Ching Chang Ching - O Clássico da Pureza e da Quietude

[Nota do título: 1
Notas de S.R.: o presente texto foi retirado das apêndices do “Secret Books of East” Vol. 40 (“Os Textos do Taoísmo: Parte II de II”), traduzido para o inglês por James Legge.
Esta foi a base do Liber XXI, de Aleister Crowley.

TTC se refere ao Tao Teh Ching.
Todas as demais notas são do autor.]

Então eu tenho que traduzir o título deste folheto, conforme aparece na “Coleção dos mais importantes tratados dos Sacerdotes Taoístas” (vol. XXXIX, p. xvii), em que sozinho tive uma oportunidade de ler atentamente e estudar o Texto. O nome, dado por Wylie (Notas, p. 178), Balfour (Textos Taoístas.) e Faber (China Review, vol. Xiii, p. 246), é Khing King King 2, e significa “O Clássico da Pureza e do Repouso”. A diferença está no segundo caractere, mas tanto Khing Käng quanto Khing King são combinações bem conhecidas nos escritos taoístas; e será visto, conforme a tradução do texto seguir, que nenhuma delas é inadequada como título deste pequeno livro.

Ele é, como diz Dr. Faber, um dos “cânones místicos” do Taoísmo; mas o misticismo taoísta é de uma natureza peculiar a si, e diferente de todos os exercícios mentais que foram chamados por esse nome em conexão com o Cristianismo ou Islamismo. É mais vago e obscuro do que qualquer teosofia, ou o Sufismo, assim como a ideia do Tao é diferente da apreensão de um Deus pessoal, por mais incerta e indeterminada que a apreensão possa ser. Wylie diz que o trabalho “trata sob limites muito moderados da sujeição das faculdades mentais”. Isso de fato é a consumação para o qual ele conduz o estudante; uma condição correspondente ao nada que Lâo-dze defendia como antecedente a toda existência positiva, e da qual disse que todos os os seres existententes vieram, embora ele não indique como.

Eu dou o texto do Tratado em primeiro lugar aqui entre nossas apêndices por causa da origem primitiva que lhe é atribuída. Atribui-se a Ko Yuan (ou Hsüan) 1, um taoísta da dinastia Wu (222-277 dC), do qual se conta que atingiu o estado de um Imortal, e é geralmente assim chamado 2 . Ele é representado como um fazedor de milagres, um viciado em intemperança, e muito excêntrico em seus caminhos. Em uma ocasião em que seu navio afundou, ele emergiu de entre as águas com suas roupas secas, e caminhou livremente sobre a superfície. Finalmente, ele ascendeu ao céu em dia de sol 3 . Todos estes relatos podem ser seguramente considerados como fantasias de um tempo mais recente.

Será visto que o texto atribui a obra ao próprio Lao Tsé, e eu acho que é impossível aceitar o relato de sua origem que é atribuído por Li Hsi Yueh-a a Ko Hsüan. Conforme citado por Li na primeira de algumas notas acrescentadas ao seu Comentário, Ko é feito dizer: “Quando eu obtive o Verdadeiro Tao, eu recitei este King dez mil vezes. É o que os Espíritos do céu praticam, e não tem sido comunicado aos estudiosos do mundo inferior. Eu obtive isso a partir do Regente Divino do Hwa oriental; ele o recebeu do Regente Divino do Portão Dourado; ele recebeu da Madre-real do Ocidente. Em todos estes casos isso foi transmitido de boca em boca, e não foi feita a escrita. Eu agora, enquanto estou no mundo, escrevi em um livro. Estudiosos da ordem mais elevada, compreendendo isso, ascenderam e tornaram-se oficiais do Céu; os de ordem mediana, cultivando-no, são classificados entre os Imortais do Palácio do Sul; os de menor ordem, possuindo-no, obtiveram longos anos de vida no mundo, vagando pelas Três Regiões 1-A, e (finalmente) ascenderam, e entraram, no Portão Dourado”.

Esta citação parece ser tirada do prefácio ao nosso pequeno clássico de Ho Hsüan. Se houvesse de fato tal prefácio durante o período da dinastia Wu, a corrupção do antigo Taoísmo deveria ter sido rápida. Hsi Wang-mu, ou Madre-real do Ocidente, é mencionada uma vez em Chuang Tzu (Bk. VI, par. 7); mas nenhum “Regente Divino” desfigura suas páginas. Todo leitor tem que sentir que no Clássico da Pureza entrou em uma diferente região do pensamento da que ele atravessou no Tao Teh Ching e nos escritos de Chuang Tzu.

Com essas observações eu agora prossigo à tradução e explicação do texto do nosso King.

[Khin Kang King: ou “O Clássico da Pureza”]

I

1. Lao, o Mestre, 1 disse: o Grande 2 Tao não tem forma corpórea, mas produziu e alimenta o céu e a terra 3 . O grande Tao não tem paixões 4 , mas induz o sol e a lua a girar como fazem.

O Grande 2 Tao não tem nome 5, mas afeta o crescimento e o sustento de todas as coisas 3 .

Eu não sei seu nome, mas eu faço um esforço, e o chamo de Tao 6 .

2. Agora, o Tao (mostra-se em duas formas), o Puro e o Turvo, e possui (as duas condições de) Movimento e Repouso 1 . O céu é puro e a terra é turva, o céu se move e a terra está em repouso. O masculino é puro e o feminino é turvo; o masculino se move e o feminino é inerte 2 . O princípio (Pureza) descia, e a emanação (turva) fluia no exterior, e assim todas as coisas foram produzidas 1 .

O puro é a fonte do turvo, e movimento é a base do descanso.

Se o homem pudesse ser sempre puro e quieto, tanto o céu quanto a terra reverteriam (à não-existência) 3 .

3. Agora, o espírito do homem ama a Pureza, mas a sua mente 1 a perturba. A mente do homem ama a tranqüilidade, mas os seus desejos a afastam 1. Se ele pudesse se livrar de seus desejos, a sua mente ficaria quieta por si só. Que sua mente se esvazie, e seu espírito se torne puro por si só.

Naturalmente os seis desejos 2 não irão surgir, e os três venenos 3 serão removidos e desaparecerão.

4. A razão pela qual os homens não são capazes de alcançar isto é porque suas mentes não foram esvaziadas, e seus desejos não foram mandados embora.

Se alguém for capaz de livrar-se de seus desejos, então quando ele olha dentro de sua mente ela já não é mais sua; quando ele olha para o seu corpo, ele já não é mais seu; e quando ele olha mais adiante, para as coisas externas, elas são coisas com as quais ele não tem nada a ver.

Quando ele compreende estas três coisas, então parecerá para ele apenas vazio. Esta contemplação do vazio despertará a ideia de vacuidade. Sem essa vacuidade não há vazio.

A ideia do espaço vácuo tendo desaparecido, a do nada também desaparece; e quando a ideia do nada desapareceu, então segue serenamente a condição de quietude constante.  1

5. Nessa condição de descanso, independentemente do lugar, como pode surgir algum desejo? E quando não restam mais desejos, há a Verdadeira quietude e descanso.

Aquela Verdadeira (quietude) torna-se (a) qualidade constante, e responde às coisas externas (sem erros); sim, que a qualidade Verdadeira e Constante detém a posse da natureza.

Em tal constante resposta e constante quietude, existe a constante Pureza e Quietude.

Quem tem essa Pureza Absoluta entra gradualmente na (inspiração do) Verdadeiro Tao. E tendo entrado ali, ele é denominado Possuidor do Tao.

Embora ele seja denominado Possuidor do Tao, na realidade, ele não acha que tornou-se possuidor de coisa alguma. É como se realizando a transformação de todas as coisas vivas, que ele fosse denominado Possuidor do Tao.

“Quem for capaz de compreender isso poderá transmitir aos outros o Sagrado Tao”.  5.1.

II

1. Lao, o Mestre, disse: os Estudiosos de classe mais alta não lutam (por nada), os da classe mais baixa apreciam lutar 1 . Aqueles que possuem os atributos (do Tao) no mais alto grau não os mostram; aqueles que os possuem em um grau baixo, agarram-se a eles (e exibem-los) 2 . Aqueles que assim agarram-se a eles e os exibem, não são denominados (Possuidores do) Tao e de Seus atributos 2 .

2. A razão pela qual todos os homens não obtém o Verdadeiro Tao é porque suas mentes são pervertidas. Suas mentes sendo pervertidas, o seu espírito é perturbado. Suas mentes sendo perturbadas, eles se atraem por coisas externas. Sendo atraídos pelas coisas externas, eles começam a buscá-las avidamente. Essa busca gananciosa leva a perplexidades e aborrecimentos; e estes novamente resultam em pensamentos transtornados, que causam ansiedade e angústia, tanto para o corpo quanto para a mente. As partes, em seguida, reunem-se com desgraças imundas, fluem loucamente através das fases da vida e da morte, estão sujeitos constantemente a afundar no mar de amargura, e para sempre perdem o Verdadeiro Tao.

3. O Verdadeiro e Contínuo Tao! Eles que o entendem naturalmente o obtém. E para aqueles que vêm para entender, o Tao habita na Pureza e na Quietude.  1

Notas de Rodapé

247:1 .

247:2 .

248:1 ou .

248:2 .

248:3 ver os Relatos de Ko no Dicionário Biográfico de Hsiao Kih-han (1793), e o suplemento de Wang Khi para a grande obra de Ma Twan-lin, cap. 242.

249:1a “As três regiões ( )” aqui dificilmente podem ser o trilokya dos budistas, as categorias éticas de desejo, forma e ausência de forma. Elas são mais parecidas com o bhuvanatraya bramânico, as categorias físicas ou cosmológicas de bhur ou terra, bhuvah ou céu, e svar ou atmosfera.

249:1 O nome aqui é Lao Kün ( ). Afirmei (vol. XXXIX, p. 40) que, com a adição de Thai Shang, esta é a designação comum de Lao Tsé como o Pai do Taoísmo e endeusando-o, e que isso provavelmente se originou na dinastia Thang. Isso pode parecer ser usado aqui apenas por Ko Hsüan com a mesma alta aplicação; e desde que em seu prefácio ele se refere aos diferentes “Regentes Divinos”, pode ser afirmado que devemos traduzir Lao Kun por “Lao o Regente”. Mas eu não estou disposto a pensar que a deificação de Lao Tsé ocorreu tão cedo. A primeira ocorrência da combinação Lao Kun que atraiu minha atenção está na história de Khung Yung, um descendente de Confúcio na vigésima geração – o mesmo que é comemorado no San Dze King – por sua deferência fraterna com a idade de quatro, e que encontrou uma morte violenta no ano de 208. Embora ainda apenas um garoto, pretendendo obter uma entrevista com um representante da família Lao, ele enviou esta mensagem para ele: “O meu honrado antecessor e o honrado Lao, o antecessor de sua família Li, igualmente virtuosos e justos, foram amigos e professores um do outro”. O título Kun é igualmente aplicado a Confúcio e Lao Tsé, e a combinação Lao Kun não implica nenhuma exaltação deste último sobre o outro.

249:2 Veja o Tao Teh Ching, caps. 18, 25, 53.

249:3 TTC, caps. 1, 51, et al.

249:4 Veja Chuang Tzu Lv,. II, par. 2. “Paixões”, isto é, sentimentos, afeições; como no primeiro dos trinta e nove Artigos.

249:5 TTC, caps. 1, 25, 32, 51.

249:6 TTC, cap. 25.

250:1 Este parágrafo se destina a enunciar “a criação de todas as coisas”, mas ele faz isso de uma maneira que é dificilmente inteligível. Comparando o que foi dito aqui com as afirmações do parágrafo anterior, Tao parece ser usado em dois sentidos: primeiro, como um Poder ou Força Imaterial, e em seguida como a Substância Material, do qual tudo vem. Li Hsi-Yueh diz que no primeiro membro do parágrafo 1 nós temos “o Ilimitado (ou Infinito), produzindo o Grande (ou Primordial) Finito”. Sobre o Tao no parágrafo 2 ele não diz nada. O fato é que o tema da criação, no sentido mais profundo do nome, é elevado demais para a mente humana.

250:2 Compare TTC, cap. 61.

250:3 Eu não entendo isso, mas eu não pude traduzir o Texto de outra forma. Sr. Balfour diz: – “Se um homem é capaz de se manter puro e imóvel, tanto o Céu quanto a Terra virão e habitarão nele”. Li explica assim: – . Compare com o TTC, cap. 16, e especialmente o título de Kung, Ho-shang, com isso, – .

251:1 O Taoísmo, assim, reconhece no homem o espírito, a mente e o corpo.

251:2 “Os seis desejos” são aqueles que têm as suas entradas nos olhos, ouvidos, narinas, língua, o sentido do tato e da imaginação. Os dois últimos são expressos em chinês por shän, “o corpo”, e î, “a ideia ou pensamento”.

251:3 “Os três venenos” são a ganância, raiva e estupidez; – ver Khang-hsî Thesaurus, sob .

252:1 Neste ponto, temos aquilo que o Sr. Wylie chama de “a sujeição das faculdades mentais”, e eu preciso confessar que sou incapaz de compreender o que é. Provavelmente é uma outra maneira de descrever o transe taoísta que encontramos de novo e de novo em Chuang Tzu, “quando o corpo fica como uma árvore seca, e a mente como cal apagada” Bk. ( II, par. 1, e outros). Mas uma tal sublimação do ser, como característica de sua serena imobilidade e repouso, para mim é inconcebível.

253:5 _1 Esta é a consumação do estado de Pureza. Ao explicar a frase anterior do quinto membro, Li Hsi-Yueh usa os caracteres do TTC, cap. 4 º, , com alguma variação, – .

253:1 Comparar com o TTC, cap. 41, 1.

253:2 Compare com o TTC, cap. 38, 1.

254:1 Nosso breve Clássico conclui assim, e nosso comentarista Li resume da seguinte forma as suas observações sobre ele: – “Os homens que compreendem o Tao fazem-no simplesmente por meio da Pureza Absoluta, e a aquisição desta Pureza Absoluta depende inteiramente da Rejeição do Desejo, que é a urgente lição prática do Tratado”.

Eu citei em meus comentários introdutórios o relato de Li da origem do Clássico pelo seu reputado autor Ko Hsüan. Agora vou concluir com as palavras que ele acrescentou “um Verdadeiro Homem, Zo Hsüan: Estudantes do Tao, que mantém esse Clássico em suas mãos e murmuram sobre seu conteúdo, obterão bons Espíritos dos dez céus para vigiar e proteger seus corpos, após o qual os seus espíritos serão preservados pelo selo de jade, e seus corpos refinados pelo elixir de ouro. Tanto o corpo e o espírito se tornarão extraordinariamente etéreos, e estarão em verdadeira união com o Tao”!

Deste “Homem Verdadeiro, Zo Hsüan”, eu não fui capaz de determinar nada. O Divino Governador do Hwa oriental, citado na p. 248, é mencionado na obra de Wang Khî (cap. 241, p. 21b), mas sem informações concretas sobre ele. O autor diz que seu sobrenome era Wang, mas ele não sabe o seu nome e nem quando viveu.


Traduzido por Frater S.R.