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Thelema e as Projeções Psicológicas

[Publicado originalmente na revista In The Continuum, Vol. 1 Nº 3. O texto original não possui título. Todos os escritos de Phyllis Seckler estão sob © do The International College of Thelema, e não podem ser reproduzidos sob qualquer forma sem permissão por escrito. Todos os direitos reservados. Por favor acesse http://intcot.org para mais informações.]

Care Fratre,

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Vamos dar uma olhada na frase acima. Parece simples, mas para alguns sua simplicidade é tão difícil que eles são incapazes de viver de acordo com esta injunção. Há muitas passagens no Liber Aleph de Crowley que lidam com este problema. Na verdade, faze o que tu queres é a primeira tarefa de todo Thelemita.

Não só você deve aprender a fazer sua própria vontade como também deve permitir que outros realizem suas vontades. Tomemos como exemplo a simples questão da crítica de outro. Entre os Thelemitas deveria ser entendido que a crítica implica que o crítico deseja que a outra pessoa se comporte de acordo com o código do crítico. Em outras palavras, o crítico está obstruindo o fluxo livre da Vontade do outro. Ele está construindo um padrão que é seu (o padrão crítico) e o está aplicando à outra pessoa. Não nos é dito em Liber AL vel Legis que – “Nada amarreis! Que não haja diferença feita entre vós entre qualquer coisa ou qualquer outra coisa; pois daí vem sofrimento”. Cap. I, v. 22.

Por favor, entenda que eu não estou de forma alguma me referindo ao que acontece entre o guru e o chela – quando o guru pode ter que usar uma crítica construtiva em determinados casos muito obstinados. Este tipo de trabalho – dificilmente a crítica – é baseado no conhecimento que o guru pode ter dos vários fatores na natureza do chela que estão obstruindo o Caminho deste ao Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião.

Não, eu estou falando sobre a variedade diária de crítica em que todos os muitos supostos Thelemitas podem ser tentados a entrar. Eu tenho visto um monte disso, e isso é especialmente abundante nas Ordens de vários tipos ou em certos tipos de grupos religiosos. Todos formulam sua própria ideia do ideal, e então começam a pedir que outra pessoa viva de acordo com esta ideia. Você percebe agora o motivo para segurar a língua? Se você terá a liberdade de fazer a sua vontade, então você deve dar essa liberdade ao outro. Citemos Liber Aleph, p. 193

“DE EADEM RE ALTERA VERBA

POR esta Compreensão sejam refutados aqueles que fazem uma Crítica à nossa Arte, dizendo em sua Insolência que se nós temos todo Poder, porque então às Vezes estamos sob Pressão de Pobreza, e em Desprezo dos Homens, e em Dor de Doença, e assim por diante, zombando de nós, e considerando nossa Magia uma Ilusão. Mas eles não veem a nossa Luz, como ela nos guia em nosso Caminho para um Alvo que não está na Compreensão deles; de forma que nós não cobiçamos aquilo que lhes parece a única Comida e Conforto na Vida. Também, isto que nós alcançamos, se bem que seja a Essência de Onisciência e Onipotência, impregna e move o Mundo Material (por assim chamá-lo) somente de acordo com a Natureza daquilo que ali está. Pois a Luz do Sol (pela própria Complecção d’Ele) mostra uma Rosa vermelha, mas uma Folha verde; e seu Calor reúne as Nuvens, e também as dispersa. Assim Eu então, se bem que Eu fosse perfeito em Magia, não poderia trabalhar em Metais como um Ferreiro, ou me tornar rico no Comércio como um Negociante; pois Eu não tenho em minha Natureza as Máquinas próprias a estas Capacidades, e portanto não é de minha Vontade buscar exercitá-las. Aqui então está o meu Caso: que Eu não posso porque Eu não quero; e haveria Conflito se Eu me dedicasse àquilo. Mas que cada Homem se torne perfeito em seu próprio Trabalho, sem ligar à Crítica de outro, que algum Caminho não o seu é mais Nobre, ou mais Lucrativo; mas persistindo em Tratar da sua própria Vida”.

Nessa linha, observo que toda pessoa, quando possui apenas um pouco de desenvolvimento, vê o mundo e os outros através de uma janela estreita. Esta janela é a própria natureza. Como aspirantes à Iniciação, eles formulam em si próprios uma ideia de como uma pessoa Iniciada deveria ser. Esta ideia não é outra senão a ideia do próprio Eu Superior que irrompeu na vida mental e consciente. Nós também podemos usar termos Junguianos e rotulá-los como a Anima ou Animus, que Jung afirma que é uma ponte para o conhecimento do Divino. Eles são as ideias de tudo o que é bom ou verdadeiro ou do mais alto que possamos conhecer. O aluno que encontrou um guru ou um professor imediatamente começa a projetar a sua própria ideia de seu Eu Superior sobre o guru, e começa a exigir que o guru viva de acordo com esta ideia! Se o guru for bem diferente das ideias do aluno, haverá muita decepção. Pior, o estudante pode estar prejudicando seriamente o guru em sua função, pois se o guru não diz o que o estudante espera ouvir, há muito problema. Pior ainda, o estudante não está permitindo que outro viva em liberdade. Thelema não é uma Lei de Liberdade? Por esta razão, a posição de professor ou guru pode ser uma posição muito perigosa para qualquer um que não esteja firmemente estabelecido em sua própria Vontade. Considere quão pouca liberdade é concedida a figuras públicas – seja ela Presidente ou Ministro, Diretor de uma Escola, estrela de cinema ou qualquer outra na vida pública, que deve arcar com o ônus das projeções públicas. Considere as cartas venenosas que essas pessoas recebem de pobres almas dementes especialistas na projeção que não conseguem perceber que desejam conduzir dos outros o que é apropriado apenas para si mesmas.

É de se admirar que o Sábio deseje permanecer desconhecido? A menos que, de fato, seja sua Vontade ensinar ou trazer uma Nova Palavra à humanidade.

Além disso, esse hábito da projeção de suas próprias características sobre o outro pode ter consequências fatais. Que tal quando toda a nação alemã projetou suas frustrações em um homem como Hitler? Ou quando o sexo reprimido é ligado com a morte e nós temos um linchamento?

A mesma coisa acontece com o primeiro amor. De fato, algumas pessoas estão sempre à procura de seus Eus Superiores (para o Anima ou Animus) no sexo oposto. Por esta razão eles estão cegos para a Verdadeira Natureza do Amado. Assim como elas poderiam estar cegas para a Verdadeira Natureza do guru. É claro que eles nunca encontrarão o Anima ou o Animus ou o Eu Superior em outra pessoa. Isso seria uma impossibilidade contra a Natureza. Cada pessoa é uma estrela em e de si mesma. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Liber AL vel Legis, Cap. I v. 3. Às vezes essas pessoas se desapontam porque não conseguem encontrar o Verdadeiro Eu no outro. Cedo ou tarde o amado insiste em ser ele mesmo. Tais decepções podem levar a mais e mais casamentos, ou a pessoa pode se recusar a casar e querer apenas “aproveitar a vida”. Tal pessoa nunca cresce ao ponto em que possa confrontar a si mesma. No caso da procura de um guru adequado que combinará em si todos os ideais que o estudante deseja para si mesmo, isso pode levar o aluno a se juntar a uma Ordem Oculta atrás da outra, na esperança de que estando em outra, ele possa então alcançar a Iniciação mais rapidamente.

O que é necessário em todas as situações do gênero é uma compreensão mais completa da própria natureza, e um processo de amadurecimento que o leve a conhecer e ser o seu próprio Eu Superior. É o caminho de um escravo e de um covarde não perceber que os ideais que projeta sobre o outro são seus próprios ideais, e não necessariamente pertencem ao outro. Além disso, exigir ou até mesmo pensar que outra pessoa devesse viver de acordo com seus próprios ideias é uma séria tentativa de escravizar e atrapalhar a outra pessoa em sua verdadeira natureza. Aqui vemos a raiz da razão pela qual os níveis mais baixos da humanidade desejam puxar o gênio para baixo, para os seus próprios níveis. A pessoa não desenvolvida não consegue reconhecer suas próprias projeções, sejam eles da variedade maior ou menor, e assim, quando elas sabem de outras pessoas que vivem acima das leis de sua mente fechada, elas temem tal liberdade e desejam puxar o gênio para o seu próprio nível de pensamento. Esta é uma razão pela qual o Livro da Lei declara: “Vós sois contra o povo, ó meus escolhidos!” Cap. II, v. 25. Para ramificações deste problema pode lhe ser muito proveitoso estudar Nietzsche e, especialmente, o seu Assim Falou Zaratustra.

A propósito, é uma marca de uma religião de escravos se é esperado que todo mundo chegue aos ideais do fundador daquela religião. O cristianismo é um bom exemplo disso. Ou talvez eu pudesse dizer igrejismo?

Às vezes penso que Crowley agiu deliberadamente para romper alguma projeção ou outra nas quais seus estudantes estivessem pensando. Por isso, ouvimos histórias estranhas sobre o seu comportamento com os outros. Não deveríamos considerar que isso pudesse ter sido um de seus motivos para agir assim? Consultemos Liber Aleph mais uma vez, páginas 147 e 148.

“DE MYSTERIO MALI

ALÉM disto, não digas em teu Silogismo que, desde que qualquer Mudança, seja ela a Criação de uma Sinfonia ou de um Poema, ou a Putrefação de uma Carcaça, é um Ato de Amor, e desde que nós não devemos fazer Diferença entre qualquer Coisa e qualquer outra Coisa, portanto todas as Mudanças são iguais com Respeito ao nosso Apreço. Pois se bem que isto é uma Conclusão correta em Termos da tua Compreensão como Mestre do Templo, no entanto ela é falsa aos Olhos daquele que ainda não atingiu à Compreensão. Portanto, qualquer Mudança (ou Fenômeno) parece nobre ou vil à Mente imperfeita, na proporção da sua Consonância e Harmonia com a Vontade que governa aquela Mente. Assim, se for tua Vontade te deleitares em Ritmo e Economia de Palavras, o Anúncio de uma Comodidade pode te ofender; mas se tu estás necessitado daquela Mercadoria, tu te regozijarás com o Anúncio. Elogia então ou culpa qualquer Coisa, como te parecer melhor; mas com esta Reflexão: que teu Julgamento é relativo à tua própria Condição, e não absoluto. Isto é também um Ponto de Tolerância, pelo qual em verdade tu evitarás aquelas Coisas que te são odiosas ou prejudiciais, a não ser que tu possas (em Nosso Modo) conquistá-las pelo Amor, retirando delas tua Atenção; mas tu não as destruirás, pois elas são sem Dúvida o Desejo de outrem”.

“DE VIRTUTE TOLERANTIA

COMPREENDE então de todo Coração, ó meu Filho, que na Luz desta minha Sabedoria todas as Coisas são Uma, sendo do Corpo de Nossa Senhora Nuit; próprias, necessárias, e perfeitas. Nenhuma pois existe supérflua ou prejudicial, e nenhuma é mais honrosa ou desonrosa que outra. Vê! em teu próprio Corpo, o vil Intestino é de mais Valor para ti que a nobre Mão ou o altivo Olho; pois tu podes perder estes e viver, mas não aquele. Estima pois cada Coisa em Relação à tua própria Vontade, preferindo a Orelha se tu amas a Música, ou o Paladar se amas o Vinho; mas os Órgãos essenciais à Vida acima destes. Respeita também a Vontade do teu Próximo, não o impedindo em seu Caminho salvo quando ele te obstruir demasiado no teu. Pois pela Prática desta Tolerância tu chegarás mais cedo à Compreensão desta [Equidade] de todas as Coisas em Nossa Senhora Nuit; e assim à alta Consecução do Amor Universal. Entretanto, em tua Ação parcial e particular, como tu és uma Criatura de Ilusão, mantém a reta Relação de uma Coisa com outra, lutando se tu és Soldado, ou construindo se tu és Pedreiro. Pois se tu não manténs firme esta Disciplina e Proporção, que permite sua verdadeira Vontade a toda Parte do teu Ser, o Erro de uma carregará as outras todas após si à Ruína e à Dispersão”.

É claro que você observou a forma como toda pessoa procurará e fará amizade com aqueles que mais se aproximam de seus próprios ideais e tipo de pensamento. Além disso, você sabe por sua experiência cotidiana como aqueles que se desviam das próprias capacidades mentais são criticados e evitados. Por este meio nós também nos escravizamos conforme construímos uma cerca de mal-entendidos ao nosso redor. Nós nos recusamos a aprender com uma grande parte da humanidade porque eles não são como nós.

Na verdade, todo contato que se tem com seus seres semelhantes pode se tornar uma lição de magnitude maior ou menor. Todo contato foi livremente desejado que se começasse pela alma, assim como foram desejadas as circunstâncias do nascimento e da morte. A vida é uma escola – é uma vivência da Vontade. Isso não pode ser tão bem expressado quanto é em Liber Aleph, p. 144.

“DE HARMONIA VOLUNTATIS ET PARCARUM

ESTE é o evidente e definitivo Solvente do Nó Filosófico concernente a Destino e Livre Arbítrio: que é teu próprio Ser, onisciente e onipotente, sublime em Eternidade, que primeiro ordenou o Curso da tua própria Órbita; de forma que aquilo que te acontece por Destino é na Verdade o Efeito necessário da tua própria Vontade. Estes dois, então, que qual Gladiadores se tem guerreado na Filosofia através destes muitos Séculos, são feitos Um pelo Amor sob Vontade que é a Lei de Thelema. Ó meu Filho, não existe Dúvida que não se resolva em Certeza e Êxtase ao Toque da Baqueta da nossa Lei, se tu a aplicas com Discernimento. Cresce constantemente na Assimilação da Lei, e tu te tornarás perfeito. Contempla, há um Cortejo Triunfal à medida que cada Estrela, livre de Confusão, move-se livre em sua reta Órbita; o Céu inteiro te aclama enquanto vais, transcendental em Alegria e Esplendor; e tua Luz é como um Farol para aqueles que vagam longe, perdidos na Noite. Amoun”.

Já que este assunto de projeção é tão comum e tão pouco compreendido pela maioria das pessoas, eu sugiro que você faça um registro dos momentos em que você esperou que os outros agissem do jeito que você pensa e sente. Por que as ações de alguém te deixam com raiva? Você não ficaria zangado se você não tivesse a tendência em si mesmo, pois nós não reconhecemos aquilo que nunca tivemos como parte de nós mesmos. Todos os eventos que causam uma forte reação emocional ou mental podem ser analisados como revelando você a si mesmo. Assuma a responsabilidade por suas reações, pois este é o seu espelho para a natureza e a vida. A chave do teu ser está aqui. Se as projeções não forem controladas e compreendidas, se o aspirante à iniciação não conhece a natureza de seu próprio Ser, então ele estará numa posição realmente perigosa quando os seus próprios demônios voltarem para casa pousar.

Há grande perigo de que a pessoa obcecada pelo conteúdo de seu próprio inconsciente possa projetar a natureza demoníaca de seu próprio eu sobre outras pessoas ou até mesmo sobre entidades desencarnadas. Ela pode afundar sob o horror das áreas reprimidas do inconsciente. Ela pode tornar-se enlouquecida. Todos os seres humanos são compostos de fatores positivos e negativos, pelo demônio e pelo anjo, pela besta e pelo homem. Então a primeira tarefa Daquele que Vai, é Compreender a Si.

De fato, até que você compreenda a si mesmo, você não está apto a ensinar os outros, pois então você teria uma tendência de fixar suas próprias projeções, boas ou más, sobre os estudantes. Acho que você pode deduzir de toda essa explicação o quão perigosos certos professores “ocultistas” podem se tornar para alunos incautos. Esta é uma lâmina de dois gumes, com certeza. Por esta razão, Crowley disse que ninguém estava apto a ensinar, a menos que seja um 5=6(ou, em outras palavras, tenha alcançado o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião).

Esta Senda até o C. e C. do S.A.G. é tão pessoal que qualquer professor informado se arrepiaria de ditar qualquer parte do caminho. Toda pessoa deve crescer por conta própria. Toda pessoa, mesmo que o seu ir pareça um tropeçar, deve de alguma forma conduzir a si mesmo a esta realização.

No entanto, Deus acharia difícil habitar um templo mal preparado. “Sabedoria diz: sê forte! Então tu podes suportar mais prazer.” Liber AL vel Legis. Cap. II, v. 70.

Neste sentido, você pode se fortalecer. Você pode analisar as projeções, as emoções, os pensamentos, a fim de que você possa compreender a si mesmo e começar a conhecer a Vontade e realizá-la. Às vezes um professor pode ser útil nestas primeiras etapas, apontando os pontos fracos que podem se tornar grandes obstáculos, ou prescrevendo exercícios físicos e mentais que permitirão que o corpo e a mente suportem o arrebatamento da União com o S.A.G. sem desabar.

Mas lembre-se de que o professor é apenas um espectador do crescimento interior, uma mão amiga, uma pessoa que coloca indicações para um caminho através da floresta. Lembre-se de que o professor não é o seu próprio Eu Superior; mesmo se o tipo de professor que você escolher estiver próximo de sua ideia de Eu Superior! Além disso, lembre-se de que o trabalho a ser feito é de sua própria escolha, assim como foi a escolha do professor. Ambos os eventos lhe darão insights sobre o self.

Em suma, a fim de conhecer a nós mesmos, devemos assumir a responsabilidade por nossos próprios pensamentos e ações e pelos eventos que ocorrem conosco. Você deixou sua vida em um nível surpreendente. Eu acho que essa é uma das marcas de um Iniciado, que ele saiba disso, e sabendo, começa a criar eventos sob Vontade.

Na grande complexidade de nosso ser, precisamos destacar algumas ideias salientes e trabalhar com elas por um tempo para que elas não voltem a nos pegar tão desprevenidos e tão vulneráveis às nossas próprias profundezas inconscientes, repressões que distorcem nosso pensamento e projeções tanto terríveis quanto idealísticas. Por enquanto, vamos trabalhar com o acima, já que pode ser um obstáculo tão grande à Iniciação.

Que você encontre sucesso neste trabalho!

Amor é a lei, amor sob vontade.

Soror Meral

Traduzido por Alan Willms. Os trechos de Liber Aleph foram extraídos da tradução de Frater Adjuvo.