimir a mudança ou para manter minha consciência-do-ego? Eu desejo mudança, pois minha condição atual é sofrimento. Eu realmente desejo o impossível; reter completamente minha egoidade atual com todas as suas condições invertidas. — A.C.

[6] Para uma exposição capaz e luminosa de “As Quatro Nobres Verdades” refiro o leitor ao panfleto com esse título «The Four Noble Truths» escrito pelo meu velho amigo Bhikkhu Ananda Maitriya, publicado pela Buddhasasana Samagama, Pagoda Road Nº 1, Rangoon. — A.C.

[7] A posição budista pode ser interpretada como agnóstica nessa questão, sendo esses argumentos direcionados contra, e destrutivos, em relação às suposições injustificadas dos hindus; mas não mais. Consulte o Sabbāsava Sutta, 10.

“Nele, de maneira imprudente, surge uma ou outra das seis noções (absurdas).

“Como algo real e verdadeiro, ele tem a noção: ‘Eu tenho um self.’

“Como algo real e verdadeiro, ele tem a noção: ‘Eu não tenho um self.’

“Como algo real e verdadeiro, ele tem a noção: ‘Através do meu self, estou consciente do meu self.’

“Como algo real e verdadeiro, ele tem a noção: ‘Através do meu self, estou consciente do meu não-self.’

“Ou novamente, ele tem a noção. ‘Essa minha alma pode ser percebida, ela experimentou o resultado de ações boas ou más cometidas aqui e ali; agora esta minha alma é permanente, duradoura, eterna, tem a qualidade inerente de nunca mudar, e continuará para todo o sempre!’’

“Isso, irmãos, é chamado de andar na ilusão, a selva da ilusão, o deserto da ilusão, o show de marionetes da ilusão, a contorção da ilusão, o grilhão da ilusão.”

Há, pode-se notar, apenas cinco (e não seis) noções mencionadas, a menos que consideremos a última como sendo dupla. Ou podemos considerar a sexta como o contrário da quinta, e corrigir. A passagem inteira é altamente técnica, talvez indigna de confiança; em todo caso, aqui não é o lugar para discuti-la. O fenômeno para o qual eu queria chamar atenção é sol do agnosticismo rompendo a nuvem de Anattā. — A.C.

[8] Como o Bispo Butler demonstrou de forma tão conclusiva.

[9] Incidentalmente, posso observar que uma prática de poucas horas (consulte a Seção VIII) faz com que “eu levanto o braço” seja intuitivamente negado. — A.C.

[10] Consulte também Huxley, citado acima, “possivelmente, através de modos de existência dos quais não temos nem uma concepção, nem somos competentes para formar uma …”

[11] Consulte também Evolution and Ethics, nota 1.

[12] Sem uma análise elaborada das ideias envolvidas no “Ding an sich” de Kant, e da definição de H. Spencer de todas as coisas como Modos do Incognoscível, posso assinalar de passagem que essas hipóteses são tão estéreis quanto o “princípio vital” na biologia ou o “flogisto” na química. Elas literalmente não levam a lugar algum. Que o mundo fenomenal é uma ilusão tudo bem; a gente se prepara para buscar a realidade: mas provar que a realidade é incognoscível é fechar todas as avenidas para o homem que ama a verdade, é abrir todas para o sensualista. E, se aceitarmos qualquer uma das duas filosofias acima, isso não importa. O fato de acharmos que isso importa é refutação suficiente, pois devemos obedecer à sentença concedida em nosso próprio testemunho, quer queiramos ou não.

Estou ciente de que esta é uma maneira um tanto covarde de lidar com a questão; prefiro insistir que, uma vez que admitirmos que o incognoscível pela consciência (através da razão) pode ser conhecido pela supraconsciência (através da concentração), a dificuldade desaparece.

Acho que Huxley vai longe demais ao falar de um homem “auto hipnotizado em transes catalépticos” sem evidência médica de um grande número de casos. Edward Carpenter, que conheceu Yogīs e conversou e aprendeu muito com eles, conta uma história diferente.

Mesmo se tivéssemos uma grande quantidade de evidências de médicos anglo-indianos, ainda faltaria prova. Eles podem não ser os homens reais. O indiano teria um grande prazer em trazer o idiota da aldeia para ser inspecionado no caráter de um homem santo pelo “Doutor Sahib”.

O anglo-indiano é um tolo; uma educação médica mínima é, na maioria dos casos, insuficiente para reduzir os sintomas a zero, embora talvez deva sempre os diminuir. O hindu é a Esfinge da civilização; quase tudo o que foi escrito sobre eles é inútil; aqueles que mais os conhecem sabem melhor desse fato. — A.C.

[13] Mahāsatipaṭṭhāna (consulte a seção VIII) talvez admita isso. No entanto, seu próprio objetivo é corrigir a consciência nas linhas indicadas pela razão.

[14] Huxley, Essays, V., 136.

[15] Esta última sentença será melhor compreendida por aqueles que, até certo ponto, praticaram. A princípio é fácil rastrear a origem de uma cadeia de pensamentos conectados a partir do pensamento que nos desperta para o fato de estarmos nos distraindo do pensamento original. Mais tarde, e notavelmente à medida que melhoramos, isso se torna primeiro difícil, depois impossível. À primeira vista, esse fato sugere que estamos prejudicando nossos cérebros pela prática, mas a explicação é a seguinte: suponha que imaginemos a consciência central como o Sol, com a intenção de verificar que nada caia nele. Primeiramente, os planetas próximos são cuidadosamente organizados, para que não ocorram colisões; depois Júpiter e Saturno, até que todo o seu sistema esteja seguro. Se, então, qualquer corpo cair sobre o Sol, ele sabe que não é de nenhum desses planetas com os quais ele está familiarizado e, senhor de seu próprio sistema, não pode traçar o curso nem adivinhar a causa do acidente que o perturbou. E ele aceitará essa ignorância como uma prova de quão bem seu próprio sistema está funcionando, já que ele não recebe mais choques dele. — A.C.

[16] A alucinação deve ser especialmente temida. A tontura causada pela falta de comida é uma explicação suficiente o bastante para muitos “arrebatamentos místicos”. Eu não me importo de invocar a histeria e a epilepsia sem evidência positiva. — A.C.

[17] Se é conveniente fazê-lo, estou aberto à convicção. A mente científica, devo argumentar, não cairá prontamente nesse erro; e quanto às outras, elas serão inúteis como uma falange de pesquisa, e podem também ver porcos azuis e ser felizes mesmo assim. No passado, sem dúvidas, a pesquisa foi sufocada pela multidão de pessoas-pseudo-porcos-azuis, da “S.T.” «Sociedade Teosófica» à “G.D” «Golden Dawn». Devemos distinguir por métodos, não por resultados. — A.C.

[18] «Este ensaio foi escrito em 1903, antes de Crowley experimentar seu primeiro Samādhi.»

[19] As mais graves dúvidas me atacam em um exame mais aprofundado desse ponto. Agora (1906) estou convencido de que as experiências às quais me refiro constituem Samādhi. O maldito pedantismo dos especialistas levou à introdução de milhares de sutilezas inúteis na terminologia filosófica, para o desespero tanto do tradutor quanto do investigador, até ele perceber que é pedantismo, e tão inútil quanto o resto da literatura oriental em todos os assuntos de exatidão. — A.C.

[20] “Por que você deveria esperar que o Vedanā faça Rūpa parecer ilusório?” perguntou um amigo meu, lendo o manuscrito deste ensaio. A razão de eu ter omitido explicar isso é que para mim parecia óbvio. O fato havia sido assimilado. Meditar sobre qualquer coisa é perceber sua natureza irreal. Notavelmente também é assim ao concentrar-se sobre partes do corpo, como o nariz. «Consulte o segundo método em Liber Yod.» Os hindus basearam sobre este fenômeno seu famoso aforismo: “Aquilo que pode ser pensado não é verdadeiro”. — A.C.

[21] Eu trato do Sr. Spencer e o “Realismo Transfigurado” em uma nota no final desta seção. — A.C.

[22] «Latim para “Balbo construiu o muro”.»

[23] «Francês para “eles negam o que é, e explicam o que não é”.»

[24] Ou International Buddhist Society, fundada em Rangoon em 1903.

[25] Do meu ponto de vista, isso é obviamente impossível. Consulte a Seção III. Se só quer dizer por isso inflição de dor intencional, nosso estado se torna moral, ou pior! — místico. Eu deveria preferir cortar esta frase. Consulte também o Apêndice I., supra. — A.C.

[26] É claro que é um tipo específico de esforço, não mera luta.

[27] Algumas semanas depois de escrever estas palavras, encontrei a seguinte passagem no Scientific Materialism de Tyndall, que eu não havia lido antes: “Dois terços dos raios emitidos pelo sol falham em despertar o sentido da visão. Os raios existem, mas não existe o órgão visual necessário para sua tradução em luz. E assim, desta região de escuridão e mistério que agora nos cerca, os raios podem agora estar sendo lançados, o só requer o desenvolvimento dos órgãos intelectuais apropriados para traduzi-los em conhecimento que supera em muito o nosso como o nosso supera o dos répteis que outrora tinham a posse deste planeta”. — A.C.

[28] Uma Nota demonstrando a necessidade e o escopo do Trabalho em questão.

[29] Ou seja, em planos normais.

[30] Veja a nota na página 258. «Nota 27 nesta tradução.»


Traduzido por Alan M. W. Quinot em fevereiro de 2019.