Sexo e Ocultismo

Um capítulo de: Ataque e Defesa Astral

Sobre a influência de forças sutis na vida humana e os habitantes do Astral.

Sexo e Ocultismo

Nosso interesse em ocultismo data da nossa puberdade, ou melhor, dos nossos onze anos de idade. Aos dezessete, estávamos numa livraria (que naquela época era excelente, e tinha uma seção de ocultismo bastante farta) pesquisando os volumes em busca de algo novo, quando fomos abordados por outro leitor, que encetou conversa conosco. Era um rapaz bastante mais velho que nós, talvez com uns vinte e cinco anos de idade, de aspecto saudável, que nos confessou:

- Este assunto de ocultismo me fascina, mas eu tenho um tremendo problema: meu apetite sexual. Todos os livros que eu leio dizem que a gente tem que controlar o sexo, mas eu não consigo: estou sempre necessitando de uma mulher. Será que não há outra maneira de encarar o assunto?

Sabemos, agora, que esse rapaz sentira instintivamente que pertencíamos a uma “linha” que poderia lhe dar uma resposta para o seu problema (se é que saúde é problema); mas infelizmente para ele, a sociedade que então freqüentávamos, pretensamente “rosacruz”, tinha sido adulterada pela fraqueza moral dos seus dirigentes, e não dava instrução suficiente ou franca sobre o assunto. (1) Eventualmente estabelecemos contato com a legítima “linha”, e recebemos instrução sobre o sexo; mas nosso infeliz interlocutor era então apenas uma memória, que nos tem ocorrido através dos anos, e nos ocorre agora enquanto escrevemos: terá ele conseguido se libertar da ficção de que abstinência é sinal de santidade?... Em um dos seus livros sobre o Tibet a Sra. Alexandra David-Neel (2) relata uma anedota bastante sábia: uma jovem tibetana caminhava por um lugar ermo quando foi acostada por um eremita conhecido em sua aldeia, que o alimentava e venerava. O eremita tentou violentar a jovem, que reagiu e acabou por fugir. Chegando em casa, a infeliz virgem contou o incidente à sua família, que a reprovou redondamente.

- Mas então você recusa o uso do seu corpo a um Samyasi?! Que melhor carma poderia ter vocÊ que perder sua virgindade nas mãos de um homem santo? Volte imediatamente lá, peça perdão ao eremita, e ofereça-se a ele!

A obediente jovem assim fez; mas tendo descoberto o santo, que meditava junto a um riacho gelado, e se oferecido candidamente a ele, este recusou, dizendo:

- Eu lhe agradeço, mas não tenho necessidade dessas coisas. Acontece que o rajah que governava esta comarca estava morrendo no momento em que você passou; e no mesmo momento havia um asno copulando com uma égua num campo vizinho. Eu devia um favor ao rajah, e tentei prover-lhe um corpo evoluído para sua encarnação seguinte, mas você se recusou, e agora é tarde demais: o rajah foi para o jumento e a égua, e vai se reencarnar no corpo de um burro.

É claro que isto é apenas uma anedota, e bastante mordaz; mas ilustra um fato que poucas pessoas compreendem, o qual é: os motivos de um iniciado, quando este pratica quaisquer dos atos que são praticados por profanos, diferem bastante dos motivos dos profanos.

O ato sexual, como já dissemos, é uma das poucas formas de samadhi que estão ao dispor de qualquer ser humano, não importa qual seja o grau de evolução deste; e é pois um instrumento precioso para aqueles de nossa espécie que compreendem que tudo que existe é santo.

Abstinência sexual, se encarada como regra absoluta, não é uma prova de virtude, e sim de covardia. Abster-se de um ato porque somos capazes de profana-lo é, ocasionalmente, uma medida de prudência; mas adotada como regra de vida, evidencia fraqueza moral e falta de disciplina em nossos veículos. A lei da física que é enunciada como “Na natureza nada se cria, nada se perde – tudo se transforma” aplica-se à biologia como a qualquer outro aspecto do contínuo espaço-tempo. Aqueles que se abstêm da atividade sexual acumulam a energia nervosa que normalmente se gastaria na cópula. Como resultado, ou ela se esvai durante o sono em emissões involuntárias, ou provoca uma hipertensão magnética que eventualmente se torna um foco de força mágica. Mas esta força raramente é sadia, pois é produto de um processo artificial de conservação. Os celibatas, quando não são culpados de maiores desvarios, provocam perturbações nervosas ou excessos sexuais em seu meio ambiente, através de repercussão telepática. É notório, por exemplo, que casos de “possessão diabólica” registrados pelo catolicismo romano sempre ocorrem nas imediações de mosteiros ou conventos.

Circunstâncias exatamente paralelas cercam tais manifestações em outras seitas que praticam o celibato forçado.

Lembramo-nos de certa ocasião quando, ainda meros discípulos, penetramos com nosso Instrutor num mosteiro americano e lhe observamos que a aura de um certo monge por quem passáramos estava muito tensa com força magnética. Nosso Instrutor riu e disse, “Claro! Ele se masturba”. Mas nosso Instrutor estava enganado: o indivíduo em questão tinha um temperamento ardente, porém se abstinha de atividade sexual. Isto carregava a sua aura força; mas esta força era malsã. Somente a força mágica que desenvolvemos em nós mesmos através da expansão de todas as nossas faculdades em todos os planos possíveis é uma força ecológica – isto é, em harmonia com o Corpo de Nuit. Os Torquemadas, os Savonarolas e os Hítleres são todos produtos da pressão magnética de uma sexualidade reprimida e doentia; quando não em seus próprios corpos, no corpo de pessoas com quem têm afinidades cármicas ou ambientais.

Para o puro, todas as coisas são puras. Para o santo, todas as coisas são santas. Para o verdadeiro iniciado, a atividade sexual é, como tudo mais em sua vida, “um trato particular entre Deus e a sua alma”. Já que o ato sexual envolve todos os nossos veículos simultaneamente, ele pode e deve ser utilizado como uma forma de oração. Diz Líber VII: (3)

21. Eu Te amo, eu Te amo.

22. Todo alento, toda palavra, todo pensamento, todo ato é um gesto de amor Contigo.

“Não sabeis que sois o templo do Deus vivo?” Disse um grande iniciado a quem a Igreja de Roma roubou e traiu.

É uma vil mentira que só possamos encontrar Deus além e a despeito do corpo e dos apetites do corpo. Pelo contrário: é preciso descer ao inferno que existe dentro de nossa herança genética animal, e domesticar suas feras, atrelando-as ao Carro do Guardião do Santo Cálice – aquele Guardião cuja armadura brilha de luz negra, e que não tem nome nem rosto; cujo manto é a colcha de retalhos multicores do Arco-Íris, mencionada pelos alquimistas medievais.

Não é repressão sexual que é necessária, e sim Direção – aquele símbolo da Vontade que no Taro é representado por uma Flecha. (4)

Para Iniciados, portanto, todo tipo de atividade pode ser tornado santo: basta para isto que todos os nossos atos sejam canalizados em direção àquele Fito que ainda pode (devido à insuficiência de nossa linguagem, e à imaturidade de nossas faculdades) ser simbolizado pelas palavras União com Deus. Assim, o ato sexual – seja ele heterossexual, homossexual, auto-sexual, ou inter-espécie – não só é uma forma natural e sadia de auto-expressão como também pode ser utilizado como oração, como ritual mágico de invocação ou evocação, e para o aperfeiçoamento dos veículos sutis que existem, potencialmente, em todo ser humano.

Quanto à forma auto-sexual do ato, há uma ressalva a fazer: é uma atividade que deve ser evitada tanto quanto for possível. Sabemos que psicologistas e sexólogos mundanos alegam que a masturbação é inofensiva. Negamos que isto seja verdade. Ela produz, na maioria dos casos, uma perspectiva egóica que pode levar ao autismo, e que diminui sensivelmente a capacidade de intercâmbio anímico sadio com outros egos.

A teoria mágica da atividade sexual é profundamente estudada na O.T.O., e as salvaguardas necessárias estão estabelecidas no tratado por Frater PARZIVAL XIº, “A Teoria Eletromagnética do Sexo”, que pode ser pedido diretamente à Ordem por interessados.

Restrições dogmáticas ao instinto sexual são extremamente prejudiciais ao progresso racial. Nada impede que os católicos romanos, por exemplo, considerem o ato da cópula como “pecado” se realizado por seu clero, ou por leitos não casados; mas eles não têm qualquer direito de tentar impor suas opiniões através de leis e estatutos (como fizeram durante séculos) sobre aqueles dos seus semelhantes que encontram alegria, e até santidade, nesse ato “libidinoso”. Se os católicos acham que copular é pecado, que provem suas intenções por seus atos, e se abstenham da cópula por completo; assim eles desaparecerão mais rapidamente da superfície da terra, que ficará menos poluída.

A síndrome restritiva do catolicismo romano originou-se do culto de Átis (uma das formas do Deus Sacrificado), o qual era popular no Oriente Médio. Os sacerdotes de Átis castravam-se ritualmente. A maioria dos “patriarcas” do catolicismo romano (entre outros, Orígenes, que perseguiu e massacrou os gnósticos acerbamente) foram automutilados. Esta forma de loucura decorre de uma exacerbação do orgulho egóico, e denota um medo doentio do Universo, ou Não-Ego. É, evidentemente, uma forma de autismo. Esta doença está sendo aos poucos eliminada da espécie: lendas como a “Queda” e o “Pecado Original” decorrem dela. A síndrome inclui o complexo de culpa, isto é, de inferioridade, o qual é uma forma daquele Medo-Ódio essencial que é um dos aspectos da atividade do Antakharana. Seu exagero deteriora o Buddhi-Manas, desordem característica dos “Irmãos Negros”.

Atitudes sociais intolerantes, apliquem-se elas a qualquer forma de atividade ou corrente de opinião, tornam-se extremamente deletérias se transformadas em estatutos restritivos. Estudemos o efeito psicológico da moralidade católica-romana sobre a cultura brasileira. O “machismo” pátrio é tão exagerado que sugere imediatamente, a qualquer pessoa com um mínimo de conhecimento de psicologia, uma grande dúvida subconsciente quanto à virilidade. Pesquisas científicas em países mais civilizados que o Brasil levaram os sexólogos à conclusão (perturbadora para os “supermachos” brasileiros!) de que a homossexualidade, longe de ser um “vício” raro e excepcional, é uma das fases normais do desenvolvimento sexual na adolescência. Nos Estados Unidos da América, por exemplo, ficou constatado que em cada cinco homens da população três haviam tido experiências homossexuais entre a infância e a idade adulta.

Talvez haja algum homem brasileiro (provavelmente um “professor” de “moral e cívica”, ou um torturador profissional da polícia política) que esteja disposto a alegar que isto prova que o Brasil é um país melhor que os Estados Unidos. Mas a verdade é que a homossexualidade é ainda mais comum no Brasil que no país irmão – ou talvez, patrão. Isto é um fato que já havia sido constatado no Século XIX por Sir Richard Burton, o famoso antropólogo inglês, que inclui o Brasil, país que visitara, entre as nações de maior índice de homossexualidade sobre a terra!

Note-se que embora três em cada cinco homens americanos tenham tido (ou admitido) relações homossexuais durante a adolescência, o que equivale a sessenta por cento da população masculina, a percentagem de homens adultos praticantes da homossexualidade continua relativamente mínima. Isto indica, talvez, que a homossexualidade é simplesmente um fenômeno de imaturidade emocional – pelo menos, se praticada com exclusão de outras formas de relacionamento. Mesmo em tal caso, não seria um fenômeno que afetasse tanto o bem estar social quanto a violência da polícia, a prepotência dos militares, ou a corrupção desenfreada dos políticos.

O homem brasileiro de nossa geração tinha um curioso padrão de moral dupla, que lhe permitia ser tão promíscuo quanto quisesse, mas que proibia as mulheres – principalmente a “dele” – de fazerem o mesmo. Esta mesma moral dupla era aplicada às relações homossexuais: o parceiro “ativo” era considerado “normal”; mas o parceiro “passivo” era chamado de “veado”, e era escarnecido e apupado mesmo pelos “normais” – quando estes não o estavam utilizando, em via de regra.

No entanto, se a norma sexual consiste em relações com o sexo oposto, que opinião podemos ter de um homem que é capaz de experimentar uma ereção à vista do corpo de outro homem, ou através das carícias de um irmão de sexo?...

A realidade biológica é bem diversa. A homossexualidade (tanto masculina quanto feminina) impera em quaisquer ambientes em que os sexos sejam segregados, como, por exemplo, penitenciárias, internatos e casernas.

O título de “veado” remonta à cultura daquelas tribos pré-históricas caçadoras e adoradoras da Lua a que já nos referimos, onde o parceiro da Grã- Sacerdotiza era chamado de “Chifrudo”. Lembramos aos leitores que essa religião incluía completa liberdade de expressão sexual em seus ritos. Os cultos de Baco, Pã, Príapo e Diôniso foram seus remanescentes em épocas históricas: estes cultos eram detestados e perseguidos pelos patriarcas castrados romano-alexandrinos.

Um dos fatores principais que incremental a homossexualidade brasileira é o hábito católico romano de separar os sexos chegada a puberdade. É bem sabido que colégios de freiras e colégios de padres abundam em homossexualidade. Esta idiossincrasia católica romana não está limitada ao Brasil: numa conversação com psicólogos, publicada em inglês, uma mulher comenta que num colégio de freiras, nos Estados Unidos da América, as freiras recomendavam às alunas que não usassem sapatos envernizado em festas, por que os rapazes, contemplando o reflexo no bico dos sapatos, poderiam divisar as suas pares pudendas!!! Isto nos lembra da história da história da velhinha que foi se queixar ao comandante de um acampamento militar da indecência dos soldados que tomavam banho nus no Rio.

- Mas minha senhora – disse o comandante – o rio onde eles tomam banho está a dez quilômetros da cidade onde a senhora vive.

- Sim – disse a velhinha – mas eu uso binóculo!

A repressão sexual tem as piores conseqüências. Como já dissemos, a maioria dos psicólogos é atualmente da opinião de que a homossexualidade é uma fase normal da adolescência. Se não prestarmos atenção indevida a ela, se não condenarmos as suas manifestações, e se não permitirmos os insultos e humilhações por que passam seus praticantes, é provável que a quantidade de homossexuais adultos tenda a diminuir.

A situação atual chega a ser ridícula: na ocasião em que a polícia brasileira invadiu nossa residência sob a acusação de que éramos homossexual e traficante, o curso onde as acusações se originaram (e do qual eventualmente formos despedidos em conseqüência das calúnias) possuía diretores homossexuais e uma esmagadora maioria de professores homossexuais do sexo masculino: o próprio supervisor da filial em que trabalhávamos era homossexual, e mais de uma vez o surpreendemos gabando-se, a um colega das mesmas preferências, das suas conquistas amorosas entre os alunos.

Recentemente o movimento “gay power” nos Estados Unidos sofreu um revés às mãos de uma cristista de certa popularidade como cantora, a qual impediu, no estado em que morava, a aprovação de uma lei proibindo descriminação contra homossexuais nos empregos. A pedra-chave da campanha dessa mulher contra os homossexuais foi a pergunta: “Você quer que seu filho seja submetido às propostas de um professor homossexual”?

Mas acontece (como toda gente de bom senso está cansada de saber) que as propostas homossexuais abundam, principalmente nas escolas e nos colégios, embora os homossexuais declarados sejam apupados ou perseguidos. Se fosse possível aos homossexuais serem conhecidos como tais sem sofrerem perseguição ou preconceito, não só é provável que o número de tais propostas diminuísse, como que aqueles que as aceitam, uma vez dissipada a atração do que é “proibido” ou diferente, chegassem à conclusão de que suas tendências normais eram para outro tipo de atividade.

Telemitas afirmam que o “normal” é uma quantidade estatística,e não um absoluto dogmático. Em palavras mais simples: telemitas acreditam que homens e mulheres normais copulam, na maior parte das vezes, com o sexo oposto; mas podem, ocasionalmente, demonstrar uma conduta sexual anômala, sem por isto deixarem de ser “normais”. Do ponto de vista telêmico, o que é importante é que qualquer ato praticado (seja ele homossexual, inter-espécie, misto, ou heterossexual) seja espontâneo por parte de todos os praticantes. Violentar o corpo alheio – mesmo o corpo de um animal – contra a vontade do seu habitante, é uma forma flagrante de Restrição, que é o único Pecado que nós admitimos e condenamos sem reservas.

Nossa defesa constante dos direitos das minorias em qualquer nível de atividade – político, econômico, religioso, social ou sexual – sempre desperta suspeitas quanto à nossa “masculinidade” por parte de todos os temperamentos sexualmente recalcados com quem entramos em contato. (No Brasil, infelizmente, isto ainda representa uma maioria estatística da população!) Somos seguidores daquele infame “mago negro”, Aleister Crowley, o qual não só praticava a homossexualidade como a heterossexualidade, e ainda por cima afirmava que tais atividades têm valor espiritual e mágico! Já que defendemos suas doutrinas, e já que defendemos os homossexuais, isto é sinal de que somos homossexuais. Ora, também defendemos o direito dos católicos romanos de serem católicos romanos, mas nem por isto fomos jamais tachados de crististas!

As poucas experiências homossexuais que tivemos (e das quais não nos envergonhamos a não ser na medida em que exibimos pouco calor humano, ou pouca técnica, ou pouco tato nelas) ocorreram em nossa adolescência anormalmente frustrada por um progenitor carnal criado num seminário católico romano mineiro, ou em nossa juventude ainda condicionada por recalques de educação. Há anos que não praticamos a homossexualidade, nem sequer como operação mágica. É irônico que naquela ocasião em que a nossa polícia invadiu nossa casa, sob denúncia anônima (...) de que éramos, entre outras coisas, homossexual, o único fato que puderam descobrir sobre a nossa vida sexual era que copulávamos ocasionalmente com uma das nossas alunas, a qual era (podemos testemunhar) bastante adulta em matéria de libido.

Foi essa mesma aluna e parceira sexual que nos relatou que, no colégio de freiras que cursava, era costumário um exame ginecológico semestral das alunas, para verificar se o hímem delas ainda se encontrava intacto!!! Esse exame era feito com o consentimento dos pais, e as alunas formavam fila para tal fim em frente a um consultório médico, enquanto os alunos do sexo masculino se congregavam para zombar delas e, ocasionalmente, vaiar as “reprovadas”.

Esse colégio nos foi apontado pela própria moça, em local da Baixada Fluminense. Não mencionamos o seu nome porque o consideramos típico de muitas outras instituições de ensino católicas romanas através do Brasil, principalmente no interior e em cidades pequenas.

Tem-nos sido dito, por rapazes adolescentes, que há certos colégios de padres no Brasil onde os alunos internos tomam banho de chuveiro de camisola. Aparentemente, a vista do corpo humano desnudo poderá ser ofensiva aos olhos de homens dedicados a Deus. (Embora, se Deus existe, tenha sido o dito-cujo quem criou o corpo humano!) Esta dicotomia moral do catolicismo se reflete na campanha incessante dos crististas contra qualquer elevação da sexualidade humana acima do nível dos quadrúpedes. Para os padres romanos, a única finalidade legítima do ato sexual é a procriação. O controle da natalidade, o divórcio, o amor livre, a experimentação sexual, a técnica sexual, sutileza no sexo – todas estas preocupações, que elevam uma atividade obviamente brutal acima do nível dos brutos, e a enriquecem com estética e até com religiosidade, são aparentemente odiosas para os auto-apregoados representantes de um homem cuja única recomendação (se pudermos confiar nos registros oficiais do cristismo!) foi Amai-vos uns aos outros.

Atrás dessas restrições, desses recalques, dessas fobias, há mais que um pressentimento da potencialidade mágica e mística doa to sexual: há um ódio surdo e letal contra a existência de outras percepções do Universo que não a dos teólogos. Amar a Deus não é difícil para eles; “Deus”, afinal de contas, é apenas um reflexo de sua própria vaidade e orgulho. Mas amar ao próximo – literalmente, e em todo os planos – esta, a coragem final da verdadeira humildade e da verdadeira caridade, lhes é dificílima. Nem sequer o ódio franco e leal (o qual, do ponto de vista espiritual, é uma forma de amor) lhes é possível: a arma deles é sempre a dissimulação, a insinuação, e a calúnia. Hoje, como em Nicéia, o cristismo afaga pela frente, e apunhala pelas costas, todos aqueles que não se deixam envolver pela sua estagnação moral, seu dogmatismo intelectual, e seu sado-masoquismo emocional.

O sado-masoquismo cristista em geral (e o católico romano em particular!) é visível em qualquer imagem da “Paixão”, com seus requintes de sangue e de lágrimas. Mas procuremos por um momento usar nossa razão e nosso bom-senso: é-nos pedido que nos enchamos de admiração pelos sofrimentos de um homem qeu, se tivesse existido de acordo com os sofismas imbecis decretados no Concílio de Nicéia, teria tido sobre os seus semelhantes a imensa vantagem de ser um homem só em aparência, e na realidade um deus. No entanto, durante séculos, milhões de seres humanos sofreram, às mãos dos adoradores desse homem, torturas muito piores do que a dele; e isto se gozarem da vantagem de uma pseudodivindade! Lembramo-nos de que assim que o Colégio Militar (que então cursávamos no Rio) aceitou entre o seu corpo docente um capelão, o primeiro ato deste foi examinar em segredo os livros da Sociedade Literária do Colégio. Como resultado, várias obras magníficas e sérias desapareceram “milagrosamente” do catálogo, entre elas uma História da Inquisição em dois volumes, onde não só as torturas favoritas eram descritas, como também eram ilustradas com gravuras da época. O “Jesus” evangélico, se tivesse existido, não teria sofrido às mãos dos pagãos nem sequer uma parte dos requintes tormentos, produtos de uma diabólica crueldade, que os seus “meigos” seguidores infligiram durante centenas de anos sobre homens e mulheres cujo único crime foi terem a dignidade humana de recusar aceitar um credo crapuloso.

O sado-masoquismo é sempre o resultado de uma sexualidade reprimida. Padres que, sendo dotados de energia nervosa e vitalidade animal, cumprem os preceitos de sua crença e praticam a abstinência, tornam-se doentes psíquicos; e os muitos (cada vez mais numerosos) qeu fingem ser abstinentes em público, mas qeu em privado se aliviam de uma maneira ou de outra, tornam-se hipócritas. Como o ato sexual é euma das mais profundas formas de expressão da consciência (em todos os planos em que esta existe), sua restrição indevida não pode deixar de criar as mais variadas enfermidades morais nos abstinentes. A falsa e perversa concepção de “castidade” incutida pelos padres doentes e pelos padres hipócritas reflete-se nas leis e nos costumes da nação brasileira; não é de admirar que estejamos tão atrasados em progresso econômico e político em comparação com o resto do mundo civilizado, pois progresso econômico e político são simplesmente reflexos do progresso intelectual e moral.

Não se deve pensar que a influência daninha do cristismo sobre a sociedade humana é o profundo de uma deliberada malícia. Em teoria, a finalidade de qualquer sistema de misticismo é União com Deus (qualquer que seja a nossa definição de “Deus”); mas na prática, à nossa mínima debilidade orgânica ou negligência no controle dos nossos veículos, a finalidade pode se tornar a defesa do Ahamkara (ou Ego) contra toda possibilidade de mudança. Ora, União pressupõe Amor, e Amor pressupõe Mudança: nós crescemos espiritualmente na media em que o nosso Ego se modifica e amplia ao incluir a vivência daqueles outros Egos com os quais entramos em contato. A União dos Opostos é essencial á ida do espírito e outro Ego que não o nosso é sempre uma forma do “Oposto” – o “Adversário”. Isto é natural. É a relutância normal do Antakharana (a faculdade que compõe e mantém o nosso Ego) em aceitar Mudança que produz em nós aquele ódio surdo e íntimo que sempre acompanha mesmo o verdadeiro Amor, e só se dissolve (por algum tempo!) no momento do Êxtase, ou Orgasmo.

Místicos que permitem a essa tendência repulsora do Antakharana anular a tendência contrária, tornam-se como aqueles macaquinhos da imagem oriental: ou recusam ver, ou recusam ouvir, ou recusam falar. Submetem-se aos embates da Realidade é-lhes tão doloroso que, se não causassem tanto mal ao mundo pela sua covardia, poderíamos sentir compaixão por eles. O medo do “Mal”, da “Danação Eterna” e do “Pecado” é sincero nessa gente: a estrutura da sua teologia tem sempre sido doentia deste aquela malfadada ocasião e Nicéia quando eles salvaram o seu “Jesus” – o símbolo de suas próprias aspirações egóicas – da necessidade de Mudança ao fazerem dele “divino”, isto é, “imutável”. (5)

Para tais místicos mal treinados ou doentes, a mera existência de homens e mulheres que, sem aceitarem os seus dogmas ou acatarem os seus preconceitos, conseguem rir, amar, e serem felizes, é uma provocação indizível, um insulto intolerável, e (o que é o pior para eles!) uma ameaça contra aquela teia de sofismas, vícios de conduta, e sentimentos doentios através da qual eles procuram manter intactos os seus Super-Egos. Os desatinos dos Inquisidores há duzentos anos, ou os desatinos da Censura no momento atual, têm a mesma origem psicológica. O Fausto de Goethe exigiu que o momento parasse, porque era Belo; mas a verdadeira Beleza consiste na sucessão dos momentos, quer eles sejam “belos” (isto é, agradáveis ao Ego que os percebe, tal como este está estruturado no momento em que eles ocorrem), quer sejam “feios” (isto é, sugiram ao Ego que existe algo no Universo além da sua falsa estabilidade presente). Não é possível progredir sem mudar; e se o fato de que também não é possível regredir sem mudar nos parece motivo suficiente para evitar mudança, então somos como aqueles “soldados profissionais” a que o Livro da Lei se refere, os quais não se atrevem a lutar. (6)

Não vemos melhor maneira de terminar este capítulo do que citando as palavras de um grande poeta e místico inglês, William Blake, (7) o qual as escreveu faz mais de duzentos anos e que, como tinha a felicidade de viver num país semi-civilizado, não foi queimado na fogueira, nem atirado em masmorras, nem cortado pela censura:

“Tal como a lagarta escolhe as folhas mais viçosas para depositar seus ovos, assim o padre deposita a sua maldição sobre as mais belas alegrias.

“prisões são construídas com tijolos de Lei; bordéis, com tijolos de Religião.

“O fraco em coragem é forte em astúcia.

“Tu nunca saberás o que é bastante se não souberes o que é demasiado.

“Nenhuma ave voa demasiado alto, contanto que voe com suas próprias asas.

“Que os negros roupetas da opressão deixem de manchar o mundo com a baba dos seus preconceitos; nem lhes seja mais permitido perseguir os profetas da alvorada!

“Pois tudo quanto vive é Santo.

(1) Repetimos categoricamente que qualquer organização que use abertamente esse nome não pode, por definição, ter qualquer ligação espiritual ou histórica com o movimento original dos “rosacruzes” medievais. A decadência da organização que freqüentávamos foi sem dúvida um produto da sua pretensão. O fundador pertencera à O.T.O., e estivera, inclusive, em contato pessoal com o nosso Instrutor (que então ainda não havíamos encontrado) e com Crowley; mas desvirtuara seus conhecimentos com finalidades puramente pessoais. No entanto, sua conexão cármica com legítimos iniciados possibilitou-nos um eventual contato com a corrente telêmica; mas isto só ocorreu na medida em que reprovávamos e nos afastávamos das atividades daquela particular “ordem” a que nos havíamos afiliado.

(2) Que conseguiu durante anos se passar por ocultista e iniciada entre os incultos – em terra de cegos, um caolho é rei, contanto que finja que também é cego.

(3) Um dos livros Santos de Télema. Descreve a Iniciação de um Mestre do Templo.

(4) Sagittarius. Veja-se os Diagramas em O Equinócio dos Deuses, e a carta Temperança, ou Arte, no Taro.

(5) Note-se que isso foi apenas um reflexo do “atmã” hindu. Esse tipo de erro não é exclusivo de qualquer sistema; todos nós corremos perigo de cair nesse mundéu a qualquer momento. Veja-se Líber AL, Capítulo ii, vv, 24-27, em EQUINÓCIO DOS DEUSES.

(6) Veja-se Líber AL, iii, 57, em O EQUINÓCIO DOS DEUSES.

(7) A encarnação da Besta 666 posterior à sua encarnação como Cagliostro, e anterior à sua encarnação como Elifas Levi.