Livro III - Solução das Dificuldades

Um capítulo de: Milinda Panha - As Perguntas do Rei Milinda

Aspectos técnicos do dogma budista, ilustrados por diálogos.

Livro III - Solução das Dificuldades

Capítulo 1
Os Órgão e seus Desejos

Disse o rei:

― Nagasena, os cinco órgãos dos sentidos provêm de kamas distintos ou somente de um kama? [1]

De kamas distintos.

― Dá-me uma comparação

― Se semearmos em um mesmo campo cinco espécies de grãos, esses grãos diferentes produzem frutos diferentes?

― Sim.

― Do mesmo modo, os cinco órgãos dos sentidos são produzidos por cinco kamas.

Capítulo 2
Desigualdade dos Homens

― Nagasena, por que todos os homens não são iguais? Por que alguns têm existência longa, outros curta? Por que são diferentes ou iguais? Por que alguns têm existência longa, outros curta? Por que são ou robustos ou doentios, bonitos ou feios, influentes ou insignificantes, ricos ou pobres, nobres ou plebeus, inteligentes ou tolos?

― E por que, Maharajá, todas as plantas são desiguais? Por que, segundo as espécies, são salgadas, amargas, ácidas, doces?

― Devido à diferença nas sementes, suponho.

― Do mesmo modo, os homens diferem pela diferença nas ações. Disse o Bem-aventurado: “Os seres têm seu patrimônio, o seu karma, [2] são herdeiros, descendentes, parentes, vassalos do seu karma. O karma classifica os homens em superiores e inferiores”.

Capítulo 3
Efeitos do Esforço Atual

― Nagasena, dizes que o objetivo cio teu afastamento do mundo é anular o sofrimento atual e impedir que outro venha a nascer. Isso resulta de esforço ante­rior ou de esforço atual?

― O esforço atual, Majestade, é inoperante, no que diz respeito à existência atual. O esforço no passado, sim, é eficaz.

― Dá-me um exemplo.

― Mandas cavar um poço ou uma cacimba somente ao sentires sede? Mandas lavrar um campo, semear e colher arroz, somente quando sentes fome? Mandas construir muralhas e torres, cavar fossos, armazenar viveres, somente quando a tua cidade for atacada pelo inimigo? Somente então seriam amestrados elefantes, atrelados cavalos aos carros de combate? Somente então irias aprender o manejo do arco e da espada?

― Não, Venerável.

― Também o esforço atual é ineficaz. Só o do passado produz efeito. O Bem-aventurado disse: “O homem deve fazer logo o que lhe for útil. Seja firme na sabedoria e não permaneça ignorante como um carroceiro. O carroceiro sai da estrada real, entra por um atalho pedregoso e fica desesperado, ao quebrar-se o eixo do carro. Do mesmo modo, o tolo deixa o bom caminho para seguir o ruim, cai na boca da morte e desespera-se com o eixo quebrado!”

Capítulo 4
O Fogo do Inferno [3]

― Nagasena, tu dizes: “O fogo do inferno é muito mais ardente do que o fogo natural. Uma pedra atirada no fogo natural pode queimar um dia inteiro, sem consumir-se. Uma pedra do tamanho de uma casa alta, atirada no fogo do inferno, desapareceria no mesmo instante”. Não posso acreditar nisso. Também dizes: “Aqueles que renascem no inferno são queimados lá, durante milhares de anos, sem serem consumidos”. Também não posso acreditar nisso.

― Que pensas, Maharajá? As fêmeas dos crocodilos, das tartarugas, dos pavões, dos pombos, engolem pedras duras e cascalho?

― Sim.

― Esses corpos duros dissolvem-se no ventre desses animais?

― Sim.

― Mas dissolve-se o embrião que eles têm no ventre?

― Não.

― Por quê?

― Penso que por influência do seu karma.

― Do mesmo modo, por influência do seu karma, os moradores do inferno podem ser torturados lá, durante milhares de anos, sem serem consumidos.

O Bem-aventurado disse: “Ninguém morre antes de estar esgotado o seu karma.

― Dá outra comparação.

As fêmeas dos leões, dos tigres, as panteras, os cães, comem ossos e carnes muito duros. Esses corpos não se dissolvem na barriga desses bichos?

― Sim.

― No entanto, o embrião que está no seu ventre não se dissolve. Por quê?

― Sem dúvida, por influência do karma.

― Dá-se o mesmo com os hóspedes do inferno.

― Dá-me ainda outra comparação.

― As mulheres dos brâmanes, dos burgueses, comem carnes duras, que se dissolvem nas suas barrigas. No entanto, não se dissolve o embrião que elas têm no ventre. Por quê? Pela influência do karma. O mesmo acontece com os hóspedes do inferno.

Capítulo 5
O Ar Sustenta a Água

― Dizes, Nagasena, que a terra é sustentada pela água, a água pelo ar, o ar pelo espaço. Não posso acreditar.

O monge encheu de água um vaso para coar líquidos e disse ao rei:

― Vês que a água está sendo suportada pelo ar.

Capítulo 6
O Nirvana é Cessação

― Nagasena, o Nirvana é cessação?

― Sim, Majestade.

― Como assim?

― Todos os tolos não convertidos sentem prazer apegam-se aos sentidos e aos objetos dos sentidos. Deixam-se levar pela corrente. Não se libertam do nascimento, da velhice, da morte, do sofrimento. Mas o sábio discípulo não sente prazer, não se alegra nem sente satisfação, nem se apega aos objetos dos sentidos. Por aí, sucessivamente, cessam a sede, o apego, a existência, o nascimento, a velhice, a morte, o sofrimento. Assim, o Nirvana é cessação.

Capítulo 7
Quem Atinge o Nirvana?

― Nagasena, toda gente vai ao Nirvana?

― Não, sem dúvida. Mas quem admite os estados mentais que devem ser aceitos, reconhece os que devem ser admitidos, evita os que têm de ser evitados, cultiva os que devem ser cultivados, realiza os que devem ser realizados, esse homem alcança o Nirvana.

Capítulo 8
Conhecimento do Nirvana

― Nagasena, quem não atinge o Nirvana, sabe que o Nirvana é delícia?

― Sim.

― Como pode sabê-lo?

― Aqueles cujas mãos e pés foram cortados sabem qac isso é um sofrimento?

― Sim.

― Como se sabe disso?

― Por se ouvirem as suas queixas.

― Também por se terem ouvido as palavras daqueles que atingiram o Nirvana, sabemos que o Nirvana é uma delícia.

Capítulo 9
Prova da Existência do Buda [4]

― Nagasena, viste o Buda?

― Não.

― Viram-no os teus mestres?

― Não.     

― Então Buda não existiu.

― Viste, Maharajá, o rio Uha no Himalaia?

― Não.

― Viu-o teu pai?

― Não.

― Neste caso, o rio Uha não existe.

― Sim, existe, embora nem meu pai, nem eu o tenhamos visto.

― Dá-se o mesmo com Buda.

Capítulo 10
A Superioridade do Buda

― Nagasena, o Buda é superior a todos os seres?

― Sim. Como podes saber, se jamais o viste?

― Sem jamais o termos visto, podemos saber que o mar é grande, profundo, imenso, insondável, pois os cinco rios grandes, o Ganges, o Iamuna, o Aciravati, o Sarabhu, o Mahi, derramam nele suas águas, incessantemente, sem o seu nível subir ou descer?

― Sim.

― Também, considerando os grandes discípulos que estiveram no Parinirvana, sei que Buda é superior a todos.

Capítulo 11
Prova dessa Superioridade

― Nagasena, é possível saber que o Buda é superior a todos?

― Sim.

― Como?

― Houve outrora um mestre em caligrafia, o monge Tissa. Já decorreram muitos anos, desde que ele morreu. De que modo podemos conhecê-lo?

― Por sua caligrafia.

― Assim também, quem vê a Doutrina, vê Buda.

Capítulo 12
O Dharma

― Nagasena, viste o Dharma?

― Maharajá, é a direção dada pelo Buda, são as ordens prescritas pelo Buda, que devem ser a regra para os discípulos, durante toda sua existência.

Capítulo 13
Renascimento sem Transmigração [5]

― Nagasena, é possível renascimento sem transmigração?

― Sim.

― Como? Dá um exemplo.

― Se acendermos um archote, depois outro, podemos dizer que a chama do primeiro transmigrou para o segundo? Não! Do mesmo modo, podemos renascer sem transmigrar.

― Outro exemplo.

― Lembras-te, Maharajá, de teres aprendido um verso dito pelo teu preceptor?

― Sim.

― O verso transmigrou dele para ti?

― Não, sem dúvida.

― Assim, podemos renascer sem transmigrar.

Capítulo 14
Existe a Alma?

― Nagasena, existe o Vedagu?

― Do ponto de vista da verdade absoluta, não!

Capítulo 15
Responsabilidade sem Transmigração

― Nagasena, há um corpo que passa deste corpo a outro?

― Não.

― Então o segundo estará livre de pecados anteriores?

― Se não houvesse renascimento, estaria livre de fato. Mas há renascimento e por isso o segundo não estará livre de pecados.

― Dá uma comparação.

― Se um indivíduo roubar mangas pertencentes a outrem será culpado de furto?

― Certamente.

― No entanto, não roubou as mangas das mangueiras que já tinham sido plantadas.

― Não, mas as segundas mangueiras resultaram de outras anteriores.

Capítulo 16
Resultado dos Atos

Assim, pelo Nomeforma comete-se uma ação boa ou má. Por esse ato bom ou mau, um Nomeforma nasce. Portanto, o segundo não está livre de pecados ante­riores.

― Nagasena, as ações boas ou más, praticadas por este Nomeforma, para onde vão?

― Acompanham o seu autor, “inseparáveis como sombras”.

― É possível mostrá-las, dizendo estão aqui, estão ali?

― Não.

― Por quê? Dá um exemplo.

― Podemos mostrar os frutos que uma árvore ainda não produziu, dizendo estão aqui, estão ali?

― Não.

― Do mesmo modo, em uma série ininterrupta de ações, é impossível mostrá-las, aqui ou ali.

Capítulo 17
Pressentimento do Renascimento

― Nagasena, quem está destinado ao renascimento, sabe que vai renascer?

― Sim.

― Como?

― O lavrador que semeia o grão, se houver chuvas regulares, sabe que terá uma colheita?

― Sim.

― Dá-se o mesmo com quem terá de renascer.

Capítulo 18
Onde Está o Buda?

― Nagasena, viste o Buda? [6]

― Sim, Maharajá.

― É possível dizer onde está?

― O Bem-aventurado extinguiu-se no Nirvana absoluto. Não se pode dizer que esteja aqui ou ali.

― Dá uma comparação.

― Se estiver acesa uma grande fogueira e apaga-se uma das suas chamas, podemos dizer que esta se acha aqui ou ali?

― Não, de certo. A chama cessou, desapareceu.

― Do mesmo modo, não se pode dizer que o Bem-aventurado está aqui ou ali. Pode ser localizado pelo Corpo da Lei, pois a Lei foi ensinada por ele.

Capítulo 19
Por que os Monges Cuidam do Corpo?

― Nagasena, os monges gostam do corpo?

― Não.

― Então, por que o tratam bem?

― Alguma vez, Maharajá, foste ferido em uma batalha?

― Sim.

― E a ferida não foi limpa com azeite e envolta em uma atadura?

― Sim.

― E gostaste da ferida para tratá-la assim?

― Não. Fez-se isso para cicatrizá-la.

― Pois também os monges não gostam do corpo. Não sentem apego ao corpo. Tratam-no por ser o instrumento da vida piedosa. O Bem-aventurado comparou o corpo a uma chaga. Os monges tratam dele, sem apego. Disse o Bem-aventurado: “Coberto de uma pele úmida, grande chaga com nove orifícios, dele sai suor impuro e fétido por todos os lados”.

Capítulo 20
Regras Disciplinares

― Nagasena, o Buda sabe de tudo, vê tudo?

― Sim.

― Então por que estabeleceu regras para os pulos, à medida que vinham sendo necessárias?

― Existe algum médico conhecedor de todos médios, na Terra?

― Sim.         

― Esse médico dá um remédio ao seu doente, quando há necessidade ou antes da ocasião oportuna?

― Na ocasião oportuna.

― Assim só em tempo oportuno o Bem-aventurado prescreveu regras aos discípulos. Estes não devem desobedecer a essas regras, durante toda sua existência.

Capítulo 21
Porque Buda era Diferente de seus Pais

― Nagasena, o Buda tinha os trinta e dois sinais característicos do Grande Homem, mais os oitenta sinais secundários? Tinha a tez cor de ouro e sua auréola tinha a largura de uma braça?

― Sim.

― E havia os mesmos sinais em seus progenitores?

― Não.

― No entanto, um filho ou se parece com a mãe ou com os pais da mãe, parece-se com o pai ou com os pais do seu pai.

― Conheces, Maharajá, o lótus de cem pétalas?

― Sim.

― Onde nasce?

― No lodo e cresce na água.

― E pelo sabor e cor, como também pelo cheiro, o lótus é parecido com o lodo ou com a água?

― Nem com o lodo, nem com a água.

― Dá-se o mesmo com o Buda.

Capítulo 22
Jogo de Palavras

― Nagasena, o Buda é um brahmacarin?

― Sim.       

― Então é discípulo de Brahma.

― Maharajá, possuis um elefante de primeira classe?

― Sim.

― Às vezes, o seu bramido parece um grito de garça real?

― Sim.

― O elefante é discípulo das garças?

― Não.

― Brahma é dotado de inteligência?

― Sim.

― Então é um discípulo de Buda.

Capítulo 23
A Ordenação do Buda

― Nagasena, a ordenação é boa?

― Certamente.

― O Buda recebeu-a?

― O Buda foi ordenado ao alcançar a onisciência ao pé da árvore de Bodi. Não recebeu a ordenação na forma por de prescrita para os discípulos como norma inviolável.

Capítulo 24
Lágrimas Salutares

― Nagasena, dois homens choram, um triste pela morte da mãe, outro por amor à Lei. Qual dos dois tem ali­vio nas lágrimas?

― As lágrimas do primeiro estão viciadas pela paixão, pelo ódio, pela vaidade. As do outro têm a pureza da alegria, da serenidade. Umas são ardentes, outras são frescas. Aquilo que é fresco é remédio curativo, não aquilo que é ardente.

Capítulo 25
O Passional e o sem Paixão

― Nagasena, qual a diferença entre o homem passional e o outro sem paixão?

― Um é apegado, o outro não sente apego.

― Que é isso?

― Um é cobiçoso, outro não sente ambição.

― É assim que eu entendo o caso: ambos desejam o que é bom, por exemplo, o alimento, não o que é nocivo.

― Maharajá, o homem passional gosta do sabor, tem a paixão do sabor. O homem sem paixão gosta do sabor, mas não sente a paixão do sabor.

Capítulo 26
A Vida da Sabedoria

― Nagasena, onde está a sede da sabedoria?

― Em nenhuma parte.

― Então, não existe.

― Onde está a sede do vento?

― Em parte nenhuma.

― Então, o vento não existe.

Capítulo 27
O Samsara [7]

― Nagasena, falas do samsara. Que é o samsara?

― Uma criatura nasce na Terra e morre também na Terra. Morta aqui, renasce além e morre lá. Isso é o samsara.

― Dá-me uma comparação.

― Um homem planta uma manga e planta o caroço. Desse caroço nasce uma grande mangueira, que produz novas mangas. Vem outro homem, com urna dessas novas mangas e planta o seu caroço, do qual nasce outra mangueira. Não se sabe onde começou a série das mangueiras. Dá-se o mesmo com o samsara.

Capítulo 28
A Memória

― Nagasena, qual o fator da nossa lembrança do que passou, do que aconteceu há muito tempo?

― A memória.

― Não será o pensamento?

― Alguma vez, já esqueceste algo que tivesses feito?

― Sim.

― Estavas então sem pensar?

― Não. O que me faltava era a memória.

― Por que dizes então que nós lembramos pelo pensamento, em vez de pela memória?

Capítulo 29
Memória Espontânea
e Memória Provocada

― Nagasena, a memória produz-se sempre como um ato espontâneo, ato de reconhecimento, ou há uma memória provocada?

― Existem uma e outra.

― Mas uma vez que nós reconhecemos toda lembrança, não há, propriamente falando, memória provocada?

― Se não houvesse memória provocada, os artesãos não poderiam exercer o seu ofício, não se utilizariam de conhecimentos técnicos, os professores seriam inúteis. Tudo isso tem utilidade, graças à memória.

Capítulo 30
Dezesseis Maneiras de Lembrar

― Nagasena, quantas são as maneiras de lembrar?

― Dezesseis:

1 ‒ Reconhecimento espontâneo. É o caso de Ananda, Khujjuttara e outros santos, que se lembram das suas existências anteriores.

2 ‒ Sugestão exterior. É o caso do indivíduo naturalmente esquecido, a quem outras pessoas lembram o que ele deve fazer.

3 ‒ Pela impressão provinda de uma circunstância solene. Por exemplo, um rei lembra-se da cerimônia da sua coroação, ou da sua conversão.

4 ‒ Pela impressão deixada por um fato favorável. Lembra-se alguém de que foi feliz em tal ocasião.

5 ‒ Pela impressão oriunda de um fato funesto. Alguém se lembra de que foi infeliz, em tal situação.

6 ‒ Por uma semelhança. Alguém se lembra do pai, do irmão, da irmã, ao ver alguém que se parece com algum desses seus familiares. Lembra-se alguém de algum outro animal, quando vê um boi, um burro, um camelo.

7 ‒ Por uma dissemelhança. Algo de cor, cheiro ou som diferente, lembra um objeto ou coisa diferente.

8 ‒ Ao ouvir uma palavra. É o caso de quem se lembra de algo ao lhe dizerem uma palavra ou falarem de algo.

9 ‒ Por um sinal. Lembramos deste ou daquele boi ao ver um sinal que ele traz em alguma parte do corpo.

10 ‒ Pela exortação à lembrança. É o caso do homem, naturalmente esquecido, a quem outros estão sempre repetindo: “Lembra-te!” “Lembra-te!”

11 ‒ Pela linguagem escrita. Depois de termos aprendido a escrever, sabemos que tal letra deve ser traçada depois de outra.

12 ‒ Pelo cálculo. Tendo aprendido a calcular, os calculistas podem enumerar um grande número de objetos.

13 ‒ Decorando. Aqueles que aprenderam de cor trechos em prosa ou em versos sabem repeti-los, declamando-os.

14 ‒ Pela meditação. O religioso lembra-se de várias existências anteriores com as suas circunstâncias particulares.

15 ‒ Escrevendo em um livro. Quando têm de proclamar um édito, os monarcas dispõem de um livro, em que transcrevem o texto do édito, para depois se lembrarem do que foi ordenado por essa lei.

16 ‒ Por meio de um depósito. Vendo o objeto depositado, alguém pode lembrar as circunstâncias ou a ocasião em que foi guardado o objeto.

17 ‒ Por associação. Lembramos uma forma que já foi vista, um som que já ouvimos, um perfume que já aspiramos, um gosto que já saboreamos, um objeto em que já tocamos, uma ideia que já nos ocorreu.

Capítulo 31
Pequenos Atos, Grandes Efeitos

― Nagasena, vocês budistas pretendem que o homem que durante a sua existência tivesse sempre come­tido ações más se, no momento da morte, dirige um pensamento a Buda, irá viver entre os deuses. Não posso acreditar. Dizem vocês, também, que vamos para o inferno por termos matado um único ser vivo. Também não posso acreditar nisso.

― Responde, Maharajá. Pode uma pedrinha flutuar na água, sem estar apoiada em um pedacinho de madeira?

― Não.

― Mas poderão flutuar cem pedras sobre um estrado de madeira?

― Sim.

― O estrado de madeira são as boas ações.

Capítulo 32
Finalidade da Vida Religiosa

― Nagasena, qual o objetivo do esforço de vocês? A extinção do sofrimento passado, futuro ou presente?

― Nem um, nem outro.

― Então, qual o objetivo de vocês?

― A extinção do sofrimento atual, sem sobrevir nenhum outro.

― E existe sofrimento futuro?

― Não.                               

― Que sábios extraordinários esses, que se esforçam por suprimir aquilo que não existe!

― Será que mandas cavar trincheiras, construir muralhas, construir torres, fortalezas, somente na ocasião em que te atacam os reis teus inimigos, Maharajá?

― Não. Tudo isso se faz antes.

― Somente quando te atacam teus inimigos, vais aprender a dirigir elefantes, a montar cavalos, a conduzir carros, a manejar o arco e a espada?

― Não. Aprendi tudo isso antes.

― Qual o objetivo?

― Afastar os perigos futuros.

― Mas, existe algum perigo futuro?

― Não, sem dúvida.

― Que sábio extraordinário tu és, preparando-te para afastares perigos que não existem!

― Dá outra comparação.

― Somente quando sentes sede é que mandas abrir um poço ou fazer um tanque, para dispores de água que tu possas beber?

― Não. Tudo isso se faz com antecedência.

― Por quê?

― Para evitar a sede e a fome no futuro.

― Mas, há fome e sede futuras?

― Não, sem dúvida.

― Que sábio extraordinário, que se prepara para evitar sede e fome que não existem!

Capítulo 33
Distância da Terra
ao Inundo de Brahma

― Nagasena, qual a distância daqui ao mundo de Brahma?

― A distância é tal que uma pedra do tamanho de uma casa, vinda do mundo de Brahma com a velocidade de 48.000 yojanas por dia (24 horas) necessitaria de quatro meses para chegar à Terra.

― Vocês também afirmam: “Tão rapidamente quanto um homem robusto estende o braço dobrado ou dobra o braço estendido, o religioso, que realizou o domínio da mente, desaparece do Jambudipa e reaparece no mundo de Brahma”. Não posso acreditar que ele percorra com tal rapidez esse número de yojanas. [8]

― Qual é o teu país natal, maharajá?

― Uma ilha chamada Alasanda.

― Qual a distância daqui até Alasanda?

― Duzentos yojanas.

― Podes lembrar alguma coisa que tenhas feito lá?

― Sim, lembro.

― Percorreste, facilmente, duzentos yojanas.

Capítulo 34
Renascimento Simultâneo

― Nagasena, dois homens morrem aqui. Um renasce no mundo de Brahma, outro em Cachemira. Qual chega mais depressa?

― Ambos chegam ao mesmo tempo.

― Dá um exemplo.

― Maharajá, qual a tua cidade natal?

― A aldeia de Kalasi.

― Qual a distância daqui até Kalasi?

― Duzentos yojanas.

― E daqui até Cachemira?

― Doze yojanas.

― Pensa em Kalasi.

― Pensei.

― Pensa em Cachemira.

― Pensei.

― Qual foi o teu pensamento mais rápido?

― Pensei nos dois lugares com o mesmo tempo.

― Assim, nós renascemos com o mesmo tempo no mundo de Brahma e em Cachemira.

Capítulo 35
Elementos de Bodi [9]

― Nagasena, quantos são os elementos da iluminação (bojjhangâ)?

― Sete.

― E por quantos desses elementos alguém realiza a iluminação?

― Por um só: a investigação dos dharmas (dharmavicaya).

― Então, por que falar de sete elementos da iluminação?

― Se deixamos uma espada na bainha, podemos cortar alguma coisa com ela?

― Não.

― Assim também, sem a investigação dos dharmas, ninguém pode ser iluminado pelos outros sete elementos.

Capítulo 36
Predominância do Bem

― Nagasena, qual é o predominante? O bem ou o mal?

― Por quê?

― O bem é predominante. O mal é pouca coisa.

― Por quê?

― Quem faz o mal sente remorso, pois o pecado não aumenta. Quem faz o bem não sente remorso. Sem remorso está satisfeito. Satisfeito, sente-se alegre. Alegre, o corpo está tranquilo. A tranquilidade do corpo produz o bem estar. No bem estar, há tranquilidade da mente. A mente recolhida vê a verdade. Por isso o bem aumenta.

― Se um homem a quem cortaram as mãos e os pés, oferecer um punhado de flores ao Buda estará livre dos lugares de punição, durante 90 kalpas.

Capítulo 37
O Pecado Inconsciente é o Pior

― Nagasena, dois homens cometem uma ação má, um conscientemente, outro inconscientemente. Qual o mais culpado?

― O pecador inconsciente.

― Se um príncipe ou um funcionário cometer uma falta, sem saber, eu deveria puni-lo duplamente?

― Supõe uma bola de ferro incandescente. Ela tocaria em um homem desprevenido e depois em outro que estaria atento. Qual seria mais gravemente queimado?

― O desprevenido.

― Assim o pecador inconsciente comete pecado maior.

Capítulo 38
O Corpo Pode
Transportar-se Além do Mundo

― Nagasena, posso ir com este meu corpo a Uttarakuru, ao mundo de Brahma, a qualquer região do mundo?

― Sim.          

― Como?

― Estás lembrado, Maharajá, de já teres pulado em um salto, certo número de côvados?

― Sim. Posso dar um salto de oito côvados.

― Como saltas oito côvados?

― Penso: “vou cair ali”. Pensando assim, meu corpo fica leve.

― Do mesmo modo, o religioso dotado de poderes mágicos, que dispõe do domínio da mente, carrega o corpo em sua mente e pela força da mente eleva-se nos ares.

Capítulo 39
Os Ossos de 100 “Yojanas”

― Nagasena, vocês dizem que há ossos que medem cem yojanas. Ora, se não existem árvores com esse comprimento, como é possível haver ossos tão compridos?

― Já não ouviste dizer que no mar se encontram peixes com quinhentos yojanas?

― Sim.

Ora, não há dúvida de que um peixe de quinhentos yojanas pode ter ossos de cem yojanas.

Capítulo 40
A Suspensão da Respiração

― Nagasena, vocês dizem que se pode deixar de respirar. Como é possível isso?

― Já ouviste alguém que está dormindo roncar?

― Sim.

― O ruído não cessava, quando a pessoa adormecida virava o corpo para um lado?

― Sim.

― Um homem que não exercitou o corpo, nem as virtudes, nem o pensamento, nem a sabedoria, pode deixar de roncar mediante um simples movimento corporal. Se assim é, por que não pode suspender a respiração quem exercitou o corpo, as virtudes, o seu pensamento, a sua sabedoria?

Capítulo 41
Samuda

― Nagasena, por que o mar se denomina samuda?

― Porque há no mar tanto sal quanta água, tanta água quanto sal.

Capítulo 42
Porque o Mar é Salgado

― Nagasena, por que o gosto do mar é um só, gosto de sal?

― Porque a água imobilizou-se no mar durante muito tempo.

Capítulo 43
Divisibilidade dos Dharmas

― Nagasena, a coisa mais fina pode ser dividida?

― Sim.

― Qual é a coisa mais fina?

― O Dharma (doutrina), mas não todos os dharmas (fenômenos), pois um dharma pode ser qualificado em fino ou grosso. Mas tudo o que é divisível pode ser dividido pela sabedoria, que ninguém pode dividir.

Capítulo 44
Diferença dos Dharmas

― Nagasena, os dharmas, que se denominam consciên­cia, sabedoria, alma, são diferentes em essência ou em termos? Diferem apenas nos termos ou são idênticos em essência?

― A característica da consciência é conhecer, a da sabedoria julgar. A alma [10] não existe.

― Se não existe a alma, quem vê então a forma com o olho, quem ouve o som com o ouvido?

― Se existisse a alma que vê a forma com o olho, ouve o som com o ouvido, então, no caso de se arrancarem as portas do olhar, a alma, atenta no que houvesse pelo mundo afora, poderia ver as formas em um largo espaço. Ora, isso não acontece. Portanto, não existe alma.

Capítulo 45
Buda Distinguiu os Dharmas

Declarou o monge:

O Bem-aventurado fez uma coisa difícil.

― Qual?

― Enunciar a distinção de todos os dharmas imateriais, espirituais que se encontram em um só órgão dos sentidos: contato, sensação, concepção, pensamento, mente.

― Dá uma comparação.

― Se um homem pulasse de um barco no mar, tomasse na mão um pouco de água e provasse-a, poderia reconhecer a água do Ganges, do Aciravati, do Sarabhu, do Mahi?

― Seria muito difícil.

― Pois o Bem-aventurado fez algo muito difícil, distinguindo os dharmas.

― Muito bem, declarou o rei.

Capítulo 46
Epílogo

Disse o monge:

― Sabes, Maharajá, que horas são?

― Sei, Venerável. Já passaram as primeiras horas da tarde. Já se acenderam as luzes. Já se içaram as quatro bandeiras. Já se aproximam os portadores de presentes para o rei.

Declararam então os Ionacas:

― Maharajá, és inteligente, mas o monge é sábio.

― Sim – observou o rei –, o monge é sábio. Onde existir um mestre como ele e um discípulo como eu, não se gastará muito tempo na compreensão da doutrina.

Satisfeito com as respostas às suas perguntas, o rei ofereceu ao monge uma peça de tecido no valor de cem mil moedas, dizendo-lhe:

― Venerável Nagasena, a partir de hoje eu lhe garanto oitocentas refeições. E, em meu palácio, o reverendo poderá escolher aquilo que lhe for licito receber.

― Agradecido, Maharajá. Já tenho o necessário para viver.

― Sei, Reverendo. Mas deveis ser cuidadoso convosco e comigo para que não digam: “O monge Nagasena satisfez o rei Milinda, e, no entanto, nada recebeu do monarca”. E, quanto a mim, dirão: “O rei Milinda ficou satisfeito, mas não o demonstra”.

― Está bem, Maharajá.

― Como o leão cativo em uma jaula de ouro estende o pescoço para fora, assim eu, embora permaneça no mundo, aspiro à solidão. Mas, se eu deixasse o mundo pela vida religiosa, não viveria muito tempo, pois tenho muitos inimigos.

Então, o venerável Nagasena, uma vez respondidas as perguntas do Rei Milinda, levantou-se e voltou para o seu convento. Mas, depois da retirada do monge, perguntou o rei Milinda a si mesmo: “Quais foram minhas perguntas? Quais foram as respostas do reverendo?”

Por sua vez, o venerável Nagasena, estando já em sua cela, indagou de si mesmo: “Que foi que o rei me perguntou? Que lhe respondi eu?” e pensou: “O rei Milinda perguntou-me tudo, eu respondi-lhe tudo”.

No dia seguinte, pela manhã, vestiu-se, tomou sua tigela e seu manto, dirigiu-se ao palácio e foi sentar-se ao lado do rei. Milinda saudou-o e também sentado ao lado do monge, declarou:

― Não vá supor o Reverendo que, durante a noite, deixei de dormir, satisfeito, por haver interrogado Nagasena. De modo nenhum. Perguntei a mim mesmo: “quais foram minhas perguntas ao reverendo Nagasena? Perguntei-lhe tudo, ele respondeu-me tudo!”

Por sua vez, disse-lhe o monge:

― Também não suponha, Majestade, que passei a noite contente por haver respondido às suas perguntas. Não! Durante a noite disse-me a mim mesmo: “o rei Milinda perguntou-me tudo, eu respondi-lhe tudo”.

E assim aqueles dois homens estavam satisfeitos com a palestra que tinham mantido, no dia anterior.


[1] Kama ‒ Desejo, concupiscência, disposição ao gozo. Segundo o Budismo, Kama significa energia instintiva, desejo natural, que é um dos aspectos de Tanha (desejo de viver).

[2] Karma – A palavra karma significa ação, que se processa no plano físico ou no psicológico ou no social. Sendo ação, o karma é também causa e assim produz efeito. Segundo o Budismo, o processo cármico é continuo, no mundo fenomênico, no qual se incluem a natureza física e a psicológica.

Um ato bom ou mau resultará em efeito bom ou mau. Esse efeito será inseparável do Nomeforma que surgiu no futuro. Adverte ainda o Budismo que esse novo Nomeforma (Nama-Rupa) é de fato novo, não repete o anterior, pois o Budismo nega a alma como unidade que subsiste através do tempo.

[3] A morte separa a forma Rupa e a psicológica ou mental Nama. Mas o Nama continua como estrutura de efeitos, até a dissolução final, que precede a ressurreição da dinâmica dos efeitos em um novo ente, existente no plano físico. O intervalo entre a morte de um Nomeforma e o nascimento de outro Nomeforma decorre no inferno ou no céu. Se isso acontecer no inferno, o Nama sofrerá os efeitos dolorosos das más ações, efeitos que Nagasena diz serem fogo pior do que o do fogo natural. Essa concepção escatológica do Budismo é análoga à do Cristianismo. O inferno, embora temporário, segundo o Budista corresponderia ao purgatório do Catolicismo. Quanto ao fogo, Budismo, Catolicismo e Protestantismo estão concordes. O Budismo Tibetano, porém, em seu livro “Bardo Todol”, adverte que são ilusórios os tormentos da alma, durante a existência no mundo astral, intermediária entre a morte e renascimento.

[4] Buda, superior a todos os seres ‒ Nagasena expõe a concepção da personalidade de Buda, elaborada pela escola do Mahayana (Grande Veículo), embora o Milinda Panha seja livro aceito pelos Theravadins, adeptos da ortodoxia budista, que discorda dos pressupostos do Budismo do norte da Índia e do Tibet.

Segundo o Mahayana, Buda não se reduz ao homem que realizou o Nirvana. Buda é a personificação da Suprema Verdade, por isso mesmo o ser que usufrui da supremacia ontológica entre todos os seres existentes no Universo.

[5] Transmigração ‒ Segundo Deussen, The Philosophy of the Upanishads, a doutrina da transmigração estabelece que após a morte a alma continua viva, em outras condições de espaço e de tempo, podendo viver em outros astros ou entrar no corpo de um animal.

Nagasena rejeita a transmigração, mas o Budismo do Tibete admite-a, tanto assim que nesse país será punido quem pescar ou comer peixe. Acreditam os tibetanos que o peixe é um dos animais preferidos pelas almas que transmigram. Quem assa ou cozinha um peixe pode estar assando ou cozinhando o seu pai ou mãe, se já tiverem morrido.

[6] Vide Nota 51.

[7] Samsara ‒ Processo cósmico continuo de formação e destruição de formas, desde as materiais até as espirituais. É o processo da evolução fenomênica, ao qual está condicionada a permanência da alma humana, no curso dos renascimentos e das mortes.

As práticas ascéticas têm por objetivo libertar a alma do homem do intérmino giro, na esfera fenomênica, no Samsara.

Para o Budismo a libertação da roda dos renascimentos é a realização do Nirvana, a vida sem sofrimento, a bem-aventurança infinda.

[8] Yojana ‒ Medida de extensão variável que, em unidades métricas, varia de 5 a 15 quilômetros.

[9] Budhi ‒ A plenitude da consciência, quando o espírito humano sabe da razão de ser de tudo quanto há no Universo. Foi essa plenitude de consciência que Buda atingiu, alcançando o Nirvana à sombra de uma árvore, após demorada meditação e concentração das faculdades do espírito. Os orientais denominam “iluminação” a essa plenitude de consciência. A palavra Buda significa iluminado.

[10] Para o pensamento hindu confundem-se os conceitos de realidade e de permanência. Os budistas negam a permanência do princípio espiritual, a alma, e daí a impossibilidade de ser a alma imortal, eterna. Para o budismo, alma seria apenas função, em vez de princípio. Sendo impermanente, não será verdadeira, e não sendo verdadeira não pode ser real e muito menos imortal. Aliás, esse postulado do budismo não é tão herético como poderia parecer, pois segundo o deus da morte, Yama, no Katha Upanichada, “nem os deuses são imortais. Imortal, somente o Eterno”.

 


Traduzido por Raul Xavier

Você está lendo
Livro III - Solução das Dificuldades
Capítulo Anterior
Livro II - Características