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Geomancia:
por Alguém que a Utiliza Diariamente

Robert Browning diz: “Uma verdade leva diretamente ao fim do mundo”, e nos Evangelhos nós lemos: “Nenhum pardal cai no chão sem que seu Pai Celestial saiba”. O que essas coisas significam se não que nada na Natureza é pequeno demais para ser significativo? A queda de uma maçã coloca Newton no caminho para a Lei da Gravidade, e toda a teoria e prática da máquina a vapor foi iniciada pela observação de uma chaleira por Watt.

Além disso, sabemos por causa da Primeira Lei do Movimento de Newton que o Universo é um todo no qual até mesmo o menor tremor é ecoado por um tremor igual e oposto. Como o poeta diz:

“Eu desço
Minha mão sobre esta coisa-mesa
E a comoção aumenta — assim! —
E chacoalha os nervos de Sirius.”

Um terremoto na Calábria pode ser registrado na Califórnia. Mesmo distúrbios na fotosfera do sol podem ser detectados a 93 milhões de milhas por outros métodos além dos ópticos. É tudo uma questão da sensibilidade do instrumento de registro. Assim, a interpretação correta até mesmo do menor fenômeno pode ser a pista para grandes eventos. Portanto, assim como por detectar as causas presentes podemos antecipar seus efeitos no futuro, não há nada de irracional em supor a possibilidade de uma ciência de divinação. No entanto, há um grande passo entre admitir uma possibilidade e admitir uma realidade.

Agora, quando me perguntam sobre esses assuntos, digo que, no geral, a mais simples, a mais confiável, a mais prontamente testada, a mais facilmente aprendida de todas essas ciências é a Geomancia. Ela também requer o menor aparato possível. O nome significa “divinação pela terra”, e os requisitos são uma vara e um deserto – o que, é claro, estava disposto à mão de todo caldeu! Mas em Nova Iorque usamos um lápis e um pedaço de papel, instrumentos que (graças às Instituições Livres da América!) estão ao alcance da maioria das pessoas.

Existem vários sistemas de Geomancia, mas todos dependem da base mais simples possível; que é:

Um número é par ou ímpar.

Então o primeiro sistema é formar uma linha de pontos aleatoriamente, e contá-los. Ímpar significa sim; par significa não. Mas não se pode resolver problemas detalhadamente em um sistema tão grosseiro. Assim Fú Xī, o grande filósofo chinês, inventou seu sistema de 8 trigramas. (Será óbvio que, combinando dois conjuntos de ímpares e pares pode-se obter 4 figuras; combinando 3 obtém-se oito; 4 dá 16; 5 dá 32 e assim por diante.) Rei Wǔ e Duque de Zhōu, durante anos de prisão, passaram o tempo inventando um sistema no qual combinaram os 8 trigramas de Fú Xī consigo mesmos, obtendo assim 64 hexagramas. O livro no qual seu sistema é explicado, o Yìjīng, é provavelmente o livro mais antigo do mundo.

Antes de deixar esta parte do meu assunto, devo me referir ao sistema Taoísta do Mestre do Templo que alguns de nós conhecemos como V.V.V.V.V.. Ele juntou ao ímpar e ao par, ao Yīn e ao Yáng, como os chineses os chamam, os princípios masculinos e femininos, um terceiro princípio, nem par nem ímpar, nem masculino nem feminino. Desta forma, seu “Liber Trigrammaton” tem 27 trigramas, e este livro surpreendente não é apenas um atlas e uma história do Universo, mas um compêndio hieróglifo das forças mais secretas da natureza.

No entanto, se tratando de pura divinação, há um sistema sétuplo de 128 figuras, inventado por aquele misterioso Grão-Mestre da Ordem do Templo que esconde sua identidade sob o nome de Baphomet. O esquema é elaborado demais para delinear neste breve relato.

O sistema comum e geralmente recebido é quádruplo e, portanto, tem 16 figuras. Sua fonte é muito antiga; foi explicado pela primeira vez publicamente por Henry C. Agrippa, ou por alguém que encontrou por trás desse grande nome um abrigo conveniente. As figuras com seus títulos são as seguintes: Eu as tabulo por conveniência, e dou sua atribuição, ou simpatia, aos planetas e aos signos do zodíaco. Mas eles têm uma certa individualidade própria, e são governados por “inteligências” especiais (uma ordem superior de “espíritos elementais”) cujo dever é dar respostas verdadeiras. Eu posso aqui fazer um adendo de que o poderoso Baphomet não apenas inventou um sistema novo e superior, como também realmente se deu ao trabalho de criar uma nova hierarquia de demônios para subserví-lo! No entanto, eis o sistema comum.

1121 Puer (um menino), Marte em Áries.
1212 Amissio (perda), Vênus em Touro.
2212 Albus (branco), Mercúrio em Gêmeos.
2222 Populus (o povo), Lua crescente em Câncer.
1111 Via (o caminho), Lua minguante em Câncer.
2211 Fortuna Major (fortuna maior), Sol em Declinação Norte em Leão.
1122 Fortuna Minor (fortuna menor), Sol em Declinação Sul em Leão.
2112 Conjunctio (conjunção), Mercúrio em Virgem.
1211 Puella (uma menina), Vênus em Libra.
2122 Rubeus (vermelho), Marte em Escorpião.
2121 Acquisitio (ganho), Júpiter em Sagitário.
1221 Carcer (prisão), Saturno em Capricórnio.
2221 Tristitia (tristeza), Saturno em Aquário.
1222 Laetitia (alegria), Júpiter em Peixes.
2111 Caput Draconis (a cabeça do Dragão).
1112 Cauda Draconis (a cauda do Dragão).

Para trabalhar este sistema, as influências apropriadas são primeiramente invocadas de uma maneira apropriada, e o questionador então pega um lápis que nunca foi usado para qualquer outra finalidade, e um pedaço de papel igualmente puro. Ele faz 16 fileiras de pontos ao azar. Então estes são contados e seu número total é anotado. Seu significado é descoberto por referência ao livro Sepher Sephiroth. Então cada linha é contada e marcada como par ou ímpar. Estas são divididas em quatro conjuntos de quatro, e essas figuras são chamadas de Quatro Mães. Então as Quatro Mães são lidas horizontalmente, e mais quatro figuras, chamadas as Quatro Filhas, são encontradas. Destas oito formamos Quatro Sobrinhos, combinando cada par. Agora temos doze figuras, que são colocadas de acordo com um certo plano secreto nas doze Casas do Céu, como em um mapa astrológico comum. Os Quatro Sobrinhos são novamente combinados para formar Duas Testemunhas, e estes novamente se combinam para formar Um Juiz.

Agora a figura está pronta para julgamento, e este é o momento que evoca intuição, e testa o conhecimento e a experiência do divinador.

Eu vou aqui afirmar apenas que os problemas podem ser resolvidos nos mínimos detalhes. Primeiro uma pergunta geral pode ser feita, e os pontos menores preenchidos por figuras subsequentes. Deve-se tomar cuidado para colocar a questão de tal forma que uma resposta clara seja possível, e que ambiguidade ou mesmo trocadilho não seja possível; pois as inteligências servem de má vontade, e estão sempre prontas para confrontar a sua sagacidade com a delas. Ai de você, se você não estiver tão alerta quanto elas!

Concluirei este breve esboço com um exemplo verificável de como esse método pode ser utilizado.

Um amigo meu, na época um contador que trabalhava em Joanesburgo, aprendeu essa ciência comigo e, sendo capaz de dedicar muito tempo a ela, o discípulo rapidamente ultrapassou o mestre. Um dia ele foi chamado para examinar os livros de uma empresa e, chocado com o tamanho da tarefa – pois o erro do qual suspeitavam poderia ter ocorrido em qualquer lugar em dado número de anos – ele decidiu tentar a geomancia. Ele montou uma série de figuras; e depois de apenas três horas foi a um livro em particular, abriu-o e colocou o dedo na falsificação que procurava – uma economia de três meses de trabalho oneroso. Deve-se entender que este é apenas um de muitos sucessos notáveis.

Um dia lhe ocorreu que, vivendo como ele estava no centro de campos de ouro e diamante, poderia também usar seus poderes para descobrir um deles. Ele formulou a questão como concernente à “riqueza mineral”; porque ele não se importava muito se conseguiria ouro ou se conseguiria diamantes! As inteligências direcionaram-no a sair da cidade em uma determinada direção, o que ele fez. Ele cavalgou para longe e depressa, e nunca achou nada que pudesse recompensar sua busca. Finalmente, em direção ao pôr do sol, ele se desesperou quando uma fileira de colinas baixas apareceu à sua frente. E então ele refletiu que uma certa figura em sua divinação poderia significar “além das colinas”. Vou andar mais quinze minutos, ele disse, para tentar a sorte. Ele chegou às colinas; ainda não havia vestígios desse afloramento de quartzo aurífero ou daquela formação de argila azul que ele esperava encontrar. Pelo contrário, na frente dele, estendia-se uma planície ininterrupta. Vou voltar, disse ele, e amaldiçoar a hora em que comecei com a Geomancia. Mas, com um lago a alguns metros à frente, ele decidiu dar de beber ao pônei antes de voltar. O pônei recusou a água; e no mesmo instante ele percebeu que a canela dele estava imersa na lama, e pronta para afundar. Ele desmontou apressadamente e arrastou o animal para fora do atoleiro. Ele escorregou enquanto fazia isso; a lama espirrou em seu rosto e, naquele momento, descobriu que ela era amarga.

Ele descobriu o maior depósito de álcali na África do Sul! “Riqueza mineral”, estava certo o suficiente; e hoje, apesar da guerra, ele está a caminho de seu primeiro milhão de libras esterlinas.


Traduzido por Frater Set Rah (A.M.W.Q.) em julho de 2018.