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Prefácio

Este livro foi previamente intitulado Doze Passos para a Iluminação Espiritual. Na medida em que se pretendia ser um manual delineando um curso prático a ser percorrido por um período de pelo menos doze meses, esse título parece um pouco presunçoso. Minha intenção original era chamá-lo de O Manual de Um Ano. O título descreve a natureza do livro sem pretensões, suposições ou afirmações exageradas.

Várias experiências se abarrotaram em minha mente, não apenas sobre o título, mas também pelas referências cristãs que eram realmente muito diferentes de minha percepção. O primeiro golpe veio quando uma psicóloga que mora na Flórida se correspondeu comigo sobre alguns de meus outros livros. Então ela esbarrou com o Doze Passos para a Iluminação Espiritual. Ele a irritou tanto que ela me escreveu muito enfaticamente sobre sua desaprovação. Honestamente, não havia nada que eu pudesse fazer, a não ser escrever de volta concordando com ela e admitindo que eu também não tinha grande simpatia por essas referências cristãs.

Algum tempo depois disso houve um editorial em uma pequena revista britânica chamada de Agape, com cujo editor ocasionalmente eu mantinha correspondência. Este editorial foi o mais crítico tanto sobre mim quanto sobre o livro. Isso me fez perceber a grandiosidade do meu erro e quão longe eu havia fugido do que realmente era aceitável para mim.

Houve vários outros que martelaram no mesmo prego.

O erro consistia simplesmente de ser muito suscetível às sugestões de amigos bem-intencionados. A afirmação deles era de que a inclusão de alusões thelêmicas, egípcias e outras referências pagãs, poderiam ser difíceis de ser aceitas por alguns leitores. Hoje me incomoda um pouco admitir que eu fui influenciado por este argumento enganador. Também foi sugerido que se itens cristãos substituíssem os acima, isso asseguraria uma circulação e venda maior deste livro.

O resultado de tudo isso é a revisão do livro na forma originalmente pretendida, antes que amigos próximos e queridos sugerissem modificações de um tipo ou de outro. A maioria do material é idêntica ao do Doze Passos. No entanto, a inclinação é totalmente diferente e pode apelar a um grupo diferente de estudantes. Em sua forma atual ele se aproxima mais de minha intenção original, e assim está mais ao meu gosto.

Como foi afirmado anteriormente, este manual delineia um curso prático que deve se estender por um período de pelo menos doze meses. Teoricamente, ele foi projetado para o estudante ideal. No entanto, como não há tal “ideal”, cada estudante representa um problema diferente. Cada um é uma personalidade única com sua própria estrutura de caráter, suas idiossincrasias próprias e sua própria maneira de resolver problemas em um determinado período de tempo. Não existem dois estudantes iguais.

Sob estas circunstâncias, deve ser evidente que, embora projetado para um período de doze meses, é mais provável que o estudante possa precisar gastar uns bons cinco anos trabalhando com estes métodos simples. Alguns exercícios podem ser completados e dominados no mês prescrito. Outros procedimentos podem exigir algo entre três meses e um ano antes que qualquer domínio real ou resultado perceptível seja alcançado. Portanto é importante estressar a paciência como uma necessidade suprema no que diz respeito a este curso de estudo. Alguns exercícios têm como um ganho secundário a aquisição de um maior grau de paciência.

Essas injunções simples exigem pouca elaboração. Não se apressar seria a máxima ideal para que todos os estudantes adotassem quando começassem a estudar e praticar este esquema. Isso pagará ótimos dividendos no final.

Seria de infinito valor se, durante a execução destes exercícios, o estudante mantivesse o que eu proponho chamar de um Diário. Em procedimentos contábeis, o Livro Diário é um registro no qual são lançadas todas as transações do dia, independentemente do que elas são. Neste Diário, ou Livro de Trabalho, que estamos considerando, o estudante deve manter um registro detalhado de todas as práticas com as quais ele se envolve. Imediatamente após a realização de cada exercício, ele deve gastar alguns minutos de sua próxima tarefa a fim de escrever os registros neste Diário. Ele deveria anotar a data e a hora do dia, o exercício em particular que praticou, quantos minutos foram dedicados a ele, o que ele sentiu sobre a maneira pela qual ele procedeu, quaisquer experiências que possam ter ocorrido, e finalmente, a sua avaliação do próprio período. Pode até ser que valha a pena registrar alguns dados adicionais, como o tipo de clima predominante, a temperatura dentro do ambiente em que ele está trabalhando e o estado emocional geral, etc.

Se este Diário for escrupulosamente mantido, no término de um ano, independentemente de ele ser visto ou examinado por qualquer outra pessoa, o estudante eventualmente será capaz de contemplar seus esforços com razoável objetividade. Pode vir como uma distinta surpresa ler alguns de seus comentários iniciais sobre as suas primeiras experiências e esforços. Ele pode até perceber um padrão psicológico através de todos os seus exercícios e quaisquer resultados que floresçam a partir deles. Considerável introspeção pode ser obtida daí. Portanto, a manutenção do Diário é uma questão de primordial importância. Deve ser dada atenção meticulosa a ele desde o começo.

O estudante do oculto, no início de seus estudos, é cercada por centenas de livros que descrevem dezenas de práticas de todo tipo. Eles prometem, diretamente ou não, conduzi-lo às próprias alturas da consecução espiritual, não importa como essa consecução é definida. Mas ele é oprimido pela própria abundância de material. E no geral o resultado é que ele não faz nada exceto ler. Ler ajuda muito pouco em trazer-lhe a qualquer tipo de realização de sua natureza divina.

Neste manual, propõe-se carregar o estudante com muito pouca teoria, mas também esboçar um curso de procedimentos que, se feitos com persistência por pelo menos doze meses, lhe conduzirão a uma boa altura do Caminho. Este curso de procedimentos descreverá certo número de práticas clássicas que foram elaboradas para produzir certos tipos de resultados. Não haverá nenhuma tentativa de deslumbrá-lo com promessas surpreendentes, mas vagas, com fantasias de grandes realizações, com alegações enganosas levando a lugar nenhum.

Eu simplesmente sugiro que essa prática ou aquela, quando fielmente executada, deverá produzir tal e tal resultado. A velocidade com que tais resultados são obtidos naturalmente deve variar de acordo com cada estudante. Cada ser humano é diferente, embora construídos mais ou menos na mesma base anatômica, fisiológica, psicológica e espiritual. Mas dentro dessas áreas há espaço para uma variedade de diferenças. Tais diferenças determinarão se ele consegue trabalhar rapidamente, concentradamente, dinamicamente, lentamente, metodicamente, imaginativamente, ou sem qualquer visão real de aonde está indo. Mas se este programa for seguido, com certeza no final de um ano ele se achará uma pessoa mudada, com uma perspectiva bastante alterada sobre a vida, uma melhor percepção de si mesmo, e capaz de sofrer algum tipo de disciplina interior que em última análise o levará ao longo da trilha que os antigos gigantes espirituais trilharam.

Pode ser que quando essa hora chegar, ele possa se achar mais capaz de apreciar os sistemas de treinamento mais complexos descritos em duas enciclopédias ocultistas que eu editei. A primeira, e mais antiga, é A Aurora Dourada (Editora Madras). Um sistema de treinamento profundo e mais eficaz é descrito em grandes detalhes. Com a sua sensibilidade e disciplina recém-descobertas, o estudante pode descobrir que isso não é mais tão misterioso ou opressivo como uma vez pode ter parecido. A enciclopédia mais recente é a Gems from the Equinox. Este é composto por instruções mágicas belamente escritas por Aleister Crowley para sua própria Ordem ocultista, a A∴A∴. Eu conheci muitos estudantes ao longo dos anos que, tendo lido estas instruções, por um ou mais motivos, foram dissuadidos, achando-as inteiramente e demasiado complicadas ou difíceis ou ininteligíveis. Acredito que tendo concluído o curso de treinamento descrito neste manual de um ano, o aluno pode se achar muito mais preparado para adotar as disciplinas que Crowley recomendou. Na verdade, eu prefiro imaginar que o Probacionista da A∴A∴ de Crowley poderia achar que este manual é da máxima importância para prepará-lo para o avanço ao Grau de Neófito. Nenhum desses dois Graus deve representar qualquer grande problema ou dificuldade insuperável para o estudante que primeiramente dominou as disciplinas mais simples descritas aqui.

Israel Regardie


Traduzido por Frater S.R.