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05 – Deformidades, ou Provas de um Caráter Perfeito

(nota do título: 1)

No Estado de Lu vivia um homem chamado Wang T’ai, a quem tinham amputado uma das pernas. Seus discípulos eram numerosos como os de Confúcio.

Ch’ang Chi fez a seguinte pergunta a Confúcio: “Esse Wang T’ai é um mutilado, no entanto tem tantos partidários como o senhor, no Estado de Lu. Não se levanta para pregar nem se senta para discursar, contudo, os que o procuram sem nada saber voltam satisfeitos. Ele será daquelas pessoas que podem ensinar sem palavras e influenciar o espírito das multidões sem empregar meios materiais? Que homem é ele?”

– “Ele é um sábio”, replicou Confúcio. “Bem quisera ir procura-lo, porém eu ficaria simplesmente atrás de outros. Mesmo assim irei e fá-lo-ei meu mestre – porque não farão o mesmo que são menos do que eu? E eu farei com que não só o Estado de Lu, como o mundo inteiro, o sigam”.

– “O homem é um mutilado”, tornou Ch’ang Chi, “e ainda assim o povo o chama “Mestre”. Deve ser um homem muito diferente dos homens comuns. assim sendo, como exercita seu espírito?”

– “A vida e a Morte não passam de transformações do grande momento”, respondeu Confúcio, “mas não podem afetar-lhe o espírito. O céu e a terra podem entrar em colapso, porém seu modo de pensar perdurará. Sendo sem falhas, na verdade, não partilhará o destino de todas as coisas. Pode controlar a transformação das coisas enquanto conserva intacta a verdadeira fonte”.

– “Como assim?” Indagou Ch’ang Chi.

– “Do ponto de vista de diferenciação das coisas”, replicou Confúcio, “nós distinguimos entre o fígado e a bílis, entre o Estado de Ch’u e o de Yueh. Do ponto de vista de sua semelhança todas as coisas são uma Única. Aquele que vê as coisas sob essa luz, nem mesmo se perturba pelo que lhe chega através os sentidos da audição e da visão, deixando o espírito vagar na harmonia moral das coisas. Ele vê a unidade nas coisas e não nota a perda dos objetos particulares. E assim a perda de sua perna representa para ele o mesmo que a perda de outro tanto de barro”.

– “Mas ele cuida apenas de sua própria cultura,” disse Ch’ang Chi. “Utiliza-se de seu saber para aperfeiçoar o espírito e desenvolve em Mentalidade Absoluta. Porém, por que o povo se aglomera ao redor dele?”

– “Um homem”, replicou Confúcio, “não procura mirar-se na água corrente e sim na água parada. Pois somente o que em si mesmo é quietude pode instalar quietude nos outros. A graça da terra culminou apenas nos pinheiros e nos cedros; o inverno e o verão são verdes igualmente. A graça de Deus caiu sobre Yao e Shun, e só este chegou à retidão. Felizmente ele era capaz de corrigir-se e assim obteve os meios pelos quais tudo se corrige. Pois a posse da primitividade de alguém (natureza) evidencia-se na verdadeira coragem. Um homem pode, mesmo com um só braço, desafiar um exército inteiro. E se um tal resultado pode ser conseguido por alguém em busca de fama por meio de autocontrole, quanta coragem poderá ser exibida por quem a maneja sobre os céus e terra e dá agasalho a todas as coisas, quem, temporariamente habitando o interior de um corpo com desprezo pelas superficialidades de vista e som, traz seu saber ao ponto de nivelar os conhecimentos e cujo espírito nunca perece! Além disso, ele (Wang T’ai) espera apenas a hora indicada para subir aos Céus. Os homens na verdade reúnem-se ao redor dele de comum acordo. Como poderá ele levar a sério os negócios mundanos?”

* * *

Shent’u Chia tinha uma perna apenas. Ele estudava sob a direção de Pohun Wujen (Imbecil Como Ninguém) juntamente com Tsech’an2 do Estado de Cheng. Esse último disse-lhe – “Quando eu me despedir primeiro, você ficará. Quando você se despedir primeiro, eu ficarei”.

No dia seguinte, quando estavam novamente sentados juntos na sala de aula, Tsech’an disse:

– “Quando eu me despedir primeiro, você ficará. Ou se você sair primeiro, ficarei eu. Estou para sair. Vai ficar ou não? Reparo que você não demonstra respeito por uma personagem superior. Quem sabe se você não se julga um meu igual?”

– “Na casa do Mestre,” replicou Shent’u Chia, “já há uma personalidade superior (o Mestre). Talvez você pense que é essa personagem superior e por conseguinte deve ter precedência sobre os demais. Ora, ouvi dizer que se um espelho é perfeitamente límpido, a poeira não o empanará, e se o empanar será porque ele não se mostra mais límpido. Aquele que se associa durante muito tempo aos sábios ficará sem falha. Ora, você tem estado pesquisando as grandes coisas aos pés de nosso Mestre, e ainda assim pode pronunciar palavras como as que proferiu. Não acha que está cometendo um erro?”

– “Embora você já seja assim aleijado”, volveu Tsech’an, “ainda procura competir em virtude com Yao. Olhando para você, direi que tem bastante o que fazer se refletir nos seus passados erros!”

– “Os que ocultam seus pecados”, disse Shent’u Chia, para não perder as pernas, são muito numerosos. Os que se esquecem de ocultar seu mau comportamento e por isso perdem as pernas (por meio de castigo) são poucos. Porém, apenas os homens virtuosos podem reconhecer o inevitável e continuar inalteráveis. Quem passeia diante dos olhos do touro quando Hou Yi (famoso arqueiro) estiver mirando para atirar, será atingido. Os que não forem feridos salvar-se-ão por pura sorte. Existem muitas pessoas com pernas perfeitas que se riem de mim por não tê-las. Isso costumava encolerizar-me. Todavia, desde que vim estudar sob direção de nosso Mestre, deixei de aborrecer-me por isso. Talvez nosso Mestre tenha conseguido lavar-me (purificando) com sua bondade. De qualquer modo, tenho estado com ele dezenove anos sem pensar em minha deformidade. Agora você e eu estamos vagueando pelo reino espiritual e você está me julgando no reino físico3. Não estará cometendo um erro?”

Diante dessa resposta Tsech’an começou a inquietar-se e sua fisionomia transformou-se pedindo, finalmente, a Shent’u Chia para não mais falar no caso.

* * *

Havia um homem no Estado de Lu que tinha sido mutilado; chamava-se Shushan Sem – Dedos – dos – Pés. Andando sobre os calcanhares, foi procurar Confúcio, mas Confúcio lhe disse – “Você foi descuidado e por isso carrega consigo esse infortúnio. O que adianta vir ver-me agora? – “Foi porque fui inexperiente e descuidado com meu corpo que feri meus pés,” retrucou Sem– Dedos– dos– Pés, “Agora vim com algo mais precioso do que os pés e é isso o que procuro preservar. Não há homem nenhum, mas o Céu o abriga; e não há homem nenhum, porém a Terra o sustenta. Pensei que o senhor, Mestre, seria como o Céu e a Terra. Nunca pensei ouvir essas palavras de sua parte”.

– “Perdoe minha estupidez”, disse Confúcio. “Por que não entra? Discutirei com você o que sei.” Sem– Dedos– dos– Pés saiu.

Assim que Sem – Dedos – dos – Pés se afastou, Confúcio disse a seus discípulos – “Aproveitem a lição. Sem – Dedos tem uma só perna, contudo procura aprender a fim de expiar seus erros anteriores. Quanto mais não devem fazer os que não têm erros para expiar?”

Sem – Dedos saiu para ver Lao Tan (Laotse) e disse – “Confúcio é ou não é homem Perfeito? Por que razão se mostra tão ansioso para aprender com o senhor? Ele está procurando obter reputação por meio de seu saber oculto e estranho, o que é considerado pelo Homem Perfeito como simples grilhões”.

– “Por que não o fez considerar a vida e a morte, e a possibilidade e impossibilidade como alternações de um único e mesmo princípio”, respondeu Lao Tan, “livrando-o assim dos grilhões?”

– “É Deus quem assim o castigou”, retrucou Sem – Dedos – dos – Pés. “Como poderá livrar-se?”.

* * *

O Duque Ai do Estado de Lu disse a Confúcio – “No Estado de Wei há um homem feio chamado Ait’ai (Feio) T’o. Os homens que convivem com ele não podem esquecê-lo. As mulheres que o veem dizem aos pais – “Preferiria ser a concubina desse homem a ser a esposa de um outro”. São muitas as mulheres que assim pensam. Ele nunca tenta dirigir os outros, mas apenas os segue. Não tem a seu dispor nenhum poder de governante pelo qual possa proteger as vidas dos homens. Tampouco tem fortuna amontoada com a qual lhes satisfaça os apetites e é, além disso, terrivelmente feio. Segue mas não dirige o seu nome não é conhecido além do próprio Estado. Todavia os homens e as mulheres procuram igualmente sua companhia. Assim deve haver nele algo diferente dos demais. Fui procurá-lo e verifiquei que é, na verdade, amedrontadoramente feio. Entretanto ainda não tínhamos estado muitos meses em contato quando comecei a ver que havia algo nesse homem. Antes de um ano comecei a confiar nele. Como meu estado necessitasse de um Primeiro Ministro ofereci-lhe o cargo. Olhou-me de mau humor antes de responder e pareceu-me que preferia declinar a oferta. Talvez não me julgasse bom demais para ele! De qualquer modo dei-lhe o cargo; porém dentro de muito pouco tempo ele me deixou e foi-se. Afligi-me como se tivesse perdido um amigo, como se não houvesse mais ninguém com quem eu pudesse viver alegremente em meu reino. Que espécie de homem é ele?

– “Quando estive em certa missão no Estado de Ch’u”, retrucou Confúcio, “vi uma porção de porquinhos que sugavam as tetas da porca morta. Depois de algum tempo olharam-na e em seguida todos abandonaram o corpo e fugiram. Pois sua mãe não mais os olhava e tampouco parecia mais ser de sua espécie. O que eles amavam era sua mãe! E não o corpo que a continha e sim o que fazia ser o corpo o que ele era. Quando um homem é morto numa batalha, seu caixão não é coberto pelo dossel reto. Um homem cuja perna foi decepada não dará valor a um presente de sapatos. Em todos esses casos, o propósito original dessas coisas desapareceu. As concubinas do Filho do Céu não cortam as unhas nem furam as orelhas. As (servas) que se casam têm que viver fora (do palácio) e não podem ser novamente empregadas. Tal é a importância ligada à conservação de todo o corpo. Como não será mais valioso aquele que preserva sua virtude intacta?”.

– “Ora, o Feio T’o nada disse e recebeu confiança. Nada fez e foi procurado e até lhe ofereceram o governo de um país com o único receio de que ele pudesse não aceitar. Na verdade, ele deve ser aquele cujos talentos são perfeitos e cuja virtude não tem exterioridades!”.

-”O que pretende dizer afirmando que seus talentos eram perfeitos?” indagou o duque.

– “A Vida e a Morte,” respondeu Confúcio “a posse e a perda, o sucesso e a bancarrota, a pobreza e a riqueza, a virtude e o vício, a boa e a má reputação, a fome e a sede, o calor e o frio – são transformações no curso natural dos acontecimentos. Dia e noite sucedem-se um ao outro, e nenhum homem pode dizer de onde brotam. Por conseguinte não se deve permitir que perturbem a harmonia natural, nem que entrem nos domínios da alma. Deve-se viver assim, a fim de ficar em harmonia constante com o mundo, sem perda de felicidade e, dia e noite, partilhando a paz de primavera com as coisas criadas. Desse modo continuamente se cria as estações no próprio peito. De uma tal pessoa pode dizer-se que tem talentos perfeitos.

– “E o que é a virtude sem exterioridade?”.

– “Quando parada”, disse Confúcio, “a água fica em perfeito estado de repouso. Que ela seja seu modelo. Permanece calma interiormente e não se agita exteriormente. É do cultivo de uma tal harmonia que resulta a virtude. E se a virtude não apresentar exterioridades, o homem não será capaz de conservar-se distante dela”.

Dias depois, o Duque Ai contou o seguinte a Mintse dizendo – “Quando tomei as rédeas do governo pela primeira vez, pensei que guiando o povo e tomando cuidado de sua vida cumpriria todo meu dever de governante. Porém agora, depois de ter ouvido as palavras de um homem perfeito, receio que não tenha conseguido meu objetivo e que não fiz senão dissipar loucamente a energia de meu corpo e trazer a ruína para meu país. Confúcio e eu não somos príncipe e ministro e sim amigos espirituais”.

Corcunda– Lábios– Deformados falou com o Duque Ling de Wei e o duque agradou-se dele. Quanto aos homens sem defeitos físicos, ele achava que tinham os pescoços finos demais. Papo– Grande – Como – Jarro falou com o Duque Huan de Ch’i e o duque agradou-se dele. Quanto aos homens sem deformidades, ele achava que tinham os pescoços magros demais.

Assim acontece quando a virtude existe: a forma exterior é esquecida. Contudo a humanidade não se esquece do que deve ser esquecido, esquecendo-se de que não deve ser esquecido. Isso é, na verdade, esquecimento! E assim o Sábio deixa seu espírito em liberdade enquanto o conhecimento é considerado como exótica manifestação; os ajustes são feitos para cimentar as relações de amizades, os bens apenas para os tráficos sociais, e as artes mecânicas apenas para servir o comércio. Porque o Sábio não inventa e portanto não emprega o que sabe; ele não se separa do mundo e portanto não necessita de cimentar as relações; não sofre perdas e portanto não tem necessidade de adquirir; nada vende e por conseguinte não se utiliza do comércio. Essas quatro qualificações foram-lhe doadas por Deus, isto é, ele é alimentado por Deus. E aquele que é assim alimentado por Deus pouca necessidade tem de ser alimentado pelo homem. Tem a forma humana sem as paixões humanas. Devido ao fato de ter a forma humana associa-se aos homens. Devido ao fato de não ter paixões humanas, as questões de direito e errado não o tocam. Na verdade é infinitesimal o que pertence ao ser humano; infinitamente grande é o que é completado por Deus”.

Hueitse disse a Chuangtse – “Os homens primitivamente não tinham paixões?”

– “Certamente”, retrucou Chuangtse.

– “Mas se um homem não tem paixões,” argumentou Hueitse, “o que é que o faz ser um homem?”

– “Tao,” volveu Chuangtse, “lhe dá suas expressões e Deus a forma. Como não ser um homem?”

– “Se então ele é um homem,” tornou Hueitse, “como pode não ter paixões?

– “O direito e o errado (aprovação e desaprovação)” respondeu Chuangtse, “são ao que me refiro ao dizer paixões. Por um homem sem paixões eu me refiro ao que não permite que preferências e repulsas disturbem sua harmonia interna, porém antes sujeita-se à natureza e não tenta melhorar (as coisas materiais) da vida”.

– “Mas como um homem vive sua vida material”, indagou Hueitse, “se ele não procura melhorar (as coisas materiais) de seu viver?”

– “Tao lhe dá expressão,” observou Chuangtse, “Deus lhe dá sua forma. Ele não permitiria que preferências e repulsas lhe perturbassem sua economia interna. Porém, agora você está empregando a inteligência nas exterioridades e esgotando o seu espírito vital. Recoste-se a uma árvore e cante; ou sente-se perto de uma mesa e durma! Deus lhe deu uma visão bem proporcionada, contudo seu único pensamento é o difícil e o branco4.

1 Esse capítulo trata inteiramente de deformidades - uma observação literária para frisar o contraste do homem interior com o exterior.

2 Bem conhecido personagem histórico, ministro modelo que é referido nos analectos.

3 Literalmente: "O exterior do corpo e dos ossos".

4 Hueitse várias vezes discute a natureza dos atributos, como a "dificuldade" e a "brancura" dos objetos.

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