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III.
O Templo da Verdade

A Iniciação.

Eu, Khaled Khan, contemplei aquela Visão e recebi esta Voz sobre a Montanha Sagrada de Sidi Bou Said, no país agora chamado de Tunísia, porém do sagrado antigo com muitas santidades.

Até aqui me foi permitido falar livremente do que ocorreu a mim em minha longa busca pela Verdadeira Sabedoria; mas é proibido declarar o Modo de Iniciação, através do qual eu obtive ingresso ao Lugar chamado de Templo da Verdade (mas para outros Dar-el-Jalal). Nem posso revelar em qual terra aquela Casa pode ser encontrada mais abertamente do que dizer: Ela é esculpida a partir da rocha do ponto central do pico de uma grande montanha distante, da cadeia de montanhas de Jebel-el-Asharah.

Agora, sendo trazido após muitos dias a um Lugar onde a Luz estava, sendo atirado através de uma tela entalhada de topázio, gravada com a rosa de nove-e-quarenta pétalas sobre uma Cruz Grega, do Sol, e também à meia-noite, eu me achei na presença de certo homem de idade (pois foi escrito que Seus dias deveriam ser cento e vinte anos) que se pôs de pé diante de uma mesa de sete lados, sobre a qual havia fogo, e vinho, e incenso em um turíbulo, e pão.

Estes ele me ofereceu para comungar; e sendo consumidos, ele pegou um frasco de um óleo dourado dentre eles, e ungiu meus olhos, e minhas orelhas, e meus lábios.

Com isso eu me tornei consciente da imagem de um Deus, de aspecto severo e nobre, seu espírito absolutamente calmo, em sua mão direita uma foice e em sua mão esquerda uma ampulheta. E conforme eu o observava, ele virava seu punho, porque o último grão de areia caíra.

Então meu Instrutor apontou com uma pequena vara para um grande pergaminho que não estava totalmente preenchido, e ali surgiu a sombra da mão de um homem, e desenhou a imagem de um Leão ao final da escrita.

Acima deste pergaminho, que estava parcialmente dobrado, havia uma tábua quadrada de mármore branco, sobre a qual, incrustado em ouro, eu li estes caracteres sobre a Imagem de um Olho dentro de um Triângulo radiante.

S∴S∴

e isto, sendo interpretado, é “A Grande Fraternidade Branca”.

Debaixo estava escrito: Conosco Dois Mil Anos são como Um Dia.

Então meu Instrutor me mostrou que a Fraternidade envia um de seus membros a cada dois mil anos, trazendo uma Palavra para servir à Humanidade como uma nova Fórmula de Magia, para que ela possa dar um passo adiante na longa estrada que leva à Perfeição.

Também, duas vezes naquele período, ou seja, em intervalos de um pouco mais do que três e um pouco menos do que sete séculos, Eles enviam um profeta menor para preparar o Caminho da próxima Palavra, e para manter ou restaurar a virtude da Palavra vigente.

E sobre a porção desenrolada do pergaminho eu li os nomes de certos membros desta Irmandade, e as Palavras conforme uma era expressada após a outra. Mas algumas eu não pude ler, porque os caracteres eram estranhos.

Estes:

FU-HSI.

Após um grande espaço (com poucos nomes, todos ilegíveis)

LAO-TSÉ, GAUTAMA, ZARATUSTRA,
PITÁGORAS, DIONÍSO, OSÍRIS.

Estes foram enviados ao mesmo tempo — e Dionísio sobre muitas formas diferentes — para iluminar Seis Grandes Civilizações, prestes a serem reunidas pela inauguração das comunicações sobre o planeta devido à expansão do Poder Romano. Após estes nomes, havia quase que um só nome:

APÓLO.

Só, acima daquele trecho, na largura inteira do pergaminho, a palavra IAO.

Então veio uma negritude sobre todo o pergaminho, pois uma vez a Fraternidade foi quase que totalmente destruída por uma Grande Feitiçaria da Loja Negra, e as trevas de todo o Conselho, e a confusão de toda a Verdade.

Eu vi apenas um reflexo pouco legível:

PLOTINO.

E ao final das trevas, entre muitos nomes que Eu não pude ler,

JACOBUS BURGUNDUS MOLENSIS,

pois seu nome estava escrito em letras de fogo.

A Ordem do Templo não preparou o Renascimento pela fusão dos Mistérios do Oriente e do Ocidente?

Então explodiu em uma súbita brancura sobre o pergaminho, como se a mancha tivesse sido esfregada (embora que não completamente pela varredura do aço), e essa palavra escrita em caracteres curvos afiados como cimitarras

MAOMÉ

Em seguida havia um nome mais embotado:

SIR EDWARD KELLY,

com um escrito em cifra . . . . . . . . . . . . . . e no centro de tudo, dentro do emblema de uma rosa rúbea de cinco pétalas sobre uma cruz dourada estava entalhado:

CHRISTIAN ROSENCREUTZ

(Pois assim os Irmãos foram discretos em ocultar seu verdadeiro nome.) Após o qual vieram três nomes Grandes e Terríveis que eu não escrevo aqui. Finalmente apareceu este hieróglifo recentemente escrito do Leão, e o nome deste Irmão foi escondido de mim. Então me foi Mostrado o Mistério das Palavras: como no primeiro período registrado da história os homens pensavam que a vida vinha apenas da Mulher, e trabalhavam pela fórmula de Isis, adorando a Natureza casta e gentil, sem compreender a Morte, ou o Arcano do Amor.

Assim, quando o tempo estava pronto, apareceram os Irmãos da Fórmula de Osíris, cuja palavra é IAO; de tal forma que os homens adoraram o Homem, pensando nele como sujeito à Morte, e sua vitória dependente da Ressurreição. Assim eles entendiam que o Sol era morto e renascia todos os dias, todos os anos.

Agora, esta grande Fórmula tendo se concretizado, e tornada em abominação, esse Leão surge para proclamar o Êon de Hórus, a criança coroada e conquistadora que não morre, nem renasce, mas segue radiante eternamente em Seu Caminho. Assim também segue o Sol: pois tal como agora se sabe que a noite não é nada senão a sombra da Terra, também sabemos que a Morte não é nada senão a sombra do Corpo, que vela sua Luz de seu portador.

Deste Profeta a Palavra é

Θελημα

Muitos e maravilhosos são os mistérios desta Palavra, e de sua Numeração! Nem eu posso declará-los, salvo isto, o mais simples, para a segurança das criancinhas:

“Amor é a lei, amor sob vontade.”

O pergaminho subitamente foi fechado e enrolado, e meu Instrutor me convidou a voltar: pois chegara ali uma virgem como uma rosa dourada, com mexas encaracoladas e ruivas, e seus seios eram de marfim brilhante, e seus passos eram passos de uma jovem leoa.

Sobre suas sobrancelhas flamejava uma Safira Estrela, e em seu pescoço havia uma severa cicatriz, um círculo profundo e esplêndido. Em cujas mãos havia um escrito: e sorrindo ela o pôs em minhas mãos.

Agora eu não sabia por qual nome agradecê-la por essa cortesia: o que, entendendo, ela me disse:

“Meu nome é A Estrela do Norte.”

E esta era a Proclamação:

AO HOMEM

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Meu Mandato sobre a Terra tendo iniciado no ano da Fundação da Sociedade Teosófica, eu tomo sobre mim, por minha vez, o pecado de todo o Mundo, para que as profecias possam se cumprir, de tal forma que a Humanidade possa dar o Próximo Passo, da Fórmula Mágica de Osíris para a de Hórus.

E minha Hora tendo chegado, eu proclamo minha Lei.

A Palavra da Lei é Θελημα.

Dado no meio do Mar Mediterrâneo
An XX Sol em 3° de Libra die Jovis
por mim TO MEΓA ΘHPION
ΛOΓOΣ AIΩNOΣ Θελημα.

Tendo lido estas palavras onze vezes com profunda atenção, eu declarei ao meu Instrutor (pois a Donzela retornara para o Mestre dele) que ele clarearia estas coisas que eram obscuras ao meu fraco entendimento.

“Sob a Luz do Pergaminho da Obra da Fraternidade,” eu disse, “a Vontade do Mestre, e Sua Palavra, tornam-se claras. Mas de Sua hora eu nada sei: e eu tremo diante das trevas deste Mistério do Pecado.”

“De sua hora”, respondeu meu professor, “é fácil falar”. A Obra de nossa Irmã

HELENA PETROVNA BLAVATSKY

foi inaugurada na própria época do Nascimento de nosso Irmão na Terra, o Mestre cuja Palavra é Thelema, cujo Nome ainda está oculto sob a forma de um Leão. Pois foi extremamente necessário preparar Seu Caminho para que Ele pudesse proclamar Sua Lei em toda nação sobre a face da Terra.

“E este trabalho foi realizado pela Sociedade fundada por nossa Irmã para esse fim. Todavia, vede! Cinquenta anos completos se passaram, e apenas agora é hora do Poder descer sobre nosso Irmão, o Leão, para expressar Sua Palavra com completa eficácia para toda a Terra.”

Agora ele estava calado, e meu espírito estava perturbado; e meu rosto obscurecido, pois eu me aproximara do Mistério do Pecado.

Mas o semblante de meu Professor era alegre; e seus anos caíram dele como uma máscara; e sua voz vibrou com o arrebatamento da libertação.

O Mistério do Pecado.

“A palavra do Pecado é Restrição. Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.”

Tais eram as palavras de uma tábua quadrada de latão que armazenava a tábua hexagonal debaixo do dedo indicador de meu Instrutor. E por ter visto que seu sentido era em parte oculto para mim, ele me fez lembrar de dois outros escritos de uma compilação de certos judeus antigos: “Todos pecaram, e carecemos da glória de Deus”; e este: “O pensamento de tolices é pecado.”

Agora eu entendi que todo homem vive em pecado, por estar recusando sua Verdadeira Vontade, ou seja, a função livre de sua natureza essencial. Esta restrição vem em grande parte da ignorância do que sua Verdadeira Vontade é, e em grande parte de obstáculos externos, mas a maior parte vem da interferência de peças mal controladas de seus próprios instrumentos, o corpo e a mente. Pois a Liberdade não é encontrada na soltura e falta de governo, mas sim na regência correta de cada indivíduo do bem comum de forma que assegure seu próprio bem-estar não menos do que o bem-estar do todo. E este efeito deve ser conquistado pela organização perfeita sob o olho de uma Inteligência adequada a compreender ao mesmo tempo as necessidades gerais e as particulares. O Caminho da Perfeição tem dois passos: primeiro, a Verdadeira Vontade precisa ser seguramente compreendida pela Mente, e esta Obra é relacionada àquela chamada a consecução do Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião. Segundo, conforme está escrito: “Tu não tens direito senão fazer a tua Vontade,” cada partícula de energia que o Instrumento é capaz de desenvolver deve ser dirigida a fazer aquela Vontade, e este é um leão feroz no caminho, que até que a segunda tarefa já esteja a passos avançados, a confusão do instrumento é tal que ele é completamente incapaz de cumprir a primeira.

Então disse meu guia: Tudo bem. Aprenda isso também, um grande Mistério e maravilha, que todo o conflito entre as partes do Universo nasce deste erro, e nenhum outro. Pois em nosso Espaço infinito (que não é nada senão nossa ilimitada gama de possibilidades) não há necessidade de que qualquer indivíduo tenha que empurrar seu próximo para o lado. Assim como há espaço no Céu para toda Estrela passar sobre seu Caminho sem obstáculos, também há para estas Estrelas da Terra, que seguem disfarçadas como homens e mulheres.

Saiba então que esta Lei de Thelema,

“Faze o que tu queres”

é a primeira Lei já dada aos homens que é uma verdadeira Lei para todos os homens em todos os lugares e épocas. Todas as Leis anteriores foram parciais, de acordo com a fé do ouvinte, ou os costumes de um povo, ou a filosofia de seus sábios. Nem se tem a necessidade, com esta Lei de Thelema, de ameaças e promessas: pois a Lei se realiza por si, de forma que a única recompensa é a Liberdade para aquele que faz sua vontade, e a única punição é a Restrição para aquele que se perde de seu caminho.

Então ensine tu esta Lei a todos os homens: pois a medida em que eles a seguem, eles cessam de impedi-lo por seu falso movimento aleatório; e tu faz o bem a ti mesmo ao fazer o bem a eles. E mais prejudicará a si mesmo aquele que prejudica aos outros em seus Caminhos, ou que os obriga a algum movimento impróprio a suas Naturezas.

Perceba também isto, que muitos homens, sentindo em si mesmos a amargura da Restrição, buscam aliviar sua própria dor pela imposição de uma carga semelhante sobre seus semelhantes: um deficiente que supostamente busca a tranquilidade pela mutilação dos condutores de sua carruagem.

Também, negar a Lei de Thelema é uma restrição a si próprio, afirmando que o conflito no Universo é necessário. Isso é uma blasfêmia contra o Self, assumindo que sua Vontade não é uma parte necessária (e consequentemente nobre) do Todo. Em uma palavra, aquele que não aceita a Lei de Thelema está dividido contra si mesmo: ou seja, ele é insano, e o resultado será a ruína da Unidade de sua Divindade.

No entanto, ouça novamente, a oposição de dois movimentos nem sempre é evidência de conflito ou erro. Pois dois pontos opostos do eixo de uma roda movendo-se um ao norte, o outro ao sul; ainda são partes harmoniosas de um mesmo sistema. E a trava do remo que o segura não impede, mas ajuda, a Verdadeira Vontade do mesmo.

Então o autocontrole não é de maneira alguma o inimigo da Liberdade, mas sim aquilo que a torna possível. E aquele que soltasse um músculo de sua prisão ao seu osso tornaria aquele músculo impotente.

Além disso ouça esta palavra: assim como um músculo é vão, exceto se corretamente ordenado, assim também o teu trabalho é facilitado pela tu própria união à Obra do Mestre, o próprio Therion, cuja Verdadeira Vontade é levar a obra de cada Homem a sua perfeição. Para este fim ele proclamou sua Lei; assim também para este fim, que também é teu, acrescente tu um pouco de força a Seu grande poder. Conforme está escrito:

E benção e adoração ao Profeta da amável Estrela!

Então — continue, continue em tua força, diz o Senhor do Êon, e tu não retrocederás por nada.

Enquanto assim ele dizia, eu sentia constantemente uma limpeza em meu coração; e minha estatura aumentou, por causa da retificação de minha natureza.

E à medida que eu assim pensava, meu Instrutor, percebendo, sorriu para mim, dizendo: Em verdade, Ó Khaled Kahn, Ó criança do amanhecer do Êon, tu tens revelado corretamente e tido proveito em teu ser pela Lei de Thelema. Pois a Lei é uma Lei justa: ela não exige os joelhos dobrados da escravidão, e a cabeça arqueada da vergonha. Pelo contrário, mesmo que tu fales com o Deus dos deuses, fiques de pé, para que tu possas ser um com Ele por Amor, conforme seguramente Ele mais anseia.

Com esta palavra, as muralhas de uma pequena câmara no Templo sobre o Topo da Montanha caíram repentinamente ao meu redor, e eu me achei sozinho em um lugar deserto, estranho e remoto. E daquilo que me sucedeu ali eu não posso falar. Pois existe uma Beleza que não possui ornamento mais adequado do que o Silêncio.


Traduzido por Alan Willms em 2010, revisado em novembro de 2018.


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