Após o Agnosticismo

Permitam-me que eu me apresente como o irlandês original, cuja primeira pergunta ao desembarcar em Nova York foi: “Existe um Governo neste país?” e ao ouvir “Sim”, respondeu imediatamente: “Então sou contra ele”. Pois depois de alguns anos de Agnosticismo consistente, sendo finalmente solicitado que eu contribuísse para uma publicação agnóstica, por minha vida não consigo pensar em nada melhor do que atacar meus anfitriões! Cuco insidioso! Baniano1 ingrato! Minha vergonha me leva à uma analogia semita e, com tristeza, reflito que, se eu fosse Balaão, não precisaria de outro jumento2 além de mim mesmo para me dizer para fazer exatamente o contrário do que se espera de mim.

Pois esta é minha posição; embora os postulados do Agnosticismo sejam, em certo sentido, eternos, acredito que as conclusões do Agnosticismo devam ser rejeitadas diariamente. Conhecemos nossa própria ignorância; com esse fato, somos zombados por aqueles que não sabem o suficiente para compreender até mesmo o que queremos dizer por isso; mas os limites do conhecimento, retrocedendo lentamente, mas nunca ao ponto de nos permitir desvendar o adytum3 terrível e impenetrável da consciência, ou aquele da matéria, devem um dia ser repentinamente ampliados pela criação de uma nova arma.

Huxley4 e Tyndall5 profetizaram isso antes de eu nascer; às vezes em linguagem vaga, uma ou duas vezes com bastante clareza; para mim é uma fonte de grande preocupação que seus sucessores nem sempre tenham este ponto de vista em comum.

O professor Ray Lankester6, ao esmagar os infelizes teístas da recente controvérsia do jornal Times, não hesita em dizer que a Ciência nunca conseguirá lançar alguma luz sobre certos mistérios.

Até mesmo o teísta tem justificativas para retrucar que a Ciência, se for assim, pode muito bem ser descartada; pois esses são problemas que devem sempre se intrometer na mente humana – acima de tudo, na mente do cientista.

Dispensá-los por um ato de vontade é ao mesmo tempo heroico e pueril: a coragem é tão necessária para o progresso quanto qualquer qualidade que possuamos; e como a coragem é exigida em qualquer um dos casos, a coragem da ignorância (necessariamente estéril, embora bastante desejada enquanto nosso jardim estava sufocado por ervas daninhas teológicas) é menos desejável do que a coragem que embarca no sempre desesperado problema filosófico.

Repetidamente, na história da Ciência, chegou um período em que, empanturrada de fatos, ela mergulhou na letargia da reflexão acompanhada por pesadelos terríveis na forma de teorias impossíveis. Esse pesadelo agora nos assola; mais uma vez a filosofia disse sua última palavra e chegou a um beco sem saída. Aristóteles, ao reduzir às contradições-de-termos fundamentais nas quais eles envolviam as invenções dos pitagóricos, dos eleatas, dos platônicos, dos pirrônicos; Kant, com seu reductiō ad absurdum7 dos tomistas, dos escotistas, dos wolffianos, – todo esse bando guerreiro, igual apenas na incapacidade de reconciliar as derradeiras antinomias de uma cosmogonia apenas mais grosseira por sua espiritualidade opressora; encontraram, suponho, seu paralelo moderno no riso medonho de Herbert Spencer, tal como encarnado nos cadáveres de Berkeley e dos Idealistas, de Fichte e Hartmann a Lotze e Trendelenburg, ele dirige as presas fedorentas de sua imaginação em direção aos órgãos vitais palpitantes de sua própria sombria obra-prima de reconciliação, autoiludido e ainda assim autoconsciente de sua própria ilusão.

A história afirma que tal impasse é invariavelmente o prelúdio de uma nova iluminação: por tais passos avançamos no passado, por eles avançaremos novamente no futuro. O “horror das grandes trevas” que é o ceticismo deve sempre ser quebrado por alguma alma-mestre heroica, intolerante com a agonia cósmica.

Esperamos então a sua chegada.

Posso dar um passo além, aumentar minha voz e profetizar? Eu poderia indicar a direção em que essa escuridão deve romper. Os evolucionistas vão lembrar que a natureza não consegue descansar. Nem a sociedade. Muito menos o cérebro do homem.

“Audāx omnia perpetī
Gēns hūmānā ruit per vetitum nefās.”8

Nós destruímos o significado de vetitum nefās9 e não temos medo de uma coorte imaginária de males e terrores. Tendo aperfeiçoado uma arma, a razão, e achando-a destrutiva contra toda a falsidade, nós (alguns de nós) estamos um pouco aptos a sair para lutar sem nenhuma outra arma. “A lâmina de Fitz-James era espada e escudo”10, e esta serviu contra a espada-cacete assassina do montanhês violento que ele encontrou; mas ele teria se saído mal se tivesse chamado um xerife ocidental de mentiroso, ou se tivesse saído esfaqueando bôeres em Spion Kop11.

A razão fez o máximo que podia; a teoria nos saturou, e o movimento do navio é um pouco cansativo; a metáfora mista – excelente em um breve ensaio como este – não é uma panaceia para todas as enfermidades mentais; precisamos buscar outro guia. Todos os fatos que a ciência coletou tão ativamente, por mais variados que pareçam ser, são, na realidade, todos do mesmo tipo. Se quisermos ter um fato saliente, um fato para um avanço real, este deve ser um fato de uma ordem diferente.

Temos um fato desses em mãos? Nós temos.

Em primeiro lugar, o que queremos dizer com um fato de uma ordem diferente? Deixe-me dar um exemplo; o mais impossível é o melhor para o nosso propósito. Vamos supor que os espíritas enlouqueceram e começaram a falar sensatamente. (Só posso imaginar que esse seja o resultado.) Todos os “fatos” deles foram provados. Provamos um mundo de espíritos, a existência de Deus, a imortalidade da alma, etc. Mas, com tudo isso, nós ainda não estamos avançando um passo no cerne da questão que está no cerne da filosofia: “O quê é alguma coisa?”

Eu vejo um gato.

Dr. Johnson diz que é um gato.

Berkeley diz que ele é um grupo de sensações.

Śaṅkarācāryaḥ diz que é uma ilusão, uma encarnação ou Deus, de acordo com o chapéu que ele usa e através do qual está falando.

Spencer diz que é um modo do Incognoscível.

Mas nenhum deles duvida seriamente do fato de que eu existo; de que existe um gato; de que um vê o outro. Todos – exceto Johnson – tocam – mas ó! quão vagamente! – no que agora sei ser – verdadeiro? – não, não necessariamente verdadeiro, mas mais perto da verdade. Huxley vai mais fundo em sua demolição de Descartes. Com ele, “eu vejo um gato” prova que “algo chamado de consciência existe”. Ele nega a afirmação da dualidade; ele não tem dados para afirmar a negação da dualidade. Eu tenho.

A consciência, como a conhecemos, tem uma única qualidade essencial: a oposição de sujeito e objeto. A razão atacou isso e garantiu aquela vitória completa e estéril de convencer sem produzir convicção12. Ela tem uma qualidade que aparentemente não é essencial, a de exceder a impermanência. Se examinarmos o que chamamos de pensamento estável, descobriremos que sua taxa de mudança é, na realidade, inconcebivelmente rápida. Considerá-lo, observá-lo, é desconcertante e, para algumas pessoas, torna-se intensamente assustador. É como se a terra sólida fosse repentinamente removida debaixo de si, e houvesse algum temor despertando no espaço sideral em meio à corrida de meteoros incessantes – perdidos no vazio.

Tudo isso é um conhecimento antigo; mas quem tomou medidas para alterá-lo? A resposta é proibitiva: a verdade me obriga a dizer, os místicos de todas as terras o fizeram.

Seu empenho tem sido o de diminuir o ritmo das mudanças; seus métodos são a perfeita quietude do corpo e da mente, produzida de maneiras variadas e muitas vezes viciosas. A regularização da respiração é a fórmula mais conhecida. Seus resultados são desprezíveis, devemos admitir; mas só porque são empíricos. Uma reverência injustificada cobriu a vigilância que a ciência teria ordenado, e o resultado é lama e miséria, os destroços de um estudo nobre.

Mas qual é o único fato com o qual todos concordam? O único fato cujo conhecimento tem existido desde que a religião começou o passaporte autossuficiente para sua companhia duvidosamente desejável?

Este: que “eu vejo um gato” não é apenas uma suposição injustificável, mas uma mentira; que a dualidade da consciência cessa repentinamente, uma vez que a taxa de mudança foi suficientemente desacelerada, de modo que, mesmo por alguns segundos, a relação entre sujeito e objeto permanece inexpugnável.

É uma circunstância de pouco interesse para o presente ensaísta que essa aniquilação da dualidade esteja associada a uma paz e um deleite intensos e desapaixonados; o fato tem sido um suborno para os incautos, uma isca para o charlatão, um estorvo para o filósofo; vamos descartá-lo13.

Além disso, embora o estabelecimento deste novo estado de consciência pareça abrir a porta para um novo mundo, um mundo onde os axiomas de Euclides podem ser absurdos e as proposições de Keynes14 insustentáveis, que não caiamos no erro dos místicos, supondo que neste mundo há necessariamente uma verdade final, ou mesmo um ganho certo e definido de conhecimento.

Mas nenhum homem são pode duvidar de que um novo campo de pesquisa está aberto. Nem se pode questionar que o primeiro fato é de uma natureza perturbadora de dificuldade filosófica e razoável; visto que o fenômeno não invoca o assentimento da faculdade de raciocínio. Os argumentos que a razão pode usar contra ela são autodestrutivos; a razão desmentiu a consciência, mas a consciência sobrevive e sorri. A razão é uma parte da consciência e nunca pode ser maior do que o seu todo; isso Spencer vê; mas a razão nem mesmo faz parte dessa nova consciência (que eu, e muitos outros, muito raramente alcançamos) e, portanto, nunca conseguirá tocá-la: isso eu vejo, e espero que seja evidente para aqueles agnósticos ardentes e de mente espiritual dos quais Huxley e Tyndall são para todo o tempo da história os protótipos. Conheça ou duvide! é a alternativa do salteador Huxley! “Acreditar” não deve ser admitido; isso é fundamental; nisso o agnosticismo nunca pode mudar; isso deve sempre comandar nossa moral bem como nossa aquiescência intelectual.

Mas afirmo minha forte convicção de que dentro de pouco tempo teremos feito o suficiente do que é, afinal, o trabalho do professor de corrigir os exercícios borrados e mal escritos dos ignorantes teológicos naquela grande sala de aula, o mundo; e encontrarão um pouco de paz – enquanto eles brincam – na solidão íntima do laboratório e no êxtase impassível da pesquisa – pesquisa sobre aqueles mesmos mistérios que nossos ignorantes resolveram por regra prática15; determinando a natureza de uma abelha pisando nela e gritando “abelha”; enquanto nós pacientemente começamos a trabalhar com microscópios e não dizemos nada até o sabermos, nem falamos mais do que o necessário quando o sabemos.

Mas eu mesmo fui considerado culpado desse papel de professor: agora, portanto, fecharei as portas e me retirarei novamente para o laboratório onde está minha verdadeira vida.


  1. «Banyān no original, o nome de um traje de origem indiana feito de algodão, linho ou seda, semelhante a um quimono. Era utilizado por pessoas de inclinação intelectual e filosófica, porque supostamente contribuía com suas faculdades mentais.» 

  2. «Refere-se à estória de Balaão e sua jumenta. Vide Números 22, 23 e 24.» 

  3. «Latim para relicário, uma câmara secreta, uma cripta, os recessos mais internos.» 

  4. «Thomas Henry Huxley (1825-1895) foi um biólogo e antropólogo inglês. Propagador do evolucionismo, defensor de Charles Darwin. Conhecido por suas ideias sobre a educação e o agnosticismo.» 

  5. «John Tyndall (1820-1893) foi um físico britânico, conhecido pelos seus estudos no campo da biologia, química e física. Tyndall defendia a separação entre ciência e religião.» 

  6. «Sir Edwin Ray Lankester (1847-1929) foi um zoologista britânico. Conhecido por suas ideias sobre o evolucionismo e o racionalismo.» 

  7. «Latim para “redução ao absurdo”, quando alguém deriva uma conclusão absurda a partir de um argumento lógico, concluindo que a suposição original está errada.» 

  8. Horácio, Odes, I. 3. «Latim para “a raça humana não tem medo de nada, avança em todos os atos proibidos”.» 

  9. «Latim para ato ou ofensa proibida, pecado.» 

  10. «Walter» Scott, A Dama do Lago

  11. «Em janeiro de 1900 ocorreu uma batalha em Spioenkop, África do Sul, como parte da Segunda Guerra dos Bôeres travada entre o Império Britânico e duas nações bôeres de 1899 a 1902.» 

  12. Hume e Kant nos Prolegômenos discutem esse fenômeno de maneira insatisfatória. — A.C. 

  13. É esse êxtase que sempre foi o elo entre os místicos de todos os tipos; e o obstáculo para qualquer observação precisa do fenômeno, suas verdadeiras causas, e assim por diante. Isso sempre deve ser um obstáculo para mentes mais impressionáveis; mas não há dúvida quanto ao fato – ele é um fato – e seu presente isolamento deve ser totalmente deplorado. Será que eu poderia pedir aos homens da Ciência que superem os preconceitos naturais a eles quando as ideias justamente desprezadas do misticismo forem mencionadas, e que ataquem o problema ab initiō nas linhas severamente críticas e austeramente árduas que têm tornado seus trabalhos distintos em outras áreas? — A.C. 

  14. Autor de um manual sobre Lógica Formal

  15. «Rule of thumb no original, literalmente “regra do polegar”, uma referência a construtores que utilizavam os dedos para fazer uma medida aproximada “no olho” ao invés de utilizar instrumentos precisos. Significa basear-se na experiência sem fundamento científico e precisão.» 


Traduzido por Alan M. W. Quinot.

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