Indiferença

Um capítulo de: Pequenos Ensaios em Direção à Verdade

A reação indiferente aos eventos da vida.

Indiferença

O estado de espírito caracterizado pela Indiferença é comumente chamado de Transe, mas essa designação incorreta é lamentável. De fato, em certo sentido, ele é o exato oposto de um Transe; pois Transe geralmente implica em Samādhi, e este estado exclui especificamente qualquer ocorrência desse tipo. Aquele implica em uma união, e este em uma dissociação intencional. No entanto, não há nada aqui que sugira necessariamente qualquer prática dos Irmãos Negros; pois este estado não é, propriamente falando, uma Consecução, mas antes uma atitude conveniente. E é da maior importância e uso práticos. Uma pessoa não consegue permanecer indefinidamente em qualquer Samādhi; ao mesmo tempo, é conveniente preencher os intervalos entre as rajadas de trabalho positivo de modo que ela fique o mais livre possível para dar o próximo passo. Portanto, a pessoa deveria cultivar um hábito mental que não seja limitado por nenhuma forma de desejo. Desta forma, o Estado de Indiferença é uma forma daquele Silêncio que é defesa e proteção, e é cognato com a Terceira Nobre Verdade do Budismo, a Cessação do Sofrimento.

A ideia geral do estado é que a mente deve reagir automaticamente a toda e qualquer impressão: “Não importa se o Evento é positivo ou negativo”. Blavatsky observa que a sensação é pelo menos tingida de desgosto. Mas isso é um erro; tal estado é imperfeito. Ao contrário disso, deveria haver uma alegria bem definida, não na impressão em si, mas em ser indiferente a ela. Essa alegria surge sem dúvidas da sensação de poder envolvida; mas isso é novamente uma imperfeição; a pessoa deve antes alegrar-se com o conhecimento da derradeira verdade de que “a existência é pura alegria”, não com qualquer sentimento mais imediato.

Deve-se observar que a consecução e manutenção desse estado depende em grande parte do domínio de vários Transes. Por exemplo, deve-se estar convencido da Primeira Nobre Verdade pelo Transe do Sofrimento, ou não seria lógico ser indiferente a todas as coisas; poderia haver, na ausência dessa percepção de “sabbe pi Dukkha”, alguma impressão que realmente levasse a um estado livre de Sofrimento, e este não é o caso. Estar livre do Sofrimento depende de estar livre das impressões.

No entanto, não seria justo dizer que este Estado de Indiferença é semelhante àquele Embotamento que se segue ao espasmo agudo de Sofrimento; a anestesia de um nervo não diminui pelo excesso de dor. Nunca há lugar para a passividade no currículo de um Magista — é claro que aqui abrimos uma exceção para aquilo que pode ser chamado de Passividade Ativa ou Intencional conforme descrita em Liber LXV. A Indiferença deve ser uma condição intensamente ativa. Pode-se comparar isso com a facilidade de um esgrimista habilidoso, que enfrenta e desvia todo ataque possível de seu adversário com igual vigor, inconsciente de seus atos, porque treinou seu olho, punho e até mesmo sua lâmina para pensar por si mesmos. Portanto, a Indiferença é a forma espiritual da Consciência Automática do Adepto; e esta reside em Yesod, o local da Fortaleza na Fronteira do Abismo, conforme descrito em Liber 418 no Décimo Primeiro Æthyr.

Sendo esta Indiferença um hábito da Mente Normal, ela é mais fácil de ser alcançada do que qualquer verdadeiro Estado Samádhico e envolve menos habilidade técnica. Este é particularmente o caso porque, como observado acima, o Transe do Sofrimento foi uma preliminar quase necessária para a compreensão adequada do que ela implica. Portanto, o método para adquirir (prefere-se esta palavra ao invés de “alcançar”) a Indiferença é simples; ele é, efetivamente, o Caminho do Dào.

Os seguintes Sorites1 podem ser úteis para o Aspirante:

A existência pode ser entendida apenas como um Continuum.

Portanto, todas as partes da Existência são derradeiramente equivalentes, cada uma sendo igualmente necessária para completar o todo.

Desta forma, cada evento deve ser recebido com igual honra, e a reação a ele feita com igual indiferença.

Vejamos um exemplo prático. Suponha que se receba mil libras e esse valor seja pago em várias moedas, com notas promissórias em várias somas. Uma vez que sabemos de antemão que o saldo a seu favor é de £1.000, não se fica entusiasmado com o aparecimento de qualquer item em particular, mas continua-se contando continuamente, tendo a reação certa, se um item positivo ou negativo está em questão, com perfeita calma e precisão. Cada entrada na conta pode ser diferente; mas a atitude mental da pessoa é invariável. O erro comum da mente não filosófica é, de fato, devido à ignorância da verdadeira natureza da alma. A pessoa é capaz de supor que cada Evento, à medida que ocorre, pode ser “bom” ou “ruim”, e pode indicar que se está ganhando ou perdendo. Mas tão logo se tenha certeza de que a questão é factícia, de que foi determinada de antemão, torna-se absurdo ser afetado por um incidente no processo ilusório que a Natureza usa simbolicamente para expressar a fatalidade da Verdade e não por qualquer outro.

É interessante notar que este método de adquirir Indiferença é bastante independente de qualquer experiência do Transe do Sofrimento; é uma consideração simples e normal baseada em premissas estritamente thelêmicas. Portanto, é altamente recomendável. Os métodos do Êon morto de Osíris de fato eram acompanhados por perigos notáveis. Por um lado, a questão da Separação do Universo é crítica; por outro, é um erro depender de uma teoria como a implícita na Primeira Nobre Verdade em seus aspectos externos. De modo geral, é melhor adotar a atitude puramente intelectual e ancorá-la subsequentemente no Neschamah simplesmente transcendendo a mente racional normal da maneira usual pelo Método da Contradição, ou da equiparação dos Opostos, como é descrito em Konx Om Pax, e nos melhores Ensaios sobre a Santa Cabala.

Além disso, pode levar a vários tipos de erro considerar a Indiferença como sendo um estado inferior ao Samādhi. Em particular, a pessoa pode ter a tendência de considerá-lo passivo, imperfeito, como um interregno; quando deveria considerá-lo como um estado de Paz com Vitória.

Por fim, só é preciso acrescentar que a Indiferença não é perfeita até que tenha entrado em plena posse de pelo menos um traço Samádhico, o Automatismo. Enquanto permanecer qualquer necessidade de esforço consciente para lidar com qualquer impressão, qualquer necessidade de lembrar o processo pelo qual o estado é alcançado, ou mesmo qualquer necessidade de interferência consciente com, ou conhecimento da, reação reflexiva elástica puramente espontânea, o Aspirante ao Summum Bonum, Verdadeira Sabedoria e Perfeita Felicidade, não adquiriu adequadamente o Hábito da Indiferença.


  1. «Paradoxo de Sorites ou Paradoxo do Monte: ao remover grãos de um monte de areia, em que momento o monte deixa de ser um monte?» 


Traduzido por Alan M. W. Quinot

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