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XXXI Hinos
à Deusa das Estrelas

Que Não É

POR XIII: que é ACHAD


I. Invocação

Mãe do Sol, Cujo Corpo é Branco como o Leite das Estrelas, curva-Te sobre Teu servo, e conceda-lhe Teu Beijo Secreto!

Acendei dentro dele o Santo Êxtase que Tu prometeste àqueles que amam a Ti; o Êxtase que liberta de toda dor.

Porventura tu não proclamaste: Todas as tristezas são nada mais que sombras, elas passam e pronto, mas existe aquilo que permanece? Que o Universo é Pura Alegria - que Tu dás inimagináveis Alegrias ​​na Terra - que Tu nada exiges em sacrifício?

Deixe-me então me alegrar, pois aí poderei servir a Ti mais plenamente. Que seja Tua Alegria ver minha alegria; assim como Tu prometeste em Teu Livro Sagrado!

Agora, portanto, eu estou Alegre em Teu Amor.

AUMN

II. O Córrego

Caminhei ao lado do riacho, e meus olhos captaram o brilho de Teus Orbes Estrelados nas águas turbulentas.

Assim é com minha mente; ela flui em direção ao Grande Mar do Entendimento no qual eu posso vir a conhecer-Te mais plenamente.

Às vezes, enquanto viaja, ele ameaça transbordar suas margens em sua ânsia de refletir uma imagem mais ampla de Teu Corpo Infinito.

Ah! Como as pedras, sobre as quais flui a vida de meu ser, vibram na terna carícia de Tua Imagem refletida.

Tu, também, és Matéria; é Eu - Teu Complemento - que sou movimento! Portanto, mesmo essas pedras são de Ti, mas o Espírito - a Vida - é o próprio Self de mim mesmo; meu Mais Íntimo Ser.

Flua, Ó Riacho! Flua, Ó Vida! Para o Grande Mar do Entendimento, a Grande Mãe.

III. O Jardim de Rosas

Por muito tempo eu deitei e esperei por Ti, no Jardim de Rosas da Vida; apesar disto Tu sempre Te retiraste de meu Entendimento.

Enquanto eu estava deitado eu contemplei Tua natureza como a de uma Rosa Infinita.

Pétalas, pétalas, pétalas... mas onde, Ó Mais Bela, estás Teu Coração?

Não tens Tu coração? Tuas pétalas são Infinitas para que eu nunca possa atingir o Âmago de Teu Ser?

No entanto, Tu disseste: “Eu vos amo! Eu vos desejo! Pálido ou púrpura, velado ou voluptuoso, Eu que sou toda prazer e púrpura, e embriaguez no sentido mais íntimo, vos desejo. Vinde a mim!”

Sim! Meu sentido mais íntimo está embriagado; está intoxicado pelo Orvalho da Rosa. Teu Coração é meu Coração; não há diferença, Ó Amada.

Quando eu tiver penetrado no Coração de Tua Rosa Infinita, lá eu Me encontrarei.

Mas eu nunca virei a mim – apenas a Ti.

IV. A Dedaleira

Alto e ereto como uma Dedaleira eu permaneço diante de Ti, Mãe do Céu.

A flor de meu ser se entrega a uma estranha presunção; eu cresço em direção às Estrelas e não em direção ao Sol.

Não és Tu a Mãe do Sol?

Assim eu blasfemei o Senhor e Doador da Vida por Tua causa. Ainda assim, não me envergonho, porque esquecendo o Sol eu me tornei o Sol -- Teu Filho -- ainda mil vezes mais Teu Amante.

As raposas têm tocas e as aves do ar têm ninhos, mas agora eu não tenho onde pôr minha cabeça; pois alto e ereto como uma Dedaleira eu permaneço diante de Ti. Meu lugar de descanso é o Útero das Estrelas.

No entanto, tudo que eu possa compreender de Teu Corpo Infinito é apenas como a Luva sobre uma de Tuas suaves amáveis mãos, tocando a Terra, não ferindo as pequenas flores.

V. A Tempestade

Uma Noite Escura e a Tempestade. O trovão brilha entre Ti e mim. Estou tão deslumbrado que não vejo a Ti.

Então nas profundezas de meu ser brilham os fogos da vida; eles me cegam para o Entendimento de Ti e Teu Infinito Corpo de Estrelas.

No entanto eu Te vejo refletida no corpo dela que eu amo, enquanto repousamos com pernas trêmulas à espera da vinda do som do trovão.

Ela teme o trovão, e se volta para dentro de si mesma em busca de consolo.

Mas mesmo ali o Trovão flameja, pois eu soltei os fogos de meu ser dentro do recuo escuro – em honra da Tempestade e de Teu Corpo Infinito o qual não vejo.

VI. O Buraco no Teto

Uma vez eu conheci um antigo serpente. Ele se deleitava em desfrutar do Sol que penetrava através de um pequeno buraco no teto da caverna.

Ele era velho e muito sábio.

Ele disse: “Em mim está concentrada a Luz de todo o Universo.”

Mas pequeno besouro marrom, que por muito tempo vivera na caverna com ele, olhou para cima, e abrindo suas asas saiu pelo buraco no telhado – para o Além Infinito.

Assim, abandonando a sabedoria, que eu venha a Ti, Amada Senhora dos Céus Estrelados.

VII. O Design

Curvas estranhas: e cada Curva um Número tecido em um Padrão Musical e Harmonioso.

Tal foi o design mostrado a mim pelo meu amigo quando nos conhecemos.

Era como uma troca de cumprimentos por meio de um reconhecimento interior.

Ó! Eu poderia apenas entender o Design em Constante Mudança do Teu Corpo Estrelado, Mãe do Céu!

No entanto, está escrito: “Todo homem e toda mulher é uma estrela. Todo número é infinito; não há diferença.”

Tal então é a vida, para aqueles que amam a Ti: Curvas Estranhas e cada Curva um Número tecido em um Design Musical e Harmonioso.

VIII. O Monte de Neve

Meu corpo estava azul como o Teu, Ó Amada, quando eles me encontraram. Eu estava duro como se segurado em um abraço apertado. Nem estava eu consciente de coisa alguma senão de Ti, até que os pequenos fogos da Terra me trouxeram de volta com uma agonia de dor latejante.

Como acabei me perdendo no monte de neve?

Eu me lembro como me abriguei da tempestade ofuscante. A neve caiu sobre mim, e eu esperei, voltando meu pensamento a Ti.

Então eu percebi como cada floco de neve é construído como uma pequena estrela. Olhei mais de perto, enterrando meu rosto na pilha branca, como em Teu Seio.

Meus braços abraçaram o monte de neve; eu me agarrei a ele num louco êxtase.

Assim eu teria pressionado Teu Corpo ao meu, não foste Tu Infinita e eu apenas tão pequeno quanto um floco-de-estrela.

Assim meu corpo congelou – como pelo frio extremo do espaço interestelar.

Estava azul como o Teu, quando eles me encontraram trancado em Teu abraço.

IX. Luz do Dia

Na luz do dia eu não vejo Teu Corpo de Estrelas, Ó Amada.

A pequena luz do Sol vela a Grande Luz das Estrelas, pois hoje Tu pareces distante.

O Sol queima como uma grande Tocha, e a Terra parece uma de Suas pequenas Esferas, cheia de vida.

Eu sou apenas um pequeno espermatozoide, mas dentro de mim está a ígnea e concentrada essência da Vida.

Aproxima-me de Ti, Ó Sol! Projeta-me no Corpo de Nossa Senhora Nuit!

Assim poderá uma nova Estrela nascer, e eu poderei ver a Ti mesmo na luz do dia, Ó Amada.

X. O Pássaro

Uma vez eu comprei um passarinho; sua gaiola era muito pequena; tinha apenas um poleiro. Ele era tão jovem que ainda não havia aprendido a cantar, mas gorjeou alegremente quando eu o trouxe para casa.

Então eu levantei as barras de sua gaiola, e sem um momento de hesitação, ele voou pelo quarto, e espiando a gaiola dos pássaros-do-amor, empoleirou em cima dela e a examinou cuidadosamente.

Não muito tempo depois outra gaiola mais forte foi obtida para os pássaros-do-amor, pois eles haviam bicado algumas das barras frágeis. Quando ao passarinho foi oferecida a gaiola descartada, ele rapidamente pulou da sua pequena para a deles.

Agora, ele tem três poleiros e espaço para a sua cauda, ​​e quando abrimos a porta de sua gaiola, ele se recusa a sair. Talvez ele tema perder o que ele outrora cobiçou e então obteve.

Aqui reside o segredo do Governo. Dê às pessoas o que irá torná-las razoavelmente confortáveis; deixe-as ter três poleiros e espaço para suas caudas; e, esquecendo sua escravidão e suas restrições, elas ficarão satisfeitas.

Porventura Tu não disseste: “Os escravos servirão.” Senhora do Céu Estrelado?

XI. A Moral

Há uma outra moral para a história do passarinho. Tendo ganhado seu desejo por uma maior gaiola, ele esqueceu seu anseio por Liberdade.

A porta continuava aberta; o quarto estava diante dele, onde ele pudesse abrir as asas e voar.

No entanto, ele preferiu sua gaiola.

O mundo inteiro poderia ter sido seu se ele soubesse como usá-lo, mas ele não estava pronto para isso; ele teria morrido de frio se eu o deixasse sair na neve de inverno.

Que aqueles que podem percorrer o Caminho Místico lembrem-se disso: a Consciência da Terra é uma ilusão e limitação. Quando ela nos desgasta, como uma gaiola pequena, nossa chance de uma maior liberdade vem.

Mas quando um gaiola maior é oferecida – quando recebemos Dhyana – não descansemos lá nos achando livres. A porta está aberta, Samadhi está além, e além disso, quando estivermos prontos para ela, a verdadeira liberdade, o Nirvana.

Ó Senhora das Estrelas, não deixes que eu me contente até que eu penetre as barras definitivas e seja livre – Um com o Infinitamente Grande assim como o Infinitamente Pequeno.

XII. As Pegadas Invisíveis

Por muito tempo vaguei pela Terra deleitando do Bem, do Belo e do Verdadeiro; sempre buscando os pontos onde estes parecem ser mais Perfeitos.

Há alegria neste vagar entre as flores da vida, mas a Tua Alegria, Ó Amada, é ser desejada acima de tudo.

Agora eu procuro um lugar de descanso, fui posto em uma nova Busca, para Adorar a Teus pés.

Pois é escrito de Ti: “Curvando-se, uma suave chama azul, toda tocante, toda penetrante, suas amáveis mãos sobre a terra negra, e seu corpo gracioso arqueado para o amor, e seus pés macios não machucando as pequeninas flores.”

Ó! Que eu possa descobrir Tuas Pegadas Invisíveis sobre a Terra e lá chegar ao Entendimento do Teu Ser, Ó Amada.

XIII. As Pontas dos Dedos

Ou, pode ser, Ó Amada, que eu descubra as marcas das pontas dos Teus dedos no meio das flores ou sobre a Terra Negra.

Não tem Nemo um jardim que ele cultiva? Acaso ele também não trabalha na Terra Negra?

Quem sabe quando Tuas mãos me agarrarão e me levantarão em Teus braços, para lá me aninhar em Teu seio, para me alimentar do Leite das Estrelas?

Amada, verdadeiramente este cultivo do Jardim do Mundo – embora o trabalho possa parecer pesado – conduz a uma Grande Recompensa. Como disseste: “Certeza, não fé, enquanto em vida, sobre a morte, repouso, êxtase.” Nem coisa alguma demanda Tu em sacrifício.

O que os Bhaktis sabem do amor? Eles veem a Amada em todos os lugares.

Mas quando eu for um contigo, ó Amada, eu não verei a Ti, pois eu conhecerei a Ti como Tu és.

XIV. O Poço das Estrelas

Eu conheço um poço escondido da mais clara água. Nada senão a cumeeira da delicada ônix rosa é visível até que a fonte secreta seja tocado.

Então, cuidado! Pois acima da entrada pende uma espada de fogo.

Poucos encontram este Poço ou conhecem seu Segredo; existem apenas dois caminhos que levam aos mesmos.

Do cume da Montanha ampla podemos procurar as encostas para uma visão do Delta da Mata, onde crescem as Árvores da Eternidade, ou podemos viajar através do Vale entre as Colinas de Marfim – se não temermos as sombras púrpuras e as armadilhas negras.

De Ti viemos; para Ti possamos voltar, Ó Poço de Estrelas Vivas!

XV. Os Sincelos de Isis

Tem sido escrito como o Antigo Rei sonhou com seu pavão banido, sepultado em um palácio de gelo, que gritou: “Os sincelos de Isis estão caindo em minha cabeça”

Assim é com aqueles que são banidos para o Palácio da Lua – pois a Palavra de Pecado é Restrição.

Ó! Senhora dos Céus Estrelados, não me deixe ficar congelado com o toque do frio Véu de Isis. Pois a Lua é apenas um refletor morto do Sol, e Ele apenas o mais jovem dos Teus Filhos de luz.

Deixe-me levantar Teu Véu de Pavão de um Milhão de Olhos Estrelados, Ó Amada!

Mostrai o Teu Esplendor Estrelado, Ó Nuit; convidai-me para habitar na Tua casa!

XVI. Moinho Púrpura

Os delicados fluxos de névoa púrpura acima das colinas: Eu assisto e aguardo o significado disso tudo.

Às vezes parece a fumaça do incenso da Aspiração ascendendo em direção ao Sol – doador de Luz, Vida, Amor e Liberdade para os Filhos da Terra.

Mas o Sol está se pondo atrás das Montanhas, e Tuas Lâmpadas Estreladas brilham no Céu.

Não é a Lâmpada acima do Altar um símbolo do desejo do Superior de aproximar o menor de Si?

Então, Ó Senhora do Céu, eu comparo a Névoa ao sopro-de-vida das Almas que ofegam para Ti aqui abaixo.

E lembro-me das Tuas palavras;

Acima, o adornado azul-celeste é
O esplendor nu de Nuit;
Ela se curva em êxtase para beijar
Os ardores secretos de Hadit.
O globo alado, o azul estrelado,
São meus, Ó Ankh-af-na-khonsu!

Eu, também, subiria como uma delicada névoa púrpura vaporizada acima dos Montes. Não és Tu toda Prazer e Púrpura?

XVII. O Infinito Interior

Eu gostaria de ser como a contraparte feminina de Ti, Ó Amada; então eu atrairia o Infinito interior.

Mesmo assim, sendo Teu Ser Puro sempre mais refinado do que este corpo meu, eu deveria interpenetrar cada parte de Ti com a minha carne viva.

Assim, Ó Amada, entraríamos em um novo e mais completo abraço: não como o da terra em que o macho se use com a fêmea por meio dos órgãos físicos do amor, mas com cada átomo do meu ser pressionado de perto a cada átomo do Teu – por dentro e por fora.

Então, Ó Amada, eu clamaria ao Senhor do Primum Mobile para me ensinar a Arte do Movimento Giratório da Eternidade.

Assim, girando dentro de Ti, nosso banquete nupcial sem fim será celebrado, e um novo Sistema de Orbes Giratório nascerá.

Ah! o grito estridente de Êxtase do Arrebatamento Refinado – o Orgasmo do Infinito Interior.

XVIII. O Arco-Íris

Enquanto eu estava sentado no abrigo da clareira da floresta, meu olho captou o brilho multicolorido de diamantes. Olhei de novo; os raios do Sol estavam brincando sobre o orvalho que se agarrou a um galho curvo pouco.

Parecia um minúsculo arco-íris da promessa.

Então, enquanto eu observava com admiração, uma pequena aranha cinzenta construiu a ponte do arco com o seu fio de seda.

Ah! Minha Amada, assim, também, tem a Aranha do Destino tecido sua corda de seda de um extremo ao outro do Grande Arco-Íris da Promessa.

O destino me moldou como uma Flecha para o Fio do Destino no arco do Sol.

Mas Que Mão segurará o Poderoso Arco, Ó Amada, e enviar-me em ligeiras asas para o meu lugar de descanso no Teu Coração?

XIX. Orvalho Caído

Na medida em que eu vinha do cultivo do Jardim de Rosas e estava prestes a voltar para o meu abrigo humilde, meus olhos encontraram o brilho do orvalho caído como uma pequena trilha ao longo do caminho.

Era muito cedo; o Sol ainda não havia ressurgido; as Estrelas ainda brilhavam fracamente no céu.

Quem poderia ter chegado antes de mim ao Jardim?

Eu segui o rastro de orvalho, abaixando-me assim para que visse em cada gota de cristal o reflexo de uma pequena estrela.

Assim eu vim à câmara de minha senhora; foi ela que, carregando rosas, havia deixado este fio prateado como uma pista para seu esconderijo.

Quando eu a descobri, seus olhos estavam fechados, enquanto ela apertava as perfumadas flores cor-de-rosa ao seu peito branco.

Então eu enterrei meu rosto nas flores e não vi seus olhos quando ela os abriu em espanto.

Assim, também, que eu siga o caminho-de-Estrela do Orvalho Caído, antes que o Sol ressurgido Te esconda de mim, Ó Minha Amada!

Assim que eu venha a Ti e enterre meu rosto em Teu Peito entre as Rosas do Céu.

Nem me atreveria eu a encarar Teus olhos, tendo descoberto Teu segredo – o Orvalho do Amor – o Elixir da Vida.

XX. Crepúsculo

Crepúsculo... e em alguns breves momentos as Estrelas começarão a espiar. Eu aguardarei a Ti, aqui no meio da urze, Ó Amada.

Eu espero... nenhuma estrela aparece pois uma névoa esgueirou-se do sopé das montanhas.

Assim eu esperei por uma visão do Teu Corpo Estrelado até que o nevoeiro frio e úmido de emoção suprimida resfriou meu ser e minha razão voltou.

A mulher permaneceu cingida com uma espada diante de mim. Emoção foi superada pela clareza de percepção. Então eu me lembrei das Tuas palavras: “O Khabs está no Khu, não o Khu no Khabs. Adorai então o Khabs, e contemplai minha luz derramada sobre vós.”

Assim, revirei meus pensamentos por dentro, de modo que eu ficasse concentrado no Khabs – a Estrela do meu mais íntimo ser. Então, Tua Luz surgiu como um halo de êxtase, e cheguei a deitar um pouco em Teu seio.

Mas eu ofereci uma partícula de pó – e eu perdi tudo nessa hora.

Tal é o Mistério d'Ela que nada demanda em sacrifício.

O crepúsculo retornou.

XXI. A Estrela Canina

A sabedoria disse: “Não sejas animal; refina o teu êxtase! Então tu poderás suportar mais prazer!”

Eu fui como um cão solto diante de Ti, Ó Amada. Esforcei-me para Ti e Tu vês em mim apenas a Estrela Canina.

No entanto, eu não cairei no Buraco chamado Porquê, e lá perecer com os cães da razão. Não há razão em mim; eu busco o Entendimento, Ó Mãe do Céu.

Assim, com meu rosto enterrado na terra negra, viro minhas costas para Ti. Eu refinarei meu êxtase.

Então Tu poderás ver-me como sou, e então Tu finalmente irá Entender, Ó Amada; pois ao contrário Tu lês corretamente este CÃO.

Porventura Tu não disseste: “Não há nenhum outro?”

XXII. Pot-pourri

As rosas estão caindo. Esta é a noite da lua cheia na qual os filhos do Pecado participam do Círculo Sagrado.

Aí eles vão sentar-se divididos – mas não por causa do amor – pois eles não conhecem a Ti – Ó Amada. Em elementos, Signos do fogo, da água, do ar e da terra, estão eles divididos quando se reúnem na Lua Cheia dentro da floresta.

Eu vaguei até a profunda e sombria clareira, lá avistei um pequeno sachê de pot-pourri, caído – talvez – do cinto em movimento de uma das moças.

Carinhosamente eu o levantei. Seu perfume é semelhante ao perfume daquela que eu amo. Ela, também, talvez, ouviu o chamado da lua e está agora mesmo em seu caminho para o local de encontro secreto.

Mas porventura Tu não disseste: “Que não se faça diferença entre vós e uma coisa e qualquer outra coisa; pois disto resulta dor.”

De que importa então o nome da moça? De que importa as flores das quais ele é composto?

No entanto, atrevo-me a não queimar esse incenso a Ti, Ó Amada, por causa do Teu cabelo, as Árvores da Eternidade.

Ó! Pequeno sachê de pot-pourri, tu me lembraste daquela que eu amo, pois as rosas estão caindo, é a noite da Lua Cheia e os filhos do Pecado se reúnem para participar do Círculo Sagrado.

XXIII. Penugem de Cisne Vermelha

Tem sido contado como Parzival atirou e derrubou o Cisne do Êxtase enquanto atravessava a Montanha do Graal voando.

Mas há dentro dos arquivos uma outra história, desconhecida pelos ouvidos dos homens.

Do peito do Cisne Eterno flutuou uma pena felpuda, mergulhada em sangue. Isso fez o mais jovem e menos digno dos Cavaleiros ternamente escondê-la em seu peito até que ele a guardou dentro do travesseiro duro de seu sofá solitário.

Noite após noite aquele santo travesseiro tornava-se mais macio; cada vez mais doces eram seus sonhos. E uma noite – a noite da coroação de Parzival – a ele foi concedida a Grande Visão em que as Estrelas tornavam-se como manchas de Penugem de Cisne sobre o Peito do Céu, cada uma viva e palpitante, pois elas estavam mergulhados em sangue.

Então cada átomo do seu ser se tornou uma Estrela correndo alegremente através do Grande Corpo da Senhora dos Céus. Assim, em doce sono veio ele ao Grande Além.

Conceda-me o Teu Travesseiro de Sangue e êxtase, Ó Amada!

XXIV. Nuvens Passageiras

Uma noite escura: Nenhuma estrela é visível, mas nesse instante a lua brilha através de uma brecha nas nuvens. E eu me lembro, “As tristezas são nada mais que sombras, elas passam e pronto, mas existe aquilo que permanece.”

No entanto é a lua apenas uma ilusão.

Um dia chato: mas nesse instante o Sol é visto na medida em que as nuvens são dissipadas pela Sua luz.

Seria Ele o que permanece?

Noite mais uma vez: o Sol está perdido de vista, só a lua me faz lembrar de Sua presença. As nuvens deslizam rapidamente através do céu e desaparecem.

Teu Corpo Estrelado é visível, Ó Amada; todas as tristezas e as sombras se passaram e existe o que permanece.

Quando as nuvens se juntarem, nunca me deixe esquecer de Ti, Ó Amada!

XXV. A serpente Enrolada

Assim eu ouvi:

O avestruz anda rapidamente; com facilidade ele poderia ultrapassar aqueles que cobiçam as penas de sua cauda, todavia quando o perigo vem ele enterra sua cabeça na areia.

A tartaruga se move lentamente e quando envergonhada ela para, recolhendo-se para sua própria concha; todavia ela ultrapassa a lebre.

A lebre dorme quando deveria estar se movendo rapidamente; ela corre em seus sonhos imaginando-se no destino.

Mas a Serpente Enrolada tem sabedoria, pois ela esconde o seu rabo e este não é cobiçado; ela levanta a cabeça e nada teme; ela se move lentamente como a tartaruga, mas não se recolhe; ele se aconchega perto da lebre, lançando sua língua com rapidez, ainda que não durma à beira da estrada.

Será que eu tinha a Sabedoria da Serpente Enrolada, Ó Amada, pois Tu disseste: “Colocai as asas, e elevai o esplendor enrolado dentro de vós: vinde a mim!”

XXVI. Amor e Unidade

Vinte e seis é a numeração do Nome Inefável, mas Ele oculta Amor e Unidade.

O Nome de Quatro Letras sugere Lei, ainda que pode ser dividido por causa amor, pois Amor é a Lei.

O Nome de Quatro Letras é o dos elementos, mas pode ser dividido pela chance da União; pois há Unidade aí.

Há apenas Uma Substância e Um Amor e enquanto estes forem vinte e seis eles Um por meio de treze que é apenas a metade do mesmo.

Assim eu brinco com os números que prefeririam brincar com Um e aquele Um Amor.

Pois Tu disseste: “Não há nada que possa unir o dividido senão o amor!”

E não é Achad Ahebah?

XXVII. O Enigma

O que é que chega a um ponto ainda que ande em um círculo?

Este, Ó Amada, é um dito obscuro, mas Tu disseste: “Minha cor é o preto para o cego, mas o azul e ouro são vistos pelos que enxergam. Também eu tenho uma glória secreta para aqueles que me amam.”

E Hadit declarou: “Existe um véu: esse véu é negro.”

Eu gostaria de poder rasgar o véu, Ó Amada, para ver-Te como Tu és, eu poderia ver-Te em toda parte, mesmo na escuridão que chega a um ponto ainda que ande em um círculo.

Pois Hadit, o núcleo de toda estrela, diz: “Sou Eu que vou”, e Tu, Mãe das Estrelas, gritas “Para mim! Para mim!”

Resolve-me o Enigma da Vida, Ó Amada, pois amando a Ti eu contemplo Tua Glória Secreta.

XXVIII. Provérbios

Isis tem dito: “Eu sou tudo o que foi e que é e que será, e meu véu nenhum mortal levantou.”

Quem se importa com o que está atrás da lua?

Jeová mostrou a suas costas a Moisés, dizendo: “Ninguém jamais viu meu rosto em momento algum.”

Quem se importa em encarar os elementos?

Hadit tem dito: “Eu sou Vida, e o doador de Vida; portanto o conhecimento de mim é o conhecimento da morte.”

Quem se importa em conhecer a morte?

Mas Tu, Ó Amada, disseste: “Eu concedo prazeres inimagináveis sobre a terra: certeza, não fé, enquanto em vida, sobre a morte; paz indescritível, repouso, êxtase; e Eu não exijo nada em sacrifício.”

Quem não ansiaria Te invoco sob Tuas Estrelas, Ó Amada?

XXIX. A Estrela Cadente

Caindo, caindo, caindo! Assim caem os Raios do Teu Corpo das Estrelas neste pequeno planeta, Ó Amada! Inúmeras correntes de Luz como chuva-de-Estrelas sobre a terra negra.

Uma vez que cada homem e cada mulher é uma estrela, suas vidas são como em direção a correntes de luz concentradas em cada ponto do Espaço.

Enquanto estive com os braços esticados, o meu corpo nu brilhando como marfim na escuridão. Meu abbai escarlate arremessado longe, meus olhos fixos no Céu iluminado por estrelas; eu senti que eu também estava caindo, caindo, caindo, em um êxtase de medo e amor no vazio abismo do espaço.

Então me lembrei de que Tu és contínua. Abaixo, acima, em torno de mim estás Tu. E eis que, de uma estrela cadente me tornei como um cometa rodando em Círculos infinitos, cada um em um ângulo diferente, até que meu percurso traçasse a Esfera Infinita que é o Símbolo de Ti, Ó Amada.

Então eu aspirei encontrar o Centro de Tudo.

E mesmo agora eu estou caindo, caindo, caindo.

XXX. Justiça

Eu sou um Tolo, Ó Amada, e, portanto, sou eu Um ou Nada à medida que a fantasia me leva.

Agora que vim à Justiça, para que eu possa ser Tudo ou Nada de acordo com a direção da visão.

Nenhuma respiração pode agitar a Pena de Verdade, portanto, a Justiça está Sozinha no L. No entanto, o aguilhão é Matéria de Movimento e Respiração se for chamado o Boi, que também é A.

Quão tolos são esses pensamentos, que são senão como a Espada na mão da Justiça. Eles são tão desequilibrados quanto a Balança que não se agita, sendo fixa na figura da Lei acima do Palácio da Justiça de uma grande Cidade.

Mas Tu disseste: “Amor é a lei, amor sob vontade.”

E o Amor é a Vontade de Mudar e a Mudança é a Vontade de Amar.

Mesmo no contorno inflexível da Balança da Justiça eu percebo o Instrumento do Amor, e na Prisão Perpétua, o Mistério do Aprisionamento em Teu Ser, Ó Amada!

XXXI. Não

Três Eternidades são passadas... Eu ultrapassei um milhão de Estrelas na minha corrida em Teu Peito – A Via Láctea.

Quando chegarei ao Centro Secreto do Teu Ser?

Tempo, tu ladrão, por que vens roubar o bebê faminto? Espaço, tu quase me enganaste.

Ó Senhora Nuit, não me deixe confundir as marcas do espaço!

Então, Ó Amada, Tua Palavra veio a mim, como está escrito: “Toda tocante; Toda penetrante.”

Assim, deixei Tempo e Espaço e Circunstância, e cada Estrela se tornou como um átomo no meu corpo, quando se tornou Teu Corpo. Agora nunca serei conhecido, pois eu é que vou.

Mas Tu, Ó Amada, embora Tu sejas infinitamente Grande, não és Tu energizada pelo Ponto Invisível – o Infinitamente Pequeno?

Um Milhão de Eternidades estão Presentes, Consideradas não de Mudança; Isto é o aqui e agora, e eu

NÃO SOU


Traduzido por André Bassi. Revisado por Frater V.I.T.R.I.O.L.