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A Ciência do Ocultismo

Somente uma ciência é disparate. O ocultismo. Por quê? Nunca é estudado adequadamente. Quem sãos seus estudantes? Excêntricos, degenerados, solteirões! Quais são seus métodos? Fofoca. Palestras dadas por asnos a jumentos.

Os termos dessa ciência são definidos? Pergunte a um teosofista, que coloca o karma sob seu travesseiro à noite, qual é o significado dessa palavra. Nove vezes ele não terá ideia; na décima terá uma ideia falsa. Não há fatos no Ocultismo, não há axiomas, não há definições. Qualquer pessoa pode dizer-se um professor – nenhuma qualificação é necessária. A educação de um erudito é um obstáculo; a de um cavalheiro uma desqualificação.

Será que o mundo tem razão ao tratar desse assunto com desdém, e ao considerar seus professores como pessoas desprezíveis? Sim, ele tem razão.

Há uma organização, e somente uma, à qual estas observações não se aplicam. Ela é conhecida como A∴A∴. Ela prescreve estudo para todos os candidatos; estudo rígido, definido. O mesmo tipo de estudo que é solicitado daqueles que seriam médicos, advogados, engenheiros, soldados ou até mesmo taxistas.

Os clássicos do assunto devem ser dominados, não porque eles sejam autoritários, mas para que o estudante possa saber o que tem sido dito sobre o assunto pelos melhores pensadores de todas as eras. Depois de pelo menos três meses, um exame é feito. Aqui está o questionário de 1913[1]:

  1. Escreva as principais correspondências dos signos de Leão e Aquário, do planeta Júpiter e da Sephira Tiphareth.
  2. Faça um estudo de todos os múltiplos do número 17 menores do que 1000, e se esforce para traçar uma conexão entre eles.
  3. Faça um estudo dos vários métodos recomendados pela A∴A∴, e se esforce para classificá-los sob o mínimo possível de categorias que puder.
  4. Faça uma interpretação de Tannhauser, “Adonis” e Sir Palamedes the Saracen em termos de Cabala.
  5. Escreva um ensaio sobre os significados místicos da Vesica Piscis, do Triângulo Retângulo e da Hipérbole.
  6. Compare os métodos místicos de Molinos e Lao-tsé.
  7. Dê um relato das partes do Corpo e da Alma de acordo com a ideia hindu.
  8. Compare as baquetas descritas por Eliphas Levi, Abramelin, pelo Autor da “Goetia”, e Frater Perdurabo, afirmando qual você prefere e por quê.
  9. Projete um Pantáculo que sintetize o número 666.
  10. Escreva um Ritual completo, com talismãs, plano do templo, etc., para produzir uma tempestade.
  11. Discuta a diferença entre o hinduísmo e o budismo no que diz respeito ao Atman, afirmando para qual doutrina você está inclinado e por quê.
  12. Escolha por entregar (a) um comentário completo e cuidadoso sobre quaisquer cinco capítulos (consecutivos) do “Livro das Mentiras” ou (b) Um comentário e crítica sobre “The Psychology of Hashish”, “The Training of the Mind” ou “O Soldado e o Corcunda”.

Observação.  O Estudante pode consultar suas obras de referência ao responder este exame. Ele deve lembrar-se de que uma resposta completa e satisfatória o intitularia, no que diz respeito ao nível intelectual, ao Grau de Adeptus Exemptus, então ele não deve imaginar que se espera demais dele.

Este questionário não deve ser respondido ao acaso, ou por aqueles que só gostam de falar sobre ocultismo. Somente estudantes sérios podem esperar passar. O conjunto de respostas para este questionário cobria 60 páginas bem ocupadas de papel ofício.

Ele prossegue para a próxima fase. O estudante, tendo passado, torna-se um Probacionista. Durante um ano inteiro ele se ocupa com os experimentos que ele julgar convenientes – ele é deixado ao seu próprio julgamento – e ele deve manter um registro de cada dia de trabalho. No final do ano, esse registro é estudado pelos examinadores, e é criticado em detalhes. Somente um trabalho duro, contínuo e inteligente, permite que o Probacionista passe a Neófito.

Ele prossegue para a próxima fase. O Neófito deve trabalhar pelo menos oito meses na aquisição do conhecimento e controle daquilo que é chamado de seu “Corpo de Luz” e de “Plano Astral”. Estes termos não são vagos. Ele novamente é examinado. Símbolos lhe são dados de tal natureza que nenhum processo racional possa decifrá-los, e ele deve explicar o significado deles claramente e em detalhes antes que possa passar para Zelator, o próximo grau[2]. Existem vários outros poderes a serem adquiridos, mas este exemplo será o suficiente. Eis aqui um dos documentos de exame preparados em 1913[3].

  1. Atravesse uma porta sobre a qual está gravada esta figura, e explique a figura detalhadamente por meio de suas visões.

Símbolo para a viagem

  1. Invoque Mercúrio e Hod, e viaje até que você encontre o Unicórnio mencionado em Liber LXV, Cap. III, verso Reporte sua conversação completamente.
  2. Descubra por meio de visões a natureza dos princípios alquímicos: Enxofre, Mercúrio e Sal. Como eles diferem dos 3 Gunas, e dos elementos Fogo, Água e Ar?
  3. Descreva o signo de Aquário nos 4 Mundos, Assiah, Yetzirah, Briah e Atziluth.
  4. Visite e descreva completamente a Qliphoth de Áries.
  5. Visite Iophiel e Hismael, e reporte sua aparência, modo de vida e conversação.

Portanto, o Zelator da A∴A∴ é alguém que já passou por algumas provas e ordálios definidos, e adquiriu certos poderes. Um charlatão não pode se passar por um membro deste grau. Além disso, não é possível ser vago. Trabalho desleixado não funcionará. Generalidades não funcionarão. As dificuldades do trabalho não devem ser contornadas; todas as trivialidades cômodas, todas as fantasias, são barradas. É necessário prosseguir com essa linha de pensamento. Do começo ao Fim, o princípio é o mesmo. Os mestres sabem, e eles insistem em que o aluno também saiba.

Este texto foi escrito para desanimar o aspirante? Quem assim se desanima não é digno deste conhecimento. Não é maravilhoso que a mais difícil de todas as disciplinas, a ciência que acima de todas as outras tem ocupado a mente dos maiores pensadores desde os primórdios da história até hoje, a pirâmide na qual o maior dos construtores mal se atreve a afirmar que colocou uma única pedra, deva exigir mais trabalho, e trabalho mais duro, do que qualquer outra? A mais sutil das ciências, não é a que mais requer precisão? A mais perigosa não é a que mais deve ser cercada com toda armadura de cautela, juízo calmo, e bom senso?

Alguém espera aprender trigonometria a partir de um manual comum em uma única hora? Alguém descarta um tratado sobre seções cônicas dizendo que é “obscuro” ou baboseira? Qual é o custo de vida de cada avanço no conhecimento? Quantos homens morreram para que outros pudessem voar? Quantas vidas foram perdidas na mera construção da ponte Forth Bridge? Você acha que vai ter sucesso onde Platão parcialmente fracassou, que vai correr onde Aristóteles teve medo de pisar? Pode ser que sim. Mas não sem dar tudo o que tem e tudo que é.

Isso te desencoraja? Então esse texto não foi escrito em vão.

Isso te encoraja? Então você passou pelo primeiro ordálio. Você foi escolhido.

Ao trabalho!


[1] «O exame não estava incluso no texto original, havia apenas uma anotação “(Inserir o documento do exame aqui)”. O exame incluso nesta tradução foi obtido dos arquivos de Frater Orpheus.»

[2] «Neste ponto do documento original, havia uma nota “(Aqui vai o desenho de um símbolo obscuro)”, mas este símbolo não foi incluso por Crowley.»

[3] «Novamente, o texto original não dá o exame. Incluímos aqui o exame dado a Charles Stansfeld Jones, impresso em A Master of the Temple, no The Equinox Vol. III No. 1, 1919.»


Traduzido por Alan M. W. Quinot em setembro de 2010. Revisado em outubro de 2019.