O Vidente

Um capítulo de O Templo do Rei Salomão

Da realidade das visões no astral.

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O Vidente[1]

Não é de se admirar que o esforço mágico ao qual P. fora submetido pelos últimos sete meses tenha desabrochado há muito em flores de beleza estranha e maravilhosa. E assim encontramos, já no começo de novembro de 1899, o início de uma série de visões extraordinárias tão selvagens e envolventes quanto as de Blake ou as de São Francisco.

Mas antes de tratar dessas visões, será necessário explicar que por visão entendemos um estado psicológico tão definido, e um fato tão certo e real para o olho mental, quanto a visão de uma paisagem é considerada para o próprio olho físico. E assim, quando por acaso escrevemos “ele viu um anjo”, deve-se entender que queremos dizer com isso um fato tão absoluto como se tivéssemos escrito “ele viu uma montanha” ou “ele viu uma vaca”. No entanto, não deve ser aceito que com isso estabelecemos que anjos ou vacas existem à parte de nós, eles podem ou não existir; mas deve-se considerar que anjos, montanhas e vacas são ideias de igual valor em suas próprias esferas específicas: a astral e a material; e que eles têm seu devido lugar na existência, qualquer que seja essa existência, e que toda experiência, normal, anormal, subnormal ou supranormal, seja tratada como uma ilusão ou um fato, é de igual valor enquanto estiver condicionada no Tempo; e que um sonho é de natureza tão real quanto o despertar, mas em um plano diferente de existência, cujas condições só podem ser julgadas e medidas pela ciência experimental.

A ciência avança pelo acúmulo de fatos e pela consolidação deles, cuja grande generalização se funde em teoria quando aceita por inferência universal. Assim, deduzo que pegar uma bola não é uma consequência necessária de atirar uma bola no ar; no entanto, se eu nunca tivesse atirado uma bola na minha vida, e de repente começasse a fazê-lo, e invariavelmente a pegasse, provavelmente depois da noningentésima nonagésima nona bilionésima vez eu poderia ser desculpado se considerasse que pegar bolas fosse uma lei necessária da natureza[2]. No entanto, se eu chegasse a tal conclusão sem estar plenamente consciente de que a qualquer momento eu poderia ter que reformular todas essas leis, eu seria apenas um dogmático cabeça de morcego em vez do homem da ciência de olhos de falcão que está sempre pronto para rever e reformar[3].

Antes do nascimento de Copérnico, o Sol era universalmente considerado como um corpo que se movia ao redor da Terra; isso era um FATO, e provavelmente enquanto durou, era o fato mais universal que a mente do homem já havia aceitado; mas desde que aquele sábio iluminado surgiu, foi demonstrado que essa é uma simples fábula, um erro infantil, uma ilusão de ótica insignificante – no que diz respeito à dogmática pseudocientífica.

Para uma criança que nunca viu um macaco, o macaco está fora da circunferência de seu conhecimento; mas depois de ter visto um, é mera tolice para outras crianças dizerem: “Ah não, na verdade você não viu um macaco; não existem coisas como macacos, e o que prova isso sem sombra de dúvida é que nós mesmos nunca vimos um!” Isso, como será visto, é o velho, velho argumento conclusivo dos Livres-pensadores[4]: “Não existe um Deus porque nós não tivemos experiência de um Deus”[5]. … “Não existe um Polo Sul porque não demos seis voltas ao seu redor e não gravamos nossos nomes nele com nossos canivetes!”

Agora, o que é conhecimento?

Alguma coisa é! – Chame isso de Existência.

O que existe?

“Eu existo!” responde o Idealista, “Eu, eu sozinho!”

“Ah, não, não mesmo!” grita o Materialista, “você certamente existe; mas não sozinho, pois estou falando com você!”

“Idiota!” diz o Idealista, “você não consegue entender a simples ideia de que você e seu argumento tolo são de fato parte de mim?”

“Mas certamente”, responde o Materialista, “você não duvida que o mundo exista, que a Evolução do Homem exista, que Judas McCabbage exista e é um fato real”.

“Com certeza eles existem”, suspira o Idealista, “assim como os reflexos do rosto de um macaco em um espelho, sim, eles existem, mas não separados de minha própria mente”.

“No entanto, o mundo de um cego”, diz o Místico, “é um lugar muito diferente do mundo em que um surdo vive, e ambos os mundos diferem consideravelmente do mundo em que a pessoa normalmente constituída habita. Da mesma forma os animais, cujos órgãos dos sentidos divergem dos nossos, vivem em um mundo totalmente diferente de nós. Dar olhos a um verme é apenas comparável a nos dotar de um sexto sentido. Portanto, para nós, o mundo depende inteiramente do desenvolvimento de nossos sentidos; e à medida que eles crescem e se deterioram assim também ocorre com o mundo, quanto mais o mundo daqueles que saíram da prisão de seus sentidos difere do mundo daqueles que ainda se encontram presos nela. É possível conceber uma criança nascendo cega (em uma raça de cegos) obtendo o uso de seus olhos quando velha, e então entrando em um novo mundo; então por que seria impossível conceber uma pessoa com todos os seus sentidos perfeitos obtendo outro sentido ou entrando em outra dimensão[6]? O cego, se poucos minutos depois de ter obtido a visão voltasse subitamente à cegueira, teria grande dificuldade em explicar a seus irmãos cegos as visões que tenha visto, na verdade, ninguém acreditaria nele, e sua dificuldade em explicar na linguagem da terra cega as maravilhas da terra da visão provavelmente seria tão grande que ele encontraria mais consolo no silêncio do que em uma tentativa de explicação: isso geralmente tem sido o caso dos verdadeiros adeptos; e aqueles que tentaram se explicar foram chamados de loucos pela ralé.

“A verdade é”, continua o Místico, “vocês dois têm falado tolices com seus chapéus de materialista e idealista. Pois:”

“No Mundo Material, a Matéria é Existência”.

“No Mundo Sensível, os Sentidos são Existência”.

“No Mundo Espiritual, o Espírito é Existência”.

“E embora no Mundo Sensível uma vaca ou um anjo existam apenas como uma ideia para nós, isso não exclui a possibilidade de uma vaca existir como carne no Mundo Material, ou um anjo como um espírito no Mundo Espiritual”.

“O fato é”, interrompe o Cético, “que eu duvido de todos vocês três; pois do exposto acima vocês três inferem uma cadeia de eventos – sejam materiais, sensoriais ou espirituais, postulando assim a Existência de Causalidade como uma propriedade comum destes três mundos. Acabemos com a Matéria, os Sentidos e o Espírito, e o que resta? Certamente não o Tempo e o Espaço, essa inferência gêmea concebida por aquela Matéria, Sentidos e Espírito que acabamos de colocar para dormir”.

“Você não acha”, diz o Iluminista Científico, “que em vez de sonhar a vida inteira não seria melhor acordar e trabalhar um pouco? Vocês são quatro, e os Querubins de Ezequiel talvez cativem sua individual atenção”.

A verdade é que não importa um tostão com que nome você batize as ilusões desta vida, chame-as de substância, ou ideias, ou alucinações, isso não faz a menor diferença, pois você está nelas e elas em você, seja lá o que você quiser chamá-las, e você deve sair delas e elas de você, e quanto menos você considerar seus nomes, melhor; pois a mudança de nome só cria confusão desnecessária e é uma perda de tempo.

Portanto, chamemos o mundo de uma série de existências e acabemos com o assunto, pois pouco importa o que queremos dizer com isso desde que trabalhemos; muito bem então; a Ciência faz parte desta série, assim como a Magia, as vacas e os anjos, as paisagens e as visões; e a diferença entre essas existências é a diferença que existe entre um queijeiro e um poeta, entre um cego e um que vê. Quanto mais claro é o olhar, mais perfeito é o olhar; quanto mais clara a visão, mais perfeita é a visão. Os olhos de um falcão são mais aguçados que os de uma coruja, assim como os de um poeta são mais aguçados que os de um queijeiro, pois o primeiro pode ver beleza em um Stilton maturado, enquanto o segundo só consegue ver duzentos reais por quilo.

Uma verdadeira visão está para o despertar assim como o despertar está para um sonho; e uma visão coordenada perfeitamente clara é uma Realidade tão próxima de perfeita que não podem ser encontradas palavras para traduzi-la, mas não se deve esquecer que sua verdade cessa no retorno do vidente ao plano Material.

Portanto, o Vidente é o único juiz de suas visões, pois elas pertencem a um mundo em que ele é Rei absoluto, e descrevê-las para alguém que vive em outro mundo é como falar holandês com um espanhol. Então nosso desafio é construir, se possível, uma linguagem universal. Os rituais da Aurora Dourada e o estudo da Cabala fizeram isso para P., e quando falamos de quadratura do círculo, de escuridão cegante, de vozes silenciosas etc. etc., aqueles que aprenderam o alfabeto de qualquer linguagem mágica entenderão; e aqueles que não o fizeram, se quiserem ler mais com proveito, é melhor aprendê-lo, pois isso os ajudará a dominar a nova linguagem mágica e as doutrinas que aqui lhes oferecemos.

A visão do adepto é tão mais verdadeira que a visão comum que, uma vez alcançada, nunca mais é abandonada, pois muda toda a vida. Blake teria duvidado da existência de sua esposa, de sua mãe ou de si mesmo, como a de Urizen, Los ou Luvah.

Os sonhos são reais, as alucinações são reais, o delírio é real e a loucura também; mas na maior parte são realidades Qliphóthicas, instáveis, desequilibradas, perigosas.

As visões são reais, as inspirações são reais, a revelação é real e o gênio também; mas estes são de Kether, e o alpinista mais alto da montanha mística é aquele que obterá a melhor vista, e de seu cume todas as coisas lhe serão mostradas.

Uma criança que aprende a tocar violino não será, à princípio, confundida com Sarasate ou Paganini; pois haverá discórdia e confusão de som. Assim também agora, ao iniciarmos com as primeiras visões de P., encontraremos caos empilhado sobre caos, muita luta e barulho, um rugido de águas selvagens na noite e, finalmente, melodia, silêncio e a comunicação dos livros místicos de V.V.V.V.V.

Agora vamos traçar seu progresso em busca da Pedra dos Filósofos, que está escondida na Montanha de Abiegnus.

Há dezoito visões registradas[7] entre o início de novembro e o final de dezembro de 1898, mas como não há espaço suficiente para incluí-las todas, apenas as seis mais interessantes serão fornecidas. Tendo sido todas escritas na cifra hieroglífica particular de Frater P., fomos obrigados a reescrevê-las completamente e elaborar sobre elas.


  1. «O título original deste capítulo é The Seer. Aqui o sentido não é de alguém que prevê o futuro, mas sim aquele que obtém uma “visão reveladora e sobrenatural” (Dicionário Michaelis). Vidência vem do latim vidēns, que significa “ver”, “olhar”, “observar”.» ↩︎

  2. “Por que é mais provável que todos os homens devam morrer; que o chumbo por si só não consegue ficar suspenso no ar; que o fogo consome a madeira e se extingue pela água; a menos que esses eventos sejam considerados de acordo com as leis da natureza, e que seja necessária uma violação dessas leis, ou em outras palavras, um milagre, para evitá-los?” — «The Philosophical Works de David» Hume, iv., p. 133.

    “É um milagre que um homem morto volte à vida, porque isso nunca foi observado em nenhuma época ou país”. — Hume, iv., p. 134. ↩︎

  3. “Se um pedaço de chumbo permanecesse suspenso no ar, a ocorrência seria um ‘milagre’, no sentido de um evento maravilhoso, de fato; mas ninguém treinado nos métodos da ciência imaginaria que qualquer lei da natureza fosse realmente violada por isso. Ele simplesmente começaria a trabalhar para investigar as condições sob as quais uma ocorrência tão inesperada ocorrera; e assim ampliar sua experiência e modificar sua concepção até então indevidamente estreita das leis da natureza”. — Huxley, Essay on Hume, p. 155.

    “Um filósofo declarou que desacreditaria o testemunho universal ao invés de acreditar na ressurreição de uma pessoa morta, mas seu discurso foi precipitado, pois é na fé do testemunho universal que ele acreditava na impossibilidade da ressurreição. Se a ocorrência fosse provada, o que se seguiria? Devemos negar a evidência ou renunciar à razão? Seria absurdo dizer isso. Deveríamos simplesmente inferir que estávamos errados ao supor que a ressurreição é impossível”. – E. Lévi, The Doctrine of Transcendent Magic «Dogma e Ritual de Alta Magia», pp. 121, 158, também p. 192.

    Consulte também o The Star in the West de Cap. J. F. C. Fuller, pp. 273-284. ↩︎

  4. Em oposição a “pensador livre”. ↩︎

  5. E não “Não existe um Deus para nós, porque nós não tivemos experiência de um Deus”, o que, enquanto eles não tivessem tal experiência, seria correto. ↩︎

  6. “Tudo o que é inteligível e pode ser distintamente concebido não implica contradição e nunca pode ser provado falso por qualquer demonstração, argumento ou raciocínio abstrato a priori”. — Hume, iv., p. 44. ↩︎

  7. Muitas dessas visões foram realizadas com Frater C. S. «Causa Scientiæ, Julian Baker.» ↩︎


Capítulo traduzido e anotado por Alan Willms em janeiro de 2023. Foto ilustrativa de Greg Rakozy no Unsplash.