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Quarta Palestra

Saudações aos Filhos da Manhã!

Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

1. Eu gostaria de começar esta noite recapitulando muito brevemente o que foi dito nas três palestras anteriores, e isto seria mais fácil se eu não tivesse esquecido completamente tudo o que eu disse. Mas há uma espécie de memória vaga de que o tema geral da série eram os exercícios mentais dos Yogīs; e a característica realmente notável era que eu achava impossível discuti-los completamente sem abordar, em primeiro lugar, a ontologia; em segundo lugar, a ciência comum; e em terceiro lugar, a alta Magia dos verdadeiros iniciados da luz.

2. Descobrimos que tanto a Ontologia quanto a Ciência, abordando a questão da realidade a partir de pontos de vista inteiramente diferentes, e seguindo suas pesquisas por métodos inteiramente diferentes, ainda assim haviam chegado a um impasse idêntico. E a conclusão geral era de que não poderia haver realidade em qualquer conceito intelectual de qualquer tipo, que a única realidade deve estar na experiência direta de um tipo que está além do escopo do aparato crítico de nossas mentes. Não pode estar sujeita às leis da Razão; não pode ser encontrada nos grilhões da matemática elementar; somente as concepções transfinitas e irracionais naquele assunto podem, possivelmente, simbolizar a verdade em algum paradoxo como a identidade das proposições contraditórias. Descobrimos ainda que os estados mentais que resultam da prática do Yoga são apropriadamente chamados de transes, porque eles de fato transcendem as condições do pensamento normal.

3. Neste ponto, começamos a ver uma junção quase insensível do caminho do Yoga que é reto (e de certo modo árido) com o da Magia, que pode ser comparado com a dança báquica ou as orgias de Pã. Isso sugere que o Yoga é, em última análise, uma sublimação da filosofia, assim como a Magia é uma sublimação da ciência. O caminho está aberto para uma reconciliação entre esses elementos inferiores do pensamento em virtude de sua tendência a florescer nesses estados superiores além do pensamento, no qual os dois se tornaram um. E isso, é claro, é Magia; e isso, é claro, é Yoga.

4. Podemos agora considerar se, em vista da identificação final desses dois elementos em seu nível mais elevado, não poderia haver algo mais prático do que simpatia em seus elementos inferiores – quero dizer, assistência mútua.

Fico feliz em pensar que o Caminho dos Sábios se tornou muito mais fácil e mais curto do que ele era quando eu o trilhei; exatamente porque as velhas antinomias da Magia e do Yoga foram completamente resolvidas.

Todos vocês sabem o que é Yoga. Yoga significa união. E todos sabem como fazê-lo: desligando o som da barulheira intelectual e permitindo que o silêncio da luz das estrelas chegue ao ouvido. É a emancipação daquilo que é exaltado da escravidão da expressão comum da Natureza.

5. Agora o que é a Magia? Magia é a ciência e a arte de fazer com que mudanças ocorram em conformidade com a Vontade. Como fazemos isso? Exaltando a vontade ao ponto em que ela é mestre das circunstâncias. E como fazemos isso? Ordenando todo pensamento, palavra e ato, de tal maneira que a atenção seja constantemente remetida ao objetivo escolhido.

6. Suponham que eu queira evocar a “Inteligência” de Júpiter. Eu baseio meu trabalho nas correspondências de Júpiter. Baseio minha matemática no número 4 e seus números subservientes 16, 34, 136. Emprego o quadrado ou o losango. Como meu animal sagrado eu escolho a águia, ou algum outro que seja sagrado para Júpiter. Como meu perfume, açafrão – para minha libação, alguma preparação de ópio ou um vinho generoso, porém doce e poderoso, como o vinho do porto. Como minha arma mágica, eu seguro o cetro; na verdade, continuo escolhendo instrumentos para cada ato de tal maneira que eu seja constantemente lembrado da minha vontade de evocar Júpiter. Eu até mesmo limito todos os objetos. Eu extraio os elementos Jupiterianos de todos os fenômenos complexos que me cercam. Se eu olhar para o meu tapete, os azuis e roxos são as cores que se destacam como Luz contra um fundo obsoleto e indeterminado. E assim eu continuo a minha vida diária, usando cada momento do tempo em constante auto admoestação para atender a Júpiter. A mente responde rapidamente a esse treinamento; muito em breve rejeita automaticamente como sendo irreal qualquer coisa que não seja Júpiter. Tudo o resto escapa à atenção. E quando chega a hora da cerimônia de invocação que venho preparando consistentemente com toda devoção e assiduidade, fico rapidamente inflamado. Estou sintonizado com Júpiter, sou impregnado por Júpiter, sou absorvido por Júpiter, sou apanhado pelo céu de Júpiter e empunho seus raios. Hebe e Ganimedes me trazem vinho; a Rainha dos Deuses está sentada no trono ao meu lado, e as donzelas mais formosas da terra são minhas companheiras.

7. Agora, o que é tudo isso senão fazer de um modo parcial (e, se é que posso dizê-lo, romântico), aquilo que o Yogī faz em seus métodos mais cientificamente completos e ainda mais austeramente difíceis? E aqui a vantagem da Magia é que o processo de iniciação é espontâneo e, por assim dizer, automático. Você pode começar da maneira mais modesta com a evocação de algum espírito elementar simples; mas, no curso da operação, você é obrigado, a fim de obter sucesso, a lidar com entidades superiores. Sua ambição cresce, como ocorre em qualquer outro organismo, pelo que ela consome. Logo você é levado à própria Grande Obra; você é levado a aspirar ao Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião, e essa ambição, por sua vez, desperta automaticamente outras dificuldades cuja conquista confere novos poderes. N’O Livro dos Trinta Æthyrs, comumente chamado de A Visão e a Voz, torna-se progressivamente difícil penetrar em cada Æthyr. De fato, a penetração só foi alcançada pelas iniciações que foram conferidas pelo Anjo de cada Æthyr um de cada vez. Havia essa identificação adicional com as práticas do Yoga registrada neste livro. Às vezes, a concentração necessária para permanecer no Æthyr tornou-se tão intensa que resultados definitivamente Samādhicos foram obtidos. Vemos então que a exaltação da mente por meio de práticas mágicas leva (como se pode dizer, apesar dela) aos mesmos resultados que ocorrem no Yoga direto.

Acho que devo contar um pouco mais sobre essas visões. O método para obtê-las consistia em pegar um grande topázio lindamente gravado com a Rosa e a Cruz de quarenta e nove pétalas, e este topázio era afixado em uma cruz de madeira de carvalho pintada de vermelho. Eu a chamava de pedra-de-visões em homenagem à famosa pedra-de-visões do Dr. Dee. Eu segurava ela em minha mão e começava a recitar na língua Enoquiana ou Angélica o Chamado dos Trinta Æthyrs, usando em cada caso o nome especial apropriado para o Æthyr. Agora tudo isso correu muito bem acho que até o 17º, e então o Anjo, prevendo dificuldade nos Æthyrs superiores ou mais remotos, me deu essa instrução. Eu deveria recitar um capítulo do Alcorão: o que os maometanos chamam de “Capítulo da Unidade”. “Qol: Hua Allahu achad; Allahu assamad: lam yalid walam yulad; walam yakun lahu kufwan achad”[1]. Eu deveria dizer isso, prostrando-me no chão depois de cada capítulo, mil e uma vezes por dia, enquanto eu caminhava atrás de meu camelo no Grande Erg Oriental do Saara. Creio que ninguém contestará que esse exercício foi muito bom; mas meu ponto é que certamente foi um Yoga muito bom.

Pelo que eu disse em palestras anteriores, vocês todos reconhecerão que esta prática preenche todas as condições dos primeiros estágios do Yoga, e, portanto, não é surpreendente que ela tenha colocado minha mente em tal estado que eu fosse capaz de usar o Chamado dos Trinta Æthyrs com eficiência muito maior do que antes.

8. Então eu deveria estar dizendo que o Yoga é meramente servo da Magia, ou que a Magia não tem função maior do que suplementar o Yoga? De jeito nenhum. A cooperação de amantes é um símbolo do fato. As práticas de Yoga são quase essenciais para o sucesso na Magia – pelo menos eu posso dizer que, pela minha própria experiência, estar totalmente fundamentado na prática do Yoga fez toda a diferença do mundo para o meu sucesso mágico. Mas sinto estar absolutamente certo de que nunca teria obtido sucesso no Yoga em tão pouco tempo se não tivesse passado os três anos anteriores praticando diariamente métodos mágicos.

9. Eu posso ir tão longe a ponto de dizer que, pouco antes de começar o Yoga a sério, eu quase havia inventado um método Yogīco de praticar a Magia no estresse das circunstâncias. Eu estava acostumado a trabalhar com todo o aparato mágico em um templo admiravelmente projeto que eu mesmo montei. Ora eu me encontrava a bordo de um navio, ou em algum quarto escuro da Cidade do México, ou acampado ao lado do meu cavalo entre as canas de açúcar em vales tropicais solitários, ou deitado usando minha mochila de travesseiro em montes vulcânicos sem árvores. Eu tive que substituir meu aparato mágico. Eu usaria o criado-mudo, ou pedras empilhadas, como meu altar. Minha vela ou meu lampião alpino era minha luz. Meu piolet[2] como a varinha, meu cantil como o cálice, meu facão como a espada e um chapati[3] ou um saquinho de sal como o pantáculo da arte! O hábito logo tornou familiares estes substitutos grosseiros e acessíveis. Mas suspeito que possa ter sido o isolamento e as dificuldades físicas em si que ajudaram, a minha operação mágica se tornava cada vez mais implícita em meu próprio corpo e mente, e alguns meses depois me vi realizando operações completas envolvendo a Fórmula do Neófito (a respeito da qual consulte meu tratado Magick[4]) sem nenhum aparato externo.

10. Uma varíola para todos esses sábios arianos formalistas! A menos que se queira ser muito pedante, é um tanto absurdo argumentar que essa forma de ritual imposta sobre mim, primeiro por circunstâncias externas e então por circunstâncias internas, era outra coisa que não uma nova forma de Āsana, Prāṇāyāma, Mantra-Yoga e Pratyāhāra em algo muito próximo da perfeição; e, portanto, não surpreende que a exaltação Mágica resultante de tais cerimônias fosse, em todos os aspectos essenciais, o equivalente a Samyama.

Por outro lado, o treinamento de Yoga foi uma ajuda admirável para a concentração final da Vontade que opera o êxtase mágico.

11. Então esta é a realidade: a experiência direta. Como isso difere da experiência cotidiana comum das impressões sensoriais que são prontamente abaladas pelo primeiro sopro do vento da análise intelectual?

Bem, para responder antes de tudo usando o senso comum, a diferença é simplesmente que a impressão é mais profunda, está menos propensa a ser abalada. Homens de bom senso e boa educação estão sempre prontos a admitir que podem ter se enganado na qualidade de sua observação de qualquer fenômeno, e é quase certo que os homens um pouco mais avançados atinjam um tipo plácido de especulação sobre se os objetos dos sentidos não são meras sombras em uma tela.

Eu tiro meus óculos. Agora não consigo ler meu manuscrito. Eu tinha dois conjuntos de lentes, um natural e outro artificial. Se eu estivesse olhando através de um telescópio do padrão antigo, eu teria três conjuntos de lentes, duas artificiais. Se eu colocar os óculos de outra pessoa, vou ter outro tipo de borrão. Assim como as lentes dos meus olhos mudam no curso da minha vida, o que minha visão me diz é diferente. O ponto é que somos incapazes de julgar qual é a verdade da visão. Então por que eu coloco meus óculos para ler? Apenas porque o tipo particular de ilusão produzida pelo uso deles é um que me permite interpretar um sistema de hieróglifos pré-arranjado em um sentido particular que, por acaso, imagino querer. Não me diz nada sobre o objeto da minha visão – o que chamo de papel e tinta. Qual deles é o sonho? A letra clara e legível ou o borrão indecifrável?

12. Mas, em todo caso, qualquer homem que é sensato faz uma distinção entre a experiência da vida diária e a experiência do sonho. É verdade que às vezes os sonhos são tão vívidos, e seu caráter tão persistentemente uniforme, que as pessoas são realmente enganadas acreditando que os lugares que repetidamente viram nos sonhos são lugares que elas conheceram em uma vida acordada. Mas elas são capazes de criticar essa ilusão através da memória, e admitem o engano. Bem, da mesma forma, os fenômenos da alta Magia e do Samādhi têm uma autenticidade e conferem uma certeza interior que está para a experiência da vida desperta assim como a vida desperta está para um sonho.

Mas, à parte de tudo isso, experiência é experiência; e a garantia real que temos da consecução da realidade é sua posição na hierarquia da mente.

13. Vamos nos perguntar por um momento qual é a característica das impressões dos sonhos, conforme julgadas pela mente desperta. Alguns sonhos são tão poderosos que nos convencem, mesmo quando acordados, da sua realidade. Por que, então, os criticamos e descartamos? Porque seus conteúdos são incoerentes, porque a ordem da natureza a que pertencem não se conforma adequadamente com o tipo de experiência que interdepende – até certo ponto. Por que criticamos a realidade da experiência da vigília? Em fundamentos precisamente similares. Porque em certos aspectos ela não se conforma com a nossa profunda consciência instintiva da estrutura da mente. Tendência! Acontece que somos esse tipo de animal.

14. O resultado é que aceitamos a experiência da vigília pelo que ela é dentro de certos limites. Ao menos temos feito isso até aqui, baseamos nossa ação na crença de que, mesmo que não seja filosoficamente real, é real o suficiente para basear um curso de ação nela.

Qual é o teste prático final de convicção? Apenas isso, que ela é o nosso padrão de conduta. Eu coloquei esses óculos para ler. Tenho certeza de que a superfície borrada ficará clara quando eu fizer isso. Claro, posso estar errado. Eu posso ter pegado os óculos de outra pessoa por engano. Eu posso ficar cego antes que eu possa colocá-los. Até essa confiança tem limites; mas é uma confiança real, e esta é a explicação de porque nós seguimos em frente com o negócio da vida. Quando pensamos nisso, sabemos que existe todo tipo de empecilhos, que é impossível formular qualquer proposição que seja filosoficamente inexpugnável, ou mesmo uma que o seja do ponto de vista prático. Nós admitimos para nós mesmos que existem todos os tipos de obstáculos; mas aproveitamos a chance e seguimos em frente nos princípios gerais inculcados pela nossa experiência da natureza. É claro que é muito fácil provar que aquela experiência é impossível. Para começar, nossa consciência de qualquer fenômeno nunca é a coisa em si, mas apenas um símbolo hieroglífico dela.

Nossa posição é a de um homem com um automóvel temperamental; ele tem uma teoria vaga, baseada em princípios gerais, de que ele deveria andar; mas não tem certeza de como ele vai funcionar sob toda circunstância. Agora a experiência da Magia e do Yoga está bem acima de tudo isso. A possibilidade de criticar os outros tipos de experiência baseia-se na possibilidade de expressar nossas impressões em termos adequados; e isto não é de modo algum o caso dos resultados da Magia e do Yoga. Como já vimos, toda tentativa de expressão na linguagem comum é fútil. Onde o herói da aventura está amarrado a uma teoria religiosa, recebemos o insípido e untuoso esgoto de pessoas como São João da Cruz. Todos os místicos cristãos são pintados com o mesmo pincel. Sua religião abominável os compele a todo tipo de sentimentalismo; e a teoria do pecado original vicia toda sua posição, porque em vez do nobre e inspirador Transe do Sofrimento, eles não têm nada além do senso de culpa miserável, covarde e egoísta para incitá-los a empreender a Obra.

15. Acho que podemos rejeitar totalmente de nossas mentes toda afirmação de experiência feita por qualquer cristão de qualquer raça de vírus espiritual como uma mera reflexão mórbida, a imitação simiesca dos verdadeiros êxtases e transes. Todas as expressões da coisa real devem partilhar do caráter dessa coisa e, portanto, somente essa linguagem é permissível, a qual é liberada do cânone da fala comum, exatamente como o transe é liberado pelas leis da consciência comum. Em outras palavras, a única tradução correta é em poesia, arte e música.

16. Se vocês examinarem a mais alta poesia à luz do senso comum, só podem dizer que ela é baboseira; e, na verdade, vocês não conseguem examiná-la de modo algum, porque há algo na poesia que não está nas palavras em si, que não está nas imagens sugeridas pelas palavras “Ó estrela ventosa soprada para o céu!” A verdadeira poesia é em si um feitiço mágico que é a chave do indizível. Com a música, essa tese é tão óbvia que dificilmente precisar ser declarada. A música não expressa qualquer conteúdo intelectual, e o único teste da música é seu poder de exaltar a alma. Então é evidente que o próprio compositor está tentando expressar de forma sensível algumas sublimidades que são alcançadas por aqueles que praticam Magia e Yoga como dever-se-ia.

17. O mesmo se aplica às artes plásticas, mas evidentemente em grau muito menor; e todos aqueles que realmente conhecem e amam a arte estão bem cientes de que a pintura clássica e a escultura raramente são capazes de produzir esses orgasmos transcendentais de êxtase, como no caso das artes superiores. A pessoa está ligada às impressões do olho; é atraída de volta para a contemplação de um objeto estático. E este fato foi tão bem compreendido nos tempos modernos pelos pintores que eles se esforçaram para criar uma arte dentro de uma arte; e esta é a verdadeira explicação de tais movimentos como o surrealismo. Quero mostrar a vocês que o artista é, na verdade, um ser muito superior ao Yogī ou ao Magista. Ele pode responder como São Paulo respondeu ao centurião que se vangloriava de sua cidadania romana “Com uma grande soma obtive a liberdade”; e Paulo, manejando sua Gravata Old School, zombou: “Mas eu nasci livre.”

18. Não cabe a nós aqui perguntar como ocorre que certos seres humanos possuem desde o nascimento este direito de intimidade com a mais alta realidade, mas Blavatsky era dessa mesma opinião de que o dom natural marca a aquisição do grau na hierarquia espiritual à qual o estudante de Magia e Yoga aspira. Ele é, por assim dizer, um artista em formação; e talvez não seja provável que seus dons tenham se tornado suficientemente automáticos em sua encarnação atual para produzir os frutos de sua consecução. No entanto, sem dúvidas, houve tais casos, e isso dentro de minha própria experiência.

19. Eu poderia citar o caso de um homem – um poeta muito inferior e insosso – que empreendeu muito vigorosamente, por um tempo, as práticas mágicas prescritas. Ele teve muita sorte e alcançou resultados admiráveis. Assim que o fez, sua própria poesia se inundou com luz e energia superna. Ele produziu obras-primas. E então ele desistiu de sua Magia porque a tarefa de progredir ainda mais o assustou. O resultado foi que sua poesia caiu completamente ao padrão de mata-borrão molhado.

20. Deixe-me contar-lhes também de um homem quase analfabeto, um homem de Lancashire[5] que começou a trabalhar em um moinho aos nove anos de idade. Ele estudou por anos com os Toshophistas sem resultados. Então ele se correspondeu comigo por algum tempo; ele ainda não tinha resultados. Ele veio morar comigo na Sicília. Um dia, ao descermos para tomar banho, ficamos um momento à beira do penhasco que descia até a pequena enseada rochosa, com sua praia de areia lisa e maravilhosa.

Eu disse algo bem casualmente – nunca pude me lembrar do que era – e nem ele conseguiu se lembrar – mas de repente ele desceu correndo a pequena trilha íngreme como um bode da montanha, tirou o manto e mergulhou no mar. Quando ele voltou, seu próprio corpo se tornou luminoso. Eu vi que ele precisava ficar sozinho por uma semana para completar sua experiência, então providenciei que ele ficasse em uma tenda alpina em um vale silencioso sob árvores frondosas espalhadas na beira de um riacho. De tempos em tempos ele me enviava seu registro mágico, visão após visão de incrível profundidade e esplendor. Fiquei tão satisfeito com a sua consecução que mostrei esses registros a um ilustre crítico literário que estava hospedado comigo na época. Algumas horas depois, quando voltei para a Abadia, ele correu até mim muito excitado. “Você sabe o que é isso?” bradou ele. Eu respondi casualmente que eram algumas visões muito boas. “Danem-se as suas visões”, exclamou ele, “você não notou o estilo? É puro John Bunyan[6]!” E era[7].

21. Mas tudo isso não está nem aqui e nem ali. Só há uma coisa que alguém pode fazer em um caminho: ter a certeza do próximo passo. E o fato que todos nós temos para nos confortar é o seguinte: que todos os seres humanos têm capacidade para a consecução, cada um de acordo com sua posição atual.

Por exemplo, no que diz respeito ao poder da visão no plano astral, tive o privilégio de treinar centenas de pessoas ao longo de minha vida, e apenas cerca de uma dúzia delas não foram capazes de ter sucesso. Em um dos casos, isso ocorreu porque o homem já havia ultrapassado todo exercício preliminar; sua mente assumiu imediatamente a condição sem forma que transcende todas as imagens, todo pensamento. Outros fracassos foram de pessoas estúpidas que eram incapazes de realizar qualquer tipo de experimento. Eles eram uma massa de orgulho e preconceito intelectual, e eu os mandei embora com uma prescrição de ir para Jane Austen. Mas o homem e a mulher comuns se dão muito bem, e, não me refiro apenas aos instruídos. De fato, é notório que, entre muitas das raças primitivas da humanidade, poderes estranhos de todos os tipos se desenvolvem com espantoso florescimento.

22. A questão para cada um de nós é: primeiro, verificar nossas posições atuais; em segundo lugar, determinar nossas direções apropriadas; e, em terceiro lugar, nos governarmos de acordo.

A questão para mim é também descrever um método de procedimento que seja suficientemente elástico para ser útil para todo ser humano. Eu tentei fazer isso combinando os dois caminhos da Magia e do Yoga. Se executarmos as práticas preliminares, cada um de acordo com sua capacidade, o resultado certamente será a aquisição de uma certa técnica. E isso se tornará muito mais fácil à medida que avançamos, especialmente se tivermos claro em mente não tentar discriminar entre os dois métodos como se eles fossem escolas opostas, mas usar um para ajudar o outro em uma emergência.

23. É claro, ninguém entende melhor do que eu que embora ninguém possa fazer o seu trabalho por você, é possível fazer uso – até certo ponto – da experiência de outras pessoas, e a Grande Ordem que tenho a honra de servir designou um currículo que é, acredito que vocês concordarão, muito satisfatório e prático.

24. Espera-se que você passe pelo menos três meses estudando alguns dos clássicos sobre o assunto. O principal objetivo disso não é instruí-los, mas sim familiarizá-los com os fundamentos e, em particular, impedir que você tenha a ideia de que existe certo ou errado em matéria de opinião. Você passa por um exame destinado a garantir que sua mente esteja bem fundamentada nestes assuntos, e você se torna um Probacionista. Suas leituras terão lhe dado alguma indicação quanto ao tipo de coisa na qual você provavelmente será bom, e você selecionará as práticas que mais lhe parecerem promissoras. Você segue em frente com elas, e mantém um registro cuidadoso do que você faz, e de quais resultados ocorrem. Após onze meses, você submete um registro para o seu superior; é dever dele corrigir onde você errou, e particularmente encorajá-lo onde você acha que falhou.

25. Digo isso porque um dos problemas mais frequentes é que pessoas que estão fazendo um excelente trabalho desistem porque descobrem que a Natureza não é o que elas pensavam que seria. Mas este é o melhor teste da realidade de qualquer experiência. Todas aquelas que se conformam com a sua ideia, que lhe lisonjeiam, provavelmente são ilusões. Então você se torna um Neófito; e ataca as Tarefas de um Zelator.

Há outros graus neste sistema, mas os princípios gerais são sempre os mesmos – os princípios do estudo e da pesquisa científica.

26. Nós terminamos onde começamos. “A roda deu um giro completo”. Devemos usar a experiência do passado para determinar a experiência do futuro e, à medida que essa experiência aumenta em quantidade, também melhora em qualidade. E o Caminho é certo. E o Fim é certo. Pois o Fim é o Caminho.

Amor é a lei, amor sob vontade.


[1] «Surata 112 do Alcorão: “Dize: Ele é Deus, o Único! Deus! O Absoluto! Jamais gerou ou foi gerado! E ninguém é comparável a Ele!”»

[2] «Ferramenta semelhante a um machado utilizada para perfurar o gelo e permitir que o alpinista apoie seu peso em uma escalada.»

[3] «Um tipo de pão indiano.»

[4] «Liber ABA, Magick, O Livro Quatro: Parte III: Magia em Teoria e Prática. Editora Penumbra, 2020.»

[5] «Frank Bennett (1868-1930), um discípulo inglês de Crowley que emigrou para a Austrália, onde estabeleceu a A∴A∴ e a O.T.O.»

[6] «John Bunyan (1628-1688) foi um escritor e pregador cristão.»

[7] «Para saber mais sobre o retiro mágico de Frank Bennett, consulte The Magical Record of Frater Progradior, por Keith Richmond»


Traduzido por Alan Michel Willms Quinot em agosto de 2019.

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