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Passo 3:
Respiração Rítmica

Após praticar os exercícios de consciência e relaxamento, a atenção pode ser voltada à respiração. Primeiramente, pode-se afirmar dogmaticamente que poucos de nós respiram adequadamente. O exercício anterior deve ter demonstrado a existência de tensões massivas no peito inteiro, e nas áreas diafragmáticas e abdominais do corpo. Essas tensões dificultam o processo de respiração. Autoconsciência e relaxamento terão modificado estas tensões, se não inteiramente, pelo menos em parte.

A auto-observação também terá revelado que muitos de nós respiramos apenas com a parte superior dos pulmões. Por exemplo, homens que usam cintos apertados descobrirão que eles são forçados a respirar com a região superior do peito porque o diafragma e o abdômen são comprimidos pelo cinto apertado. Por outro lado, as mulheres que usam sutiãs apertados podem descobrir que o esforço envolvido em erguer o peito contra a forte pressão da parte elástica do sutiã é muito grande, de modo que é mais fácil usar a área do meio ou inferior dos pulmões. Além disso, aqueles com graves problemas emocionais terão descoberto que invariavelmente todo o processo de respiração é dificultado pela enorme tensão muscular, resultando em uma oxigenação muito pobre — e, portanto, vitalidade muito baixa.

A atenção dada à respiração no Caminho da Iluminação tem como um de seus objetos a erradicação do máximo de tensão neuromuscular possível e, portanto, a intensificação da energia e da vitalidade. É feita uma tentativa para regular o processo de respiração de uma forma rítmica. Sua necessidade surge a partir da seguinte noção: se a vida é toda uma, penetrando tudo e permeando tudo, então o que seria mais razoável do que o próprio ar que respiramos de um momento a outro ser altamente carregado de vitalidade? Desta forma nosso processo de respiração é regulado sobre a base de que a vida é o princípio ativo na atmosfera, não importa se nós o chamamos de oxigênio, prana ou qualquer outra coisa.

Durante a prática desta respiração rítmica em períodos fixos do dia — pelo menos duas vezes por dia, e por não mais que 10 minutos de cada vez — não deve haver nenhum esforço extenuante da mente, nenhuma sobrecarga da vontade. Todo esforço deve ser suave e gentil; então a capacidade é obtida. Deixe que o ar flua para dentro enquanto mentalmente conta muito lentamente... um, dois, três, quatro. Depois expire contando nesse mesmo ritmo quádruplo.

É fundamental e importante que o ritmo inicial começado, seja de contar até quatro ou até dez, ou qualquer outro ritmo conveniente, seja mantido pelos dez minutos previstos. É o próprio ritmo que é responsável pela absorção imediata da vitalidade de fora, e pela aceleração do poder divino de dentro.

Ao trabalhar no desenvolvimento da respiração rítmica, o estudante não deveria rejeitar a possibilidade de utilização de dispositivos mecânicos. Nas fases de abertura de autodisciplina, o estudante precisa de toda ajuda que puder obter. Eu gostaria de sugerir o uso de um dos metrônomos elétricos modernos ligado a um temporizador como sendo extremamente útil. A combinação destes dois instrumentos realizará o seguinte:

  1. Estabelecer um limite automático para a sessão de prática.
  2. Eliminar a ansiedade quanto à duração da sessão.
  3. Permitir um compasso rápido ou lento no metrônomo que se pode seguir no padrão de respiração.
  4. Ele pode ser ajustado para produzir um clique alto ou baixo.
  5. Ele fornece um som estranho, mas não supérfluo, no qual é possível se concentrar ao desenvolver a respiração rítmica.

Portanto uma série de coisas é realizada de uma só vez. Também pode ser observado que quando o estudante aproxima-se do desenvolvimento de um mantra de qualquer tipo para acompanhar a respiração rítmica, achará o metrônomo da máxima utilidade.

Na verdade, este tópico do mantra poderia muito bem ser tocado de leve neste momento. Um mantra clássico cristão é o “Senhor Jesus Cristo, tende piedade de nós”. Não importa se você deseja que nosso Senhor tenha piedade de você ou não. Nem sequer importa se você acredita ou não em Jesus. O assunto em questão é que estas palavras podem ser postas em um tipo de compasso a ser passeado pelo metrônomo que por sua vez regula o tempo do ritmo da respiração.

Assim, por exemplo, na inalação em um ritmo de quatro vezes lento, o estudante que simpatiza com os mitos cristãos pode silenciosamente entoar “Senhor… Jes… us…Cristo” em um ciclo, e na expiração “tende… misericórdia… de… nós” como o segundo ciclo. Só será necessário um pouco de prática para que o mantra siga. Se for preciso alguma ajuda, o estudante pode bater o dedo em ritmo com o metrônomo. Ou as duas frases poderiam ser ditadas em um gravador de voz, que pode ser reproduzido de novo e de novo, até que o ritmo e o mantra sejam dominados. Isso é relativamente fácil de adquirir, e os resultados obtidos valem a pena o pouco tempo e energia que são gastos para seu domínio.

Na tentativa de nos sintonizarmos novamente com a força inteligente espiritual em toda a natureza, nós tentamos não cegamente copiar, mas racionalmente adotar, os seus métodos. Portanto faça a respiração rítmica em determinados momentos fixos do dia, quando há pouca probabilidade de ser perturbado.

Cultive além de todas as outras coisas, a arte do relaxamento. Uma grande ênfase será dada neste processo. A prática do método anterior de auto-observação ajudará em muito a dominar essa arte. Quando algum grau de relaxamento for alcançado, então você deve começar o seu exercício de respiração rítmica, lentamente e sem pressa. Gradualmente, conforme a mente se habitua à ideia, os pulmões espontaneamente pegam o ritmo. Dentro de alguns minutos isso se tornará automático. Então todo o processo se torna extremamente simples e agradável.

Simples como é, o exercício nunca deve ser desprezado por pressa de começar com procedimentos mais complicados ou avançados. Grande parte desse sistema de um ano depende do domínio desta técnica muito fácil. Domine-a primeiro. Assegure-se da profundeza do seu relaxamento, e então prossiga com a respiração rítmica.

Seria difícil superestimar sua importância ou eficácia. Conforme os pulmões pegam o ritmo, automaticamente inalando e exalando de acordo com determinada batida, assim também eles o comunicam e o estendem gradualmente a todas as células e tecidos circundantes do corpo. Assim como uma pedra atirada em um lago envia ondulações que se expandem largamente e círculos concêntricos de movimento, o mesmo acontece com o movimento dos pulmões. Em poucos minutos sentir-se-á todo o corpo vibrar em harmonia. Logo todo o organismo passa a se sentir como se fosse uma bateria de armazenamento inesgotável de energia. A sensação – e deve ser uma sensação, não uma mera fantasia – é inconfundível.

Uma justificativa para este tipo de respiração pode ser encontrada nessas teorias:

Primeiro, a absorção de grandes quantidades de oxigênio tem um efeito distinto sobre as glândulas endócrinas que sofrem um estímulo enorme. Isto pode ser principalmente devido à maior circulação de sangue que resulta das excursões rítmicas do diafragma.

Segundo, em seu livro Raja Yoga, o falecido Swami Vivekananda forneceu uma explicação admirável do efeito da respiração regulada, que fortalece e estimula a Vontade numa mais formidável concentração de poder. Resumidamente, sua teoria é que fazendo com que todas as células do seu corpo vibrem em uníssono, como o fazem durante a respiração rítmica, uma poderosa corrente elétrica de vontade ou energia espiritual é instituída no corpo e na mente.

Terceiro, a Vontade é submetida a um treinamento sério. Qualquer indivíduo que tenha tentado exercícios de respiração, mesmo que por alguns minutos, entenderá o que quero dizer. A primeira vista é difícil imaginar algo mais tedioso, trabalhoso e cansativo do que este simples exercício. Ele invoca o empenho de toda a determinação para continuar. Ao fazê-lo, o indivíduo é levado abruptamente a encarar a inércia e lassitude pela qual ele vive, exigindo muita disciplina e auto conquista para persistir nesta tarefa designada. Isso se torna mais fácil com a maestria e o surgimento de considerável prazer corporal.

Em todo caso, se o estudante não obtiver nenhum resultado técnico descrito nos livros, ele terá pelo menos conquistado um aumento imensurável de força de vontade e propósito indomável ao ter treinado a si mesmo para superar sua própria preguiça. “Aprender a auto conquista é, portanto, aprender a viver, e as austeridades do estoicismo não eram ostentações vãs da liberdade. Resistir e superar a natureza é conseguir para si uma existência pessoal e imperecível; é libertar-se das vicissitudes da vida e da morte”, assim escreveu Eliphas Levi cerca de um século atrás.


Traduzido por Frater S.R.