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02 – Igualando Todas as Coisas

Tsech’i, de Nankuo, estava sentado e reclinado sobre uma mesa baixa. Erguendo os olhos para o céu, suspirou com olhar abstrato.

Yench’eng Tseyu, que estava de pé perto dele, exclamou:

– “Em que está pensando para que seu corpo tenha ficado como lenho morto e o espírito se pareça com cinzas de fogo extinto? Certamente o homem que agora mesmo estava reclinado sobre a mesa não é o mesmo que aí está – “Meu amigo”, replicou Tsech’i, “sua pergunta vem a calhar. Hoje perdi meu Eu... Compreende? Talvez conheça apenas a música dos homens e não a da Terra. Ou mesmo que tenha ouvido a música da Terra talvez não tenha ouvido a do céu.

“Explique-se, por favor”, pediu Tseyu.

– “O hálito do universo”, continuou Tsech’i, chama-se vento. Às vezes fica inativo. Porém, quando ativo, todas as fendas assobiam ante sua fúria. Por acaso jamais ouviu esse tumulto ensurdecedor?

– “As tavernas e os fossos das colinas e florestas, as cavidades em enormes árvores de muitos palmos de circunferência – algumas como narinas e outras como bocas, outras ainda como orelhas... E o vento por elas entra com violência, como torrentes em redemoinho ou setas sibilantes, bramindo, com fúria, gorgolejando, gemendo, clamando, sussurrando, assobiando por um lado e ecoando no outro, agora suave com o ar fresco, em seguida violento com o redemoinho de vento, até que a tempestade passe e reine supremo o silêncio. Por acaso nunca reparou como as árvores e os objetos se sacodem e tremem, emaranham os galhos e se contorcem todas?”

– “Bem, então”, indagou Tseyu, “já que a música da Terra é feita com cavidades e aberturas, e a do homem com flautas e gaitas, de que é feita a música do Céu?”

-– “O efeito do vento nas várias fendas”, replicou Tsech’i, “não é uniforme, porém os sons produzidos variam de acordo com sua capacidade individual. Quem é que lhes agita os hálitos?”.

-– “A grande sabedoria é generosa; a sabedoria mesquinha gosta de disputa. Os discursos virtuosos são desapaixonados, os pequenos, desagradáveis.”

– “Pois ainda que a alma esteja presa ao sono, ou mesmo acordada, enquanto o corpo se move, nós nos empenhamos e lutamos, com as coisas que nos cercam. Algumas são fáceis de resolver e são comodamente aquietadas, algumas são profundas e dissimuladas, e outras misteriosas. Ora, somos presa de pequenos terrores, depois perdemos a coragem e desmaiamos devido a algum enorme terror. Ora, o espírito voa longe, como a flecha desferida pelo arco, para ser o árbitro do que está direito e do que está errado. Ora fica para trás, como se tivesse prestado um juramento, para prender-se ao que defende. Em seguida, como sob a geada do outono e do inverno, vem a queda gradual, e submerso em suas próprias ocupações continua a seguir o curso sem voltar jamais. Finalmente esgotado e aprisionado, seco como a água de uma velha sarjeta e decadente, jamais verá de novo a luz1.

-”Alegria e cólera, tristeza e felicidade, aborrecimento e arrependimento, indecisões e receios, vêm-nos por turnos, sempre com apresentações diferentes, tal como a música que sai dos orifícios ou como cogumelos que brotam na umidade. Dia e noite alteram-se em nós, mas não sabemos como nascem. Ai de nós! Ai de nós! Poderemos por uma só vez pôr o dedo sobre a verdadeira Causa?”.

-”Mas não estarei para essas emoções. Contudo, com exceção de mim mesmo, não haverá ninguém para senti-las. Até ai chegamos, porém não sabemos em que ordem vêm à cena. Parece que há uma alma2; mas o principal para sua existência é querer. Que funciona é bem crível, embora não possamos ver-lhe a forma. Talvez tenha realidade interior, sem forma externa.

– “Considere o corpo humano com sua centena de ossos, as nove cavidades externas e os seis órgãos internos, tudo completo. Qual dessas partes prefere? Por acaso não gosta de todas igualmente, ou tem sua preferência? Esses órgãos prestam serviço de servos a mais alguém? Desde que os servos não se governam, servirão eles de senhores e servos por turnos? É inegável que existe uma alma para controlá-los”.

– “Porém, tenhamos ou não fixado a verdadeira natureza dessa alma, isso é coisa que pouco interessa à própria alma. Pois, uma vez tomando conta da forma material, prossegue em seu curso até exaurir-se. Consumir-se nos trabalhos e nos pesares da vida e ser arrastada sem possibilidade de parar em caminho – não é digna de pena? Trabalhar sem cessar a vida toda e depois, sem viver para colher os frutos, esgotada pelo labor, partir para não se sabe onde – não é uma razão para pesar?”.

– “Os homens afirmam que não há morte – de que adianta isso? O corpo se decompõe e o espírito desaparece com ele. Não é motivo para tristeza? O mundo pode ser tão estúpido a ponto de não perceber isso? Ou serei eu somente o estúpido e os outros não?”

* * *

Ora, se devemos guiar-nos pelos nossos preconceitos, quem ficaria sem um guia? Que necessidade haveria de fazer comparações sobre o que está certo e errado nos outros? E se alguém deve seguir o próprio julgamento de acordo com os seus preconceitos, até os loucos os têm! Mas formar julgamento do que está direito e errado sem primeiro ter uma opinião é o mesmo que dizer – “Parti para Yüeh hoje e cheguei lá ontem”. Ou, é o mesmo que afirmar que algo que não existe, existe. As (ilusões de) afirmar algo que não existe, como existente, não podem ser alcançadas nem pelo teólogo Yü; e nós muito menos poderemos penetrar.

Porque a palavra não é simples sopro de hálito. Ela foi criada para dizer algo, apenas não se pode determinar o que dizer. Há, na verdade, palavra, ou não há? Podemos ou não podemos distingui-la do chilreio dos filhotes de pássaros?

Como Tao pôde ser tão obscuro de modo que precisa haver a distinção do verdadeiro e do falso? E como a palavra pode ser tão obscura de modo que precisa haver uma distinção entre o direito e o errado3? Onde você pode ir e achar que Tao não existe? Onde você pode ir e achar que as palavras não podem ser provadas? Tao não pode ser apreendido perfeitamente por nossa compreensão inadequada, e as palavras não se patenteiam perfeitamente devido às expressões floreadas. Daí as afirmativas e negativas das escolas de Confúcio e de Motse4, cada qual negando o que a outra afirma e afirmando o que a outra nega. Cada qual negando o que a outra afirma e afirmando o que a outra nega, só nos pode redundar em confusão.

Não há nada que não seja “isto”; não há nada que não seja “aquilo”. O que não pode ser visto por “aquilo”, (a outra pessoa) pode ser compreendido por mim. Daí eu digo, “isto” emana “daquilo”; “aquilo” também deriva “disto”. Esta é a teoria da interdependência “disto” e “daquilo” (relatividade dos padrões).

Não obstante, a vida decorre da morte, e vice-versa. A possibilidade decorre da impossibilidade, e vice-versa. A afirmação baseia-se na negação, e vice-versa. Sendo esse o caso, o verdadeiro sábio rejeita todas as distinções e refugia-se no Céu (Natureza). Pois alguém pode baseá-las sobre “isto”, embora “isto” seja também “aquilo” e “aquilo” seja também “isto”. “Isto”, outrossim, tem seus “direitos” e “errados”, e “aquilo” também tem seus “direitos” e “errados”. Então existe realmente, ou não, a distinção entre “isto” e “aquilo”? Quando “isto” (subjetivo) e “aquilo” (objetivo) são ambos sem seus correlatos, esse é o verdadeiro “Eixo de Tao”. E quando esse Eixo passa através o centro para o qual o Infinito converge, as afirmações e as negações confundem-se igualmente no infinito Único. Daí se diz que não há nada como usar a Luz.

Tomar um dedo como prova de que um dedo não é um dedo não é tão bom como tomar qualquer coisa que não seja um dedo para provar que um dedo não e um dedo. Tomar um cavalo como prova de que um cavalo não é um cavalo não é tão bom como tomar algo que não seja um cavalo para demonstrar que um cavalo não e um cavalo5. O mesmo se dá com o universo que não é nem dedo nem cavalo. O possível é possível: o impossível é impossível. Tao trabalha e o resultado obtido é o seguinte; as coisas recebem nomes e afirma-se serem o que são. Por que são assim? Porque se afirma serem como são! Por que não são de outro modo? Afirma-se não serem assim! As coisas são assim por si mesmas e têm possibilidades por si próprias. Não existe nada que não seja de certo modo e não existe nada que não possa ser de certo modo.

Por conseguinte tome, por exemplo, um galho novo e uma coluna, ou uma pessoa feia e uma grande beleza e tudo o que for estranho e monstruoso. Tudo isso é igualado por Tao. A divisão é o mesmo que criação; a criação é o mesmo que destruição. Não há uma criação ou uma destruição, porque essas condições são novamente igualadas numa Única.

Somente os verdadeiros sábios compreendem esse principio de igualar todas as coisas numa Única. Descartam-se das distinções e se refugiam nas coisas comuns e ordinárias. As coisas comuns e ordinárias servem a certas funções e, portanto, conservam a integridade da natureza. Partindo dessa integridade, uma pessoa compreende, e da compreensão chega a Tao. Aí para. Parar sem saber como para – eis o Tao.

Mas cansar o intelecto numa ligação obstinada com a individualidade das coisas, não reconhecer o fato de que todas as coisas são uma Única – chama-se a isso “Três pela Manhã”. O que é “Três pela Manhã?” Um tratador de macacos disse a respeito das rações de nozes, que cada macaco devia comer três nozes pela manhã e quatro à noite. Desse modo os macacos ficavam com muita fome. Então o tratador resolveu que eles poderiam ter quatro nozes pela manhã e três à noite e com esse arranjo todos ficaram satisfeitos. O numero de nozes continuou a ser o mesmo, porém havia uma diferença devida a (avaliação subjetiva de) gostos e aversões. Isso também deriva disto (princípio de subjetividade). Por consequência, o verdadeiro Sábio reúne todas as coisas diferentes e descansa no natural Equilíbrio do Céu. A isto se chama (o principio de seguir dois cursos, de uma vez).

O conhecimento dos homens antigos tinha um limite. Qual era esse limite? Ele remontava a um período em que a matéria não existia. Era a esse ponto extremo que chegava seu saber. O segundo período era o da matéria, porém de matéria sem condição (indefinido). A terceira época viu a matéria com condição (definido), mas ainda se desconhecia o que foi depois julgado verdadeiro ou falso. Quando esses apareceram, Tao começou a declinar. E com o declínio de Tao surgiu o fim individual (subjetividade).

Além disso, Tao teria realmente chegado ao apogeu e declinado6? No mundo da (aparente) ascensão e do declínio, o famoso músico Chao Wen tocava realmente instrumento de corda; mas a respeito do mundo sem ascensão e declínio, Chao Wen não tocara mesmo o instrumento de corda. Quando Chao Wen deixou de tocar instrumento de corda, Shih K’uang, (mestre de música) abandonou a vareta do tambor (para ganhar tempo) e Hueitse (o sofista) deixou de argumentar, todos eles compreendiam a chegada de Tao. Esses homens eram os melhores nas respectivas artes e, portanto, legaram seus nomes à posteridade. Cada um deles adorava sua arte e ansiava por exceder os próprios méritos. E devido ao fato de amarem a arte, desejavam que os demais a conhecessem. Todavia estavam tentando ensinar o que (em sua natureza) não podia ser compreendido. Por consequência, (Hueitse) acabou nas obscuras discussões do “difícil’ e “branco”; e o filho de Chao Wen tentou aprender a tocar o instrumento de corda durante toda sua vida sem consegui-lo. Se se pode chamar a isso sucesso, então eu também o obtive. Mas se nenhum deles pode ser considerado como tendo sido bem sucedido, então, nem eu nem outros obtivemos êxito. Por conseguinte, o verdadeiro Sábio foge da luz que o deslumbra e se refugia no comum e no ordinário. Por esse meio chega à compreensão.

Suponhamos que haja uma afirmativa. Não sabemos se pertence a uma categoria ou a outra. Mas se reunirmos as diferentes categorias numa única, então, as diferenças de categorias deixam de existir. Devo explicar, entretanto. Se houver um começo, então houve uma época antes desse começo, e uma época antes da época que ficava antes da do começo. Se há uma existência, deve ter havido uma não-existência. E se houve um tempo em que nada existia, então deve ter havido uma época em que nem mesmo o nada existiu. O nada veio a existir repentinamente. Alguém pode dizer realmente se pertence à categoria da existência ou da não-existência? Até mesmo as palavras que acabo de proferir – não posso dizer se significam, ou não, alguma coisa.

Sob o pálio do céu não há nada maior do que o comprimento da penugem de um pássaro no outono ao passo que a Montanha Tai é pequena. Tampouco há vida mais longa do que a da criança ceifada pela morte na infância, enquanto o próprio P’eng Tsu morreu jovem. O universo e eu viemos à existência juntos; eu e tudo que existe somos uma Única coisa.

Se, pois, todas as coisas, são uma Única, qual o lugar para a palavra? De outro lado, desde que eu posso dizer a palavra “única”, como a palavra pode não existir? Se existe mesmo, temos Única e a palavra – dois; e dois e um – três7, desse ponto em diante até os melhores matemáticos deixam de alcançar (o derradeiro); então as pessoas comuns? Falhariam muito mais?

Daí, se de nada se pode chegar a alguma coisa, e subsequentemente a três, segue-se que será ainda mais fácil se se partir de algo. Desde que não se pode prosseguir, para-se aí.

Ora, Tao pela sua natureza mesmo jamais pode ser definido. A palavra por sua natureza mesmo não pode exprimir o absoluto. Daí surgem as distinções. Essas distinções são: “direito” e “esquerdo”, “parentesco” e “dever”, “divisão” e “discriminação”, “rivalidade” e “esforço”. São os chamados Oito Predicados.

Além dos limites do mundo externo, o Sábio reconhece que existe, mas não fala sobre o assunto. Dentro dos limites do mundo externo, o Sábio fala, mas não comenta. Com respeito à sabedoria dos antigos, como incorporada no cânon de “Primavera e Outono”, o Sábio comenta, mas não interpreta. E assim, entre as distinções feitas, existem distinções que não podem ser feitas; entre as coisas interpretadas existem coisas que não podem ser interpretadas.

Como pode ser? Pergunta-se. O verdadeiro Sábio guarda seu conhecimento para si, enquanto os homens, em geral, citam o seu em argumentos, com o fito de convencerem-se uns aos outros. E, portanto, se diz que aquele que argumenta assim o faz porque não pode ver determinados pontos.

Ora, o Tao perfeito não pode receber um nome. Um argumento perfeito não emprega palavras. A bondade perfeita não se preocupa com (atos individuais de) bondade8. A integridade perfeita não é ponto de crítica para outros9. A coragem perfeita não se arremessa para diante.

Porque o Tao que se manifesta não é Tao. A palavra que argumenta fica longe do seu alvo. A bondade que tem objetivos fixos, perde seu escopo. A integridade que é óbvia não é acreditada. A coragem que se atira para diante, jamais completa coisa nenhuma. Esses cinco são, como foram, círculos (suave) com forte propensão para a quadratura (violência). Por conseguinte, o saber que para naquilo que não sabe é o mais alto saber.

Quem conhece o argumento que não pode ser arguido sem palavras, e o Tao que não se declara Tao? Aquele que sabe isso pode afirmar-se que entrará no reino espiritual10. Sendo enchido sem ficar cheio e esvaziado sem ficar vazio, sem saber como foi feito isso – eis a arte de “Ocultar a Luz”.

* * *

Há muito o imperador Yao dizia a Shun – “Ainda hei de arruinar os Tsungs, e os Kueis e os Hsü – aos. Desde que subi ao trono essa questão tem me preocupado. O que pensa a respeito?”

– “Esses três Estados”, replicou Shun, “ficam em regiões selvagens e pouco adiantadas. Por que não afasta esse pensamento da idéia? Uma vez, dez sóis saíram juntos e todas as coisas se iluminaram desse modo. De que grandeza seria o poder da virtude capaz de sobrepujar os sóis?”

Yeh Ch’üen perguntou a Wang Yi – “Sabe, com certeza, se todas as coisas são iguais?”

– “Como posso saber?” Volveu Wang Yi.

– “Você sabe o que não sabe?”

– “Como posso saber?” Tornou Yeh Ch’üeh.

– “Mas então ninguém sabe?”

– “Como posso saber?” Disse Wang Yi. “Não obstante, procurarei explicar-me. Como se pode saber que o que eu chamo “saber” não é realmente saber e o que eu chamo de “não saber” não é realmente não saber? Agora eu lhe farei uma pergunta – Se um homem dorme num lugar úmido, fica com lumbago e morre. Mas o que me diz de uma enguia? Viver no cimo das árvores é vida precária e mexe com os nervos. Mas o que me diz dos macacos? Qual o “habitat” indicado para a enguia, o macaco e o homem? Qual o perfeitamente certo? Os seres humanos se nutrem de carne, os veados de ervas, as centopeias de pequenas cobras, as corujas e os corvos de camundongos. desses quatro, qual o que tem, absolutamente, o gosto perfeito? O macaco une-se com a fêmea que tem cabeça parecida com a do cão, o gamo com a gazela, a enguia com os peixes, enquanto os homens admiram Mao Chiang e Li Chi, à vista de quem os peixes mergulham profundamente n’água, os pássaros alçam voo alto no ar e os veados fogem correndo. Contudo, quem diria qual o perfeito padrão de beleza? Em minha opinião, as doutrinas de humanidade e justiça e os caminhos do direito e do erro são tão confusos que é impossível conhecer o que contêm”.

– “Se você então”, tornou Yeh Ch’üeh, “não sabe o que é bom e mau, o Homem Perfeito igualmente não tem esse conhecimento?”

– “O Homem Perfeito”, retrucou Wang Yi, “é um ser espiritual. Mesmo que o oceano borbulhe sob o sol, ele não se sente quente. Mesmo que os grandes rios se congelem, não sentem frio. Mesmo que as montanhas se partam por efeito do raio e suas enormes profundezas se revirem por efeito da tempestade, ela não tremerá de medo. Assim, subirá acima das nuvens do céu e guiando o sol e a lua adiante, passará além dos limites da existência mundana. A morte e a vida não lhe oferecem mais vitórias. Como, ainda menos, preocupar-se-á com a distinção entre lucro e perda?”

* * *

Chü Ch’ao dirigiu-se a Ch’ang Wutse do seguinte modo – “Ouvi Confúcio dizer: O verdadeiro Sábio não presta atenção aos negócios deste mundo. Ele nem procura o ganho nem evita as perdas. Nada pede das mãos dos homens e não adere às rígidas regras de conduta. Algumas vezes diz algo sem falar, e outras, fala sem nada dizer. E assim paira além dos limites do mundo dos homens. Isso, comenta Confúcio, são fantasias fúteis. Mas para mim são a personificação do Tao mais maravilhoso. Qual é sua opinião?”

– “São fatos que deixarão perplexo até o Imperador Amarelo”, replicou Ch’ang Wutse. “Como saberia Confúcio? Você está se adiantando muito. Quando vê o ovo de uma galinha, na verdade espera ouvir o galo cantar. Quando vê uma funda, na verdade espera ter pombo assado. Dir-lhe-ei algumas palavras a exemplo e ouvi-las-á do mesmo modo”.

– “Como o Sábio se senta ao sol e à luz e conserva nas mãos o universo? Reúne tudo num todo harmonioso rejeitando a confusão disto e daquilo. Título e precedência, coisas que o homem vulgar cultiva cuidadosamente, o Sábio totalmente ignora, amalgamando as disparidades de dez mil anos numa matéria pura. O próprio universo, também, conserva e mistura tudo do mesmo modo”.

– “Como sei que o amor da vida não é uma ilusão? Como sei que aquele que teme a morte não é uma criança que se perdeu em caminho e que não sabe voltar à casa?”

– “A senhora Li Chi era filha do oficial de Ai. Quando o Duque de Chin a quis tomar para si, ela chorou até que o corpete de seu vestido ficou ensopado de lágrimas. Porém, quando chegou à residência real, partilhou o luxuoso leito do duque e comeu finas iguarias, arrependeu-se de ter chorado. Como então poderei saber que o que morre pode se arrepender de se ter agarrado tanto à vida anterior?”

– “Os que sonham com o festim, acordam para os lamentos e os pesares. Os que sonham com os lamentos e os pesares acordam para reunir-se aos que vão caçar. Enquanto sonham, não sabem que estão sonhando. Alguns até interpretarão o sonho mesmo que estavam tendo; e apenas quando acordam compreendem que fora um sonho. Pouco a pouco aproximam-nos do grande despertar e então verificamos que esta vida foi realmente um grande sonho. Os tolos pensam que estão acordados agora e ficam convencidos de que tudo sabem – este é um príncipe e aquele é um pastor. Que estreiteza de espírito! Confúcio e você são ambos sonhos; e eu que afirmo que são sonhos – eu não passo de um sonho também. É um paradoxo. Amanhã um Sábio talvez se erga para explicar isso; mas amanha não virá senão depois que se tiverem passado dez mil gerações. Contudo talvez você o encontre ao dobrar a esquina”.

– “Suponhamos que você e eu discutamos. Se você levar a melhor, e eu não conseguir argumentos melhores, é você, necessariamente, quem tem razão e eu estou errado? Ou se eu levar a melhor, e não você, sou eu, necessariamente quem tem razão e você está errado? Ou ambos teremos razão em parte e estamos errados em parte? Ou ambos estamos completamente certos e completamente errados? Você e eu não podemos sabê-lo e portanto vivemos todos nas trevas.

– “A quem chamaremos para árbitro nessa questão? Se eu pedir a alguém que tenha a sua opinião, para servir de juiz, ele ficará de seu lado. O que adiantará um tal juiz entre nós? Se eu pedir opinião de alguém que tenha o meu ponto de vista, ele ficará de meu lado. O que nos adianta um tal árbitro? Se eu chamar alguém cujas opiniões sejam diferentes das nossas, ele, igualmente, ficará em situação de não poder decidir entre nós, já que difere de ambos. E se eu chamar alguém que concorde com os dois, também ficará em situação de não poder decidir, já que concorda com ambos. Desde que você e eu, e outros homens, não podemos decidir, como podemos depender um do outro? As palavras dos argumentos são todas relativas; se nós queremos alcançar o absoluto precisamos harmonizá-los por intermédio da unidade de Deus e seguir sua evolução natural de modo que possamos completar a duração de vida que nos foi concedida”.

– “Mas o que é harmonizá-los por meio da unidade de Deus? É isso. O direito pode não ser realmente direito. O que parece assim pode não sê-lo realmente. Mesmo que o que é direito seja realmente direito. Mesmo que o que aparece onde difere do que não o é, também não pode ser evidenciado por argumento”.

– “Não repare no tempo. Nem no direito, nem no errado. Passando para dentro do reino do Infinito faça seu repouso final lá”.

A Penumbra disse à Sombra. – “Você se move agora; daqui a pouco fica parada. Ora, se senta, daqui a pouco levanta-se. Por que essa instabilidade?” – “Talvez eu dependa,” replicou a Sombra, “de algo que me faça fazer o que faço; e talvez que essa coisa dependa, por sua vez, de outra que a obriga a fazer o que faz. Ou talvez minha dependência seja como (movimento inconsciente) as escamas de uma serpente ou as asas de uma cigarra. Como posso dizer porque faço uma coisa ou porque não faço outra?”

* * *

Certa vez eu, Chuang Chou11, sonhei que era uma borboleta, adejando daqui para acolá, com todos os fins e propósitos de uma borboleta. Só tinha consciência de minha felicidade como borboleta sem saber que eu era Chou. Depressa acordei e ali estava eu, eu mesmo, na verdade. Agora não sei se eu era um homem sonhando ser borboleta, ou se eu sou uma borboleta sonhando ser um homem. Entre um homem e uma borboleta há, naturalmente, uma distinção. A transição é chamada transformação de coisas materiais12.

1 Agitações da alma (música do Céu) comparada com as agitações da floresta (música da Terra).

2 Literalmente "verdadeiro senhor".

3 Shih e fei significam julgamentos morais gerais e distinções mentais: "direito" e "errado", "verdadeiro" e "falso", "ser e não ser", "afirmativo" e "negativo", bem como "fazer a justiça" a "condenar", "afirmar" e "negar".

4 Os seguidores de Motse eram poderosos rivais dos confucianistas nos tempos de Chuangtse. Veja as seleções de Motse.

5 O significado das duas sentenças torna-se claro pela linha abaixo: "Porém se nós pusermos as diferentes categorias numa só, então as diferenças de categorias cessam de existir".

6 Ch’eng e k’uei, literalmente - "completo e "deficiente". "Integridade" refere-se à unidade intacta de Tao. Nas frases seguintes ch’ eng é usada no sentido de "sucesso". É explicado pelos comentadores que "integridade" de música existe apenas no silêncio e que mal é ferida uma nota, as outras a mantêm. O mesmo se dá com os argumentos: quando argumentamos, necessariamente partimos a verdade ao frisar certos aspectos dela.

7 Ver Laotse, Ch. 42.

8 Ver Laotse, Ch. 5.

9 Ver Laotse, Ch. 58.

10 Literalmente - No "Palácio Celeste".

11 Nome pessoal de Chuangtse, "tse" sendo o equivalente de "Mestre".

12 Idéia importante que ocorre freqüentemente a Chuangtse; todas as coisas são defluxo constante e se transformam, mas não passam de aspectos diferentes de uma única.