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Capítulo III

Yoga
Budismo
Iluminação
Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião

Agora vamos voltar para o Oriente. Somente na medida do necessário para o nosso caminho, sem insistir em detalhes desnecessários. A questão do Yoga é muito difícil de discutir com rigor. Yoga não é um Método. Yoga é uma Consecução. Ele indica o conceito de Unidade, ou melhor, de Unicidade. A maioria dos praticantes de Yoga define o estado mais elevado de consciência como uma unidade do Aspirante com o objeto de trabalho. Em outras palavras, quando o sujeito e o objeto se tornam um. Isto é basicamente uma breve definição de Samādhi, mas não vou discutir mais a fundo essa teoria, porque essa não é nossa intenção. E porque eu gosto de pensar de forma diferente, eu seria cético em relação a esta definição. Tornar-se um com outro é bastante inconveniente. Cada um de vocês neste momento sente a unidade consigo mesmo. Mesmo na ausência desse sentimento, a unidade consigo mesmo é inquestionável. Por que você acha que a união com outra coisa é diferente da unidade consigo mesmo, que vocês já sentem agora? O homem encontra razões externas para impulsos naturais que vêm de dentro. Ele complica sua própria vida, porque ele é incapaz de compreender a si mesmo corretamente. Este é o paradoxo do Yoga. Você não pode praticar Yoga. Você não pode praticar a Consecução – isso significaria que você já a alcançou. Yoga não é nem mesmo Unicidade – ele apenas sugere a Consecução da Unicidade, que não pode ser praticada e, portanto, não pode ser exatamente alcançada. Yoga não é um Método. Yoga é uma Consecução. O que te afasta do Yoga é a sua intenção de fracasso, nada mais. O que te afasta do Yoga é a sua prática de Yoga, já que o exercício é a essência de toda falha. Yoga é como o Sol na Árvore da Vida. Ou você está lá ou você não está.

A confusão surge em grande parte porque os idiomas orientais têm muito mais adjetivos para estados espirituais do que os ocidentais têm. Não me interpretem mal, quando eu digo Ocidente, eu incluo vocês no grupo. E quando eu digo oriental, eu quero dizer a maioria dos países influenciados pelo Budismo, tanto o Hīnayāna quanto o Mahāyāna. Isso se reflete também no Cristianismo, em suas divisões entre as igrejas. Estou falando, claro, sobre os dois ramos principais, a Ortodoxa e a Católica. É interessante que o Mahāyāna se chamava Ortodoxo também, o que significa Crença Correta – em oposição aos Católicos que seriam, então, a Crença Errada. O Mahāyāna, como um Grande Veículo, na tradução, glorifica a si mesmo em relação ao Hīnayāna, que é entendido como um Veículo Inferior. Esta pode ser uma observação interessante.

Eu gostaria de enfatizar de alguma forma este tópico que talvez seja a mais bela história que teremos neste seminário. Para expor o Yoga e o Budismo, eu gostaria de inverter a ordem desses dois, e começa com a apresentação da essência do Budismo em primeiro lugar, e depois passar para o assunto do Yoga. Já mencionamos a diferença entre Magia e Thelema. A mesma relação e modelo de pensamento explica a diferença entre Yoga e Budismo. Como?

Quando o budismo surgiu na Índia, Siddhārtha Gautama Buddha conseguiu criar um sistema pelo qual um homem pode alcançar os mesmos resultados que ele alcançou para si próprio. Em outras palavras, pela primeira vez naquela época, se você respeitasse certas regras poderia experimentar a iluminação, aqui e agora, ao contrário dos movimentos espirituais anteriores onde a iluminação era deixada para certas outras castas e certas outras vidas. Lembrem-se, alguns de vocês podem nunca experimentar a projeção astral, alguns de vocês nunca serão capazes de sentar-se em Āsana, mas pelo simples fato de que vocês nasceram, vocês têm a certeza de duas coisas e de duas realizações: a Consecução da Conhecimento e Conversação de seu Sagrado Anjo Guardião e a Consecução do Abismo. Estes estão garantidos para cada um de vocês, e isso pode ser conseguido em qualquer ponto do seu trabalho.

Isso é explicado, principalmente para os jovens, para não pensarem que a iluminação é algo para outra pessoa ou para alguma outra vida. Essa é uma triste visão de mundo. A Iluminação é o único trabalho a que vocês têm direito, só por ter nascido. A Iluminação não é nem mesmo o seu trabalho. A Iluminação é o seu direito de nascença. Sua Iluminação é apenas uma consequência natural do seu nascimento. Considerem este pensamento. A Iluminação é o seu direito de nascença.

Agora vamos voltar ao Budismo. Há três fases do Budismo que são boas para agregarmos ao nosso conhecimento. Essas são o nascimento do Budismo, a expansão do Budismo e a adaptação do Budismo. Assim, um aspirante japonês não pensa sobre a Iluminação da mesma forma que um budista pensa no Tibete. O que é extremamente interessante é a forma como o budismo começou a se espalhar pelo Oriente e no norte do Oriente, e a desenvolver-se no Extremo Oriente. Dessa forma, na verdade, a realização da Iluminação tornou-se cada vez mais curta. Por quê? E como? Eis o que aconteceu.

Há muito tempo, Buda fez um terrível juramento de que ele não iria se mover do local em que estava sentado até que ele experimentasse a Iluminação. Este é um dos primeiros momentos históricos em que alguém fez esta forma de um voto, de fato – um Juramento do Abismo. Quanto mais difícil a tarefa, maior é a recompensa. As tarefas mais curtas são as do Adeptus Minor e a do Magister Templi. Elas consistem de uma única frase. A do Magister Templi é transcender o Abismo, e a do Adeptus Minor alcançar o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião. Considerem se o tamanho da descrição de uma tarefa incorpora o seu verdadeiro peso.

Voltemos ao Buda. Buda demonstrou pela primeira vez que uma vida é o suficiente para a Iluminação, e que essa intenção única é o suficiente. Conforme o ensinamento começou a se mover para o norte, atravessando o Nepal e o Tibete, e para a China, Boddhidharma, um dos maiores professores que já viveu, fez algo notável. Quando se separou do Hīnayāna, o Mahāyāna de repente começou a encurtar o tempo necessário para a Iluminação do aspirante. Agora, o que Boddhidharma fez? Primeiramente, não havia mais retiros solitários, e o esconderijo de aspirantes em cavernas; em vez disso, ele botou todos eles dentro de uma sala. Sempre que um aspirante atingia a Iluminação, parecia que a experiência desencadeava um efeito em corrente que se espalhava também para os outros praticantes. No início, todos os participantes encaravam a parede, com os olhos fechados. Este detalhe é muito importante. Agora, a segunda coisa que Boddhidharma fez foi muito mais brilhante, já que ele fez com que as pessoas não encarassem mais a parede, mas sim que olhassem uns nos olhos dos outros. As Iluminações ocorriam com muito mais frequência. E assim os aspirantes revelaram uma experiência específica e extraordinária do vazio única em seus olhos, que até então não podiam ser percebido e nem escrito. O tipo de Budismo mais astuto e severo existe no Japão. O que os chineses chamam de Chou, os japoneses chamam de Zen. Lá, a Iluminação é uma Ordem, não um Voto. Agora eu gostaria de transmitir-lhes estas palavras, que Buda dirigiu a seu aluno mais querido, Śāriputra. Este discurso é muito famoso e é chamado de Prajñāpāramitā Hṛdaya Sūtra, mais ou menos como os Thelemitas conhecem o Liber AL. Assim como o Livro da Lei define Realidade, o Lorde Buddha disse o seguinte:

“Portanto, ó Śāriputra, aqui neste vazio não há nenhum corpo, nenhum sentimento, nenhum pensamento, nenhuma vontade, nenhuma consciência. Não há olhos, nem ouvidos, nem nariz, nem língua, nem corpo, nem mente. Não há nenhuma visão, nenhuma audição, nenhum olfato, nenhum paladar, nenhum toque, nenhuma imaginação. Não há nada visto, nem ouvido, nem cheirado, nem degustado, nem tocado, nem imaginado. Não há nenhuma ignorância, e nenhum fim à ignorância. Não há velhice e morte, e não há fim para a velhice e a morte. Não há sofrimento, nem causa do sofrimento, não há fim para o sofrimento, não há caminho para acabar com o sofrimento. Não há consecução do Nirvāṇa, e não há Nirvāṇa para alcançar”.

Desta forma, ele mostrou ao mundo que a essência final de seu ensinamento não era o niilismo, como definido pelas mentes ocidentais, mas sim o surrealismo cósmico. Na verdade, este texto pode ser entendido como o Livro da Lei do Oriente. Crowley era bastante atraído pela filosofia Oriental, especialmente pelo Taoísmo, no qual ele se identificou com mestres orientais como Lao Tzu e Chuan Chou. Então hoje nós podemos ver claramente a influência do pensamento chinês no que hoje é chamado de Thelema. O que deve ser de interesse para nós no Budismo são duas experiências supremas – as experiências de Buda e de Bodhisattva. Em uma analogia com a Cabala, toda a Golden Dawn é definida como um programa opcional. Na Ordo Thelema, só encontramos três graus. Homem da Terra, Amante e Eremita. Esses três graus são na verdade as grandes conquistas ao longo do Pilar do Meio. Nunca é demais que um Superior insista que seus Estudantes não desistam do Caminho quando se desviam do Pilar do Meio.

Há dois graus especialmente afetados por esta situação, o grau de Practicus e o grau de Philosophus. Esses dois extremos refletem dois opostos supremos de Atziluth. Praticus como Água e Philosophus como Fogo, de um modo semelhante como a relação de Chokmah com a Grande Binah. Perceberemos que cada Sephirah é apenas o resultado da anterior, e a causa da próxima. A Árvore da Vida não pode ser entendida se usada como um telhado, como uma sombra para o retiro. A Árvore da Vida não serve para férias, mas sim para trabalho. No entanto, a verdade última está longe de ser essa alegação. Em toda a nossa Arte, assim como no Zen, existem dois caminhos. O lento e o rápido. Cabe a você decidir qual caminho percorrer. Não há dúvida de que você vai chegar ao seu destino, porque você certamente irá. A única questão é quanto tempo você vai suportar carregar a sua cruz do sofrimento durante o caminho, se você se achar no lado errado. Uma vez que você fez o Juramento, depois de derramar o seu sangue, o sangue vai evocar mais sangue. Seu ou de outra pessoa. Lembrem-se disso. É por isso que tantas pessoas vagaram como sombras em nossa Arte. Isto não é sobre a ilusão dos caminhos, mas da ilusão das pessoas que andam sobre eles, pensem nisso. Estamos propensos a falar sobre isso porque nenhum de nós foi tão longe, mas perguntem a si mesmos quando vocês tomam uma decisão errada, foi por causa de sua vontade ou de seu desejo? E por fim, há alguma diferença afinal? Faça o que quiser não é Faze o que tu queres. Mas, tanto quanto sabemos, alguém que conhece a sua Vontade é na verdade apenas 0,01% de todos os casos. Considerem isso.

A Consecução do Conhecimento e Conversação consiste em duas partes. Uma delas é o Conhecimento, a outra é a Conversação. Para ser capaz de falar com o seu Deus, você deve saber o que deve ser discutido. No caso de você ter um minuto de tempo com o seu Anjo, o que você falaria? Que perguntas você faria, aliás, você perguntaria alguma coisa? Assim, a construção dessas armas elementais é na verdade a preparação para esta Grande Entrevista. É como se preparar para uma entrevista de emprego. Primeiro você escreve o seu Curriculum Vitæ e, depois disso, se você receber um telefonema, você se prepara para a entrevista, tudo com o objetivo de apresentar-se da melhor forma e, finalmente, conseguir um emprego. Completar a Golden Dawn é um lembrete do que você vai discutir na Grande Entrevista agendada. O Budismo também está trabalhando na preparação da mente de um Aspirante para fazer o que é necessário no momento em que ele entra na Câmara da Consciência, quando ele realiza a Grande Obra. Não se engane que diante de Deus, você será capaz de traçar um pentagrama ou hexagrama, ou fazer qualquer banimento ou testes na visão do espírito. Estas são apenas histórias, histórias bobas. No momento em que você experimentar o contato com a Divindade, ou o Anjo, qualquer que seja sua natureza, você vai estar com Ele quando necessário, não quando você pretende. Você estará completamente impotente para fazer qualquer coisa limitada pelo seu plano. Na prática, o triângulo vermelho com a ponta para cima e o triângulo azul com a ponta para baixo no hexagrama simplesmente não existem. O triângulo azul é o que aponta para cima; sua aspiração é que é passiva. É como se fosse o seu primeiro encontro com a pessoa por quem você é apaixonado. Não importa o quanto você planeja uma surpresa, o curso da noite será totalmente independente de você, e muitas vezes você sentirá completamente o oposto do que você queria. Você fica completamente impotente. Mas, no final, você vai se lembrar da primeira noite como algo belo e nesta incerteza está toda a magia daquela noite. Você recebeu o que lhe foi dado, é simples assim. A maior Invocação não é nem uma ameaça e nem um tratado, mas uma espera curiosa. Pensem nisso.

Então, se você ler o relato de alguém que traçou o pentagrama no plano astral na frente de um Deus ou Anjo, e verificou através de nomes divinos, você não tem mais que escutá-lo, porque provavelmente ele está mentindo. Esta é uma forma medieval de pensamento em que o homem é o centro do mundo, onde os seres superiores estão subordinados a ele e onde todo mundo tem um propósito para ele como a causa suprema. O fato surpreendente de que o Sol é o centro do mundo ainda é válido, mas na verdade ninguém lhe disse que você é esse Sol. Portanto, este hexagrama foi criado pela existência de Thelema na magia. Como isso funciona na prática? Suponha que você faça o Juramento do Adeptus Minor, após o qual você faz a preparação para o seu trabalho, saindo da vida pública para um retiro por seis meses, pelo conselho de Abramelin, assim você pode escolher o rito perfeito, começando com o desempenho diário do mesmo e se esforçando para alcançar o Anjo. Mas há um problema: nada acontece. Você pode continuar assim por anos. É por isso que muitos aspirantes evitam o Juramento de Adeptus Minor e permanecem Philosophus ou Dominus Liminis para sempre. Esta é a pior maldição que um aspirante pode atrair para si. Então, qual é o ponto desta instrução?

No método do hexagrama azul que lhe traz a Consecução, é importante que você realmente não faça nada. Como isso funciona na prática? Até agora, você teve a oportunidade de causar Mudança por meio da concentração, visualização, vibração e agora a maior Mudança que você precisa não requer trabalho ou ação. É como se eu lhe dissesse que você vai receber um telefonema do Céu exatamente às 14h amanhã. O que você faria nos minutos antes das 14h? Você esperaria. Mas essa espera seria mais intensa e mais alerta do que uma hora antes da hora marcada. Parece que essa espera passiva coloca sua atenção em uma condição ativa para uma Grande Mudança. Considere essa ideia também. Seu trabalho é como a brincadeira infantil das “mãos vermelhas”. Você coloca as mãos em cima das mãos do seu Anjo, e espera até ele bater, para que você possa puxar as mãos para trás, evitando uma bofetada.

A condição do seu sucesso é permitir-lhe que comece primeiro, mas não que termine por último. Este método é essencial na esgrima japonesa; no conceito de interceptação, e não na oposição das espadas. Ao contrário da esgrima europeia que consiste hoje de movimentos dispersos e contagem de pontos, em certas escolas de esgrima japonesa, às quais eu também pertenço, você se prepara por uma vida inteira e quando você finalmente fica na frente de um adversário, você não consegue a vitória pelo ataque, mas sim pela defesa. Aguarde até que o oponente comece a desembainhar sua katana, e enquanto ele faz isso, você deve tirar a sua e atacar o que significa que você deve ser pelo menos duas vezes mais rápido do que ele. A Vontade não é necessária aqui. Só a Intuição. Vontade e Intuição, como Chokmah e Binah. Muitas analogias com a nossa Arte podem ser encontradas no Budismo e na esgrima japonesa.

Pense sobre o nosso exemplo do telefonema. Você quase consegue sentir a condição de expectativa antes da ligação. Forçando os olhos bem abertos, você luta para manter o estado de alerta para arrancar o telefone do gancho assim que ele tocar. Mas então o que eu faço? Eu me esforço de tal maneira que o telefone nunca toca. Conforme um minuto de espera se expande para um dia, você vai para a cama com raiva e desapontado, e tem um sonho (que é necessário) em um estado de passividade ativa. Quando você analisa os rituais, há um ponto em que o aspirante chega onde ele extingue a sua consciência e experimenta morte mental, e você pode encontrar esta abordagem especialmente no sistema de Austin Spare. Para alguns raros, essa morte é um nascimento espiritual. A essência de todo o nosso trabalho está realmente em fazer truques de mágica pelos quais você contorna a sua censura da realidade, para extinguir temporariamente as luzes no palco apenas o tempo suficiente para realizar com êxito a substituição de objetos e, em vez de uma rosa, aparecer uma pomba. Essa breve e proposital extinção da luz no palco é o Véu de Paroket, longe do Abismo, e o aspirante não deve confundir essas duas ideias.

Neste ponto mencionarei o que é conhecido como a Arte da Evocação, cuja essência reside justamente nisso. Lembram de quando eu disse que se vocês recebessem um telefonema do Céu amanhã às 14h; vocês ficariam congelados minutos antes de tocar, esperando a chamada? Mas lembrem-se também bem de como isso distorce sua Atenção. É como uma criança ansiosa para saber o quê, mas não quando. Por pura estatística, nesses momentos algo vai acontecer, algo que irá distrair sua atenção. Mas sua consciência já foi alterada e está embriagada com a fantasmagórica expectativa, de modo que o evento paralelo é bem recebido com trombetas e projetado sobre o que era necessário. Muitas vezes, o barulho de fogos de artifício se torna o discurso de um demônio ou a luz de lâmpadas de rua tornam-se o resplendor de um anjo. Em outras palavras, a sua imaginação torna-se a ligação entre dois eventos independentes, que influenciaram a sua atenção como a água fria nos ajuda a acordar. É um efeito utilizado por ilusionistas – quando chamam a atenção para algo irrelevante a fim de conseguir uma mudança desejada, o que é visto como um milagre por aqueles que estão muito fascinados por ele para aumentar sua atenção para ambas as mãos do mágico, e não apenas àquela em que ele segura um objeto para que fixe sua atenção. No caso da Evocação, é um truque inconsciente que pode se transformar em um buquê da mais bela visão. No entanto, será que você obterá algo que você ainda não sabe com tudo isso? Considerem este pensamento.

Quando mencionei dois Véus, Véu de Paroket e Véu do Abismo, atrás de ambos estão escondidas as Consecuções ultimais de forma semelhante ao que eu já disse sobre o Budismo – as consecuções de Buda e de Bodhisattva. Em outras palavras, as consecuções do Adeptus Minor e do Magister Templi. Não atribuirei o Ipsissimus a Buda; esse seria um tema que levaria tempo demais para discutirmos.

Este é basicamente um pequeno resumo do Budismo e seu entrelaçamento e influência com os caminhos da Magia e de Thelema. Tomem cuidado. E sejam muito delicados ao escolher os métodos e pontos de vista do Budismo, como aquelas fantásticas novas técnicas que lhe permitirão experimentar a iluminação por um dólar. Sempre sejam cuidadosos ao escolher uma prática. Percebam que antes de práticas específicas do budismo sempre vem em primeiro lugar a autêntica filosofia budista. O Yoga é mais abstrato, mais devastador para nós. É semelhante a Thelema. Cuidado com as pessoas que falam da Verdadeira Vontade. Lembrem-se disso com cuidado.

Eu realmente desejo que vocês percebam a relação entre o Budismo e o Yoga, bem como entre Thelema e Magick. Budismo e Thelema são sistemas filosóficos, eles têm poucas implicações práticas. Eles podem ser citados como implicações sociais de uma maneira em que todas as almas estão ligadas. Vou lhes contar uma história sobre um monge que passou anos tentando se tornar iluminado. Ele era o mais culto e o mais educado de todos os monges, e ainda inteligente o suficiente para saber que ele era o que estava mais distante da verdade. Por fim, ele criou coragem o suficiente para visitar seu professor e perguntar-lhe como se libertar. Mas o professor lhe perguntou: “Quem é que te mantém prisioneiro”? Enquanto o Budismo pode ter suas próprias falhas, todos vocês são inteligentes o suficiente para extrair o que for útil para vocês. De certa forma, o nosso seminário é uma espécie de Frankenstein espiritual. Você pega um pouco de tudo para fazer muito por você. E eu não posso dizer o que é bom ou ruim para vocês. Eu só posso lhes contar um belo conto de fadas.

Agora vou refletir sobre o Yoga. Quando digo Yoga, me refiro exclusivamente ao caminho óctuplo real, que é chamado de Rāja Yoga. Para o aspirante, que está abaixo de Paroket, as quatro primeiras etapas do Rāja Yoga são especialmente importantes. E como um Magista tem quatro armas elementais, o Yoga tem suas quatro armas que devem estar bem afiadas. Āsana, Prāṇāyāma, Pratyahara e Dhāraṇā. Estes quatro pontos não têm que ser aprendidos completamente, mas dentro da Argentum Astrum você não progredirá até que você domine cada uma na medida do que for solicitado. Você pode ter um diploma de Doutorado de Harvard, ou nascer como um Magister Templi, mas se você não puder sentar-se uma hora em Āsana, você não avançará além de Zelator.

Āsana é uma posição, mas não todas as posições. Mesmo que vocês achem que estão confortáveis nessas cadeiras agora, depois de uma hora, ou talvez duas, vocês vão se sentir desconfortáveis e tensos. Mas quando estou sentado em meu Āsana, eu posso fazer isso por horas, sem me mover um centímetro, sem experimentar qualquer desconforto físico, embora no início do Āsana ele possa ser qualquer coisa menos agradável. Āsana é uma posição que elimina a consciência da existência do corpo, mas não a existência de consciência. Pensem nisso, o sucesso no Āsana está na Mudança da consciência, não do corpo, embora a mudança na compreensão do corpo seja bastante óbvia.

Prāṇāyāma é o controle do Prāṇa, mas é necessário definir o que esse conceito significa, pois sem isso seria apenas especulação. Prāṇa é o que pode ser chamado de força, mas não como um combustível, mas sim como alimento para o espírito. Tem muitos aspectos, que chamamos de rūpas, que pode ser encontrado nos alimentos bem como no sangue. Mas nem comida e nem o sangue são Prāṇa, assim como o corpo não é o espírito. O Prāṇa é cercado por uma ideia abstrata, então é necessário utilizar um modelo específico de pensamento a fim de compreender a sua verdadeira natureza. Pensem sobre isso, o Prāṇa é o principal representante do elo mágico. O Aspirante engenhoso pode ver o Prāṇa em cada coisa e derramar o Prāṇa sobre qualquer objeto. No entanto, o Prāṇa geralmente é associado a um elo que é um fator comum em todas as coisas vivas. Não é o sangue, embora possa ser, porque o sangue é limitado pela sua cor, calor e confinamento nos vasos sanguíneos, mas o que é o elo mágico par excellence é a respiração. Portanto, Prāṇāyāma é o controle da respiração, a consciência plena de todo o aparelho que é usado para a respiração. A respiração é constantemente inspirada na mesma medida em que é expirada. Seu campo de ação é tanto dentro quanto fora.

Claro, tudo isso requer um monte de experiência e preparação. Mas lembrem-se, conforme vocês sobem na Árvore da Vida, vocês gastam menos tempo com preparação para o trabalho. Em circunstâncias perfeitas, eu preciso de 10 a 15 minutos para a projeção astral e de 5 a 10 minutos para um Āsana completamente estável. Mas lembrem-se, o aspirante após 15 minutos de preparação e talvez 15 minutos de viagem astral pode precisar de horas para entender, mesmo que superficialmente, a experiência que teve. Se o Neófito durante a operação atingir espontaneamente o Conhecimento e Conversação, o que não é tão raro, pode levar anos para ele Entender o que Ouviu. Pensem nisso. Trabalhar com Āsana não é apenas ficar parado, mas também preparar-se para ficar parado com antecedência e desfrutar do sentimento de unidade com o corpo após a prática. Pensem sobre como definir o seu próprio trabalho, quanto tempo levará, o que será ou não incluído nele.

Esta é outra vantagem deste seminário. Vamos conseguir conectar todos os símbolos que temos em nossa mesa de trabalho uns aos outros e, assim, seremos capazes de criar o nosso próprio dicionário que vai nos ajudar a conversar com o Grande Arquiteto, durante a Golden Dawn.

Pergunta: o Grande Arquiteto e o Grande Criador são a mesma coisa?

Resposta: o Grande Arquiteto é aquela unidade de medida universal de todas as coisas; ele é a proporção áurea entre o número e as letras. Os números são como letras, infinitas, e são partes integrantes de todos os livros de todos os Mundos. Dizia-se uma vez que os Anjos, assim como livros, eram feitos de números e letras, da mesma forma como o homem é feito de carne e sangue. O Grande Arquiteto, que ocupa um lugar tão importante na Maçonaria, é bastante diferente do Grande Criador de todos os Mundos. Embora esses dois termos estejam relacionados com o mesmo estado de Ser, de forma semelhante o Sagrado Anjo Guardião está relacionado com dois conceitos que não podem existir um sem o outro – o Conhecimento e a Conversação. Para nós, o conceito de Grande Arquiteto é muito mais importante do que o Grande Criador, que fez a Árvore da Vida. A ênfase está no Arquiteto que concedeu o seu projeto e medida da nossa realidade. Assim, na próxima vez em que você ler um documento sobre a Maçonaria, tente olhar para o Grande Arquiteto do ponto de vista da nossa Arte. Este é um grande mistério.

Pergunta: Ele é uma alusão ao Demiurgo?

Resposta: Eu não sei. Nem tampouco me encontrei com o Grande Arquiteto. Mas talvez você encontre e depois me conte. Poderíamos falar mais sobre isso, mas eu realmente não sei. O que você disse faz muito sentido, mas se é verdade aí já é outra coisa. Tudo pode estar relacionado ao Demiurgo, falso criador; então você deve primeiro encontrar o verdadeiro Criador para fazer uma distinção entre a verdade e a mentira. Este é um bom assunto para se discutir.

A propósito, quero fazer uma correção importante. Sephira denota uma única ideia. O plural é Sephiroth, assim Kether, Chokmah e Binah não são Sephira, mas sim Sephiroth. Esta é apenas uma correção gramatical que não faz mal aprender. Percebi isso ouvindo você usar os termos cabalísticos, então eu só queria chamar a atenção para isso.

Agora vamos combinar as ideias de Sephiroth e Demiurgo. O que descobrimos? Alguém tem um palpite? Alguém tem uma resposta? É Qliphoth, o termo mais difícil para todos os Aspirantes. Toneladas de livros foram escritos sobre o assunto, mas ninguém deu uma resposta clara o suficiente. Porque Qliphoth é precisamente o oposto da clareza. Temos muito pouco tempo para discutir sobre Qliphoth do ponto de vista do Kuṇḍalinī Yoga e do pensamento oriental. Mas podemos abordar o assunto da posição Thelêmica e fazer observações sobre as Qliphoth do ponto de vista de Thelema. Cada esfera tem seu lado do dia e da noite, se assumirmos que a luz causa isso. Ninguém lhes disse que esses círculos na Árvore da Vida são na verdade Esferas. Ninguém realmente coloca a Árvore da Vida em três dimensões. A Árvore da Vida atualmente não tem o conceito de profundidade entre as Sephiroth, apenas a altura e a largura. Mas é uma excelente oportunidade para pensarmos sobre isso.

É como as constelações. Ao olhar a partir de um ponto de vista limitado na Terra, as constelações assumem a forma de figuras míticas em duas dimensões, mas se as mesmas estrelas fossem observadas do outro lado, seria uma imagem completamente diferente. Isso não quer dizer que as constelações estão mudando, assim como a Árvore da Vida não pode ser alterada. Nossa posição está mudando, nossa consciência muda e assim também a nossa visão do mesmo Universo que observamos anteriormente. Pensem nisso. Qliphoth é a nossa incapacidade de aceitar a constância da Árvore da Vida com a nossa Mudança, e eu vou ser ainda mais insolente ao dizer que Qliphoth nada mais são que a imobilidade e o retardo da Mudança. Portanto, toda e qualquer verdade que existe por mais de um momento é Qliphah. Cada um de vocês individualmente aqui, inclusive eu, é uma Qliphah. A única constante é a constante da Mudança. Este é um dos símbolos essenciais do Budismo (Yin e Yang), como para nós é o número 93. E o que realmente é a repetição interminável deste número em nossas correspondências? Se apenas 1% de nós, que escrevemos este número tão devotamente o tempo todo, na verdade soubesse sua Verdadeira Vontade, estaríamos cercados por milhões de Adeptos. Mas não estamos. Esse 93 significa uma mudança de acordo com a Verdadeira Vontade. Mas se não temos conhecimento da Vontade, como é que vamos Mudar alguma coisa? Mudar. Esta mudança é mostrada no glifo do Yin e Yang. No Ocidente, conhecemos isso melhor como a Suástica, como uma das mais antigas formas de cruz. Na verdade, essa é a cruz que está se movendo e mudando.

Este foi um breve resumo do entrelaçamento dos caminhos ocidental e oriental. Agora vamos avançar para outras questões.

Pergunta: O triângulo de ponta para cima no hexagrama deve ser sempre azul?

Resposta: Quando o Dominus Liminis faz o Juramento de Adeptus Minor, ele pode ter o Conhecimento, mas ele não tem a Conversação. Para ouvir o que está sendo dito para você de longe, você precisa aquietar o ambiente. Aquietar o ambiente ou a atenção que nos torna conscientes do ambiente. Você reconhecerá que o primeiro método é o caminho da Magia e o segundo é o caminho do Yoga. Na verdade, tudo o que você quis ou fez anteriormente já se foi, agora só cabe a Deus responder às suas orações. Agora não tem mais nada a ver contigo. Você espera a resposta da carta que você acabou de enviar. Paradoxalmente, a consecução do Adeptus Minor não é para você. Não há aspirações que possam levar a ela. Você só pode abrir o Véu e ver o que está por trás. É por isso que os cabalistas conceberam uma ideia sobre partes da Árvore que não podem ser vistas. E essa é a ideia das Qliphoth e dos Véus. Naturalmente, estas são apenas palavras; a verdade é muito mais simples.

Pergunta: Qual é a semelhança entre o Hīnayāna e o Caminho do Meio?

Resposta: O Caminho do Meio é parte do sistema. Hīnayāna é o próprio sistema. E ele pode só ter uma ideia do Caminho do Meio. Pessoalmente, eu não saberia fazer boas analogias. Na definição do ser e da consciência que está presente no Hīnayāna, ele ainda é um sistema filosófico. O Caminho do Meio é mais prático.

Pergunta: E o Zen?

Resposta: Eu poderia falar até amanhã sobre isso, mas eu tenho medo que eu não possa dizer nada de inteligente.

Pergunta: Existe alguma coisa que você possa nos dizer sobre o modelo junguiano da Sombra em relação à ideia das Qliphoth?

Resposta: Sua observação provavelmente é melhor do que a minha. Talvez seria melhor se eu começasse com esse aspecto. Você deve entender que quando alguém ensina, ele tem um grande desconhecido diante dele. Eu tinha que falar sobre temas abstratos, mas ainda assim ser pelo menos um pouco concreto. Eu vejo que vocês estão todos ansiosos a respeito das Qliphoth. Talvez seja melhor ter um dia adicional. A ideia de Qliphoth é muito melhor compreendida tomando cerveja em Copacabana. Falaremos sobre isso mais a fundo mais tarde. Vou parar por aqui.

Traduzido por Frater A.N.V.