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Uma Reconsideração
do Profeta Após o 418:
os fatos como eles se apresentam

por Robert Furtkamp

«Extraído da primeira edição não-editada dos manuscritos de Liber 418 — A Visão e a Voz, desde sua recepção na Algéria em 1909, disponível no Hellfire Club Books.»

Apresento para sua consideração algo que se tornou cada vez mais óbvio à medida em que eu trabalhava neste projeto. Isso me causou muita dor conforme eu começava a reunir os pedaços de informação. Anos atrás, isso teria acabado comigo ou feito com que eu me afastasse da beleza do sistema e dos Livros Sagrados. Eu dediquei a maior parte das últimas três décadas como um sério estudante de nossos Mistérios, dos mais sublimes aos mundanos. Eu dediquei centenas e milhares de horas em materiais de arquivo, juntando as peças dos documentos que estão perdidos ou são indecifráveis, tentando encontrar algum sentido nos rabiscos escritos à luz de lampião em Cefalu sob a influência de seja lá quais forem as drogas e as doenças que estavam circulando por lá na época. Eu li dezenas de milhares de páginas de documentos e suplementos, e repeti novamente. Eu também pratiquei muito, é claro, mas isso não é importante aqui. O que importa é que os fatos dos arquivos e da história conforme eu fui capaz de reuni-los. Eu enderecei diversos deles de relance em meu outro ensaio neste volume, sobre a reclassificação d’A Visão e a Voz da Classe AB para a Classe A, mas isso é só a ponta do iceberg, e eu seria negligente se não mencionasse isso neste trabalho.

Em 1900, Aleister Crowley era um dos principais, senão o principal, praticante de magia no Ocidente, senão do mundo inteiro. Sua perícia e experimentação levou a grandes platôs em seu círculo de colegas muito mais velhos na Aurora Dourada, e levou aos seus primeiros sucessos com os Æthyrs 30 e 29 no México. Ele atinge algum tipo de barreira, incapaz de prosseguir. Se isso foi uma questão de seu próprio status, posição, grau ou autoridade pessoal, ou do cosmos como um todo, é matéria de pura especulação. Uma teoria na qual acreditei por algum tempo é que, efetivamente, os poderes por detrás deste livro, os poderes por detrás da recepção do Liber AL em 1904 no Cairo — estavam procurando por alguém que poderia utilizar tanto o sistema enoquiano para o propósito deles (que, como o anjo Nalvage informa a Dee em 1584, claramente é o Apocalipse, embora não necessariamente de um modo que uma mente humana compreenderia) quanto proclamar a chegada do Novo Êon.

Dos candidatos disponíveis para a Profecia, talvez na época Crowley representava a opção mais viável de todas — ele era jovem, ele tinha uma esposa que provou-se ser receptiva à canalização, e ele era um magista competente e praticante do sistema enoquiano tão longe quanto a Aurora Dourada o havia reconstruído. Estes três provariam ser uma combinação potente no Cairo: com Crowley como o (as vezes resistente) escriba e Rosa como a vidente, Liber AL se manifestou com sucesso ao longo de três dias consecutivos.

Infelizmente para quaisquer planos futuros na área, Crowley tinha pouco interesse na posição confiada a ele, e guardou o manuscrito do AL num depósito na mansão Boleskine mais tarde em 1904. Deixando Rose para trás para se dedicar ao montanhismo e outros hobbies de um inglês rico e livre de responsabilidades da época, ele deixa o AL e quaisquer outros planos dormentes até 1909. Incapaz de encontrar o manuscrito quando procurou por ele para publicá-lo e acabar com o assunto em seu Collected Works em 1907, Crowley só redescobre o manuscrito guardado perto de seus esquis em Boleskine em 28 de junho de 1909.

Rendendo-se à sua Verdadeira Vontade, ele por fim aceita seu status como Profeta e a publicação do manuscrito, e parte para a Algéria com seu estudante, Victor Neuburg, para finalizar as visões dos Trinta Æthyrs iniciadas no México em 1900. Eles completam este evento no dia 19 de dezembro de 1909 — com ARN finalizando após LIL, apesar do arranjo do 418 pelos Æthyrs no suplemento do The Equinox em 1910 que marcava a publicação de A Visão e a Voz.

Notavelmente, as experiências de Crowley conforme os Æthyrs progrediam podem ser examinadas sob a lente de visitas únicas para transcrever as coisas lá dentro, um tipo de tour promocional onde o vidente só tem acesso permitido em determinadas áreas e só pode experimentar determinadas coisas dentro do limite de seu grau e status. Sim, ele completa todos os Trinta Æthyrs, mas neste sentido, ele não o faz sob sua própria autoridade e poder, por assim dizer. Ele é informado que para experimentar completamente a glória de ARN e a cama de núpcias ali, ele precisa primeiro se tornar um Magus. “Parta!” é o refrão, e as frequentes referências ao sistema enoquiano também ecoam repetidamente.

Após voltar para a Inglaterra, Crowley entrega os cadernos de anotações para J.F.C. Fuller transcrevê-los. Ele nunca solicita sua devolução; não há nenhuma menção a eles novamente em quaisquer materiais dos arquivos. A quantidade de edições é óbvia para qualquer leitor deste volume, a despeito do decreto de “não mudes o estilo de uma letra” em A Visão e a Voz — não preciso falar mais sobre isso. Na versão comentada dos anos 30, os originais não são consultados nem solicitados igualmente. Junto com os manuscritos dos Livros Sagrados que não o próprio Liber AL, Crowley parece ter zero interesse neles — A Visão e a Voz incluso. Fuller os guarda em segurança pelo resto da vida dele. Sem o seu cuidado especial, este volume não teria sido possível e os segredos ali teriam sido completamente perdidos.

Com o fechamento de ARN que completa o Trabalho do 418 propriamente dito em ordem cronológica (já que é completado após LIL), o enoquiano e os ares se tornam assunto encerrado para Crowley. Após um retorno fracassado para a Algéria em 1910 com Neuburg para explorar os outros dezoito Chamados e as Torres-de-Vigia, Crowley nunca mais pratica enoquiano. Ele não é mais mencionado em seus diários ou cartas, e exceto pelo diagrama de caracteres no Liber Chanock no The Equinox, o sistema enoquiano é essencialmente ignorado tanto na O.T.O. quanto na A∴A∴. Ele não é exigido em nenhuma destas ordens, apesar do sistema e da variante de método de visão dos Æthyrs serem estressados no próprio A Visão e a Voz. Nem depois da Algéria, nem depois de assumir o grau de Magus em 1916. Ele nunca retorna a ARN. Ele nunca alcança a cama de núpcias que ele tão desesperadamente desejava.

1916 é um ano monumental para Crowley e suas obras — o pico de sua autoridade, alcance e poder. A O.T.O. está crescendo na América do Norte, seus estudantes estão aumentando ao redor do mundo, sua estatura na comunidade da época está aumentando apesar de sua crescente infâmia. E em 1916, isso tudo desmorona. O dinheiro acaba. Ele fica preso nos Estados Unidos, onde qualquer leitor do Confessions notará que ele tinha desgosto pelas pessoas, pela terra, pela experiência — a incapacidade das pessoas de reconhecê-lo como um aristocrata, um de seus “melhores”, e como Profeta. A O.T.O. fracassa no Canadá. Seu relacionamento com Achad esfria, falando brandamente, após Achad assumir a posição de Mestre do Templo para complementar o recém-alcançado Magus de Crowley.

Mas mais importante, é após este ponto que não há mais Livros Sagrados. Sim, Crowley é um Profeta, mas um Profeta sem uma Voz. Não há novas febres revigorantes do céu. O declínio escala ainda mais. As drogas se tornam um problema ao invés de uma fonte de revelação — suas escapadelas pela Europa acabam fazendo com que ele seja efetivamente banido da maior parte do continente. Ele toma medidas desesperadas e sem sucesso para utilizar o segredo do IX° para ganho pessoal, conforme evidenciado em seus diários dos anos 20 e 30. Ele não consegue escapar da crescente infâmia em casa partindo para fora como ele historicamente havia feito, ou pelo menos não por muito tempo — e após a Mandrake House falir, o longo silêncio de suas publicações também começa.

Acompanhada por sua pobre higiene bucal e sua saúde decadente na maior parte dos anos 30, a eclosão de Crowley na época da Segunda Guerra Mundial é efetivamente o que ele mais desprezava: um pedinte, vivendo precariamente com a generosidade de Yorke, Germer e alguns outros acólitos restantes. Ele é incapaz de viajar por diversos motivos, ficando preso em sua terra natal como um pária. Sim, ele publica o brilhante e belo Livro de Thoth com a assistência de Lady Frieda Harris. Sim, suas cartas ainda são evidência de uma mente brilhante — mas a Voz permanece silente. Sua inveja de quaisquer outros que pudessem ter tal contato é aparente, como na correspondência com Parsons e no desdém que Crowley tem até mesmo pela possibilidade de uma “Operação de Babalon”. O sucesso o frustra.

Ele nunca tenta voltar para ARN. Eu sei, estou repetindo isso, mas considere por um minuto o que isso significa. Ele ainda tem uma oferta à disposição de retornar aos Æthyrs e experimentar completamente o abraço amoroso da cama de núpcias Dela.  É o que ele tão desesperadamente queria em 1909 — mas até o fim, ele nunca fez isso. A Voz nunca retornou. Crowley foi um homem brilhante até o fim de seus dias, mas é o brilho de um Profeta sem a Voz.

Se isso é relevante sob a luz do sistema inteiro é simples: sem a dita Voz, e sem contínua prova de sua sanção — e a extrema falta de “sucesso é sua prova” unidos a uma existência infernal digna de pesadelo que soa como o que a Mulher Escarlate passaria se ela caísse de sua posição, é preciso ter cuidadosa consideração com o que exatamente quaisquer de suas obras, o que quaisquer de suas organizações, o que qualquer dos sistemas, retém de legitimidade após 1916.

Sim, nossos Livros Sagrados são nossos Livros Sagrados. Sim, Crowley ainda é Profeta. E o primeiro apresenta um caminho adiante usando o sistema de Dee e Kelley e os Anjos dos Æthyrs, além de todas as derivações da Aurora Dourada e da magia moderna — mas derradeiramente, quais escritos de Crowley e comentários sobre eventos além de Mestre do Templo podem ser acreditados ou confiados de primeira? Sob qual autoridade eles repousam?

Eu não tenho a intenção de causar angústia; eu não tenho a intenção de causar problemas. Eu amo este sistema com todo o meu ser; eu amo o autor com toda a minha alma. Eu prestei um juramento à Serviço Dela vinte-e-um anos atrás, e me atendo ao método da ciência, e examinando todo fenômeno apresentado diante de mim como um trato de Deus com a minha alma, eu preciso perguntar: após os próprios Livros Sagrados, e a beleza e perfeição contidos ali, e a habilidade de qualquer aspirante que verdadeiramente realiza o Trabalho de fazer contato ele mesmo com Ela e com os Anjos e a beleza de nosso direito de nascença — importa alguma coisa as fraquezas que Crowley teve? Importa se ele caiu após 1916?

Não, não importa — isso é meramente um aviso para os estudantes, para os aspirantes, para aqueles que buscam seguir os passos dele e das organizações que derivam sua autoridade de Crowley o homem ao invés daquilo ao qual ele ostensivamente servia.

Lembre-se de Ícaro. Lembre-se de Íxion.

Ela é Amor, Nosso sistema é amor, e o desejo que está além. E é a serviço Dela.

E por fim, o sistema de Nalvage: nós trazemos o Apocalise, e ele é Dela.

AVE BABALON.

A Serviço Dela,
Obsidian


Traduzido por Alan M. W. Quinot