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I.
A Visão

Penumbra.

Eu faço parte de uma multidão. Todos, ou quase todos, parecem estar abatidos, não por causa da exaustão causada pelo trabalho, mas sim por causa da letargia. A planície é tão vasta que os olhos não conseguiriam ver seus limites, mesmo que ela não estivesse completamente em trevas por causa do flagelo da neblina e repleta de gás pantanoso. Alguns de nós estão semidespertos; encarando em silêncio o Oriente. Nenhuma luz responde.

Ai de mim que estou mui vivo com o horrível e desesperançado anseio por sono de alguém que está meio drogado! Atordoado, atônito — eu não sei quem eu sou — eu não sei de onde eu vim — eu não sei para onde vou. Vagamente digo em meu coração entorpecido: eu não devo dormir, pois eu sou um soldado. Mas de qual capitão, e em qual guerra? Não faço ideia. Só há uma forma turva como se fosse de alguma antiga catástrofe, ó! há muito tempo atrás — a empoeirada lembrança de algum líder que fracassou, de algum plano que quebrou sua espinha — eu estou certo disso: de que toda a disciplina acabou, toda a coragem foi anulada, todo propósito pereceu.

Atrás de mim — que estranho! — a escuridão é menos obscura do que no Oriente ao qual os olhos debilmente aspiram. Será que eu sinto por instinto — a forma de uma imensa ladeira piramidal de rocha dura e negra? Eu estou cansado demais para virar a minha cabeça para olhar.

Inesperadamente, distante atrás de mim, distante além daquele cume, se é que é um cume, ressoa uma voz, clara, firme, corajosa, confiante. É a voz de um soldado, a tônica de comando, a bravura da virilidade. Ninguém poderia interpretar mal aquele chamado — eu garanto. Verdade, Vitória, em cada nota da trombeta: Ouça!

Vox.

O capitão grita: “Contemplem a Estrela no Ocidente!” Imediatamente tudo vira silêncio. Mas entre nós a súbita agitação me alerta que nem todos estavam dormindo; que existiam observadores como eu, homens mais dispostos do que eu.

Eu ouço um murmúrio à minha esquerda. Eu entendo três palavras: “A Hora Zero.” Eles me fazem voltar a mim: agora sei que sou parte de um grande exército — um exército aturdido e fragmentado, mas que ainda existe.

Vem um sussurro afiado de rápida e absoluta autoridade: Zero é Dois.

De algum modo eu estou ciente — como um homem atingido por um raio, ao mesmo tempo morto e iniciado — de que aquela estranha frase declara um Mistério final da Verdade, a Palavra do Plano de Batalha, a Chave da Campanha. Mas em minha mente a maior parte de seu significado é escuridão total.

Novamente o silêncio solene. Poucos foram aqueles que escutaram a voz do jovem capitão: pois o sono de todos, menos os mais jovens e mais fortes, era o sono da morte. Até mesmo nisso o destino estava deveras enfermo; pois suas mentes foram distraídas pela amargura de seus corações. Então, quando eles perceberam a Voz, eles a ridicularizaram. Eu ouvi:

“Uma Estrela no Ocidente. Que tolice!”

ou:

“Aquela não é a voz de nenhum de nossos líderes.”

ou:

“Estrela no Ocidente? Cuidado: aquela é a Estrela chamada Amargura.”

Então, neste mesmo instante, da terra oculta atrás da montanha, vem um pesado gemido, então o som de uma queda, feita odiosamente por um riso contido de uma gargalhada maligna e tilintante.

Aí seguem gemidos macabros.

O mistério, as trevas malignas destes gritos incoerentes, mexem meus nervos com horror. E mesmo assim eu não posso abrir mão da esperança que a Voz me excitou. Mas tão lamentoso, tão desolado, tão mortífero, é o sofrimento do meu espírito que trevas vazias me sobrepujam inteiro.

Umbra.

Dentro da Visão há um sonho — Eu luto em meu sono em um pântano de sangue e lama. Uivos mais bestiais que os do inferno: um fedor a cujo toque, tão sólido quanto a própria carne pútrida, eu vomito com a agonia da morte; a mais frenética loucura: fantasmas de crimes, almas frias como o gelo, espectros criados pelo assassinato — o pesadelo parece interminável — não, ele se exaure, doente com sua própria podridão, e afunda em um sólido estupor.

Phantasma.

Eu acordo do horror. Todo nervo está dormente, todos os músculos congelados, todo os ossos com alguma dor, meu sangue palpitando com o veneno.

Mas agora a balbúrdia está turva demais para ser vista.

O que? Será que a Voz disse a Verdade, afinal? Então aquela Estrela é um Sol, cuja luz finalmente está penetrando as imundas névoas do massacre, cujo calor está forçando o miasma congelado a evaporar para o céu em seus melancólicos bancos de neblina cinza e turva?

Ouça! Sim, os poucos que permanecem vivos veem o que os desperta a erguer seus braços incapacitados, a fitar com os olhos ofuscados e com sangue, a tagarelar com as mandíbulas quebradas e as línguas arrancadas.

“Pelo amor de Cristo,” grita um emasculado trapo de carne, “não olhem para a Estrela maldita!”

“Estamos perdidos,” berra outro.

“A Besta!” grita um terceiro: um maníaco.

Também estou muito chocado. Pois nos vapores que se movem acumulam-se formas horríveis e monstruosas — formas espantosas, gestos detestáveis. Toda aquela fé que eu tinha naquilo que é abominável: enchendo meu espírito mortal com delirante medo. Observando, os feridos se retorcem em angústia mortal. Alguns loucamente ajuntam a imundície, na qual eles já estão afundados quase até a metade do corpo, para atirá-la contra o espectro, com isso apenas sujando seus próprios rostos ainda mais.

Sua malícia impotente se supera tanto que por um momento pensei em rir. Nisso, como se sob o Feitiço-Mestre de um grande sábio, o encantamento é quebrado: eu ascendo à sanidade.

Devo ser muito inocente! Como eu pude por um momento falhar em compreender que os Espectros Destroçados deviam ser sombras projetadas por alguma Estrela, um Sol, sobre os vapores que subiam ao sol — que todas estas diversas formas de loucura não são nada senão distorções de uma única forma sobre o cume da montanha, uma sombra solitária — a sombra de um Homem?

Lux.

Eu fiquei de pé. Eu percebi que estava sem ferimentos. Eu me virei. Eu abri meus olhos. Veja! A Montanha!

O ápice da colossal Pirâmide é coroado por uma austera figura silenciosa, com a silhueta talhada nitidamente contra o Orbe do Sol. Eu gritei em voz alta: Saudações a Ti, Ó Estrela que és o Sol, Estrela que se elevastes à Altura dos Céus!

Mas meu coração me respondeu, misteriosamente, embora de forma que eu pudesse entender: “Ele não nasce e nem se põe! Ele segue brilhando em Seu caminho, e diante Dele a Terra gira no ritmo da dança Bacanal!”

Então eu também soube disso: que todos estes pobres homens mortos que jazem ao meu redor foram mortos por seus próprios medos, sua falta de fé ao supor que o Sol — ou qualquer Estrela — pudesse morrer.

E agora eu, que apenas sentira medo daquela figura, sinto fascinação por ela.

Eu entendo que Ele — quem quer que seja, o que quer que Ele possa ser — é Ele a quem nós todos, há tanto tempo, aguardamos.

À medida em que eu fixo meus olhos sobre ele, eu me torno consciente de que sua escuridão contra a luz da Estrela é apenas relativa: e conforme eu ganho segurança em minha visão, aquelas trevas se vão. A figura é um prisma de puro cristal — é a distorção e a interferência com a Luz que ele transmite que causou aqueles fantasmas de terror a dançar seu Sabá das Bruxas sobre o miasma que se movia.

E agora eu sou rapidamente atraído para cima por alguma força invisível; sugado por algum vórtice, em direção à Montanha.

E agora eu Lhe encaro conforme Ele permanece de pé acima de mim.

Homo.

Sua cabeça é levemente arqueada como se ele afagasse algum deleite. Ele usa um elmo de ouro avermelhado, radiante com a luz da Estrela. No meio de sua testa há um diamante negro em um círculo de rubi e esmeralda, fixo em pura madrepérola, de tal forma que parecia o olho de algum Deus desconhecido, incognoscível. Este olho não tem pálpebra.

Mas seus dois olhos humanos permaneciam semicerrados, como se estivessem em adoração ou em milagre de êxtase.

Seus braços estão cruzados sobre seu peito; em seu corselete há uma imagem dourada do Sol. Em sua mão direita há uma vara de âmbar, coroada com um rubi; em sua mão esquerda há um lótus ametista com uma corola de safira.

Veja! de seus olhos correm lágrimas de dor e alegria misturadas, de alegria que queima a dor, e com estas lágrimas ele golpeia a rocha árida abaixo de seus pés. Ela funde como cera ao ser tocada; rosas brotam e envolvem suas pernas.

Em volta dele há quatro criaturas vivas, produzidas por sua vontade, de modo que a montanha brilhou poderosamente com a vida que emanava através dele.

Há um Leão marrom-amarelado, de cuja boca verte mel.

Ele ruge alto, e a palavra dele é essa: A Fúria do Mestre é a Energia do Amor.

Há uma Búfala, cinzenta, cujo ubre transborda leite, e seu mugido significa: A Obra do Mestre é a Nutrição da Vida.

Há um Bebê, que com suas pequeninas mãos espreme sangue de seu próprio peito, e sorri: O Caminho do Mestre é a Inocência da Liberdade.

Também, uma Águia Dourada, com um Cálice de Vinho, gritando alto: A Aflição do Mestre é o Êxtase da Luz.

Por fim, entre eles, acima da cabeça Dele, rodopia uma roda que irradia muitas cores, para que através dela todas as ações sejam harmonizadas em uma só. E o zunido da roda declara: A Sabedoria do Mestre é a Justiça do Tempo.

Atenda à Vontade do Mestre!

Nisto sai do coração da Roda uma Serpente com a cabeça de uma Esfinge, e toca a boca do Mestre, de tal forma que Sua voz se torna uma Canção:

A Palavra da lei é Θελημα.

Então todo o Céu arde em chamas com uma grande rajada de trombetas; e o mundo inteiro se ilumina com um único relâmpago, que divide todo espírito que vive, estigmatizando este Sinal sobre eles:

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Aves.

Agora o ar inteiro é excitado por vozes de pássaros: um Cisne, uma Fênix, um Corvo, uma Águia, um Falcão, um Pelicano, um Pombo, um Íbis e um Abutre: cada um, em sua vez, cantou louvores, como se fosse para ele entender uma parte do Espírito do Mestre.

A Voz do Cisne.

A U M G N : através do Não-nascido, através do Eterno, segue o Pensamento do Mestre, flutuando no Æthyr.

A Voz da Fênix.

A L : nem para ser queimada, nem para ser apagada, a Alma do Mestre banha-se no Fogo da Natureza, e é renovada.

A Voz do Corvo.

A M E N : O Passado e o Futuro são partes do Presente, sob o Olho do Mestre, que vê o Segredo dos Segredos e sabe que todos são Um.

A Voz da Águia.

S U : Os Céus estão equilibrados sobre as Plumas do Reto, que voa entre elas, contemplando o Sol; assim vós conheceis a Misericórdia e a Alegria do Mestre!

A Voz do Falcão.

A G L A : por Tua Energia ascendeu toda Moção da Vontade do Mestre, progenitor, destruidor!

A Voz do Pelicano.

I A O : tudo que vive é o sangue do Coração do Mestre: todas as estrelas estão Banqueteando naquele Pasto, permanecendo na Luz.

A Voz do Pombo.

H R I L I U : não há nada pequeno demais, ou grande demais, ou baixo demais, ou alto demais; mas todas as coisas se unem em Alegria pelo Amor do Mestre.

A Voz do Íbis.

A B R A H A D A B R A : todos os Caminhos são semelhantes, sendo infinitos, eternamente se enrolando em curvas de maravilha inefável; cada Estrela tem seu curso, pelas múltiplas reflexões que movem na Mente do Mestre.

A Voz do Abutre.

M U : sem parceiro, imaculadas, consagradas, virgens, todas as coisas são geradas pelo Alento do Mestre, e nascem do Infinito Espaço no qual Ele lhes dá suas Formas — e permanece em Silêncio.

Agora tudo é como se fosse uma Paixão de grande Paz; e no Silêncio eu ergui minha Alma como uma oferta e clamei em meu Coração: Que eu habite aos pés do Mestre!

Mas o Silêncio engoliu aquelas palavras vãs; e elas são golpeadas com o fogo de Seu sangue, que as transforma no seguinte:

“Aos Seus pés só há a Terra, e esta Ele desmancha em flores; mas todas as coisas que vivem estão no Coração do Mestre.”

Com aquilo eu parei de ser eu mesmo completamente: eu sou absorvido em Sua adorável essência, e minha vida é derramada igualmente através dos infindáveis Êons da Criação.

Ah! — não há mais nada separado, de modo algum; daí a Visão falhou, o Observador tendo se tornado um com aquilo que é Observado.


Traduzido por Alan Willms em 2010, revisado em novembro de 2018.