A Besta - Uma Nota Biográfica

O que se segue é, estritamente falando, mais autobiográfico do que biográfico, uma vez que é atribuído a Aleister Crowley. O falecido Gerald J. Yorke sugeria que este papel poderia ser idêntico ao Liber 666 — A Besta, que doutra forma não existe. Uma página do texto datilografado original em inglês está perdida; no entanto, o texto foi recuperado através de tradução-dupla a partir da publicação alemã de 1925 E.V. Inclui o texto integral do “Juramento do Abismo”, e os leitores são advertidos de que este juramento é tradicionalmente tido como absolutamente eficaz e, portanto, não deve ser realizado casualmente ou superficialmente. — H.B.

CERCA DE SEIS MESES após a morte de Eliphas Levi Zahed, no Ano (1875 E.V.) da fundação da Sociedade Teosófica, nasceu uma criança do sexo masculino. O signo de Leão estando em ascendente em seu nascimento, ele é chamado aqui por esse nome.

A família de Leão era ao mesmo tempo célebre e próspera; ele recebeu a melhor educação disponível na terra de seu nascimento.

No início do terceiro ano (1897 E.V.) de seus estudos na Universidade, ele sofreu o que pode ser chamado de Transe da Dor. Ou seja, ele percebeu a futilidade de toda ambição mundana.

Essa convicção apoderou-se tanto dele que, então e ali, renunciou à sua carreira, apesar das promessas brilhantes que doutra forma teria concedido, e resolveu dedicar-se firmemente sem reservas à Grande Obra. Com isso ele queria dizer encontrar um meio pelo qual o esforço poderia garantir sucesso imune aos assaltos do Tempo e das outras condições de existência humana. Pois sua mente ainda era jovem e inculta.

Sua primeira leitura da literatura da Alquimia e assuntos afins, à qual ele agora recorreu, o convenceu da existência de um Corpo Secreto de Iniciados competentes para ajudá-lo em sua investigação.

Ele transmitiu instintivamente uma corrente intensa de Vontade, apelando aos Mestres em um tal Santuário que viessem em seu auxílio.

O pedido foi imediatamente ouvido. De fato, no momento de sua enunciação (Páscoa 1898 E.V.), ele estava na associação mais próxima possível com um deles, embora esse homem houvesse ocultado tanto a sua verdadeira natureza que Leão não descobriu a verdade até três anos mais tarde, quando a sua necessidade evocou auxílio deste Mestre.

No verão de 1898 E.V., Leão viajando pelas montanhas da Europa, topou com um homem que provou ser um ávido estudante da Alquimia. Ele seguiu este conhecimento, e exigiu dele uma promessa de apresentá-lo a um adepto mais avançado. Este último apresentou-lhe àquela organização, de forma que ele obteve sua primeira iniciação em 18 de novembro de 1898 E.V.

Nesta Sociedade Leão fez progresso rápido e atingiu no início de 1899 E.V. o mais alto grau que seu Chefe foi autorizado a dar. Dentro de um ou dois meses desde este evento, esse Chefe, que era apenas o representante visível dos Chefes Secretos, cometeu um erro tão grave, como uma culminação de uma série de erros, que perdeu a confiança Deles. A Ordem Externa que dependia dele dissolveu imediatamente em confusão.

Não familiarizado com os trabalhos Internos da Ordem, e percebendo a sua própria incapacidade de julgar um assunto além de seu conhecimento, Leão permaneceu abertamente leal ao Chefe caído; mas como ele sentiu instintivamente que não poderia aprender mais a partir desta fonte, empreendeu uma jornada de três anos para as partes mais remotas da terra, buscando incessantemente por iluminação além.

Os Mestres, que o estavam observando, enviaram mensageiros ao longo do tempo, a fim de ensiná-lo nos muitos caminhos secretos da iluminação. Ele alcançou o mais alto sucesso em todos estes; pode-se dizer que em seu retorno ao país de seu nascimento em 1903 E.V., ele era o adepto (distinguindo-se de um Mestre) mais avançado do mundo. E ainda assim ele estava tão longe de aceitar o seu progresso com satisfação que formalmente e finalmente abandonou a Grande Obra como insignificante.

E isto também era o Plano dos Mestres.

Abandonou tanto a sua Verdadeira Vontade que se casou (agosto de 1903 E.V.) e estabilizou-se na vida de um homem comum, tendo construído uma fortaleza de ressentimento contra todas as agressões espirituais, Leão se tornou um instrumento adequado para realizar o inescrutável projetos dos Mestres.

No final de uma expedição esportiva na Ásia, ele esteve no Cairo pela Estação com sua jovem esposa, uma mulher sem nem instinto, nem interesse, por qualquer assunto senão as mais frívolas das diversões mundanas.

Os Mestres, os Chefes Secretos da Ordem ao qual ele devia sua primeira iniciação, são os diretores dos destinos espirituais deste planeta. Estes homens escolheram essa mulher (de todas as mulheres) para levar a Sua Vontade ao Aspirante que tinha renunciado a sua aspiração.

Leão recebeu a mensagem deles com zombaria silenciosa: em espírito de ironia concordou em levar a cabo as instruções transmitidas pela sua esposa, resolveu demonstrar a ela o absurdo de sua afirmação de estar em comunicação com uma inteligência praeter-humana.

A principal dessas instruções foi trancar-se em uma determinada sala de sua casa por uma hora diariamente durante três dias (8 a 10 de abril, 1904 E.V.) a fim de que ele pudesse escrever o que então seria entregue a ele.

Ele ficou tremendamente surpreso quando, no curso da hora marcada, ouviu o sotaque de uma voz humana, falando em inglês (uma língua que entendia o suficientemente para o efeito) e continuando até que os sessenta minutos se esgotassem exatamente.

Isso ocorreu nos dois dias seguintes: o resultado é o Manuscrito conhecido como Liber AL vel Legis; ou O Livro da Lei.

Outras comunicações foram feitas pelos Chefes Secretos por volta deste período. Eles provaram além de qualquer possibilidade de dúvida a Leão, um firme cético acostumado com os métodos matemáticos e científicos da crítica, a própria existência deles, e sua posse de poder e de conhecimento muito superior a qualquer coisa até aqui concebida como humana.

Esta prova, pelo menos a maior parte dela, uma porção suficiente para estabelecer a tese acima, ainda existe; ele está contida implicitamente no manuscrito do próprio Liber AL, e está acessível a qualquer momento a qualquer aspirante à Sabedoria Secreta.

É neste livro, também, que os Chefes Secretos conferiram a Leão o título de ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ, com o respectivo número DCLXVI; como Mestre Therion, portanto, seja chamado a partir agora. (Não foi por muitos anos que ele se tornou apto a assumir este cargo em todo o seu escopo; ele o fez em outubro de 1915 E.V.)

Eles o instruíram definitivamente a tomar posse do domínio e da governança da Ordem, assumindo o lugar que ficou vago pela queda do Chefe original; e a publicar abertamente todo o conhecimento secreto em seu poder de tal forma que ele possa sobreviver à catástrofe geral de toda a civilização, que Eles viram que era iminente. (A guerra de 1914-18 deve ser considerada como a disputa preliminar deste grande conflito mundial.)

O efeito disto sobre Therion foi expressar dois elementos contraditórios em seu caráter.

Por um lado: ele estava absolutamente convencido da veracidade das alegações dos Chefes Secretos, de Suas realizações praeter-humanas, e de Seu direito e poder de dirigir o curso dos eventos deste planeta. Além disso estava ligado a Eles por seu juramento original em sua primeira iniciação.

Por outro lado: ele estava totalmente em desacordo com a grande maior parte da filosofia e ética estabelecidas no Liber AL. Ele estava repleto, em suma, de duas correntes conflitantes, de entusiasmo e de ressentimento.

No final, depois de uma tentativa principalmente insolente de cumprir formalmente as primeiras instruções Deles, atuando, de tal forma a derrotar seus próprios esforços aparentes (como se dissesse, que concretizem seu próprio trabalho, se podem e querem), ele revoltou-se abertamente. A experiência o obrigou a abandonar a sua atitude de mundanismo deliberado, mas ele deu o melhor de si para seguir sua própria carreira em um Caminho que não fosse Deles.

Nos próximos anos o vemos envolvido nesta luta desesperada contra Eles. Pouco a pouco eles quebraram sua vontade falsa. Muitas foram as torturas pelas quais Eles o compeliram a renovar sua fidelidade: muitos foram os sinais pelos quais Eles manifestaram Sua vigilância e Sua virtude.

Lutou cada jarda de terra com desesperada teimosia; não foi a rendição repentina dele, mas a compulsão constante do poder Deles que o trouxe de volta ao Verdadeiro Caminho.

Agora os Chefes Secretos o escolheram como Seu representante sobre a terra, como o veículo do Discurso E porque ele ainda não estava apto por iniciação completa a realizar Seus desígnios, era imperativo que Eles o impedissem, até mesmo quando ele concordassem em executar Suas ordens, de aparecer antes da hora. Não era completamente fácil de se assegurar disso, apesar de sua própria determinação de abandonar sua carreira mundana, ele obteve destaque em dois caminhos muito distintos da atividade humana; de modo que não importa o que ele escolhesse, certamente receberia a devida atenção a partir do mundo em geral.

Tão cauteloso quanto era corajoso, tão hábil e sutil quanto era cheio de recursos, não Lhes deu nenhuma sombra de motivo para reprová-lo; apesar de que destruíam seu amor, sua esperança e sua paz de espírito. Eles o alienaram de cada amigo e apoiador; ele foi traído de novo e de novo até mesmo por aqueles que buscavam ser o mais leal a ele, e que morreriam mil mortes para servi-lo.

Eles o mascararam tão grotescamente, medonhamente, obscenamente, que se tornou muito difícil que qualquer homem penetrasse no segredo de sua verdadeira personalidade.

No entanto, também durante todo este tempo, Eles o conduziram de diversos modos através de ordálias cada vez mais exaltadas, até que Eles o estabeleceram no cume da Ordem, naquele grau de iluminação que (ou assim se diz) não é atingido por nenhum homem no corpo mais do que uma vez a cada Dois Mil anos.

O clímax de Suas relações com ele veio nas semanas imediatamente anteriores e posteriores ao Equinócio de Primavera de 1924 E.V. Nessa época ele estava muito doente. Ele estava completamente sozinho; pois Eles não permitiriam sequer a presença daqueles poucos que Eles próprios designaram para auxiliá-lo nesta iniciação final. Nesta última ordália a parte terrestre dele foi dissolvida na água; a água foi vaporizada no ar; o ar foi rarefeito totalmente, até que ele estava livre para fazer o último esforço, e passar nas vastas cavernas do Umbral que guardam o Reino de Fogo. Já que nenhum humano pode sobreviver a essas imensidões. Assim naquele Fogo ele foi totalmente consumido, e só como puro Espírito regressou, pouco a pouco, durante os meses que se seguiram, no corpo e mente que pereceram nessa grande ordália da qual ele não pode dizer mais do que: eu morri.

Mas estes seis meses estando completos, certa Virgem surgiu à pedido dos Chefes Secretos, em cujo toque retomou o contato com a vida humana.

Com ela partiu rapidamente ao Deserto do Saara, a fim de que em silenciosa comunhão com sua Alma ele pudesse se tornar consciente da natureza íntima de seu Trabalho para os Mestres; pois na verdade ela era um símbolo da Noiva Virgem, cuja redenção é o mistério da Perpetuação da Divindade.

Agora quando embarcaram e navegaram até o meio do Mar Mediterrâneo, veio-lhe novamente um impulso dos Chefes Secretos: escrever da forma mais sucinta possível uma declaração de sua natureza e propósito.

E ele fez isso no seguinte manifesto:

AO HOMEM

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Meu Mandato sobre a Terra tendo vindo no ano da fundação da Sociedade Teosófica, eu tomei sobre mim, por minha vez, o pecado do mundo Inteiro, a fim de que as profecias sejam cumpridas, para que a humanidade dê o Próximo Passo da Fórmula Mágica de Osíris à de Hórus.

E a minha Hora agora estando sobre mim, eu proclamo a minha Lei.

A palavra da Lei é Θελημα

Dado no meio do
Mar Mediterrâneo
An XX, Sol em 3° de Libra die Jovis
por mim ΤΟ ΜΕΓΑ ΘΗΡΙΟΝ DCLXVI
ΛΟΓΟΣ ΑΙΩΝΟΣ Θελημα
Aquele que compreende que busque.

Agora, disto que aqui está escrito; “Eu tomei sobre mim, por minha vez, o pecado do Mundo inteiro a fim de que as Profecias possam ser cumpridas”, deve ser entendido que não só as experiências espirituais definitivas que determinam o fato, mas também toda a sua vida, suas alegrias, seus sofrimentos, suas viagens em tantas terras, suas realizações em tantos caminhos, o seu contato com tantos tipos de homens e mulheres de tantas regiões e climas, é, em suma, uma experiência universal que lhe permitiu cumprir ao máximo o grande Juramento tomado por ele em sua iniciação ao grau de Mestre do Templo; como aqui se segue:

  1. Eu, O.M., etc., um membro do Corpo de Deus, através deste me comprometo em favor do Universo Inteiro, assim como estamos agora fisicamente presos à cruz do sofrimento:
  2. que levarei uma vida pura, como um servo devotado da Ordem:
  3. que compreenderei todas as coisas:
  4. que amarei todas as coisas:
  5. que realizarei todas as coisas e suportarei todas as coisas:
  6. que continuarei no Conhecimento e Conversação de meu Sagrado Anjo Guardião:
  7. que trabalharei sem apego:
  8. que trabalharei em verdade:
  9. que confiarei apenas em mim mesmo:
  10. que interpretarei todo fenômeno como um trato particular entre Deus e minha Alma.
    E se eu falhar nisto, possa a minha pirâmide ser profanada, e o Olho fechado para mim!

Agora, pois, esta proclamação desta Palavra é o cumprimento do seu Juramento em sua iniciação ao grau de Magus (assim como Gautama Buda proferiu a Palavra ANATTA, Lao Tsé a Palavra TAO, Dionísio a Palavra IAO, Maomé a Palavra ALLAH, e assim para o restante, no seu devido intervalo cada um em seu lugar). Pois a função do Magus é proclamar uma nova Lei por virtude de uma Palavra na qual reside uma Fórmula da Sabedoria.

Aqui segue o livro chamado de o Livro do Magus, e declara a ele que deve compreendê-lo, as condições desse cargo.

Liber I


Traduzido por Frater S.R.