Entendimento

A natureza do Conhecimento, a culminação e a estase das faculdades Intelectuais, foi discutida no ensaio anterior. Ela implica em uma contradição de termos. O Entendimento é a resolução dessa antinomia. É a principal qualidade de Neschamah, a Inteligência — uma ideia insusceptível de definição verdadeira porque é suprarracional, e somente apreciável por experiência direta. Pode-se dizer, no máximo, que não depende de qualquer um dos modos normais de movimento da mente.

(Um exemplo significativo da verdade desta teoria cabalística é que as mulheres muitas vezes possuem a mais excelente Inteligência, embora sejam totalmente incapazes do Conhecimento e da Razão sobre os quais, logicamente, ela se baseia.)

O Samādhi, que a princípio produz muito Êxtase desconcertante, termina neste Entendimento; portanto, pode-se dizer que o Entendimento implica em uma certa qualidade Samádhica de apreensão. A dualidade (talvez) não é absolutamente abolida, exceto na superestrutura do estado; mas assume uma forma que seria absurdo chamar de dualística.

(Será notado que a violação da lógica é essencial para todo verdadeiro esforço para transmitir a concepção.)

Este fato está na raiz de todo simbolismo Trinitário; o esquema é de ideia geométrica, e até aritmética, como mostrado pela atribuição de Binah ao número 3. Mas a solução de cada díade em uma Tríade Triuna é enganosa, na medida em que pretende interpretar o fenômeno em termos de intelecto, e apenas útil na medida em que pode treinar as faculdades de raciocínio para se sobrepor a um suicídio sublime no Altar da Intuição Mística — embora esta, afinal, seja uma imitação mediana do processo adequado. Pois, em primeiro lugar, seu método não é científico; e em segundo lugar, não é legítimo em sua negação de sua própria validade.

O único modo correto e adequado da Consecução do Entendimento é desligar e inibir a mente racional por completo, deixando assim uma Tabula rāsa1 sobre a qual a faculdade inteiramente estranha — dē novō e suī generīs2 — pode escrever sua primeira palavra.

Mas então (certamente será perguntado) o que é mais ininteligente do que essa suposta Inteligência? Do que este Êxtase sem forma e até delirante que varre todas as formas de pensamento? Nenhum homem são negaria esta premissa: mas a explicação é que este Êxtase é (por assim dizer) a dor violenta do Nascimento da nova faculdade. É certamente natural que um observador se assuste, por ora, com a descoberta de um novo Universo. Ānanda deve ser dominado virilmente, não tolerado como um vício à maneira do Místico! O Samādhi deve ser esclarecido por Śīla, pela severa virtude da restrição: e então surge o paradoxo de que a nova Lei da Mente “veio não para destruir, mas para cumprir” a velha. O Entendimento tem plena consciência de todo aquele vasto material que a Razão foi incapaz de construir em qualquer estrutura coerente. As contradições desapareceram por absorção; elas foram aceitas como fatores essenciais na natureza da Verdade, que sem elas eram um mero amontoado de Fatos.

Ficará claro a partir de todas essas considerações que não há necessidade de surpresa neste paradoxo primordial: que o Ceticismo, absoluto em todas as dimensões, é a única base possível para a verdadeira Consecução. Todas as tentativas de evitar o problema apelando para a “fé”, por sofismas transcendentais místicos ou quaisquer outras variedades espirituais do Truque das Três Cartas3 são devotadas à mais abjeta destruição.

Não se pode “encontrar a Senhora” de outra forma senão a do Cavaleiro Errante, do Grande Louco — o Caminho da Águia no Ar — cujo Número Sagrado é o Zero Sagrado. Sim, também, Nada sendo Tudo, e Tudo sendo Pã, o único devido contato com o Supremo é na forma dual de παμφάγε πανγενετωρ4.

Pois tudo precisa ser destruído para que Tudo possa ser gerado.


  1. «Latim para “lousa limpa”, também o nome de uma teoria de que todos nascemos com a mente como um papel em branco, sobre o qual escrevemos à medida em que obtemos conhecimento através das percepções.» 

  2. «Latim para “de seu próprio gênero” ou “única em gênero”.» 

  3. «Um jogo de azar onde 3 cartas são apresentadas para o apostador que escolhe uma delas. As cartas são viradas para baixo e misturadas por algum tempo enquanto o apostador observa atentamente e tenta adivinhar a posição correta da carta escolhida. Caso o apostador acerte, obterá o prêmio.» 

  4. «Grego panphage pangenetor, “que tudo devora”, “que tudo gera”.» 


Traduzido por Alan M. W. Quinot

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