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09 – Cascos de Cavalos

Os cavalos têm cascos para carregá-los por sobre as geadas e as neves e pelo para protegê-los do vento e do frio. Comem relva e bebem água e retesando as caudas, galopam. Tal é a natureza verdadeira dos cavalos. Salões cerimoniosos e grandes mansões não são para eles.

Um dia Polo (famoso treinador de cavalos) apareceu dizendo – “Sei cuidar muito bem de cavalos”. Assim lhes escovou o pelo e os tosquiou, lhes aparou os cascos e os marcou. Pôs-lhes cabrestos pelos pescoços e grilhões em suas pernas e numerou-os, segundo os estábulos. O resultado foi que, em cada grupo de dez, dois ou três morreram. Depois, fê-los passar fome e sede, fê-los trotar e galopar e ensinou-os a correr em formação com a infelicidade de ostentar bridões com borlas na testa e recear o chicote com nós por trás, até que mais de metade morreu.

O oleiro diz “Sei trabalhar bem com o barro. Se o quero redondo, uso compasso; se quero retangular uso o esquadro”. O carpinteiro diz – “Sei trabalhar bem a madeira. Se a quero em curva, uso o arco; se em linha reta, uso a régua”. Mas como é que podemos pensar que a natureza do barro e da madeira desejam a aplicação do compasso e do esquadro, do arco e da régua? Não obstante, durante muitos anos Polo foi exaltado por sua perícia em treinar cavalos, e oleiros e carpinteiros por sua habilidade com o barro e a madeira. Os que dirigem (governo) os negócios do império cometem o mesmo erro.

Penso que aquele que sabe como governar o império não deve fazê-lo. Porque o povo tem certos instintos naturais – tecem as roupas e se vestem, lavram os campos e se alimentam. Esse é o instinto comum do qual todos têm sua parte. Tal instinto pode ser chamado “no Céu nascido”. Assim, nos dias da natureza perfeita, os homens eram calmos nos movimentos e serenos no olhar. Naquele tempo não havia caminhos nas montanhas, nem botes ou pontes sobre as águas. Todas as coisas produziam-se naturalmente. Os pássaros e as feras se multiplicavam; as árvores e os arbustos medravam. Dessa sorte, acontecia que as aves e as feras podiam ser levadas pela mão e podia-se subir e espiar para dentro do ninho da pega. Pois nos dias da natureza perfeita, o homem vivia junto com as aves e as feras e não havia distinção de espécie entre eles. Quem pode saber as distinções entre os gentis homens e os homens do povo? Sendo todos igualmente sem desejos, permaneciam num estado de integridade natural. Nesse estado de integridade natural, o povo não perdia sua natureza (original).

E depois, quando apareceram os Sábios, rastejando por caridade e mancando com o dever, a dúvida e a confusão entraram no espírito dos homens. Eles disseram que era preciso alegrá-los por meio da música e criaram as distinções por meio de cerimônias, e o império dividiu-se contra si mesmo. Sem cortar a madeira bruta, quem faria os navios de sacrifício? Se o jade branco não fosse cortado, quem poderia fazer as insígnias reais da corte? Não sendo destruídos Tao e a virtude, que utilidade teriam a caridade e o dever? Se não se perdessem os instintos naturais dos homens, que necessidade haveria de música e cerimônias? Se as cores não se confundissem, quem precisaria de decorações? Se as cinco notas não se confundissem, quem adotaria os seis diapasões? A destruição da integridade natural das coisas para a produção de artigos de várias espécies – eis a falta do artífice. A destruição de Tao e da virtude a fim de introduzir a caridade e o dever – eis o erro dos Sábios. Os cavalos vivem em terra seca, comem relva e bebem água. Quando lhes agrada, esfregam os pescoços uns nos outros. Quando se encolerizam, viram-se e dão com os cascos uns nos outros. Até aí são apenas levados por seus instintos naturais. Porém, com bridão e freio, com uma placa de metal de feitio de lua sobre suas testas, aprendem a lançar olhares maldosos, a virar as cabeças para morder, a esbarrar no outro animal da parelha, a tomar o freio nos dentes ou fugir com a cabeça ao bridão. Desse modo, ficam com mentalidade e gestos iguais aos dos ladrões. Eis a falta de Polo.

Nos dias de Ho Hsü1 os homens nada faziam de particular em seus lares e saiam a passeios sem destino. Tendo alimentos, regozijavam-se; dando pancadinhas na barriga andavam de um lado para outro. As capacidades naturais desses homens os levavam até aí. Os Sábios vieram depois e os fizeram curvar-se e abaixar-se com cerimônias e música, a fim de regular as formas externas de trato social e ostentaram a caridade e o dever diante deles com o fito de conservar-lhes os espíritos submissos. Depois o povo começou a trabalhar e desenvolveu gosto pela ciência, e começou a lutar entre si na ambição do lucro, para a qual não há fim. Eis o erro dos Sábios.

1 Um governante mítico.