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03 – A Preservação da Vida

A vida humana é limitada, mas a ciência é ilimitada. Obrigar o limitado a seguir em busca do ilimitado é fatal; e supor que alguém sabe realmente é bem fatal, na verdade!

Ao praticar o bem, evite a fama. Ao fazer o mal, fuja da desgraça. Como princípio, siga um termo médio. Assim preservará seu corpo do mal, guardará a vida, preencherá os deveres para com seus pais e viverá o tempo de vida que lhe tinha sido concedido.

* * *

O cozinheiro do Príncipe Huei estava partindo um bezerro. Cada golpe de sua mão, cada erguer de ombros, cada passo de seus pés, cada movimento de joelho, cada pedaço de carne rasgada, cada golpe do facão estavam em ritmo perfeito – tal como a dança da “Alameda das Amoreiras”, tal como os acordes harmoniosos de “Ching Shou”.

– “Muito bem!” Bradou o príncipe. “É bem hábil na verdade!”

– “Senhor, replicou o cozinheiro descansando o facão, “sempre me devotei a Tao que é mais sublime do que a simples perícia. Quando comecei a retalhar bezerros, via diante de mim bezerros inteiros. Após três anos de prática, não mais via os animais inteiros. E agora trabalho com minha inteligência e não com meus olhos. Minha mente trabalha sem parar, sem o controle dos sentidos. Recaindo nos princípios eternos, vou resvalando pelas grandes juntas, ou cavidades, como se apresentam, obedecendo à constituição do animal. Nem chego a tocar nas ligações do músculo e do tendão e muito menos tento cortar os grandes ossos.

– “Um bom cozinheiro substitui o facão uma vez por ano – porque sabe cortar. Um cozinheiro ordinário, uma vez por mês – porque só sabe picar. Mas tenho usado esse facão durante dezenove anos e embora tenha retalhado muitos milhares de bezerros, o fio se mantém tão aguçado como se tivesse sido amolado agora mesmo. Pois nas juntas sempre existem interstícios e o fio de um facão, quase sem espessura, basta inseri-lo nos interstícios. Na verdade, há muito onde usar a lâmina. Foi assim que consegui conservar meu facão durante dezenove anos com o fio igual ao dos que acabam de passar pela pedra de amolar. Não obstante, quando deparo com uma parte dura que é difícil de cortar tomo todas as precauções. Fixando os olhos sobre ela, apoio a mão e delicadamente me utilizo da lâmina até que com um pequeno movimento essa parte ceda como terra que se desmorona. Em seguida, tiro o facão e, de pé, lanço os olhos em redor fazendo uma pausa com ar de triunfo. Depois limpo meu facão e o ponho cuidadosamente de lado”.

– “Bravo!” Bradou o príncipe. “Pelas palavras desse cozinheiro aprendi como cuidar de minha vida.”

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Quando Hsien, da família Kungwen, avistou certo oficial, ficou horrorizado e disse – “Quem é aquele homem? O que lhe aconteceu para perder uma perna? Foi trabalho de Deus, ou do homem?”

– “Ora, naturalmente, é trabalho de Deus e não do homem,” foi a réplica. “Deus fez esse homem com uma só perna. O aspecto dos homens é sempre equilibrado. Por aí se torna claro que foi Deus e não o homem que o fez assim”.

Um faisão dos pântanos pode ser obrigado a dar dez passos para pegar alimento, cem para beber. Ainda assim, os faisões não querem ser alimentados numa gaiola. Pois, embora possam ter menos preocupações, não gostariam de tal vida.

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Quando Laotse morreu, Ch’in Yi foi ao funeral. Soltou três gritos de dor e saiu.

Um discípulo dirigiu-se a ele perguntando – “Você não era amigo de nosso Mestre?”

– “Era”, replicou Ch’in Yi.

– “Assim sendo, acha que foi suficiente sua expressão de pesar pela sua morte?”, tornou o discípulo.

– “Acho”, respondeu Ch’in Yi. “Estive pensando que ele era homem (mortal), porém agora sei que não era. Quando cheguei para os pêsames, encontrei pessoas de idade que choravam como chorariam pelos filhos, jovens que se lastimavam como se tivessem perdido as mães. Quando essas pessoas se encontraram deviam ter dito palavras sobre o acontecimento e derramado lágrimas sem intenção alguma. (Chorar assim pela morte de alguém) é fugir dos princípios naturais (de vida e morte) e aumentar o apego humano, esquecendo-se da fonte da qual recebemos esta vida. Os antigos chamavam a isto “fugir à retribuição do Céu”. O mestre veio porque tinha chegado a hora de nascer, partiu porque chegou o tempo de partir. Os que aceitam o curso natural e a sequência das coisas e vivem em obediência a eles estão acima da alegria e dos pesares. Os antigos falavam disto como a emancipação da escravatura. Os dedos podem não ser capazes de fornecer todo o combustível, porém o fogo é transmitido e nós não sabemos quando terminará.”