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Disciplina e Iniciação

por Chrystian Revelles Gatti

Embora o homem tenha, sobre si mesmo, a opinião de que seja livre e independente, suas reações e pontos de vista são condicionados e determinados por sua bagagem de experiências e observações. Esta bagagem traça os limites de sua visão de mundo, restrita ao mapa mental que, ao longo de sua vida, foi capaz de projetar. Essa projeção é restringida pelas “heranças” ou “carmas” que o indivíduo traz consigo nesta encarnação.

Entre estes “carmas”, podemos citar — a herança sanguínea (as características físicas e vitais herdadas de seus pais), a herança cultural e moral (os traços do pensamento e do imaginário da sociedade, cultura ou nação em que se encontra), sua herança astral (as afinidades que o mesmo possui com determinadas atividades, conhecimentos, virtudes e vícios), os episódios que marcaram profundamente sua relação com o mundo etc. Tudo isso concede ao homem um ciclo fechado de pensamentos, sentimentos, palavras e ações que fazem com que, ainda que entenda a si mesmo como livre, recorrentemente se veja diante da reincidência de certos hábitos, situações, dilemas etc. Isso acontece porque a vida do profano, antes que a iniciação o torne livre, é orientada pelo automatismo dos padrões aos quais se aferrou ao longo desta ou doutras existência.

Como alguém seria capaz de interromper por conta própria os ciclos e padrões aos quais está submetido enquanto toma enganosamente seus desejos condicionados como sua Verdadeira Vontade? A disciplina, bem como a meditação, a concentração e outras práticas específicas, podem permitir à consciência uma perspectiva de terceira pessoa com relação aos desejos e falatórios internos. Abre-se então um espaço de observação onde o indivíduo se apercebe da natureza cíclica e efêmera de suas atitudes e decisões cotidianas. A ampliação deste mesmo espaço se dá na mesma proporção em que o buscador obtém um verdadeiro livre-arbítrio, que é quando alcança um estágio de observador consciente dos processos mentais, em vez de refém automaticamente identificado com eles.

Mais adiante, na medida em que conhece a si mesmo em suas tendências e predisposições, o buscador passa a perceber as oportunidades que possui de agir conscientemente sobre o automatismo, ou seja, de interferir deliberadamente nas manifestações interiores em curso. Citando Éliphas Lévi — “o hábito pode refazer a natureza […] a vontade pode ser aperfeiçoada pela educação”. O adepto pode agir dessa forma para romper com ciclos viciosos e provocar ciclos virtuosos, estabelecendo padrões produtivos de mentalidade, linguagem e comportamento. Nas palavras de Éliphas Lévi — “é preciso que o operador das grandes obras seja senhor absoluto de si mesmo”.

O trato com as forças astrais exige do operador o entendimento de como essas forças nascem, crescem e morrem dentro de si. A paixão, isto é, a força astral intensa e desregulada, é fatal para a operação mágica posto que, exercendo fascínio sobre a consciência do magista, subverte a Vontade por meio do Desejo, situação bem representada pelo Arcano XV do Diabo, onde os homens encontram-se acorrentados pelos vícios e prazeres. “Nada é suficientemente bom para que a alma permita aferrar-se a algo até o ponto em que a referida coisa a governe, em lugar de ser a alma que governe a coisa” foram as palavras William Walker Atkinson a respeito do desejo. O Livro dos Espíritos de Allan Kardec alerta sobre o quanto a influência invisível é maior do que supomos e, com frequência, é esta que nos dirige (e não o contrário). Acerca dessa passividade, Lévi nos alerta no Dogma — “a palavra paixão representa um estado passivo, e o mago é sempre ativo e vitorioso”, ou seja, a Vontade do mago (e a extensão de sua influência) crescem na medida da soberania interna com relação às forças astrais, em um relacionamento onde só há duas posturas — a de senhor e a de escravo — assumidos pelas duas únicas partes em jogo — o Astral e o Mago.

Assim entendemos o quão literal é o ensinamento de Lévi ao dizer que “a magia é um exercício de todas as horas e de todos os instantes”, ou seja, é na vida diária, no trabalho no mundo e nos dilemas cotidianos que o aprendiz demonstra, na prática, seu comprometimento com a Grande Obra. É por meio de todas as suas decisões e atitudes diante das provas e expiações que o adepto se portará como o autêntico franco-maçom, cavando masmorras aos vícios e construindo templos à virtude.

REFERÊNCIAS

LÉVI, Éliphas. Dogma e Ritual de Alta Magia. São Paulo: Pensamento, 2017