João São João - O Diário Mágico do Retiro de G. H. Frater, O.·. M.·.

Prefácio

Faz o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Ninguém sabe melhor que eu que este relato de meu Retiro labora sob as mais sérias desvantagens.

O local deveria ser um inacessível lamaceiro no Tibet, construído sobre estupendos píncaros; e minha familiaridade com a Ásia Central me permitiria pintar um tal cenário com grande realismo.

Eu deveria ter um Silfo como familiar; e meu Guru, um homem de miraculosa idade e ferocidade incrível, deveria aparecer freqüentemente em momentos de tensão dramática.

Um bruxo gigantesco montado num corcel cor de carvão teria dado mais força à cena; estranhas vozes, gritando coisas formidáveis, deveriam rolar de cavernas sem fundo. Uma montanha na forma de uma Suástica, com um Pilar de Fogo, seria uma coisa tentadora; manadas de yaks impossíveis, cães-fantasmas, grifos...

Mas, meus amigos, não é assim que se passam as coisas. Paris é tão maravilhosa quanto Lhassa, e existem tantos milagres em Londres quanto em Luang Prabang.

Eu não achei sequer necessário ir aos Bois de Boulogne procurar esses Três Adeptos que fazem o nariz da gente sangrar, os quais nos são conhecidos dos escritos de MacGregor Mathers.

O Universo da Magick está na mente de um homem; o cenário é apenas Ilusão, mesmo para o pensador.

A humanidade progride; antigamente, os homens viviam em regra no mundo exterior; nada menos que gigantes e sarracenos, homens de armas e donzelas em perigo, vampiros e súcubos, podiam distraí-los. Seus Magistas evocavam Demônios da fumaça de sangue, e faziam ouro de metais mais grosseiros.

Nisto eles tiveram sucesso: pessoas perspicazes notaram que o ouro e o chumbo são apenas nuances do pensamento. Tornou-se provável que os elementos sejam todos isômeros de um elemento; a matéria concebida como nada mais que uma modificação da mente; ou, pelo menos, as duas coisas, matéria e pensamento, devem ser conjugadas antes que qualquer das duas se torne inteligível. De um lado, todo conhecimento nos vem através dos sentidos; por outro lado, é só através dos sentidos que nos vem o conhecimento.

Portanto, nós prosseguimos com nossa conquista da matéria; e estamos nos tornando peritos. Levou mais tempo para aperfeiçoar o telescópio que o automóvel. E se bem que, naturalmente, existem limitações, nós sabemos o suficiente para podermos predizê-las. Nós sabemos em que progressão o coeficiente de velocidade possível a um barco a vapor aumenta – e assim por diante.

Mas em nossa conquista da Natureza, que estamos efetuando principalmente através da inteligência racional, nós estamos nos tornado cônscios do mundo da mente; tanto assim que homens educados passam nove décimos de seu estado de vigília naquele mundo, e descem dele apenas para comer, vestiram-se, etc., quando imperativamente chamados pela sua constituição física.

Ora, para nós que assim vivemos, o mundo da mente nos parece quase tão selvagem e inexplorado quanto o mundo físico parecia aos gregos antigos.

Existem incontáveis regiões de maravilha ainda não trilhadas e incompreendidas – até mesmo, sem dúvida, inimagináveis.

Portanto, nós encetamos vigorosamente a exploração e cartografia dessas regiões não trilhadas da mente.

Certamente as nossas aventuras podem ser tão excitantes quanto aquelas de Cortez ou Cook!

É por este motivo que eu chamo confiantemente a atenção da humanidade para este relato da minha jornada.

Mas um certo tipo de pessoas terá ainda um outro desapontamento. Dificilmente posso eu ser considerado uma figura heróica. Eu não sou o Bom-Mancebo-Que-Morreu. Eu não permaneço em santa meditação, balançando sobre as minhas pestanas, durante quarenta anos, restaurando as minhas energias físicas com um único grão de arroz a intervalos de vários meses.

Vós percebereis nestas páginas um ser humano, com todas as suas imperfeições pensando sobre ele, tentando às cegas, porém com todas as suas forças, controlar os pensamentos de sua mente, de forma que possa dizer “Eu pensarei este pensamento, e não aquele” a qualquer momento, com tanta facilidade quanto todos nós (Tendo conquistado o mundo exterior.) podemos dizer “Eu vou beber deste vinho, e não daquele”.

Pois, como estamos aprendendo, nossa felicidade absolutamente não depende de nossas posses ou poder materiais. Todos nós preferiríamos estar mortos a sermos um milionário que vive no terror diário do assassinato ou da chantagem.

Nossa felicidade depende do nosso estado mental. É a mestria de tais coisas que os Magistas contemporâneos estão buscando obter para a humanidade; eles não voltarão atrás, nem serão desviados.

Foi com o objetivo de dar as rédeas às mãos de outros que eu escrevi este relatório, não sem dores.

Outros, lendo-o, verão de que maneira se começa a trabalhar; eles emularão e aperfeiçoarão o método; eles chegarão ao Mestrado; eles prepararão a Tintura Vermelha e o Elixir da Vida – porque eles descobrirão o que é a Vida.

Prólogo

Pareceu-me apropriado fazer um relatório cuidadoso, e até elaborado, deste Grande Retiro Mágicko, porque pela primeira vez eu tenho a certeza de que obterei algum Resultado. Antes eu nunca pude ter tal certeza.

Prévios relatórios meus por esta razão pareceram vagos e obscuros até mesmo ao mais instruído dos escribas; e eu receio que ainda aqui todo o meu talento de expressão e prévia experiência me serão de pouco auxílio, de forma que a parte mais importante do relatório ficará em branco.

Eu não sei dizer se isto é parte do meu Kamma pessoal, ou a influência do Equinócio de Outono (L.N.); mas tem sido em geral nesta época do ano que ocorrem os meus melhores Resultados.

Pode ser que a saúde física que o verão induz em mim (não gosto de umidade e frio) faça florescer aquela espécie particular de Energia – Sammaváyamo – que dá, ao mesmo tempo, o desejo de executar mais definida e exclusivamente a Grande Obra, e a capacidade de sucesso.

Em qualquer caso, é notável que eu nasci em Outubro (1875); sofri o terrível transe místico que me levou ao Caminho em Outubro (1881); solicitei admissão à A. D.em outubro (1898); abri meu templo em Boleskine em Outubro (1899); recebi os mistérios de L.I.L. e obtive o Grau de 6º=5º em Outubro (1900); obtive os primeiros verdadeiros resultados místicos em Outubro (1901); desembarquei no Egito pela primeira vez em outubro (1902); deixei Rose pela primeira vez em Outubro (1904); escrevi o B-i-M em Outubro (1905) – e obtive o Grau de 7º=4º; recebi a Grande Iniciação em Outubro de 1906; e em prosseguimento, recebi LXV, VII, etc. em Outubro de 1907.

Portanto, nos últimos dias de setembro de 1908 eu começo a coligir e dirigir meus pensamentos; gentilmente, sutilmente, persistentemente, voltando-os todos à questão de retiro e comunhão com aquilo que eu convencionei chamar o Sagrado Anjo Guardião, cuja Conversação e Conhecimento eu tenho querido, e em maior ou menor medida tenho usufruído, há Dez Anos.

Terríveis têm sido os ordálios do Caminho; tenho perdido tudo que possuía, e tudo que amava, tal como no Começo eu ofereci Tudo por Nada, sem saber naquela época o significado destas palavras. Eu tenho sofrido muitas e dolorosas coisas às mãos dos elementos, e dos planetas; fome, sede, fadiga, doença, ansiedade, perda, todas estas dores e outras tem pesado sobre mim – e vêde! Quando eu contemplo estes anos passados, eu declaro que tudo tem ido muito bem. Pois tão grande é a Recompensa que eu (indigno) obtive, que os Ordálios parecem apenas incidentes, insignificantes a não ser pelo fato que eles são as Alavancas por intermédio das quais eu movi o Mundo. Mesmo essas pavorosas fases de “secura” e desespero parecem apenas o necessário período de gestação da Terra após lançada a sementeira.

Todos esses “falsos caminhos” de Magick, de Meditação e da Razão não eram falsos nem caminhos: eram degraus sobre o verdadeiro Caminho, da mesma maneira que uma árvore necessita mergulhar suas raízes sob a Terra a fim de poder florir, e em sua estação dar fruto.

De maneira que agora eu sei que mesmo em meus meses de absorção em prazeres e afazeres mundanos eu não estou realmente ali, mas estou de pé nos bastidores, preparando o Evento.

Imaginai-me, portanto, se quiserdes, em Paris no último dia de setembro. Como me surpreendi eu – se bem que, estivesse apenas ponderado, eu me teria lembrado de que devia ser assim – de encontrar à mão todo o aparato mágicko necessário ao Retiro! Meses antes, por motivos bem diversos, eu transferi a maior parte das minhas posses móveis para Paris; agora venho a Paris, sem pensar em Retiros (pois agora sei o suficiente para deixar que meu destino faça com que as coisas aconteçam sem ansiosa previsão de minha parte), e súbito aqui me encontro – e nada falta.

Eu me determinei, pois, a começar quieto e paulatinamente, permitindo que a Vontade Mágicka se manifeste aos poucos, diariamente tornando-se mais forte, em contraste com meu antigo método, o desespero inflamando um depósito de combustível que secara por longa negligência, ânsia de resultado acendendo uma onda de energia que crepitava com violência durante algumas horas e depois se apagava – e nada feito. “Não arremessando, de acordo com o oráculo, um pé transcendente na direção da Piedade”.

Bem lentamente, e com simplicidade, eu me lavei e me vesti tal como determina a Goécia, envergando o Robe Violeta do Adeptus Exemptus (sendo uma Vestimenta única), exibindo o Anel de um Adeptus Exemptus, e aquele Anel Secreto que me foi confiado pelos Mestres.

Também, eu tomei a Baqueta de Amendoeira de Abramelin e o Secreto Sino Tibetano, feito de Electrum Magicum, com seu Martelo de Osso Humano. Tomei também a Adaga Mágicka, e o Santo Óleo de Unção de Abramelin, O Mago.

Eu comecei então bem casualmente, executando o Ritual Menor do Pentagrama, e verificando para minha grande alegria e alguma surpresa que os Pentagramas se formularam instantaneamente, visíveis ao olho físico como barras de negrura brilhante, mais profunda que a penumbra do meu quarto.

Então eu me consagrei para a Operação, cortando a Tonsura sobre minha cabeça, um círculo, como que para admitir a luz do infinito: e abrindo a cruz de sangue no meu peito, assim simbolizando o equilíbrio e morte do corpo, ao mesmo tempo que vertendo o sangue, a primeira projeção na matéria do Fluído Universal.

Tudo isso junto formulando o Ankh – a Chave da Vida!

Eu dei além disto os sinais dos graus 0º=0º a 7º=4º.

Então, tomei sobre mim o Grande Juramento, tal como segue.

  1. Eu, O.·.M.·., etc., um mente do Corpo de Deus, aqui me comprometo em favor do Universo inteiro, mesmo como estamos agora fisicamente comprometidos a cruz de sofrimento:
  2. a levar uma vida pura, como servo devotado da Ordem;
  3. a compreender todas as coisas;
  4. a amar todas as coisas;
  5. a executar todas as coisas e suportar todas coisas;
  6. a continuar no Conhecimento e Conversação do meu Sagrado Anjo Guardião;
  7. a trabalhar sem ânsia de resultado;
  8. a trabalhar em verdade;
  9. a confiar apenas em mim mesmo;
  10. a interpretar todo fenômeno como um trato particular entre Deus e minha alma.

E se eu falhar nisto, possa a minha pirâmide ser profanada, e o Olho se fechar sobre mim!

Tudo isto eu jurei e selei com um toque sobre o Sino.

Então eu me sentei em minha Ásana (ou Postura Sagrada) devagar, meu calcanhar esquerdo sob meu corpo comprimindo o anus, minha sola direita cobrindo firmemente o Phallus, minha perna direita estando na vertical; minha cabeça, pescoço e espinha em uma linha reta vertical; meus braços estendidos apoiados sobre os joelhos Respectivos; meus polegares de cada mão unidos ao dedo mínimo. Todos os meus músculos estavam contraídos; meu alento firme, lento e igual através de ambas as narinas; meus olhos voltados para trás, para dentro, para cima, em direção ao Terceiro Olho; minha língua rolada para trás em minha boca; meus pensamentos, radiando daquele Terceiro Olho, eu procurei restringir em uma esfera cada vez menor, concentrando minha vontade sobre o Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião.

Então eu bati Doze vezes sobre o sino; com o novo mês a Operação estava devidamente principiada.

O Primeiro Dia

Out. 1.

Às Oito horas eu despertei, ergui-me e, colocando meu Robe, comecei a meditar um pouco. Por diversos motivos – a jornada e negócios do dia anterior, etc. etc., eu não me sentia descansado. Mas forçando-me um pouco, eu me vesti e saí e fui ao Café du Dôme, onde tomei café e comi um brioche, depois comprei um caderno para nele escrever este relatório.

Isto foi por volta de 8:45 a.m.; e agora (10:10 a.m.) eu escrevi até aqui. (Incluindo o Prólogo, mas não o Prefácio. – Ed.)

10:45 a.m. Eu fui de carro ao Hammam através do lindo sol que faz hoje, meditando sobre a disciplina de Operação.

Parece apenas necessário cortar coisas claramente dispersivas, tais como tagarelice e outra; pois a Operação mesma me guiará, levando ao desprazer em demasiada gulodice, e assim por diante. Se pesa sobre meus membros qualquer cadeia que necessitará um definido esforço para ser quebrada, talvez essa cadeia seja o sono. Mas veremos – solvitur ambulando. Se qualquer ascetismo for desejável mais tarde, a verdadeira vigilância depressa perceberá qualquer perigo, e conceberá um meio de enfrentá-lo e conquistá-lo.

12hs p.m. Terminou o banho e a massagem, durante os quais eu continuei, lenta mas firmemente, “não com uma tensão laborada e dolorosa, mas por uma estabilidade quieta”, a querer a Presença de Adonai.

12:05 p.m. Eu já pedi uma dúzia de ostras e um bife, e agora desejaria antes uma maçã mastigada e engolida lentamente, como fazem no Hattha Yoga.

O desprazer em comer já começou.

12:12 p.m. Impressões já começam a serem desconexas. Eu estava entrando em Ásana e pensando, “Vou registrar este fato”, quando vi um jóquei sendo pesado.

Eu pensei em registrar meu próprio peso, o que não havia feito.

Bem!

12:13-12:24 p.m. Pranayama. (10 segundos para inspirar, 20 segundos para expirar, 30 segundos para reter o alento.) Relativamente bom; fez-me suar novamente por completo. Parei não por cansaço, mas para almoçar.

Alguns memorandos escritos durante o almoço.

Insista em que os alunos escrevam tudo que se passa durante o dia deles; o recreio da mesma forma que o trabalho. “Desta forma eles ficarão envergonhados, e não tagarelarão de “bestas”.

Eu estou agora bem imerso na corrente de ascetismo, inventando as mais diversas provações, e aprazendo-me na idéia delas.

12:55 p.m. Tendo terminado o excelente almoço, tomarei café e fumarei um pouco, e depois tentarei uma soneca. Assim quebrando o sono em dois turnos.

1:18 p.m. Um bom sono. Acordei refrescado.

3:15 p.m. Estou chegando em casa, tendo tratado de um negócio e voltado de carro. Vou sentar-me e praticar Ásana, etc.

1:20 p.m. Comecei.

3:28 p.m. Sete ciclos de Pranayama bastaram. Sem dúvida o lauto almoço é um impedimento.

Continuo meditando somente.

3:36 p.m. Ásana causa muita dor, e eu não posso mais concentrar-me de maneira alguma. Vou descansar cinco minutos e depois recomeçar.

3:41 p.m. Comecei novamente. Eu usarei “Hua allahu alazi lailaha illa hua” como mantra (qualquer sentença sagrada, cuja constante repetição produz muitos estranhos efeitos na mente – Ed.), se tiver necessidade de um; ou, que Adonai Se digne revelar-me um mantra especial para invocá-Lo!

1:51 p.m. Interrompi novamente, com mantra e tudo.

3:52 p.m. Continuei meditando na postura de “Enforcado” (Pernas em cruz, braços sob a nuca, como a figura do Homem Enforcado nas cartas do Tarott. – Ed.) para formular o sacrifício e dor auto-inflingida; pois eu me sinto um tal verme, capaz de permanecer apenas uns poucos minutos em uma posição “conquistada” há tanto tempo.

Por este motivo, também, eu cortei mais uma vez a Cruz de Sangue; e agora vou fazê-lo uma terceira vez. E eu tomarei a Adaga Mágicka e a afiarei ainda mais, de forma que este corpo possa temer-me; porque eu sou Hórus, o Terrível, o Vingador, o Senhor do Portal do Oeste.

4:15-4:30 p.m. Leio o Ritual DCLXXI (a natureza deste Ritual é explicada mais tarde – Ed.)

5: 10 p.m. Voltei das minhas compras. Estranho quão solene e dignificado se torna um ato tão trivial, uma vez que começamos a nos concentrar!

Eu comprei duas pêras, duzentos e cinqüenta gramas de biscoitos Garibaldi, e um pacote de Gaufrettes. Tomei um citron pressé, também, no Dôme.

Arriscando violar os preceitos 170 e 144 de Zoroastro, eu me proponho fazer uma adivinhação pelo Tarott quanto a esta Operação.

5:10 p.m. Eu devo explicar antes de mais nada que escrevo este relatório para outros olhos que os meus; pois agora estou suficientemente seguro de mim mesmo para saber que conseguirei alguma coisa. Mas eu não posso predizer exatamente que forma terá a consecução. Da mesma maneira, se nós visitarmos um amigo, ele pode estar passeando a pé, ou andando a cavalo, ou dormindo.

Assim, pois, Adonai está escondido em mim. Eu sei onde Ele vive; eu sei que serei bem vindo se faço uma visita; mas não sei se Ele me convidará para um banquete ou me pedirá que vá com Ele numa longa jornada.

Pode ser que a Rota me dê algum indício. (Nós omitimos os detalhes desta adivinhação – Ed.)

Eu nunca fico satisfeito com tais adivinhações; de bastante confiança em coisas materiais, nas coisas do Espírito nós raramente obtemos bons resultados.

A primeira operação foi bastante sem sentido; mas deve-se admitir que a) era uma nova forma de usar essas cartas para o princípio de uma operação; b) eu tinha feito dois começos falsos.

A operação final é certamente muito favorável; veremos se as coisas se passarão assim. Eu dificilmente posso crer que isto seja possível.

6:10 p.m. Irei agora dar um passeio a pé, tomar um pouco de leite, e preparar-me para a noite.

10:50 p.m. Sinto ter que anunciar que, ao cruzar eu a rua para o Domê com aquela louvável intenção, Nina apareceu com o ruivo pacote de reinações, Maryt Waska.

Isto sendo de certa forma “bandobast” (e assim inviolável), eu levei Maryt para jantar, comendo uma omelete, algum pão, Camembert, e um pouco de leite.

Depois, uma xícara de café, e então duas horas do Vajroli Mudra mal executado.

Eu também executei uma santíssima prática, semelhante ao enxerto de uma árvore.

Tudo isto eu fiz com relutância, como um ato de auto-abnegação ou ascetismo, para evitar que o meu desejo de concentrar-me no caminho místico me arrebatasse.

Portanto eu creio que isto pode, com justiça, ser contado a meu favor como bom procedimento.

Agora eu tomo uma última xícara de café e retirar-me-ei para realizar, espero, um tipo mais simples e direto de meditação.

Assim seja.

Nua, Maryt parece-se com a Antíope de Corregio. Seus olhos são um cinza estranho, e seu cabelo lindíssimo ouro avermelhado – um cor que jamais vi antes e não posso descrever bem. Ela tem sangue judeu, creio; e seu método de ilustrar o axioma “Post coitum animal triste” fez-me pensar no poema de Baudelaire “Une nuit que jètais près dùne affreuse Juive”: e a última linha Obscurcir la splendeur des tes froides prunelles; e o “Rideau Cramoisi” de Barbey d’Aurevilly sugeriram-me o seguinte poema. (Omitimos este poema –Ed.)

11:30 p.m. Feito! O rascunho, isto é! Agora eu voltarei para o meu quarto e Trabalharei!

11:47 p.m Em casa – despi-me – coloquei meu Robe – fiz minhas abluções – cortei cruz de sangue uma vez mais para afirmar controle sobre o Corpo – sentei-me às 11:49 p.m. e terminei o dia com 10 Pranayamas que me fizeram transpirar livremente, mas não foram completamente fáceis ou satisfatórios.

O Segundo Dia

O bater da Meia-Noite encontrou-me devidamente em minha Ásana, praticando Pranayama.

Que eu persevere neste trabalho; pois está escrito que para com o perseverante mortal os Abençoados Imortais são rápidos...

O que deverá então acontecer no caso de um Imortal Perseverante como Eu?

12:07 a.m. Tentando meditação e mantra.

12:18 a.m. Impossível concentrar os pensamentos; e minha Ásana, a despeito de várias covardes tentativas de “alívio”, é pavorosamente doloroso.

12:20 a.m. Na postura do Enforcado, meditando e querendo a Presença de Adonai pelo Ritual do Inascido e fórmulas mentais.

12:28 a.m. Eu estou incrivelmente sonolento! A Invocação é tão má quanto possível – a atenção divaga em todas as direções. Alucinações irracionais, tal como uma visão ou de Éliphas Lévi ou de meu pai (eu não tenho certeza qual dos dois!), no momento mais solene!

Mas o caráter irracional de tais visões não é mau. Elas vêm não se sabe de onde; é muito pior quando o nosso próprio cérebro controlado toma as rédeas nos dentes e dispara.

12:33 a.m. Portanto, eu me comporei para dormir; não está escrito que Ele dá ao Seu amado mesmo no sono? “Outros, mesmo no sono, Ele frutifica com Sua própria força”.

7:29 a.m. Despertei-me e forcei-me a me levantar. Tive uma porção de sonhos muito agradáveis, tanto quanto posso lembrar-me; mas o conteúdo deles foi-se de mim; e, na ausência do profeta Daniel, eu deixarei de pensar nisto.

7:44 a.m. Pranayama. 13 ciclos. Muito cansativo; eu comecei a suar. Uma atuação medíocre.

8:00-8:20 a.m. Quebra-jejum. Hattha Yoga – uma pêra e duas gaufrettes.

8:33 a.m. Tenho estado meditando na posição do Enforcado. Os pensamentos embotados e divagantes; porém, uma vez, “a concepção do Fogo Brilhante” visto como um planeta (talvez Marte). Só o bastante para destruir a concentração; então apagou-se, raios o partam!

10:40 a.m. Tratei de minha correspondência e outros assuntos e bebi um citron pressé.

A Voz dos Nadi começa a soar.

10:50 a.m. Executei o “Inascido” em Ásana. Bom; no entanto, eu estou me sentindo desesperado com a impossibilidade da Tarefa. Especialmente eu experimento a atitude budista, não só de que a Ásana é intensamente dolorosa, mas também de que todas as concebíveis posições do corpo são igualmente dolorosas.

11:00 a.m. Ainda sentado; bem cético; persistindo apenas porque sou um homem, e decidi-me a persistir venha o que vier.

11:13 a.m. Fiz dez ciclos de Pranayama. Um pouco melhor, e um prenúncio do Bhuchari Siddhi. Tenho estado vocalizando o mantra; a questão se ergue em minha mente: Será que eu estou misturando demais as minhas bebidas? Não creio; se eu não passasse a outro método místico, teria que recorrer a ler jornais.

11:20 a.m. Isto completa a minha meia-hora de Ásana. As pernas muito doloridas entretanto, novamente eu me pego ansiando por Kandy (não sugar-candy, mas o lugar onde eu fiz as minhas primeiras práticas hindus e consegui os meus primeiros resultados) e uma vida inteiramente devotada à meditação. Mas não para mim! Eu não sou nenhum Pratyeka-Buddha; eu sou um Dhamma-Buddha até às unhas dos pés! (Um Pratyeka-Buddha atinge à Suprema Recompensa para si mesmo; o Dhamma-Buddha renuncia a ela a retorna ao inferno – a terra – para ensinar o Caminho a outros. – Ed.)

Eu agora tirarei uns minutos de “folga” para tecer “considerações”.

Eu creio firmemente que a mínima dose do Elixir operaria como um “detonador”. Eu pareço tão completamente pronto para iluminação, se apenas porque estou tão perfeitamente escuro. No entanto, meu poder de criar imagens mágickas ainda permanece comigo.

11:40 a.m.–12.00 p.m. Posição do Enforcado. Invocarei Adonai uma vez mais por puro pensamento.

Entrei em um estado verdadeiramente curioso; parte de mim estando completamente adormecida, e parte completamente acordada.

2:10 p.m. Dormi, e profundamente, se bem que com muitos sonhos. Acordei com o mais intenso horror e repulsão pelo Caminho dos Sábios – parecia como um vasto dragão-demônio com asas de bronze verde iridescente que se ergueu surpreso e colérico. E eu vi que a mínima coragem é suficiente para levantar-se e afastar o sono, como um soldadinho em completa armadura de prata avançando com espada e escudo – à vista do qual o dragão, não ousando enfrentar o choque, foge em derrocada e desaparece.

2:15 p.m. Almoço, 3 Garibaldis e 3 Gaufrettes. Escrevi duas cartas.

2:50 p.m. Vou dar um passeio com mantra.

8:03 p.m. Esta caminhada foi de certa forma um sucesso. Eu consegui os bons resultados de Mantra-Yoga, isto é, o cérebro tomando o mantra e continuando-o por si próprio; também, o desgosto por todas as coisas com exceção de Adonai tornou-se mais e mais forte.

Mas quando eu retornei de uma visita a Barne numa iniciativa de camaradagem – uma hora e meia de conversação a subtrair desta Mantra-Yoga – eu encontrei uma porção de pessoas no Dôme, onde tomei um citron-pressé; eles me detiveram em palestra, e às 6:30 p.m. Maryt apareceu e eu tive que mastigar um sanduíche e tomar o café enquanto ela jantava.

Eu sinto um pouco de dor de cabeça; passará.

Ela está aqui agora comigo, mas eu tentarei meditar. Encantadora como ela é, não quero ir para a cama com ela.

8:40 p.m. Mistura de mantra e carícias um certo sucesso. (A seu pedido, dei a Maryt uma dose mínima de X.)

9:15 p.m Ásana e meditação com mantra desde 8:40 p.m. A escuridão parece estar sendo rompida. Por um momento eu tive uma vaga impressão de minha espinha dorsal (ou antes, do Sushumna) como uma galáxia de estrelas, assim sugerindo que as estrelas são os gânglios do Universo.

9:18 p.m. Vou continuar.

10:18 p.m. Não muito satisfatório. Ásana tornou-se dolorosa; como um verme, eu desisti, e comecei a bancar o tolo; deixei-me divertir pelo Novo Monstro, mas não executei o Vajroli Mudra. (Para isto veja o Shiva Sanhita, e outros Tantras Sagrados do Sânscrito – Ed.)

10:24-10:39 p.m. P.Y., 14 ciclos. Algum esforço necessário; a transpiração parece ter parado e o Buchari mal começou.

Minha cabeça dói bastante.

Eu devo acrescentar um ou dois comentos. Em meu passeio a pé eu descobri que meu mantra Hua Allahu, etc. pertence em realidade ao Visuddhi Cakkram; de forma que eu permiti ao pensamento que se encontrasse ali.

Também, desde que muitas outras pessoas isto, deve ser mencionado que desde o princípio deste Trabalho de Arte Mágicka o aspecto transformado do mundo, cuja culminação é o cumprimento do juramento “Eu interpretei todo fenômeno como um trato particular de Deus com a minha alma”, tem estado presente comigo. O significado mundano das coisas está perdido, e espera-se a percepção do Significado Espiritual delas; tal como, quando pomos o olho ao microscópio, a gota d’água na lâmina desaparece, e um mundo de vida é descoberto; se bem que a importância real daquele mundo não é apreendida até que o nosso conhecimento se torna muito maior do que uma única olhada pode fazê-lo.

10:55 p.m. Tendo escrito o que está acima, eu descansarei por alguns momentos para tentar livrar-me da minha dor de cabeça.

Uma boa analogia (por sinal) do Yogui é dizer que ele vigia seu pensamento como um gato vigia um camundongo. A pata pronta para bater no momento em que o Sr. Camundongo se mexe.

Eu mastiguei um Gaufrette bebi um pouco de água, caso a dor de cabeça seja causada por fome. (P.S. – Assim era; a comida curou-a imediatamente.)

11:02 p.m. Eu agora me deito como o Sacrificado e digo o mantra em Visuddhi.

11:10 p.m. Eu devo realmente anotar a curiosa confusão em minha mente entre o Visuddhi Cakkram e aquela parte do Boulevard Edgar Quinet que dá para o cemitério. Parece uma identidade.

Tentando contemplar o Cakkram, eu vi aquilo.

Pergunta: Qual a conexão, que pareceu ser absoluta e essencial? Eu tinha particularmente me impressionado com aquele portão faz alguns dias, com seu grupo de enlutados. Poderá talvez ser que a cena foi registrada em uma célula cerebral adjacente àquela que registra a idéia do Visuddhi? Ou será que naquele momento eu pensei subconscientemente em minha garganta por qualquer outra razão? Bolas! Estas coisas são todas demônios com cara de cão! Ao trabalho!

11:17 p.m. Trabalho: Meditação e Mantra.

11:35 p.m. Debalde. Comecei um devaneio sobre um castelo e homens de armas. Isto tinha todas as qualidades de um legítimo sonho, e no entanto eu não estava, em qualquer outro senso da palavra, adormecido. Eu cedo estarei, porém. Parece tolice persistir. E realmente, se bem que eu tentei continuar o mantra com sua elevada aspiração de conhecer Adonai, eu devo ter caído no sono quase imediatamente.

O Terceiro Dia

6:55 a.m. Agora, o dia tendo amanhecido gloriosamente, eu acordei com alguma fadiga, não me sentindo limpo e feliz, não ardendo de amor por meu Senhor Adonai, e realmente envergonhado porque três ou quatro vezes esta noite eu fui acordado por este leal corpo, urgindo-me a levantar-me e a meditar – e minha fraca vontade disse-lhe que se acalmasse e descansasse – ó homem desgraçado! Escravo da hora e dos vermes!

7:00-7:16 a.m. Quinze ciclos de Pranayama endireitaram-me mental e fisicamente; fora isto, tiveram pouco sucesso aparentemente.

7:30 a.m. Tomei café – uma pêra e dois Garibaldis (estes, por sinal, era de pequeno tamanho, metade dos quadrados grandes).

7:50 a.m. Fumei um cachimbo para mostrar que não estou com pressa.

8:05 a.m. O Enforcado com mantra em Visuddhi. Pensei que havia durado muito mais. Em certo ponto o Espírito começou a mover-se – como demônio posso me expressar melhor? O consciente parecia fluir, em vez de tamborilar. Está isto mais claro?

Deve-se notar aqui que existe talvez uma diferença essencial na operação dos mantras hindus e muçulmanos. Os mantras hindus ressoam; os muçulmanos ondulam. Eu nunca havia experimentado seriamente com os mantras muçulmanos até agora.

8:10-8:32 a.m. Meme jeu – absolutamente imprestável. Creio que vou me levantar e ir tomar um banho turco.

9:00 a.m. Levantei-me, e li minhas cartas. O mantra continuando o tempo todo, de uma maneira mais ou menos consciente.

9:25 a.m. Escrevi minhas cartas e saí.

10:38 a.m. Cheguei ao Café de La Paix, caminhando lentamente com meu mantra. Eu estou começando a esquecê-lo ocasionalmente, pronunciando mal algumas palavras. Um bom sinal! De vez em quando, experimentei mandá-lo em vai e vem ao longo da minha espinha, com bom efeito.

10:40 a.m. Eu beberei uma xícara de café e depois irei para o Hammam. Isto talvez me descanse e relaxe os membros, e me dê uma oportunidade para um real esforço de concentração.

Não se pode repetir demasiado que quase todo o trabalho até agora tem sido preliminar; a intenção é fazer com que o Chittam (substância-pensamento) flua calma e equanimente em uma só direção. Também, pratico desgrudar o Chittam das Vrittis (impressões). Olho todas as coisas sem vê-las.

Ó café! Pelo grande Nome de Poder eu aqui te invoco, consagrando-te ao Serviço da Magick de Luz. Que as pulsações do meu coração sejam fortes e regulares e lentas! Que o meu cérebro esteja desperto e alerta e ativo em sua suprema tarefa de autocontrole! Que o meu fito desejado se realize através da Tua Força, Adonai, a Quem seja Glória para todo sempre! Amém sem mentira, e Amém, e Amém de Amém.

11:00 a.m. Eu sigo agora para o Hammam.

12.00 p.m. Acabou o banho. Eu continuei o mantra o tempo todo, o que aliviou muito a tortura da massagem. Mas eu não pude permanecer firme e a vontade em minha Ásana, e nem mesmo na posição do Enforcado, ou em Shavásana, a “posição do cadáver”. Eu creio que o claro é excitante, e me faz inquieto.

Eu continuo na sala de arrefecimento, deitado.

12:10 p.m. Eu pedi doze ostras, e café e pão com manteiga.

Ó ostras! Sêde força para mim, para que eu formule os 12 raios da Coroa de HVA! Eu vos conjuro, e comando potentemente.

Mesmo por Ele que regula a Vida do Trono de Tahuti ao Abismo de Amennti, mesmo por Ptah, o enfaixado, que desembrulha o mortal do imortal, mesmo por Amoun o doador de Vida, e por Khem o poderoso, cujo Falo é como o Pilar em Karnak! Mesmo por mim mesmo e meu poder másculo eu vos comando. Amém.

12:20 p.m. Eu estava ficando com sono quando as ostras chegaram. Eu as como agora de uma maneira cerimonial e Yogui.

12:45 p.m. Eu comi minhas ostras, mastigando cada uma; também um pouco de pão e manteiga da mesma maneira, dando graças a Príapo, o Senhor da ostra, a Deméter, a Senhora do trigo, e a Ísis a Rainha da Vaca. Além disto, eu rogo simbolicamente nesta refeição por Virtude, e Força, e Alegria; como é apropriado a estes símbolos. Mas eu experimento grande dificuldade em continuar com o mantra, mesmo em ritmo com as mandíbulas; talvez porque este método peculiar de comer (25 minutos para o que poderia ser feito normalmente em 3.) exige a atenção inteira.

1:30 p.m. Caí num cochilo. Bem! Tentaremos o que o Irmão Corpo realmente deseja.

1:35 p.m. Minha tentativa de adormecer teve o resultado de tornar-me supernalmente desperto.

Eu estou – como freqüentemente no passado – no estado descrito por Paulo (não o meu massagista; o outro Paulo!) em sua Epístola aos Romanos, cap. VII, V:19.

Eu vou levantar-me e sair.

1:55 p.m. Eu tenho grande vontade de tentar excitação violenta do Muladhara Cakkram; pois o Sushumna inteiro parece morto. Isto ao risco de ser crismado por um Mago Negro – por cléricos, Cristãos Cientistas, e as classes “auto-confiantes” em geral.

2:15 p.m. Cheguei (em parte por taxi) ao Bordel. Certos fenômenos curiosos notados por mim em momentos diversos – por exemplo, terça-feira à noite – mas que não considerei apropriados para anotar, devem ser investigados. Parece completamente seguro que práticas de meditação afetam profundamente as funções sexuais; como e por quê, eu ainda não sei ao certo.

2:45 p.m. Tolice! Tudo completamente normal.

Difícil, porém, manter o mantra em movimento.

3:00 p.m. Estou sentado à beira da grande fonte no Luxembourg. Esta morte absoluta do sistema inteiro continua.

Para explicar: Normalmente, se o pensamento for dirigido energicamente a quase que qualquer parte do corpo, aquela parte começa a pulsar e até a doer. Especialmente tal é o caso se vibramos um mantra ou Nome Mágicko em um centro nervoso. No presente eu não posso fazer isto de modo algum. O Prana parece equilibrado no organismo inteiro; eu estou muito pacífico – a paz de um cadáver.

Isto é muito amolador, de certa forma, porque esta condição é precisamente o oposto de Dharana; no entanto, sei que é um estágio no caminho para Samadhi.

Portanto, eu me erguerei e darei confiantemente o Sinal de Apophis e Tiphon, e depois contemplarei a reflexão do doce Sol de Outubro nas beijoqueiras águas da fonte (P.S. – Eu agora me lembro de que esqueci de erguer-me e dar o Sinal).

3:15 p.m. Em vão contemplo o Sol refletido e quebrado pelo riso da água em incontáveis estrelas de brilho – abundando, revolvendo, arremessando-se, gritando – pois Aquele que minha alma busca não está ali. Nem está Ele na fonte, por mais eterna que esta jorre e caia em fulgor de orvalho; pois eu desejo o Orvalho Superno. Nem está Ele nas quietas profundezas da água; os lábios dela não tocam os d’Ele. Nem – Ó minha alma! – será Ele encontrado em tuas secretas cavernas, escuras, informes e vazias, onde eu peregrino em Sua santa busca – ou em busca de descanso dessa Busca! Ó minha alma! – levanta-te; sê homem, sê forte; endurece-te contra teu amargo Destino; pois ao Fim tu O encontrarás; e vós entrareis juntos no Palácio Secreto do Rei; mesmo no Jardim de Lírios; e sereis Uma para sempre. Assim seja!

No entanto, agora – ah, agora! – eu sou apenas um homem morto. Dentro de mim e fora de mim ainda se agita aquela vida dos sentimentos que não é vida, mas como os vermes que celebram seu festim sobre meu cadáver... Adonai! Meu Senhor Adonai! Em verdade, Tu me abandonaste. Não! Tu mentes, Ó alma fraca! Permanece na meditação; une todos os teus símbolos na forma de um Leão, e sê senhor da tua selva, viajando através do Universo servil mesmo qual Mau, o Leão mui senhoril, o Sol em Sua força que viaja sobre o céu de Nu em Seu barco na hora da metade do Dia.

Pois todos estes pensamentos são vãos; existe apenas Um pensamento, se bem que ainda não tenha nascido: Ele apenas é Deus, e não existe outro Deus senão Ele!

3:30 p.m. Regressando para casa com o mantra; súbito, um espasmo de pranto apoderou-se de mim e eu gritei através do mantra – “Meu Deus, meu Deus, por que Tu me abandonaste?” – e sou obrigado a parar para registrar isto! O que é bom; porque me acalma.

3:45 p.m. No Dôme, senhor de mim mesmo. O Mantra corre exatamente 30 vezes por minuto, 1800 vezes por hora, 43.200 vezes por dia. Dizê-lo um milhão de vezes demoraria mais do que a heroína de Mrs. Glyn demorou para emprenhar (Três semanas – Ed.). Entretanto, eu conseguirei o resultado mesmo que tenha de enunciá-lo cento e onze milhões de vezes. Mas oh! Fertiliza meu ovo akásico ainda hoje!

Esta frase, deve-se notar, é realmente característica do homem John St. John. Eu vejo o quanto é engraçada; mas eu estou muito sério apesar de tudo. Vós cães tediosos!

3:55 p.m. N.B. – Mantras poderiam vantajosamente ser palíndromos.

3:56 p.m. Eu tento construir um quadrado mágicko com o mantra.

Debalde. Mas o mantra vai muito melhor, bem mecânico e “sem apego”. (i.e., sem desejo ulterior consciente. “Arte por amor à Arte”, por assim dizer.)

4:10 p.m. Eu bebo um “citron pressé”.

4:25 p.m. Ai que azar! Aqui chega Maryt (com uma triste história de X. Parece que ela desmaiou e passou algumas horas no hospital. Eu devia ter insistido que ela ficasse comigo; os sintomas começaram imediatamente após ela beber um pouco de café. Eu tenho notado, comigo mesmo, que o ato de comer inicia a ação).

5:30 p.m. Uma hora de cochilo misturado com mantra.

Eu me sinto vivo novamente. Estranho o quanto eu estava calmo e balançado; no entanto, agora eu estou novamente energizado; que seja ao ponto de Entusiasmo!

Os leitores certamente rirão deste grande místico; sua vida parece uma mistura de sono e coito. Realmente, hoje eu estive chocantemente sob poder de Tamas, a esfera escura. Mas isto é claramente o efeito de fadiga, por ter trabalhado tão intensamente.

Ó Senhor, até quando?

5:50 p.m. O Mantra continua marulhando. Eu estou tão longe do Caminho que tenho muita vontade de “cantar” Maryt para que me deixe executar a Missa Negra sobre ela à meia-noite. Eu gostaria muito de fazer Tiphon subit, e de amaldiçoar Osíris, e de queimar seus ossos e seu sangue!

Pelo menos, eu aqui expresso um pio desejo de que o Crocodilo do Oeste coma o Sol de uma vez para sempre; de que Set profane o Santuário, de que a suprema Blasfêmia seja dita por Python no ouvido de Isis.

Eu quero barulho. Eu quero dizer o mantra de Indra até que seu trono fique rubro em brasa e lhe queime as nádegas de lótus; eu quero beliscar o garoto Harpócrates até que ele berre... e eu o farei, também! De algum modo!

6:15 p.m. Estou agora numa espécie de presunçosa complacência, sorrindo-me bobamente como algum sonolento deus chinês. Sem motivo algum, sabe Deus!

Eu não posso decidir-me se esfomear ou lanchar ou entupir de comida a besta St. John. Ele não sente a mínima fome, se bem que não comeu nada que se possa chamar de refeição desde o almoço de terça-feira. O jogo de comer à Hattha-Yoga é certamente maravilhoso.

Eu gostaria de trabalhar marchando e respirando com este mantra como eu fiz antigamente com Aum Tat Sat Aum. Talvez dois passos para um mantra, e 4-8-16 passos para um ciclo respiratório? Isto significaria 28 segundos para um ciclo respiratório; bastante para um homem em marcha. Poderíamos tentar 4-8-8 para começar; ou mesmo 8-8-8 (para simbolizar a Carruagem, pela qual meu Geburah se eleva a Binah – Força conquistado as Asas da Compreensão). (Estes símbolos, alusões e referências serão todos achados em 777, que foi republicado, sob o título 777 Revised, e está à venda em inglês – Ed.)

6:55 p.m. Eu agora conspurcarei o Beyt Allah cerimonialmente com Porco, para expressar em alguma medida o meu completo desgosto e indignação com Allah, que não está dando conta de Seu recado como é próprio. Eu digo em vão “Labbaik!” (Eu estou aqui – Ed.) Ele responde: “Mas Eu não estou aqui, meu velho – fiau para você!” Ele pouco conhece Seu homem, porém, se Ele pensa que pode me insultar com impunidade. André, manda um sanduíche de presunto!

Beyt Allah, a Mesquita em Meca, significa “Casa de Deus” – Ed.)

7:05 p.m. Eu pararei com o mantra enquanto como, de forma a concentrar-me a) na mastigação, b) na conspurcação da Casa de Deus.

Não é assim tão fácil! A danada da frase continua como uma queimada. É importante, pois, parar com o mantra por completo quando se quer; a Obra mesma pode se tornar uma obsessão.

Onze horas sem nenhuma interrupção notável – não está mau.

A parte ruim de hoje parece a Ásana, e a “morte”. Ou, talvez pior, eu não consigo apreender o verdadeiro significado mágicko do meu trabalho: daí a misturada de fórmulas sem fito, conduzindo – naturalmente! – a becos sem saída.

Acaba de me ocorrer – isto talvez seja a fórmula de Isis-Apophis-Osíris, IAO, que eu tenho tão freqüentemente pregado. Certamente os dois primeiros dias foram Isis – eventos naturais, agradáveis, fáceis. Infalivelmente, hoje tem sido Apophis! Veja as maldições disparatadas, a Magick Negra, etc. ... esperamos a seção de Osíris para amanhã ou o dia seguinte. Nascimento, morte, ressurreição! IAO!

7:35 p.m. O sanduíche tendo sido devidamente mastigado, e dois cafés tomados, eu recomeço o Mantra místico. Por que? Porque eu quero, pronto.

7:50 p.m. É uma temeridade dizer tal, e eu queimo incenso aos Deuses Infernais para que o Agouro seja evitado; mas eu pareço ter conquistado definitivamente o verdadeiro Morador do Umbral. Hoje em dia meu mais negro desespero é temperado pela certeza de que atravessarei o estágio e sairei dele mais cedo ou mais tarde, e isto com sucesso e em triunfo.

9:30 p.m. Eu passei os três últimos quartos de hora conversando com o Dr. Rowland, aquele interessantíssimo homem. Eu não quero dizer conversando; quero dizer escutando. Você é um sujeito mau, preguiçoso e imprestável, O.·.M.·.! Por que não continuar com aquele mantra?

10:40 p.m. Tomei dois citrons pressés e fui para o meu quarto executar um poderoso encantamento de Arte mágicka.

11:00 p.m. Tendo me livrado de Maryt (que, aliás, está furiosa), e portanto (esperemos) de Apophis e Tiphon, eu executo o Grande Ritual DCLXXI com bons resultados mágickos; isto é, eu formulei as coisas de maneira fácil e fortemente; em dado momento, consegui mesmo o indício de Glória de Adonai. Mas eu cometi o absurdo erro de prosseguir com o Ritual como se o estivesse ensaiando, em vez de permanecer na Recepção do Candidato e insistir em ser realmente recebido.

Agora (11:50 p.m.) portanto eu me sentarei de novo e invocarei bem forte nas mesmas linhas delineadas acima, enquanto o Perfume e a Visão ainda estão formulados, se bem que insensivelmente, em minha volta. E assim terminará o Terceiro Dia do meu retiro.

O Quarto Dia

12:15 p.m. Portando agora começa o quarto dia deste meu grande retiro mágicko; sangro das feridas da Adaga Mágicka; queimo com o calor do Santo Óleo; estou machucado pelo látego de Osíris que me golpeou tão cruelmente; o perfume ainda enche a câmara de Arte; - e eu?

Ó Adonai meu Senhor, seguramente eu Te invoquei com fervor; mas Tu não vieste por completo ao nosso encontro marcado. E no entanto eu sei que Tu ali estiveste; e talvez que a manhã, traga lembranças de ti, que esta consciência no momento não contém.

Mas eu juro pela Tua própria glória que eu não me satisfarei com isto; que eu prosseguirei até à loucura e à morte se tal for a Tua vontade – mas eu Te conhecerei como Tu és.

É estranho como os meus gritos se acabaram; agora eu percebo, bem involuntariamente, retornando ao velho mantra que usei ontem o dia inteiro.

Porém, eu vou tentar um pouco mais na posição do Enforcado, se bem que o sono está novamente me atacando. Eu estou cansado, no entanto contente, como se alguma grande coisa tivesse realmente acontecido. Mas se eu perdi a consciência – algo de que nenhum experimentador pode ter certeza em tais circunstâncias, devido à natural limitação das coisas – isso deve ter acontecido tão tranqüilamente que eu nunca percebi. Certamente eu não teria pensado que continuara durante vinte e cinco minutos, como continuei.

Mas eu realmente peço um Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião que não tenha depois de ser inferido mais dos bons resultados em minha vida e obra; eu quero o Perfume e a Visão... Por que estou eu tão material, chafurdando em coisas grosseiras? Pouco importa; eu chafurdo.

Eu quero aquela definida experiência, na mesma forma em que Abramelin a teve; e o que é mais, eu tenciono continuar até conseguí-la.

12:34 p.m. Eu começo, portanto na postura do enforcado, a invocar o Anjo, dentro da Pirâmide já devidamente preparada por DCLXXI.

12:57 p.m. Ai! Em vão eu tentei mesmo o supremo ritual de Esperar pelo Amado, se bem que uma vez eu pensei – Ah! Dá ao Teu querido no sono!

Como eu devia estar envergonhado, porém! Por um amor terreno, eu estaria nas pontas dos pés de emoção, tremendo a cada ruído, ansioso, temeroso...

Eu me erguerei, porém, e abrirei (como que num símbolo) a porta e a janela. Ó, que a porta do meu coração estivesse sempre aberta! Pois Ele está sempre ali, e sempre ansioso por entrar.

1:00 p.m. Eu me ergo e abro para o meu Bem-Amado.

Que me seja concedido à luz do dia de hoje construir de DCLXXI um perfeito Ritual de auto-iniciação, forma a evitar a constante dificuldade de assumir várias formas-divinas. Que aquele ritual então seja um laço constante e perfeito entre Nós... de forma que a qualquer momento eu possa estar perfeito em Teu Conhecimento e Conversação, ó meu Sagrado Anjo Guardião! Ao qual eu tenho aspirado estes dez anos.

1:05 p.m. E se bem que possa parecer que eu me compus para dormir, eu Te espero... eu Te espero!

7:35 p.m. Ergo-me do sono, meus olhos um pouco cansados, minha alma fresca, meu coração rarefeito.

8:00 p.m. Portanto, eu continuo numa meditação suave e fácil sobre o meu Senhor Adonai, sem medo nem violência, bem direta e naturalmente.

Um dos assuntos que vieram à fala ontem à noite com o Dr. Rowland foi o de escrever tolices para revistas. Ele acha que nós podemos fazer isto nos intervalos de trabalhos sérios; mas eu não creio que se deva assumir o risco. Eu gastei estes muitos anos treinando minha mente para que pense de forma clara e se expresse com beleza. Devo então prostituir-me por um bocado de pão?

Eu Te juro, ó Tu que és eu mesmo, que não escreverei senão para glorificar-te, que escreverei apenas em beleza e melodia, que darei ao mundo como Tu me dás, quer seja um fogo consumidor, ou a taça de vinho de Iacchus, ou uma Adaga reluzente, ou um disco mais brilhante que o Sol. Eu morrerei de fome nas ruas antes de conceder o que quer que seja à vileza dos homens entre os quais eu vivo – ó meu Senhor Adonai, sê comigo, dá-me a mais pura poesia, faz-me cumprir este voto! E se eu me desviar, mesmo por um momento, eu Te rogo, avisa-me por algum grande castigo, que Tu és um Deus zeloso, e que Tu me conservarás velado, querido, guardado em Teu harém como uma esposa pura e perfeita, como uma esbelta fonte borbulhando brincalhona em Tuas cortes de mármore e de malaquita, de jaspe, de topázio e de lápis-lazuli.

E pelo meu poder mágicko eu convoco todos os habitantes dos dez mil mundos para que testemunhem este juramento.

8:15 p.m. Eu me erguerei, e quebrarei meu jejum, Eu creio ser melhor continuar com o mantra, uma vez que ele começou espontaneamente.

9:00 p.m. Cheguei ao Panthéon, para quebrar o jejum com café e brioche e um pêssego.

Eu tentarei descrever o Ritual DCLXXI; desde que sua natureza é importante para esta grande cerimônia de iniciação.

Aqueles que compreendem algo do Caminho dos Sábios poderão receber algum indício do método de operação da L.V.X.

E eu creio que uma descrição me ajudará a compor-me para a adaptação apropriada deste Ritual ao propósito de Auto-Iniciação.

Ó, como é macio o ar, e como é sereno o céu, para aquele que passou através da negra jurisdição de Apophis! Como são infinitamente musicais as vozes da Natureza, as que são audíveis e as que não são! Que Compreensão do Universo, que Amor é o prêmio daquele que executou todas as coisas e suportou todas as coisas!

A primeira operação do Ritual DCLXXI é a preparação do Lugar.

Existem duas forças: a da Morte e a da Vida Natural.

A Morte começa a Operação com uma batida, à qual a Vida responde.

Então a Morte, banindo todas as forças externas à operação, declara a Voz no Silêncio.

Ambos os oficiantes deixam seus tronos e formam a base de um triângulo cujo ápice é o Leste. Eles invocam a Palavra Divina; então a Morte mata com a Adaga, e unta com o óleo, sua irmã a Vida.

A Vida, assim preparada, invoca, ao chamado da Morte, as forças necessárias à Operação. A Palavra toma seu posto no Leste e os oficiantes a saúdam tanto pela fala quanto pelo silêncio em seus signos; e eles pronunciam a secreta Palavra de poder que se ergue do Silêncio e a ele retorna.

Tudo isto eles afirmam; e afirmando a base triangular da Pirâmide, descobrem que misteriosamente afirmam o Ápice, cujo nome é Êxtase.

Tudo isto é selado por aquela Palavra Secreta; pois aquela Palavra contém Tudo.

Nesta preparada Pirâmide de Luz divina entra um certo mísero ser humano às escuras, que não conhece quer sua própria natureza, quer sua origem ou destino, quer mesmo o nome daquilo que ele deseja. Antes que possa entrar na Pirâmide, portanto, quatro ordálios lhe são requeridos.

Assim, amarrada e às cegas, esta criatura tropeça avante, e passa através da cólera dos Quatro Grandes Príncipes do Mal do Mundo, cujo Terror está à sua volta de todos os lados. Porém, já que ele segue a voz do Oficiante que o preparou, nesta parte do Ritual não mais meramente a Natureza, a grande Mãe, mas Neschamah (a sua aspiração) e representante de Adonai, ele pode passar através de tudo. A despeito da ameaça do Hiereus, cuja função é agora aquela de seu medo e de sua coragem, ele continua e entra na Pirâmide. Mas ali ele é segurado e derrubado por ambos os oficiantes, como indigno de entrar. Sua aspiração o purifica a ferro e fogo; e enquanto jaz, despedaçado pela força do ritual, ele ouve – mesmo qual um cadáver que ouve a voz de Israel – o Hegemon que canta um hino solene de louvor àquela glória que está no Ápice, e que invisivelmente regula e governa a Pirâmide inteira.

Agora então aquela mísera e escura criatura humana é levantada pelos oficiantes e trazida ao altar no centro; e ali o Hiereus o acusa das vinte e duas Baixezas, enquanto o Hegemon elevando seus braços acorrentados grita a cada acusação contra seu inimigo que esta criatura está à Sombra das Eternas Asas do Santíssimo. No entanto, no fim, no momento da suprema acusação, o Hiereus mata o candidato. A mesma resposta lhe vem em auxílio, e na força dela ele é erguido pela sua aspiração – e permanece ereto.

Agora então ele faz uma jornada em sua nova casa, e percebe em certos momentos estabelecidos, cada momento precedido de um nov ordálio e equilíbrio, as forças que o cercam. Ele vê a Morte, e a Vida da Natureza cujo nome é Sofrimento, e a Palavra que as movimenta a ambas, e seu próprio ser – e quando ele compreende estas quatro coisas em sua verdadeira natureza, ele passa uma vez mais ao altar, e como ápice de um triângulo descendente é admitido ao senhoria do Duplo Reino. Assim ele é um membro da Tríade Visível que está cruzada com a invisível – contemplai o Hexagrama do Rei Salomão! Tudo isto o Hiereus sela com uma batida, e à nova chamada de Hegemon ele – para sua surpresa – se vê como o Enforcado do Tarott.

Cada ponta da figura assim formada eles coroam de luz, até que ele brilha com a Chama do Espírito.

Assim e não de outra forma é ele admitido a partilhar dos Mistérios, e o Relâmpago o golpeia. O Senhor desceu do céu com um grito e com a Voz do Arcanjo, e a trombeta de Deus.

Ele é instalado no Trono do Duplo Reino, e ele maneja a Baqueta de Duplo Poder pelos sinais do Grau.

Ele é reconhecido como um iniciado, e a palavra de Secreto Poder, e a silenciosa administração dos Sacramentos de Espada e Chama, o reconhecem.

Então, as palavras tendo sido devidamente pronunciadas, e os atos assim executados, tudo é simbolicamente selado pelas Trinta Vozes, e pela Palavra que vibra do Silêncio à Fala, e da Fala novamente ao Silêncio.

Então a Pirâmide é selada, mesmo como havia sido aberta; entretanto, no ato de selagem mesmo, os três homens partilham em uma certa forma mística da Eucaristia dos Quatro Elementos que são consumidos para a Perfeição do Óleo.

Konx Om Pax. (Os Mistérios de Eleusis eram encerrados com estas palavras místicas – Ed.)

10:00 p.m. Tendo escrito esta explicação, eu a lerei com cuidado detalhadamente, e meditarei solenemente sobre ela. Tudo isto eu escrevi no Poder do Anel Secreto que os Mestres confiaram à minha guarda: de forma que tudo fosse absolutamente correto.

Uma coisa parece-me deve ser mencionada. Ontem à noite, quando eu entrei no restaurante para conversar com Rowland, meu desprazer por comida era tão intenso que só o cheiro me causou verdadeira náusea. Hoje eu estou perfeitamente equilibrado; nem com fome nem nauseando. Isto é mais importante do que parece: é um sinal seguro, quando vemos pessoas seguirem fados e regras rígidas ou espalhafatosas, que tais pessoas estão sob o negro domínio de Apophis. No Reino de Osíris existe liberdade e luz. Hoje eu não comerei nem com a franca gulodice de Ísis nem com o severo ascetismo de Apophis. Eu comerei tanto, ou tão pouco, quanto me der na cabeça; estes meios violentos já não são necessários. Como o Conde Fosco, eu “seguirei meu caminho sustido por minha sublime confiança, auto-equilibrado por minha calma impenetrável”.

10:50 p.m. Eu gastei meia hora vagando pelo Museu de Luxemburgo.

Sento-me agora para meditar sobre este novo ritual.

O que segue, parece, deveria ser o resumo da estrutura – raios, eu tenho vontade de escrever tudo por completo – não! Eu serei paciente e provocarei o Espírito um pouco. Eu serei coquete como um catamita espanhol.

1.     A Morte chama a Vida e bane todas as outras forças.

2.     A Invocação da Palavra. A Morte consagra a Vida, a qual, em sua dança regirante, invoca aquela Palavra.

3.     Eles saúdam a Palavra. Os Sinais e M --- M devem ser um Coro, se algo.

4.     A aparição miraculosa de Iacchus, sem ser invocado.

1.     As 3 Perguntas.

2.     Os 4 ordálios. Aviso e conforto como um apelo aos Oficiantes.

3.     O Umbral.

O Coro de Purificação.

O Hino “Meu coração, minha mãe!” como já escrito, faz anos.

4.     Ao Altar. A acusação e defesa como antifonias.

5.     A jornada. Impedimento e passagem, e as 4 visões mesmo qual uma poderosa música.

6.     O Enforcado – a descida de Adonai.

7.     A instalação – sinais, etc.

Selagem como para a abertura; mas incluindo Sacramento.

1:15 p.m. Durante um almoço de 12 ostras, Cêpes Bordelaise, Tarte aux Cérises, Café Noir, despachado sem Yoga ou cerimonial, eu escrevi o Ritual em verso, na Linguagem Egípcia. Creio que não muito bem. O tempo provará; também, experiência. Eu recitaria Tennyson se eu suspeitasse que isso daria Samadhi!

Agora, mais mantra, se bem que pelo Senhor que eu estou ficando enjoado disso.

1:40 p.m. Ocorre-me, agora que estou vendo minha rota na Operação com um pouco mais de clareza, que eu poderia considerar o Primeiro Dia como Osíris Morto (U),o Segundo como a Viuvez de Isis (L), o Terceiro de Apophis (V), e hoje como Osíris Ressurecto (X), estes quatro dias sendo perfeitos em si mesmos como uma operação de 5º=6º (ou possivelmente com um ou dois dias mais, para recapitular L.V.X., Lux, a Luz da Cruz). Daí poderíamos prosseguir a alguma passagem simbólica através do grau de 6º=5º - se bem que, é claro, aquele Grau seja realmente simbólico desta jornada da alma, mas não vice-versa – e através de 7º=4º; portanto, talvez – se eu pudesse apenas ter esperança disto! – à consecução de 8º=3º. Certamente o pouco que eu fiz até agora pode ser atribuído não mais que ao Adeptado Menor, se bem que eu tenho utilizado fórmulas muito mais altas no curso do meu trabalho.

1:55 p.m. Meu Prana está se comportando de uma maneira febril; uma mistura de fadiga e energia. Isto não é bom: provavelmente vem de ter engolido aquele enorme almoço, e pode indicar que eu preciso dormir para recobrar meu equilíbrio. Eu usarei, no entanto, o Ritual do Pentagrama no meu Cakkram-Anahata (o coração; um centro nervoso na fisiologia mística hindu – Ed.) e verei se isto me aquieta. (P.S. – Sim: instantaneamente). Observe, por favor, como nesta condição de alta tensão mágicka as coisas mais insignificantes tem uma grande influência. Normalmente, eu posso comer o que quer que seja, em qualquer quantidade, sem o mínimo efeito de qualquer tipo; testemunhar as minhas expedições e os meus deboches, nada me perturba.

P.S. – Mas note, por favor! Normalmente, meia garrafa de Borgonha me excita notavelmente; enquanto executo esta Magick, é como se fosse água. Uma “transavaliação de todos os valores!”

3:55 p.m. Sobre um citron pressé eu revisei o novo Ritual. Também, eu comprei materiais adequados para copiá-lo com beleza; e isto fiz sem solenidade ou cerimonial, muito simplesmente, tal como qualquer outra pessoa poderia comprá-los. Em suma, eu os comprei de uma maneira verdadeiramente Rosacruz, de acordo com os costumes do país.

Eu adiciono aqui algumas considerações sobre o grau de Adeptus Major 6º=5º.

(P.S. – Deve-se distinguir entre a consecução deste Grau no mundo natural e no mundo espiritual. Aquela, eu já possuo há muitos anos.)

1.     Poderia talvez significar severo ascetismo. Caso esteja naquele caminho, eu tentarei fortificar-me comendo um bom jantar.

2.     Os caminhos conduzindo a Geburah são: de Hod, aquele do Enforcado; de Tiphareth, aquele da Justiça; ambos, aspectos equilibrados da Severidade, um implicando Auto-Sacrifício, o outro sofrimento involuntário. Um é Livre-arbítrio, o outro é Karma; e isto num senso mais amplo que o de Sofrimento.

O Ritual DCLXXI ainda é aplicável; realmente, pode ser considerado como suficiente, mas, claro, deve ser vivido ao mesmo tempo que executado.

(Eu preciso queixar-me aqui de sérias dificuldades com canetas, e desperdício de tempo precioso consertando-as. Elas tem estado ruins durante a operação inteira, coisa que não me acontece há oito anos. Espero ter uma boa, finalmente – sim, graças a Deus! Esta escreve decentemente.)

4:15 p.m. De alguma forma ou de outra eu saí do trilho; tenho estado brincando com uma porção de coisas diversas, por necessárias que elas possam ter sido. É melhor que eu passe uma hora inteira querendo o Encontro com Adonai.

5:40 p.m. Diz tudo isso, e um Ato de Benevolência. Agora revisarei o novo Ritual, jantarei, retornarei e copeá-lo-ei belamente para uso.

Que Adonai o Senhor supervisione o Trabalho, para que este seja perfeito, um elo seguro com Ele, uma Conjuração certa e infalível e um Encantamento, e Obra de verdadeira Arte Mágicka; que eu possa invocá-Lo com sucesso quando quer que pareça a Ele conveniente.

A Ele! Não a Mim! Não está escrito que a não ser que Adonai construa a Casa, eles laboram em vão que a constroem?

6:15 p.m. Chez Lavenue. Já que não sinto qualquer indisposição de revisar, lerei o que já escrevi deste relatório.

Meu jantar será Bisque d’Ecrevisses, Tournedos Rossini, uma Coupe Jack, meia garrafa de Mersault, e Café. Todos deverão agora absolver Adeptos da acusação de não saberem regalar-se.

7:20 p.m. Terminado o jantar, eu retorno ao Mantra-Yoga. Deve-se notar que eu esperava que o vinho tivesse um efeito excessivo sobre mim; ao contrário, tem muito menos efeito que o usual.

Isto é muito importante. Eu me abstive propositadamente de tudo que pudesse ser chamado de droga tóxica, até agora, por receio de confundir os efeitos.

Com a minha experiência dos efeitos do haxixe, eu poderia muito provavelmente ter terminado com o reino de Apophis ontem num momento, e a verdade disso teria sido 5 por cento droga e 95 por cento Magick; mas ninguém me acreditaria. Recorde que este relatório é para o Público Britânico, “que ainda pode vir a prezar-me”. Deus proíba! Pois eu não posso ecoar a esperança de Browning. A untuosidade desse Público Britânico, sua hipocrisia e mesquinhez são tamanhas que apreciação por parte deles apenas poderia significar minha vileza, e não a redenção deles.

Sinto se pareço pessimista em relação a eles! Uma reviravolta má para mim, aliás, se de repente eles começassem a comprar o que escrevo! Para ser consistente, eu teria que passar uma navalha na garganta!

Acalma-te, meu amigo! Não há perigo!

7:40 p.m. Em casa novamente, e com a vestimenta cerimonial. Estou ao mesmo tempo cansado e oprimido, mesmo em minha paz; pois o dia foi, e a noite está, quente e opressiva, com um pouco de nevoeiro; e podemos supor que o ar está sobrecarregado de eletricidade. Eu descansarei tranqüilamente com meu mantra na posição do Enforcado, e talvez dormirei um pouco.

8:10 p.m. Não dormi – não há descanso para os maus! É curioso como Mantra-Yoga independe por completo de devaneio. Eu posso recitar meu mantra vigorosamente enquanto meu pensamento divaga pelo mundo todo; no entanto, não posso escrever a mais simples frase sem interromper o mantra, a não ser com grande esforço e em tal caso tanto o mantra quanto a escrita são prejudicados!

Meditação – do tipo “racional” – sobre isto me leva a sugerir que pensamento ativo, “radiando”, pode talvez ser incompatível com o mantra, o qual é (?) ativo. Podemos ler e compreender com muita facilidade enquanto o mantra continua; podemos nos lembrar de coisas.

Por exemplo, eu vejo a corrente do meu relógio; eu penso: “Ouro. Au, peso atômico 196. AuC13, L3 10s. Od. por onça,” e assim por diante ad infinitum; mas o ato de escrever estas coisas para o mantra. Isto pode ser (em parte) porque eu sempre digo mentalmente cada palavra no momento de escrevê-la. (P.S. Mas eu faço o mesmo, se bem que pode ser que seja em menor grau, quando leio.)

8:22 p.m. Já que estou completamente acordado, vou praticar um pouco de Pranayama.

8:40 p.m. Quão pouco eu sei de Magick e das condições de sucesso! Meus 17 ciclos de alento não foram completamente fáceis; no entanto, eu os executei. Depois de um enorme jantar! O suor foi completamente suprimido, apesar do calor da noite e do exercício; e os primeiros sintomas do Bhuchari-Siddhi – “pulando em volta como um sapo” – foram bem nítidos. Sinto-me encorajado a despender alguns minutos (ainda em Ásana) lendo o Shiva Sanhita.

9:00 p.m. Ásana muito dolorosa novamente, é verdade, eu a estava praticando com muita correção.

Eu noto que eles dão um segundo estágio – tremor do corpo – como preliminar aos “pulos do sapo” – eu havia omitido isto, desde que um é tão obviamente o germe do outro.

Os hindus parecem não ter senso de proporção. Quando o Yogui, tendo virado sua língua para trás durante meio minuto, conquistou a velhice, a doença e a morte, então, em vez de gozar a vida, ele pacientemente (e bem pateticamente, devo acrescentar) devota a sua jovem imortalidade a “beber ar” através do traseiro, na esperança de curar uma fraqueza pulmonar que ele provavelmente nunca teve, e que de qualquer modo foi curada por seu esforço prévio!

9:40 p.m. Tenho estado praticando alguns desses mudras e Ásanas.

Quanto ao Cakkram-Visuddhi, que é “da cor de ouro brilhante, ou cor de fumaça, e tem dezesseis pétalas que correspondem às dezesseis vogais”, poder-se-ia construir um bom mantra com as vogais inglesas, ou as hebraicas.

Cada vez mais curioso! Os Yoguis identificam o Varana (Ganges) com o Ida-Nadi, o Asi (?) com o Pingala-Nadi, e Benares com o espaço entre eles. Tal como a minha identificação da minha garganta com o Portão do cemitério de Montparnasse.

Bem, é necessário uma considerável discriminação, e uma sólida fundação de estudo, se eu tenciono fazer pé e cabeça destes livros hindus.

10:20 p.m. Um pouco de Pranayama, creio.

10:22 p.m. Não consigo de forma alguma ficar quieto e à vontade! Tentarei o Enforcado novamente.

10:42 p.m. Não muito bom. O mantra continua, mas sem “pegar” o Cakkram.

É difícil explicar; o melhor símile que posso encontrar é aquele de um motor girando com a embreagem solta; ou de um homem pedalando uma bicicleta cujas rodas estão suspensas no ar.

Não “pega”.

O fato é que eu estou sem concentração. Evidentemente o estágio de Osíris Ressurecto acabou; e eu creio que é um caso para medidas violentas.

Se eu fosse agora se relaxar e esperar pela manhã, como um Paulo naufragado, provavelmente acordaria um mero homem do mundo.

A pergunta então se ergue: Que farei eu para ser salvo?

A única resposta – e uma que não tem qualquer conexão com a pergunta – é que um Ritual de Adeptus Major deveria mostrar o Nascimento de Hórus e a Morte de Tiphon. Aqui, novamente, Hórus e Harpócrates – os gêmeos dos signos gêmeos do ritual de 0º=0º - são os matadores de Tiphon. Assim, todos os rituais são misturados: os símbolos se repetem, se bem que em um aspecto diverso. De qualquer maneira, eu quero algo bem melhor que o caminho de Pe no ritual de 4º=7º.

Eu creio que o postulante deveria ser chicoteado, torturado e marcado a fogo “no duro”, para seus equilíbrios nas diversas “Estações da Cruz”, ou pontos sobre a sua jornada mística. Ele deve seguramente beber o sangue para o sacramento – ah! Agora eu vejo tudo tão bem! O Iniciador deve matá-lo, a ele, Osíris; ele deve erguer-se novamente como Hórus e matar o Iniciador, e aí assumir o lugar desse na cerimônia até o fim. Um pouco difícil do ponto de vista técnico, mas cederá à ciência. Eles o faziam, antigamente, à beira de um certo lago na Itália.

Bem, tudo isso são demônios de cara-de-cão, sempre me seduzindo nos Sagrados Mistérios. Eu não posso sair para matar ninguém a esta hora da noite. Podemos fazer um começo, porém, com um pouco de flagelação, tortura, e marcação ao fogo...

Tudo por uma vida pacata!

11:00 p.m. Mas não é fácil eu me fustigar envergando o Robe; e, se bem que posso despi-lo, existe ainda esta consideração: que nunca podemos (a não ser por algum lamentável acidente) ferir a nós mesmos mais do que queremos. Em outras palavras, é impossível infligir dor desta maneira, e por isto flagelantes tem sido com justiça acusados de meros voluntários. A única maneira seria infligir alguma tortura cuja severidade não se pode julgar no momento em que se a aplica: e.g., poderíamos nos encharcar com gasolina e depois incendiá-la como fez a senhorita mística há poucos dias – suponho que na Grã-Bretanha! Não é o ato que faz doer, são as conseqüências; de forma que, embora saibamos vagamente o que acontecerá, podemos nos forçar ao ato.

Essa, portanto, é uma possível forma de auto-martírio. Similarmente com as mutilações; se bem que talvez seja apropriado observar que toda essas pessoas está louca quando faz essas coisas, de modo que seu padrão de prazer e dor difere do padrão de pessoas sadias ao ponto de ser incompreensível.

Veja-se o meu Tio Tom! O qual perambula pelo mundo a gabar-se da sua castidade. O maníaco é provavelmente feliz – um pavão que é só cauda. E pios.

Veja os Vegetarianos e os Anti-Viviseccionistas e a inteira corja de lunáticos. Eles pagam a si mesmos com a moeda da vanglória. Não vou perder meu tempo tendo pena deles!

11:03 p.m. Antes ter pena de mim, que não posso sequer tecer “considerações” sensatas para um Ritual de Adeptus Major.

A única coisa a fazer, em suma, é persistir calma e firmemente, com um pouco de coragem e energia extras – não há mal nisso! – nas mesmas velhas linhas já encetadas. A Tortuosidade o Caminho deve necessariamente conduzir-me precisamente aonde o Caminho deve necessariamente conduzir-me precisamente aonde o Caminho vai dar. Por que sair deliberadamente em direção a Geburah? Por que não aspirar diretamente pelo Caminho do Raio da Lua à Coroa Inefável? Modéstia aqui está fora do lugar!

(Um desastre acaba de ocorrer: viz., um ataque súbito e violento daquilo que exige uma pílula de Pepsina, Bismuto e Carvão – e consegue o que exige. Ao retornar, 11:34 p.m., eu continuo.)

E como Ani, “Eu”, tu és também, o Negativo, que está além de ambos esses!

Mas esta doença é uma amolação. Eu devo ter me resfriado um pouco de algum modo. Sua iminência explicaria a minha falta de concentração. E provavelmente eu poderia continuar com glória, exceto que outro desastre acaba de ocorrer!

Entra Maryt, sentada e vestida e de juízo perfeito – ou comparativamente perfeito!

11:38 p.m. Suponho, portanto, que devo abandonar o jogo durante um minuto ou dois.

11:56 p.m. Livrei-me dela, graças a Deus. Posso dizer em defesa própria que eu nunca a teria deixado entrar, mas eu tinha saído e deixado à porta aberta, de modo que ela já estava dentro quando eu retornei.

Vou assumir a Ásana.

O Quinto Dia

12:26 a.m. Assim começa o Quinto Dia deste grande Retiro Mágicko. Principiei com vinte e dois ciclos respiratórios. Esta prática foi um pouco mais fácil, mas não muito melhor. Deveria tornar-se muito simples e natural antes da gente devotar o meio-minuto de Kumbakham (alento retido nos pulmões), quando estamos rígidos, a uma forte projeção da Vontade em direção a Adonai, qual tem sido meu costume. Eu espero que hoje venha a ser um dia de Trabalho Mágicko mais duro e mais definido; menos discurso, menos “estado mental beatífico” – o que é o demônio em pessoa! A verdadeira Calypso, não menos a tentadora porque acontece seu nome ser Penélope. Ah, Senhor Adonai, meu Senhor! Concede-me o Perfume e a Visão; deixa-me atingir o porto desejado; pois meu barquinho é jogado por várias tempestades, mesmo por Euroclydon, no Lugar onde Quatro Ventos se encontram.

12:35 a.m. Portanto eu irei descansar, com minha mente sempre repousando na Vontade a Adonai. Que meu sono seja em direção a Ele, ou seja, aniquilação; que meu despertar seja para a música do Seu nome; que o dia esteja repleto só Dele.

2:18 a.m. Meu bom amigo o corpo acordou-me a esta hora através de sonhos inquietos sobre um parente completamente imaginário do qual ninguém havia visto durante anos coisa alguma senão a cabeça, que ele esticava para fora de um lençol à prova d’água. Supostamente, ele era inválido. Fico contente de poder dizer que acordei direito e comecei automaticamente com o mantra, sem o mínimo esforço consciente.

Meu Prana, porém, parece febril e em desequilíbrio. De forma que eu como um biscoito ou dois e bebo um pouco d’água, e agora balançarei o Prana com o Ritual do Pentagrama.

Feito, mas oh! Como foi difícil. O sono me combate como Apollyon combateu Cristiano! Mas eu me levantarei e o pegarei pelo cangote.

(Veja: são 2:30 a.m. Doze minutos para fazer tão pouco.) E que caligrafia!

3:06 a.m. Quão excelente é Pranayama, um conforto para a alma! Eu executei trinta e dois ciclos, fácil e agradavelmente; poderia ter continuado sem parar. Os músculos tornaram-se rígidos, praticamente por si mesmos; senti-me tão leve que quase pensei ser aquele “sábio” que pode “balançar-se sobre o seu dedo polegar”. O sono é conquistado imediatamente. De fato, se

Satã treme quando vê

Qualquer santo ajoelhado,

Então com certeza

Satã dispara, xingando,

Ante um santo “pranayando!

Tão contente, de fato, estava eu na prática que me devotei pela fórmula de Espera a Adonai; e que eu cheguei à “vizinhança da concentração” é demonstrado pelo fato que eu diversas vezes esqueci completamente a respeito de Adonai, e percebi-me a repetir o tolo velho mantra.

3:06 a.m. Eu desespero de fazer com que meus leitores distingam entre o vulgar fenômeno da divagação do pensamento e este fenômeno que está no limiar da verdadeira e perfeita concentração; e, no entanto é importantíssimo que a distinção seja assimilada. A Segunda dificuldade ocorrerá – espero eu! – de distinguir entre a vacuidade da idiotice e aquela destruição do pensamento que chamamos Shivadarshana, ou Nirvikalpa-samadhi. (Devemos novamente referir o leitor os clássicos hindus – Ed.)

O único diagnóstico que me ocorre é este: neste fenômeno não existe (não posso estar seguro a este respeito) qualquer conexão racional entre o pensamento deixado atrás e o pensamento que chega. Em uma divagação normal durante a prática de concentração podemos quase sempre (especialmente com um pouco de experiência) retraçar a cadeia. Com “vizinhança da concentração”, tal não se passa. Talvez exista uma cadeia, mas tão desenvolvida está já a faculdade de impedir que as impressões se aflorem no consciente que eu não tomo conhecimento dos elos, cada um deles tendo sido automaticamente exterminado no limiar do consciente.

Naturalmente, o praticamente honesto e atento não terá dificuldade em reconhecer o tipo correto de divagação; e com esta explicação não haverá desculpa para ele se falhar em fazê-lo.

Eu tenho ainda outra teoria, porém. Talvez isto não seja absolutamente uma divagação; talvez seja uma aniquilação completa de todo pensamento. Afirmando o pensamento de Adonai, eu corto a cabeça de todos os outros pensamentos; e a cabeça de Adonai também cai. Mas na pausa momentânea assim produzia algum velho pensamento habitual (neste caso de hoje à noite, o meu mantra) vem à tona. Um caso de Encerramento da Discussão seguido de Voto pela Questão Prévia.

Ó Senhor! Quando votarás Tu por Suspender, não, por Prorrogar, não! Por Dissolver este Parlamento?

3:32 a.m. Eu não estou com sono; porém, novamente eu me comporei, devotando-me a Adonai.

7:07 a.m. Novamente acordei e continuei com o mantra.

8:10 a.m. Eu deveria ter feito mais às 7:07 a.m.; mas caí no sono outra vez; o resultado é que me é muito difícil despertar de novo.

Porém, que eu esteja agora vigilante.

8:45 a.m. Eu me vesti, e das 8:35 às 8:45 a.m. executei o Ritual do Inascido.

Se bem que eu o executei pobremente (não fazendo uso, por exemplo, da Progressão Geométrica na fórmula de Mahalingam na seção de Ieou, e não me dando ao trabalho nem de formular com cuidado as Hostes Elementais nem de pô-las em formação em volta do círculo), eu, no entanto, pelo favor de IAO, obtive um efeito realmente bom, perdendo todo senso de personalidade e sendo exaltado no Pilar. Paz e êxtase me envolveram. Está bem.

8:50 a.m. Mas como eu estive doente a noite passada, e como a manhã está fria e úmida, eu irei ao Café du Dôme e quebrarei meu jejum humildemente com Café e Sanduíche. Que me dêem forças para a minha busca pela Quintessência, a Pedra dos Filósofos, o Summum Bonum, a Verdadeira Sabedoria e a Felicidade Perfeita!

9:00 a.m. Eu espero (aliás) ter tornado bem claro que este tempo todo, mesmo uma momentânea cessação de pensamento ativo, tem sido seguida pela emergência do mantra. O ritmo, em suma domina perpetuamente o cérebro, e se ativa a qualquer oportunidade. O líquido mantra maometano é muito mais fácil de movimentar que o usual tipo hindu com seus predominantes sons em m e n; mas não sacode o cérebro com a mesma força. Talvez não seja pior por isto. Eu acho melhor o treino inconsciente do cérebro em um ritmo regrado do que empurrá-lo a um tal ritmo por uma série de choques.

Eu gostaria, também, de fazer notar que as sugestões em “A Erva Perigosa” para um ritual parecem estar ao avesso.

Parece-me que os métodos do Oriente são muito áridos, e valiosos principalmente como treino da Vontade; enquanto que as Cerimônias da Magick de Luz preparam a alma àquela harmonia que está apenas a um passo da Coroa.

O melhor plano, portanto, é treinar a Vontade para que se torne uma máquina tão formidável quanto possível; e depois, no momento do Ritual quando o real esforço deve ser feito, arremessar aquela concentrada Vontade “regirando avante com ecoante Estrondo, de forma que possa compreender com invencível Volição idéias uniformes, as quais nasceram esvoaçantes daquela Fonte única: cuja Fundação é Um, Um Solitário e Único”.

Como, portanto, Disciplina de qualquer tipo é simplesmente um meio de ir a um bosque à meia-noite na véspera da Páscoa para cortar a Baqueta Mágicka com um único golpe da Adaga Mágicka, etc., etc., nós podemos considerar o sistema ocidental como o essencial.

No entanto, Pranayama, naturalmente, tem seu próprio e definido efeito mágicko, aparte o fato que ensina ao praticante que ele precisa persistir através desses três segundos – esses longos três últimos segundos assassinos – mesmo que arrebente no processo.

Eu estou escrevendo tudo isto durante o café da manhã.

Meus devotos podem notar, por sinal, como o desejo de dormir está sendo derrotado.

Noite I. 7½ horas sem quebra desde as 12:30 a.m.

Noite II. 7 horas aproximadamente, com sonhos.

Noite III. 8 horas aproximadamente; mas interrompidas três ou quatro vezes, e não fosse eu um verme, teria dissipado o sono como palha ao vento!

Noite IV. 6½ horas; e eu acordei refrescado.

Noite V. 1¾+4½+1 hora; e trabalho realmente bom executado nos intervalos.

(P.S. Noite VI. Provavelmente 4 horas.

Noite VII. 2+2+1/2 horas.

Noite VIII. 6 horas muito interrompidas.

Noite IX. 1½ +2+2 horas.

Noite X. 4+1¼ horas.

Noite XI. 1¾+4½ horas.

Noite XII. Volta ao normal – 7 horas de sono perfeito.)

11:30 a.m. Fui a vários lugares usando o mantra; contratei a fabricação, e sentei-me para modelagem de uma “sela” com a qual poderei tornar a Ásana realmente firme e fácil; também, posei para algumas fotografias ilustrando algumas das posições mais absurdas, para instrução dos meus devotos.

Eu preciso agora copiar o novo Ritual.

Isto, vós percebereis facilmente, está tudo errado. Teoricamente, tudo deveria estar preparado desde o princípio da Operação; e eu deveria simplesmente executá-la e pronto.

Mas esta perspectiva é muito estreita. Eu nunca sei o que pode vir a ser requerido; XXX i.e., um principiante como eu, não sabe. Ainda mais, eu não posso escrever um Ritual eficiente até já estarmos em um estado de certa exaltação e assim por diante.

Posso apenas fazer o melhor que está em meu alcance, agora como sempre.

2:00 p.m. Eu tenho estado concentrando-me apenas na revisão e cópia do Ritual. Portanto, eu agora estou vivendo como vivo sempre que é preciso executar um trabalho particular: concentrando-me, por assim dizer, fora do Trabalho. Como Lévi também nos adjura pelos Santos Nomes.

Voltando do almoço (uma dúzia de Marennes Vertes e uma Andouillette aux Pommes) encontrei Zelina Visconti, mais adorável e feia do que nunca ao seu jeito selvagem. Ela disse que está favoravelmente disposta para comigo, por recomendação da sua concierge! “A palavra de recomendação já foi ouvida em seu favor. Avante, homem livre e de boa reputação!”

4:45 p.m. E só duas páginas feitas! Mas as decorações, “marvelious”!

5:15 p.m. Outra meia-hora foi-se! Em mera titilação do Opus! E agora eu estou cansado demais para sequer começar Pranayama. Eu irei ao Dôme ver o que um citron pressé e um sanduíche farão por mim, ao mesmo tempo levando comigo o MS. De Liber DCCCCLXIII, que me foi dado para corrigir.

6:35 p.m. Ainda corrigindo Liber DCCCCLXIII. Eu gostaria de escrever mantras para cada capítulo.

7:20 p.m. Ainda com Liber DCCCCLXIII. É quase desnecessário que eu diga que estou perfeitamente cônscio do fato que em certo senso todo este trabalho, e redação de ritual, e cópia, e iluminação de páginas, é uma corja de demônios de cara-de-cão; pois que o Pensamento Único de Unidade com Adonai está ausente.

Mas eu faço isto propositalmente, fazendo com que cada coisa que eu faça seja integrada naquela Vontade Mágicka.

Portanto, se me perguntardes “Você está corrigindo Liber DCCCCLXIII?” eu respondo, “Não! Eu sou Adonai!”

7:50 p.m. Chegada da Visconti.

8:50 p.m. Partida da Visconti. Realmente, um descanso necessário: pois minha cabeça havia começado a doer, e seu beijo, meio dado meio tomado, refrescou-me muito.

9:50 p.m. Terminei com Liber DCCCCLXIII. É difícil imaginar que ele pudesse ter sido lido (meramente) no tempo que levei para corrigi-lo. Diga-se, três horas e meia! Bem, se isto não contar como Tapaz e Japa, e Yama, e Niyama, e o resto, só o que eu posso dizer é que na minha opinião Eles não são direitos comigo. Eu irei agora arranjar o que comer, e (Deus querendo) ao meu retorno me disporei a trabalhar de verdade, pois necessito luz do dia para copiar meu Ritual.

11:30 p.m. Um sanduíche e dois cafés no Versailles e um citron pressé no Dôme, uma tagarelice com Morice, Barnes, Hughes (todos pintores – Ed.) e outros. Com efeito, eu sou um cão preguiçoso e sem concentração. Comecei o Mantra de novo, porém; naturalmente, move-se com grande facilidade.

11:50 p.m. Despido; o mantra em movimento, e a Vontade a Adonai menos inaparente.

Hoje eu comecei mal, cheio de orgulho espiritual – veja o registro das minhas primeiras horas! Julgar-se-ia que eu fosse um grande Mestre de Magick, altamente condescendendo em explicar algumas poucas verdades elementares adaptadas à parva capacidade dos meus discípulos.

O fato é que eu sou um sapo, feio e venenoso, e se eu tenho uma jóia preciosa na mão, aquela jóia é Adonai, e – bem, agora que pensei a respeito, Eu Sou Adonai. Mas St. John não é Adonai; e St. John fará melhor em humilhar-se um pouco amanhã.

Nada sendo mais humilhante que Pranayama, eu começarei com isto.

O Sexto Dia

12:05 a.m. Assim então – ó vós grandes deuses do Céu! – começa o Sexto Dia do Grande Retiro Mágicko do Santo Iluminado Homem de Deus, nosso Grandemente Honrado Frater O.·.M.·., Adeptus Exemptus 7º=4º, Irmão-Eleito da Mui Secreta e Sublime Ordem A.·.A.·..

Ele executa com grande dificuldade (e sem execução interior) apenas quatro ciclos respiratórios.

Alguém disse uma vez que cem milhões de anos foram necessários para me produzir; eu devo acrescentar que espero que outros cem milhões passarão antes que Deus crie outro miserável vira-lata como este.

12:15 a.m. Executei o Ritual de Equilíbrio do Açoite, da Adaga, e da Cadeia; com o Santo Óleo de Unção que traz o Fogo Impregnando à Água Lustral deles.

12:35 a.m. Eu estou tão sonolento que absolutamente não consigo concentrar-me. (Eu estava tentando o “Inascido”) A Magick vai bem; boas imagens, e poderosas; mas eu me relaxo em sono. É hora para medidas heróicas, ou então para dizer: uma boa noite de sono, e recomeça descansado de manhã! Eu suponho que, como de costume, eu direi o primeiro e farei o segundo.

12:45 a.m. Levantei-me, lavei-me, executei o Ritual “Tu eu invoco, oh Inascido” fisicamente.

Resultado regular. Eu consigo melhor visão e senso quando estou executando um Ritual no assim chamado Corpo Astral. Pois então estou no mesmo plano que as coisas com as quais lido.

Se, porém, queremos trabalho sério, devemos atuar por completo. Para conseguir “espíritos materializados” – perdoem a linguagem absurda! – devemos (não, precisamos!) trabalhar dentro do nosso corpo físico. Assim também, eu penso, para o mais alto trabalho espiritual; pois aquele Trabalho vai de Malkuth a Kether.

Daí o grande valor dos sistemas racionalistas do Oriente (naturalmente, executados com os métodos científicos: lápis, livro de notas e cronômetro. O Yogui médio é em regra um sonhador tão vago quanto o místico ocidental): eles nos mantêm equilibrados pelo bom senso. Poderíamos nos desviar em linhas de ilusão agradável durante seis anos, até nos perdermos no “Plano Astral”.

Tudo isto, observai, é muito sem sentido, muito vago, mesmo se encarado com a maior boa vontade. O que é o Plano Astral? Existe tal coisa? Como diferem seus fantasmas dos fantasmas do absinto, dos do devaneio, dos do amor, e assim por diante?

Podemos admitir a insubstancialidade desses fantasmas sem por isto negar os seus poderes; os fantasmas do absinto e do amor são suficientemente poderosos para levar um homem à morte ou ao casamento; enquanto que o sonho acordado pode acabar em fanatismos como o anti-viviseccionismo ou o vegetarianismo a vapor.

Em geral, porém, eu prefiro explicar as muitas catástrofes terríveis que eu tenho visto ocorrer na Magick mal-compreendida pela suposição que, na Magick, nós estamos trabalhando com alguma função muito sutil e essencial do cérebro, distúrbio da qual pode significar, para um homem paralise, para outro mania, para um terceiro melancolia, para um quarto morte. Não é absurdo sugerir a priori que pode existir algum pensamento particular cuja manifestação causaria a morte. Em um homem com doença cardíaca, por exemplo, o pensamento “Eu subirei a escada correndo” poderia causar a morte tão diretamente quanto aquele: “Eu vou dar um tiro na cabeça”. Entretanto, naturalmente este pensamento age através da vontade e do aparato de nervos e músculos. Mas não poderia um medo súbito fazer com que o coração pare? Eu creio que existem casos registrados.

Mas tudo isto é território desconhecido, ou, como diria Frank Harris, Águas Inexploradas. Nós estamos nos acercando perigosamente do “arsênico mental” e “todo-deus-bem-ossos-verdade-luzes-fígado-mente-benção-coração-um e não uma série – e passe o dinheiro por favor”.

O bom senso do homem mundano e prático basta para mim!

1:10 a.m. Será que G.R.S. Mead, ou alguém de igual sabedoria, me faria o favor de explicar por que é que, se eu saio do meu corpo e viro-me (digamos) para o Oriente, eu posso virar-me (no “corpo astral”) até à direção Oeste-Sudoeste, mais ou menos, mas não posso passar além dela a não ser com a maior dificuldade, e após longa prática?

Traçando o círculo, assim que eu chego ao Oeste a minha tendência é voltar imediatamente a Oeste-Noroeste; viro-me facilmente, em suma, para qualquer ponto exceto o Oeste, dentro de um arco de 5º talvez; mas nunca passando daquele ponto. Eu me treinei para fazê-lo, mas é sempre com um esforço.

É esta experiência comum?

Eu a ligo à minha faculdade de direção, que todos os alpinistas e viajantes que têm viajado comigo admitem, é excepcional.

Se eu deixar a minha tenda ou cabana por uma porta dando para, digamos, o Sudoeste, aquele dia inteiro, sobre todo tipo de terreno, através de qualquer floresta imaginável, faça bom ou mau tempo, nevoeiro, tempestade de neve, frio de gelar, seja dia ou noite, eu sei dentro de um arco de 5º (usualmente 2º) a direção em que estava voltado ao sair daquela tenda ou cabana. E seu eu tiver observado essa direção na bússola, naturalmente posso deduzir o Norte por mero julgamento de ângulo, no que eu sou muito acurado.

Ainda mais; eu mantenho um registro mental, completamente inconsciente, do tempo gasto numa marcha; de modo que eu posso sempre dizer que horas são com a proximidade de cinco minutos, mais ou menos, sem consultar meu relógio.

Mais ainda: eu tenho outro registro automático que computa distância e direção. Suponhamos que eu comece de Scott’s e caminhe (ou vá de carro, é tudo a mesma coisa para mim) a Haggerston Town Hall (onde quer que Haggerston seja; mas digamos que seja N.E.), e daí a Maida Vale. De Maida Vale eu poderia sair em linha reta de volta a Piccadilly, e não me desviaria mais que cinco minutos a pé do caminho, salvo becos sem saída, etc.; e eu saberia quanto estivesse perto de Scott’s outra vez, antes de reconhecer quaisquer arredores.

Parece-me que eu tenho uma intuição da direção e comprimento da linha A (A linha reta Acott’s – Haggerston; a despeito de quaisquer curvas, faria pouca diferença se eu fosse via Poplar), outra intuição da linha B (Haggerston a Maida Vale); e que obtenho a minha linha C (de volta a Scott’s) por “trigonometria subliminal”.

Neste exemplo eu estou assumindo que nunca estivem em Londres antes. Eu tenho executado façanhas precisamente análogas em dúzias de cidades que me são estranhas; mesmo em labirintos de ruelas tortuosas como Tangier ou Cairo. Eu me dou pior em Paris que em qualquer outro lugar; creio que porque as ruas principais radiam de estrelas, e assim os ângulos se confundem. O poder, também, dá-se mal com a vida civilizada; dissipa-se quando vivo em cidades, revive quando eu volto à honesta solidão agreste de Deus. Uma tenda de dois metros e a luz das estrelas – quem pode desejar mais?

1:35 a.m. Bem, eu me acordei escrevendo isto. O ponto que realmente me impressionou foi este: o que aconteceria se, por treino severo, eu forçasse meu “corpo astral” – demônios! Será que não existe um termo para isto livre da prostituição Leadbeteriana? (Falamos de “les deux protistuitions”; de forma que está bem.) Meu Scin-Laeca, então; que aconteceria se eu forçasse meu Scin-Laeca a se tornar um Derviche-Girante? Eu não poderia ficar tonto, porque meus canais semicirculares estariam em repouso.

Eu realmente preciso tentar o experimento.

(Scin-Laeca. Veja “A Strange Story”, de Lord Lytton – Ed.)

1.58 a.m. Eu agora me devotarei ao sono, querendo Adonai. Senhor Adonai, dá-me um descanso profundo como a morte, de forma que em poucas horas eu possa estar desperto e ativo, cheio de força leonina de propósito em direção a Ti!

7:35 a.m. Minha heróica conduta quase me valeu uma “Nuit Blanche”. Pois, estando tão completamente desperto, eu estava com o meu Prana todo irritado; tinha uma sensação como a do princípio de um ataque de malária, doze horas antes da temperatura subir. Creio poder dizer que dormi só depois das 3 horas; acordei, também, diversas vezes; e deveria ter-me levantado praticando Pranayama; mas não o fiz. É verme! A ave mais sonolenta pode certamente pegar você!

Eu não estou bem desperto, se bem que é para meu crédito que acordei dizendo meu mantra com vigor. A manhã está muito fria e úmida; no entanto eu devo erguer-me e trabalhar no meu lindo Ritual.

7:55 a.m. Disponho-me ao trabalho da cópia.

10:12 a.m. Completei as minhas duas páginas prescritas de iluminação.

Irei agora quebrar o jejum e tratar de meus negócios.

10:30 a.m. Após escrever cartas saí e tomei café e dois brioches.

11:50 a.m. No Louvre, examinando alguns pontos da tradição de Khemi (Egito – Ed.) para meu Ritual.

12:20 p.m. Eu não posso compreender isto; mas sinto-me enfraquecido por falta de comida; eu devo voltar à estrita alimentação Hattha-Yogui.

1:00 p.m. Meia dúzia de ostras e um entrecôte aux pommes.

2:05 p.m. De volta ao trabalho. Eu estou em péssimas condições físicas; bem equilibrado, mas exausto. Eu mal posso caminhar ereto!

Senhor Adonai, quão longe eu vago dos jardins da Tua beleza, onde brincam as fontes do Elixir!

2:55 p.m. Escrevi duas páginas; as páginas prévias não estavam bem secas; de forma que devo esperar um pouco antes de iluminar.

Eu descansarei – se puder! Na posição do Enforcado.

4:30 p.m. Logo caí no sono e permaneci nele.

É inútil persistir... No entanto eu persisto.

5:40 p.m. Eu estava sentindo tanto frio que fui ao Dôme e tomei leite, café e um sanduíche, comidos em estilo Yogui. Mas não me ajudou no que concerne a energia. Estou tão mal ou pior do que estava no dia que chamei de dia de Apophis (o terceiro dia). A única coisa a meu crédito é que mantive o mantra em movimento.

5:57 p.m. Algo pelo menos é bom: se qualquer coisa resultar deste grande retiro mágicko – o que começo a duvidar – não estará misturado com nenhum outro entusiasmo, poético, venéreo ou báquico. Será puramente místico. Mas como não aconteceu ainda – e no presente parece incrível que venha a acontecer – eu creio que podemos mudar de assunto.

Que tolo que eu sou, por sinal! Eu digo “Ele é Deus, e não existe outro Deus senão Ele” 1800 vezes por hora; mas eu não penso isto nem uma vez por dia.

6:30 p.m. Toda a minha energia voltou subitamente.

Teria sido aquele sanduíche Hatha-Yogui?

Eu continuo copiando o Ritual.

7:10 p.m. Acabei com a cópia. Agora irei jantar, e aprenderei o Ritual de cór, humildemente e refletindo. A iluminação das páginas estará acabada, com um pouco de sorte, em mais dois dias.

Eu não me sinto inclinado a usar o Ritual até que esteja belamente colorido. Como diz Zoroastro: “Deus nunca esta tão afastado do homem, e nunca lhe manda tantos novos labirintos, como quando ele se entrega a divinas especulações ou obras de uma maneira confusa e desordenada, e (como o oráculo acrescenta) de lábios conspurcados, ou pés sujos. Pois o progresso desses que são assim negligentes é imperfeito, seus impulsos vãos, e seus caminhos obscuros”.

7:40 p.m. Chez Lavenue. Bisque d’Ecrevisses, demi-perdreau à la Gelée, Cêpes Bordelaise, Coup Jack. Demi Clos du Roi. Eu estou certo de que cometi um sério erro no princípio desta Operação de Arte Mágicka. Eu devia ter executado um real Equilíbrio através de uma hora de Pranayama em Ásana (mesmo se tivesse que executá-lo sem Kumbhakham) à meia-noite, ao amanhecer, ao meio-dia e ao entardecer, e eu não deveria ter permitido que coisa alguma nos céus acima de mim, ou na terra sob mim, ou nas águas sobre a terra, interferisse com sua devida execução.

Em vez disso, eu achei que era um tão grande sujeito que pôr-me em Ásana por alguns minutos toda meia-noite e o resto vai-de-qualquer-jeito, seria suficiente. Eu estou bem punido.

8:30 p.m. Esta comida, ingerida de uma maneira cerimonial e Yogui, está me fazendo bem. Eu terminarei, se Deus quiser, com café, conhaque e um charuto.

É um erro fatal castigar o corpo e deixar intacto o consciente, como tem sido o caso comigo o dia inteiro. É verdade que há nós que achamos que se mortificam o corpo e tornam a mente amável. De fato: eles a predispõem a alucinação.

Devemos usar métodos estritamente corporais para domar o corpo; estritamente mentais para controlar a mente.

Esta última restrição não é tão vitalmente importante. Qualquer arma é legítima contra um inimigo público como a mente. Nem mercê nem trégua para ela!

E o contrário, usar as forças espirituais para adquirir saúde física, como certas pessoas tentam fazer hoje em dia, é a mais vil Magick Negra. Esta é uma das numerosas razões para se supor que Jesus Cristo, se tivesse existido, seria um Irmão do Caminho da Esquerda.

O meu corpo tem me tratado bem, acordando prontamente às horas próprias, dormindo nas horas próprias, tratando de sua própria vida sem se meter comigo... um corpo admirável. Então, por que não deveria eu levá-lo a Lavenue e regalá-lo com o melhor jantar que eles possam servir?... Contanto que ele não pare de dizer o mantra!

Seria tão fácil iludir a mim mesmo e convencer-me de que consegui o meu fito! Seria tão fácil me esfomear até “visões me rodearem”! Seria tão fácil escrever um relato esplêndido de Sol sobre Adonai meu Senhor e amante, de forma a convencer o mundo e a mim mesmo que eu O encontrara! Com meu gênio poético, não poderia eu ultrapassar os escritos de São João (meu xará) e da Sra. Dra. Anna Bonus Kingsford? Sim, eu poderia me iludir, se eu não treinasse e fortificasse meu ceticismo em todos os pontos. Esta é a grande utilidade deste relatório; poder-se-á depois ver se há algum traço de influência, poética ou qualquer outra. Mas esta é a minha âncora: eu não posso escrever uma mentira, quer em poesia ou em Magick. Estas são as coisas que constituem a minha personalidade; e eu poderia com mais facilidade arrebentar meus miolos que escrever um poema que eu não sentisse. As aparentes exceções são casos de ironia.

(P.S. Eu me pergunto se seria possível preparar uma tabela matemática, mostrando curvas gráficas de comida (e digestão), bebida, outros impulsos físicos, o estado do tempo, e assim por diante, e compará-las com a curva do entusiasmo e consecução místicos.

Se bem que é talvez verdade que saúde e bem-estar perfeitos são a base de qualquer verdadeiro transe ou ruptura, parece pouco provável que mera exuberância dos primeiros poderia excitar os últimos.

Em outras palavras, existe provavelmente alguma matéria-prima da obra que não é nada que nós possamos identificar como corporal. Em meu regresso a Londres, eu devo certamente colocar o assunto nas mãos de matemáticos mais experientes, e, se possível, conseguir uma análise gráfica do tipo indicado.)

9:20 p.m. Como é difícil e caro nos embriagarmos quando estamos praticando Magick! Nada nos alegra, nem nos afeta de qualquer outra forma. Ó, o pathos e a tragédia destas linhas:

Vem onde a bebida é barata!

Vem onde os copos são grandes!

Como eu gostaria de as ter escrito!

10:08 p.m. Tendo bebido um citron pressé e assistido o jogo de pôquer no Dôme por algum tempo, eu agora retorno a casa. Eu pensei comigo, “Vou esquecer o negócio todo e ser sensato, e cair na cama e descansar bem” – e percebi que seria impossível. Eu já estou tão enfronhado nesta Operação que volvendo os olhos sobre o ombro, a estrada que seguira já não vi. Eu devo sair daqui ou um Adepto ou um maníaco. Graças ao Senhor por isto! Poupa trabalho.

10:20 p.m. Despi-me e vesti o Robe. Farei uma Aspiração na posição do Enforcado, esperando sentir-me descansado e bem disposto ao bater da meia-noite.

O Incenso chegou de Londres; e eu sinto que seus efeitos mágickos são muito favoráveis.

Ó criatura de Incenso! Eu te conjuro por Ele que está sentado sobre o Trono Santo e vive e reina para sempre como a Balança da Justiça e da Verdade, para que confortes e exaltes minha alma com teu perfume, de forma que eu possa ser completamente dedicado nesta Obra de Invocação de meu Senhor Adonai; de forma que eu possa executá-la por completo, contemplando-O face a face – como está escrito, “Antes que houvesse equilíbrio, Face não contemplava Face” – sim, sendo completamente absorvido em Sua Glória inefável – sim, tornando-me Aquilo de que não existe Imagem quer na palavra ou no pensamento.

10:55 p.m. Que mundo cansativo este em que vivemos! Eu mal fui fazer alguns comentários de elogios sobre meu corpo quando de repente tudo está errado com ele, e dois grãos de Cáscara Sagrada são necessários ao seu bem-estar!

Eu quisera saber onde estou! Eu não reconheço de forma alguma o Caminho que estou percorrendo; não parece ser um Caminho absolutamente. Tanto quanto posso ver, eu estou boiando ao léu sem leme nem velas em um mar sem margens – o Falso Mar dos Qliphoth. Pois em minha estupidez eu comecei a tentar um certo ritual da Má Magick, assim chamada... não má na verdade, pois apenas é mau (em certo senso) aquilo que não leva a Adonai. (Em outro senso, tudo é mau que não seja Adonai.) E naturalmente eu tive a insana idéia de que este ritual serviria para estimular a minha devoção. Para a informação do Z.A.M., eu posso explicar que este ritual pertence a Saturno em Libra; e, se bem que suficientemente correto em seu próprio plano, é um demônio de cara-de-cão nesta operação.

Será que é, porém? Eu estou tão cego que já não posso decidir os mais simples problemas. Ou então, eu vejo tão bem, e estou tão bem equilibrado, que eu vejo os dois.

Em casos de perda-de-vista em xadrez, eu costumava abandonar o jogo. Eu nunca tentei persistir até o fim; quisera agora tê-lo feito. De qualquer modo, eu tenho que persistir nisto até o fim!

Ó Senhor do Olho, que teu Olho esteja sempre aberto sobre mim! Pois Aquele que guarda Israel não descansa nem dorme!

Senhor Shiva, abre Teu o Olho sobre mim, e consome-me por completo em seu brilho!

Destroi este Universo! Tritura teu eremita em tuas terríveis maxilas! Danças Tu sobre este prostrado santo Teu!

Eu sofro com sede... é uma sede do corpo... no entanto, a sede da alma é mais profunda, e impossível de satisfazer.

Senhor Adonai! Fazer com que os Poderes de Geburah me lancem outra vez e outra vez nos Fogos da Dor, de forma que meu aço possa ser temperado naquela Espada de Magick que invoca Teu Conhecimento e Tua Conversação.

Hoor! Elohim Gibor! Kamael! Seraphim! Graphiel! Bartzabel! Madim! Eu vos conjuro no Número Cinco.

Pela Estrela Flamejante da minha Vontade! Pelos Sentidos do meu Corpo! Pelos Cinco Elementos do meu Ser! Levantai-vos! Movei-vos! Aparecei! Vinde a mim e torturai-me com vossas vigorosas dores... por que? Porque eu sou o Servidor do Mesmo vosso Deus, o Verdadeiro Adorante do Altíssimo.

Ol sonuf vaoresaji, gono ladapiel, elonusaha caelazod.

Eu reino sobre ti, disse o Senhor dos Senhores, exaltado em poder.

(Dos MSS. Do Dr. Dee. – Ed.)

11:17 p.m. Agora tentarei meu Enforcado uma vez mais.

11:30 p.m. Muito vigoroso e bom, meu querer de Adonai... Eu gostaria de explicar a dificuldade. Seria muito fácil formar uma Imagem mágicka de Adonai; e Ele sem dúvida alguma a impregnaria com Sua Presença. Mas seria apenas uma Imagem. Este talvez seja o significado do mandamento: “Tu não farás nenhuma imagem,” etc.; tal como “Tu não terás nenhum outro Deus senão eu” implica devoção concentrada e única (Ekâgrata) a Adonai. De forma que qualquer Imagem mental ou mágicka, conseqüentemente, ficará aquém da Verdade. Portanto, temos que querer aquilo que não tem forma; e isto é muito difícil. Concentrar a mente sobre uma coisa definida já é bem difícil; mas existe pelo menos algo sobre o que se apoiar, e algum meio de verificarmos nossos resultados. Mas em um caso como este, no instante em que a nossa vontade toma uma forma mágicka – e a vontade adora criar formas – naquele instante sabemos que saímos do trilho.

Isto é, naturalmente (pelo menos quase), outra maneira de descrever a meditação hindu cujo método é matar todos os pensamentos no momento em que eles surgem na mente. A diferença é que eu estou mirando num alvo, enquanto aquela meditação impede que flechas nos atinjam. Em minha aspiração a conhecer Adonai, eu me assemelho aos Yoguis hindus que se concentram em seu “Senhor pessoal”; mas ao mesmo tempo é preciso que nos lembremos de que não vou me contentar com o que contentaria a eles. Em outras palavras, eu definirei “o Conhecimento e Conversação do meu Sagrado Anjo Guardião” como igual a Neroda-Samapatti, o transe de Nibbana.

Espero ser capaz de conseguir isto!

11:55 p.m. Tenho estado praticando Ásana, etc. Eu esqueci uma coisa na última nota escrita: Eu havia estado censurando Adonai porque durante seis dias eu O havia invocado em vão... Eu recebi a resposta, “O Sétimo Dia será o Sabbath do Senhor teu Deus”.

Assim seja!

O Sétimo Dia

12:17 a.m. Eu comecei este grande dia com Oito ciclos respiratórios; fui interrompido por aquele distúrbio de indigestão sob sua outra forma. (P.S. – Evidentemente a introdução da Cáscara na minha aura sensitiva fez a sua ação instantânea.) Minhas vias respiratórias não estavam muito claras, também; eu evidentemente me resfriei.

Agora, Ó meu Senhor Adonai, tu Resplandeceste com Tua Própria Luz, não Te manifestarás ao Teu escolhido? Pois vê-me! Eu sou como um pombinho branco tremendo sobre Teu altar, sua garganta oferecida à faca. Eu sou como uma criancinha comprada no mercado de escravos... e a noite caiu! Eu Te espero, Ó meu Senhor, com uma grande ânsia, mais forte que a Vida; no entanto, eu sou paciente como a Morte.

Havia um certo Derviche cujo turbante um ladrão roubou. Mas quando eles lhe disseram, “Vê! O ladrão tomou a estrada de Damasco!” aquele santo respondeu, dirigindo seus passos para o cemitério: “Eu esperarei aqui por ele!”

Assim, também, existe um lugar, Ó tu ladrão do amor de meu peito, Adonai, ao qual Tu deves ir por fim; e este lugar é a tumba em que estão enterrados todos os meus pensamentos e emoções, tudo que é “Eu, e Mim, e Meu”. Ali eu me deitarei e te esperarei, mesmo como nosso Pai Christian Rosenkreutz que se deitou nos Pastos na Cripta da Montanha das Cavernas, Abiegnus, em cujo portal ele fez escrever as palavras, “Post Lux Crucis Annos Patebo”. Assim Tu entrarás ali (tal como fizeram Frater N.N. e seus companheiros) e abrirás o Pastos; e com teu Globo Alado tu tocarás a Rosa Cruz sobre meu peito, e eu despertarei para a vida – a verdadeira vida que é União Contigo.

Assim portanto – perinde ad cadaver – eu espero por Ti.

12:43 a.m. Eu escrevi, por sinal, em algum dia prévio (IV, 12:57 da madrugada) que eu havia usado a Suprema fórmula de Espera... Camundongo ridículo! Não está escrito no Livro do Coração Cingido com a Serpente que “Esperar por Ti é o Fim, não o Princípio?”

É tão tolo quanto erguer-se à meia-noite e dizer, “Eu sairei e irei dormir ao Sol”.

Mas eu sou um irlandês, e se me oferecerdes um passeio de pônei custando um shilling a primeira hora e sixpence a segunda, não deves ficar surpresos com a tola astúcia da minha resposta, que eu tomarei a segunda hora primeiro.

Mas é sempre assim; a ambição de tirar proveito dos nossos mais queridos amigos em uma barganha é nativa em nós: e daí, mesmo em religião, quando estamos lidando com nossas próprias almas, nós tentamos passar a perna. Eu devo ir cortar um ramo de amendoeira à meia-noite; e, achando a operação inconveniente, eu “afirmo magickamente” que freixo é amendoeira, e que sete horas são doze. Parece pena nos termos tornado Magistas, capazes de forçar a Natureza a se acomodar às nossas afirmações, para usarmos o poder para melhor coisa!

Milagres são legítimos apenas quando não existe outra solução possível. É desperdício de força (o mais caro tipo de força) “fazer com que espíritos nos tragam todo tipo de comida” quando vivemos ao lado do Savoy; foi tolo aquele Yogui que passou quarenta anos aprendendo como cruzar o Ganges caminho sobre as águas, enquanto todos os meus conhecidos cruzavam o rio diariamente por dois tostões; o homem que invoca Tahuti para curar um resfriado quando a farmácia do Sr. X está tão perto em Stafford Street.

Mas milagres podem ser executados em uma extrema emergência; e são.

Isto nos traz de volta em um círculo; o milagre do Conhecimento e Conversação do Sagrado Anjo Guardião só pode ser executado quando o Magus se esgotou completamente; na linguagem do Tarott, quando o Magus se tornou o Louco.

A não ser pela minha fé no Ritual DCLXXI, eu estaria no fim dos meus encantamentos.

Então? Nós veremos no remate.

1:25 a.m. Eu quase começo a crer que aquilo acontecerá.

Pois eu me deitei, bem livre de preocupação ou ansiedade (embalando-me em meus próprios braços, por assim dizer), perfeitamente seguro d’Ele, da maneira simples e sem ansiedade com que uma criança está segura de sua mãe, em um estado de expectativa contente, meus pensamentos bem suprimidos em uma escuta atenta, como para ouvir o ruído do vento da Sua carruagem, como que para ouvir o sussurro das Suas asas.

Pois vede! Através do céu de Nu Ele se move em Sua carruagem – cedo, cedo Ele estará aqui!

Neste estado de escuta entram certas coisas curiosas – passagens informes, eu não sei bem quê. Também, o que eu costumava chamar de “linhas cruzadas” – vozes de pessoas desconhecidas dizendo corriqueiros disparates – “Aqui, vamos experimentar!” “Cadê o almoço?” “Aí eu disse a ele: Você...” e assim por diante; tal como se estivéssemos escutando a conversa alheia em um carro num trem. Eu vi também Kephra, o Escaravelho Deus, a Glória da Meia-Noite. Mas vou compor-me novamente para o sono, como o infante Samuel.

Se Ele se resolver a vir, Ele pode facilmente acordar-me.

3:55 a.m. Eu dormi durante bastante tempo – um longo sonho em que Pollit, Lord Morley de Blackburn e minha esposa, todos comigo, éramos hóspedes em casa de minha mãe. Meu quarto o velho quarto, com uma página arrancada – pois eu concebi o quarto como parte de um livro, de algum jeito! Ó, tanta coisa nesse sonho! A maior parte claramente devida a fontes óbvias – eu não sei é como Lord Morley está metido nisto. Muito possivelmente ele está morto. Isto me acontece de vez em quando. (P.S. – Tal não era o caso.)

O sonho mudou, também, para um transatlântico, onde japoneses roubaram o meu cachimbo em uma série de aventuras de um tipo aborrecedor – cada personagem do sonho agiu tão mal quanto pôde, e de repente, sem aviso.

Acordando-me há pouco, e instantaneamente concentrando-me em Adonai, eu senti meu corpo tomado de um leve estremecimento, muito curioso e agradável, como trêmulas folhas num contínuo ar.

Eu creio que já vi este estado de Tremor Interior descrito em alguns livros místicos. Creio que os Shakers e Quakers tinham violentos tremores. Abdullah Haji de Shiraz escreve:-

Tal como o corpo treme quando a Alma

Entrega-se a si própria em sua rápida

Carreira às mãos de Allah...

É o mínimo, mais íntimo tremor, parecido um pouco com aquele de Kumbhakham ou “Vindu-siddhi” (veja o Shiva Sanhita – Ed.) devidamente executado; mas com uma qualidade feminina. Eu sinto-me como se estivesse sendo sacudido; nos outros casos, eu reconheço meu próprio ardor como a causa. É muito gentil e doce.

Portanto agora eu posso virar-me e esperar por Ele.

3:50 a.m. A Voz dos Nadi mudou para uma música fraca porém muito cheia e muito doce; com um tom como de um sino, mais insistente que as outras notas, a intervalos.

5:45 a.m. Novamente desperto, e pacientemente-ansioso. Os sonhos passam através de mim sem cessar.

Desta vez uma casa onde eu, como um novo Barba Azul, tinha que esconder minhas esposas umas das outras. Mas minha tola omissão de esfaqueá-las redundou em que eu tinha trinta e nove câmaras secretas, e uma única aberta, em cada caso.

Ó, quilômetros disto! E todo tipo de pessoas vieram para cear – e não havia ceia, e nós tivemos todos que nos revezar – e todas as esposas se consideravam negligenciadas – como elas têm que se considerar, se somos loucos a ponto de ter quarenta delas – e eu as detestei tanto! Era horrível ter que ficar correndo e consolando, e explicando; a dificuldade cresce (julgo eu) como mais ou menos a quinta potência do número de esposas...

Eu estou contente de ter acordado!

Sim, e como estarei contente quando tiver realmente despertado desta vida de glamour, despertado para o amor de meu Senhor Adonai! É amargamente frio o amanhecer. Parece-me um frio consagrador – porém, eu não o confrontarei para me regozijar nele – eu já estou contente, tendo cessado de esforçar-me.

7:15 a.m. Novamente acordado, deliciosamente descansado e refrescado.

9:45 a.m. Novamente acordado, o mesmo que antes.

11:35 a.m. Eu agora quebrarei o jejum com um sanduíche e café, comidos à moda Yogui.

Eu pareço um convalescente após uma febre: muito calmo, muito limpo, um pouco cansado; demasiado cansado, realmente, para estar feliz; mas contente.

Eu passeio a manhã posando para Michael Brenner, um escultor que um dia será conhecido. Muito jovem ainda, mas creio que é o melhor de sua geração – desses cujo trabalho eu tenho visto.

Por sinal, eu estou sofrendo de um dedo inchado, desde ontem de manhã ou possivelmente mais cedo. Eu lhe dei pouca atenção, mas é doloroso.

Eu quero explicar por que motivo eu tenho registrado tão cuidadosamente os detalhes, coisas banais, do que eu tenho comido e bebido.

1:     Toda comida é uma espécie de intoxicante; daí, uma possível fonte de erro. Se eu obtivesse algum bom resultado, eu poderia dizer: “Você estava esfomeado”, ou “Você estava empanturrado”. É muito fácil conseguir “visões” por qualquer dos dois processos, e iludirmo-nos a nós mesmos com a idéia de que atingimos a consecução, tomando os Qliphoth por Kether.

2:     Mantendo o voto “Eu interpretarei todo fenômeno como um trato particular entre Deus e minha alma”, os meros atos animais são os mais resistentes. Nós podemos ver a natureza do fenômeno; parece de tão pouca importância; inclinamo-nos a desprezá-lo. Daí, eu os incluo no relatório como corretivo.

3:     Se outras pessoas chegarem a ler isto, eu desejo que eles percebam que complicados códigos de moralidade nada tem haver com o meu sistema. Nenhuma questão de pecado ou graça entra nele.

Se um químico deseja preparar sulfato de cobre do óxido de cobre, ele não hesita porque ácido sulfúrico, atirado nos olhos, nos fere.

De forma que eu uso a droga moral que produzirá o resultado desejado, quer aquela droga seja o que nós usualmente chamamos de veneno ou não. Em suma, eu ajo como um homem sensato; e eu creio que mereço todo crédito pela introdução desta idéia, completamente nova, em religião.

12:25 p.m. Aquela função do meu cérebro que diz “Você deveria estar querendo Adonai” algumas vezes age. Mas eu O estou querendo! Está tão ativa porque tem estado trabalhando muito esta semana inteira, e não percebe que seu trabalho acabou. Da mesma forma que um quitandeiro aposentado acorda e pensa “Eu devo ir abrir a loja”.

Na fraseologia hindu, a substância-pensamento, trabalhosamente forçada estes dá todos a um só canal, adquiriu o hábito (i.e., de fluir naturalmente no canal em questão – Ed.). Eu estou Ekâgrata – concentrado em um só ponto.

Tal como quando nós queremos formar um sifão: temos que sugar por algum tempo; o equilíbrio nos dois braços do tubo, tendo sido conseguido, o fluído corre doce e silenciosamente por conta própria. A gravitação, que estava contra nós, está agora do nosso lado.

Assim, agora, o destino inteiro do Universo foi sobrepujado por mim; eu sou impelido, com força sempre crescente e irresistível, em direção a Adonai.

Vi Veri Vniversvm Vivvs Vici!

12:57 p.m. De volta a casa para iluminar meu lindo Ritual.

3:30 p.m. Duas páginas feitas e postas para secar. Eu creio que sairei para um passeio curto e para gozar o lindo Sol.

Também à farmácia, para cuidar do meu dedo.

4:05 p.m. O farmacêutico recusou-se a fazer o que quer que fosse; e assim mediquei-me eu mesmo. É a romântica enfermidade de unha encravada; um pequeno abscesso se havia formado. Diabolicamente doloroso após a limpeza. Irei dar o passeio já mencionado.

4:17 p.m. Eu deveria anotar como hoje há uma completa ausência de todo o nosso aparato mágicko. O mantra diminui a marcha para (uma estimativa) um quarto do seu ritmo anterior. O resto em uníssono. Isto porque a sensação de grande poder, etc. etc., é mera evidência de conflito – o trovão dos canhões. Agora está tudo em paz; o calmo poder do rio, não mais uma torrente.

O Concurso das Forças tornou-se a Harmonia das Forças; a palavra Tetragrammaton está dita e acabada; a santa letra Shin [w]desceu nela. Em lugar do trovejante Deus do Sinai nós temos a adormecida Criança de Belém. Um cumprimento, não uma destruição, da Lei.

4:45 p.m. Estou em casa novamente. Vou deitar-me na Postura do Enforcado, e esperar a vinda de meu Senhor.

6:00 p.m. Ergui-me outra vez para ir jantar. Eu cochilei durante parte do tempo.

6:15 p.m. Jantar – Hors d’Oeuvre – Tripes a la Mode de Caen – Filet de Porc – Glace – ½ Graves. Ó, como o mundo tem inflexíveis regentes intelectuais! Eu como de forma semi Yogui.

6:20 p.m. Eu estou matutando se não cometi um erro em me deixar adormecer.

Seria a minha moda, se houvesse apenas um erro a cometer, o cometê-lo. Eu estava perfeito; se apenas tivesse permanecido em guarda! Mas eu deixei que minha fé me carregasse... será?

6:45 p.m. O jantar terminado, eu continuo como estou, com calma, fé, e amor. Por que deveria eu esperar um efeito catastrófico? Por que não serem as circunstâncias da União com Deus compatíveis com a consciência normal? Interpenetrando-a e iluminado-a, se quereis; mas sem destruí-la? Bem, eu não sei por que não deveria ser assim; mas aposto que não é! Toda experiência espiritual que eu tenho tido vai contra uma tal teoria.

Ao contrário: deixará a razão completamente intacta, Senhora suprema de seu próprio plano. Misturar os planos é o triste fado de muitos místicos. Quantos eu tenho conhecido que me confiaram que, obedientes à Visão Celeste, não mais caçarão coelhos! Assim eles estabelecem um sistema baseados em insignificâncias, e o seu Senhor e Deus é algum traquinas elementalzinho fingindo ser o Todo Poderoso.

Eu me lembro do meu Tio Tom, dizendo-me que tinha certeza de que Deus não gostaria de me ver usando um casaco azul num domingo. E hoje em dia ele se surpreende e se magoa porque eu não adoro o Deus dele – ou mesmo o meu alfaiate, como, nas circunstâncias, seria muito mais razoável!

7:32 p.m. Por que será que eu espero a recompensa imediatamente? De certo presumindo do meu poder mágicko, que é uma coisa ativa; e portanto, a minha passividade não é perfeita. Naturalmente, quando aquilo acontece, acontece fora do tempo e do espaço – agora, ou daqui a dez anos, é tudo a mesma coisa. Tudo a mesma coisa para aquilo; mas não para mim, O.·.M.·. Portanto O.·.M.·. (o cão!) persiste irracionalmente em querer aquilo aqui e agora. Certamente é uma falta de fé, um abandono à ilusão do tempo... e assim por diante. Sim, sem dúvida está tudo magickamente errado; magickamente absurdo, até; e no entanto, se bem que eu vejo a armadilha, deliberadamente eu piso nela. Eu suponho que serei punido de alguma forma... Bem! Aqui está a desculpa que eu queria. O medo é fracasso: eu preciso atrever-me a errar. Ótimo!

7:50 p.m. Acaba de me ocorrer que esta Espera e Vigília é o supremo esforço Mágicko. Todo leve som ou outra impressão nos choca tremendamente. É facílimo não prestar atenção a sons, etc., quando estava me concentrando em Magick ativa: eu executei todas as minhas evocações de principiante em Chancery Lane. Mas agora estou deliberadamente abrindo todas as avenidas dos sentidos para admitir Adonai.

Destruímos o nosso próprio Círculo Mágicko. Aquele grande Edifício inteiro é derrubado... Portanto, eu estou num buraco pior que qualquer outro em que já estive – e acabo de perceber o fato. Uma pisada lá fora no pavimento é a mais aguda agonia – porque não é Adonai. Minha audição, normalmente não muito boa, está intensamente aguçada; e eu estou a dez metros dos bondes do Boulevard Montparnasse, na hora de maior movimento da noite...

E a Visconti é capaz de aparecer!

Eli, Eli, lama sabacthani!

8:45 p.m. Eu fui ao Dôme para beber meu último citron pressé, e para evitar a Visconti. Estou de volta, e na cama. Tentarei dormir agora, acordando a tempo para a meia-noite e as horas quietas.

8:53 p.m. Eu suportei a suprema tentação e assalto do Inimigo. Desta forma. Primeiro, eu percebi que eu não queria dormir – eu não podia parar de “Esperar”. Depois, eu disse, “Como ontem à noite aquele Ritual Negro (veja a nota das 10:55 p.m.) serviu ao menos para voltar todos os meus pensamentos para o Pensamento Único, eu o tentarei novamente...”

Então eu disse: “Não, fazer isso não é pura ‘espera’”. E então – como um raio – o Abismo da Voragem abriu-se, e a minha posição inteira foi invertida. Eu contemplei a minha vida, do despontar da consciência até agora, como uma “pose” gigantesca; meu próprio amor à verdade assumido para benefício do meu biógrafo! Todas estas estranhas coisas sofridas e usufruídas sem melhor propósito que o de parecer um grande homem. É impossível expressar o horror deste pensamento; é O pensamento que trucida a alma – e não tem resposta. É tão universal que é impossível provarmos o contrário. De forma que é preciso que eu aja como homem, e o domine e o aniquile por completo, enterrando-o naquele pútrido inferno de que saiu. Para sorte minha, eu já lidara com ele antes. Uma vez, quando eu vivia em Paddington, Jones e Fuller estiveram conversando comigo, e ao saírem generosamente me deixaram este pensamento-demônio como dádiva – a agonia está comigo ainda. Aquele, porém, era apenas um jovem demônio gentil, se bem que do mesmo mau sangue. Dizia: “Existirá mesmo um Caminho ou Consecução? Será que não te iludiste este tempo todo?”

Mas o pensamento de hoje à noite golpeou a minha própria integridade, a mais íntima verdade da alma e de Adonai.

Como eu já disse, não há resposta para ele; e como estes sete dias me tornaram mais ou menos Mestre da fortaleza, eu o peguei tenro ainda, na latrina e puxei a descarga.

Eu relato isto aqui não como uma “pose” – mas porque o assunto é tão tremendo.

Encoraja-me imensamente; pois se meu Guardião no Umbral é aquele formidando demônio, quão vasto deve ser o Portal que o abriga, e quão glorioso o Templo a que o Portal leva!

9:30 p.m. Parece que havia mais um erro a cometer; pois eu o cometi!

Eu comecei a tentar acordar a Kundalini – a serpente mágicka que dorme na base da espinha; enrolada em três anéis e meio em volta do Sushumna; e em vez de impelir o Prana para cima e para baixo no Sushumna até Shiva unir-se a Sakti no Sahashara-Cakkram, eu tentei – sabe Deus por quê; eu sou mais estúpido que um imbecil Caine – efetuar a operação inteira – com o óbvio resultado.

Existem apenas duas idiotices mais a executar – ou tomar uma grande dose como se eles fossem Samadhi, ou ir à Igreja. Eu já posso desistir do negócio todo.

No entanto aqui me responde o eterno Sim e Amen: Tu não podes desistir, pois Eu te trairei através de tudo. No entanto aqui eu jazo, despido de toda força mágicka, duvidando de minha própria paz e fé, mais longe de Adonai que nunca antes – e no entanto – e no entanto –

Não sei eu que todo erro é um passo necessário no Caminho? O desvio mais longo é o mais curto atalho à meta. Mas é de dar desgosto! Existe um sombrio humor nisto, também. O verdadeiro Demônio da Operação deve estar sentado com um sardônico sorriso, gozando a minha perplexidade –

Pois aquele pensamento-Guardião-do-Umbral não estava tão morto quanto eu pensara; enquanto ele volta, e volta novamente, urgindo-me a desistir do Caminho, a abandonar a luta desigual. Felizmente, amigo Guardião, tu provas demais! Tua ansiedade me demonstra que eu não estou tão longe da consecução quanto os meus próprios sentimentos me fariam pensar. Ao menos, porém, eu estou lançado no ativo novamente; eu me levantarei e cantarei os chamados de Enoch e invocarei o Inascido, e afastarei alguns dos demônios, e reunirei um exército de poderosos anjos em minha volta – em suma, bancarei ainda outro tipo de idiota, talvez?

Não importa, eu o farei. Não é má idéia pedir a Thoth que me mande Taphtatharath com um pouco de informação quanto à rota – eu não sei de forma alguma onde estou. Este território é estranho, e eu me sinto muito só.

Este será o meu ritual.

1.     Ritual do Pentagrama Banindo.

2.     Dito, Invocando. (Veja Líber O – Ed.)

3.     “O Inascido”. (Veja Goécia – Ed.)

4.     Os Chamados I-VI com os Rituais dos cinco Graus (dos MSS. Do Dr. Dee e da Aurora Dourada – Ed.)

5.     Invocação de Thoth.

6.     (Não; eu não usarei o Novo Ritual, nem discutirei o assunto.) Uma invocação de improviso de Adonai.

7.     Fórmulas de encerramento.

Ao trabalho, então!

11:15 p.m. A cerimônia foi suficientemente bem; as forças invocadas vieram prontamente e visivelmente; Thoth, em particular, amigável como sempre – eu creio que Ele considera este relatório como um cumprimento – Ele é bem vindo à idéia, pobre Deus!

A LVX veio, também; mas não o suficiente para penetrar o terrível manto de escuridão que por minha tolice eu teci para mim mesmo.

De forma que no fim eu me achei sobre o chão, tal qual a Cruche Cassée Danaide de Rodin... Como eu deveria ter estado no começo! Bem, uma coisa eu consegui (de novo!): isto é, que quando tudo está dito e feito, eu sou o que sou, e todos estes pensamentos meus, anjos e demônios igualmente, são apenas passageiras atitudes minhas. O único verdadeiro ser de mim é Adonai. Simples! E no entanto eu não posso permanecer nessa simplicidade.

Eu recebi esta “revelação” através do plano egípcio; uma iluminação parcial da razão. Aclarou a mente; mas, ai! A mente ainda está aqui. Esta é ao mesmo tempo a força e a fraqueza do plano egípcio: que é tão lúcido e espiritual, e no entanto tão prático. Quando eu digo fraqueza, eu quero dizer que agrada à minha fraqueza pessoal: eu me contento facilmente com os menores resultados, de forma que eles me seduzem e me desviam dos resultados realmente grandes. Eu estou bem contente com o resultado da minha pequena cerimônia – quando eu deveria estar tomando novos e terríveis juramentos! No entanto, por que haveria Tahuti de ser tão gentil comigo, e Asar Un-Nefer me tratar tão mal?

A resposta vem diretamente do próprio Tahuti: Porque tu aprendeste a escrever perfeitamente, mas ainda não te ensinaste a sofrer.

Bem verdade, a parte final!

Asar Un-Nefer, tu Feito Perfeito, ensina-me Teus mistérios! Que meus membros sejam despedaçados por Set e devorados por Sebek e Typhon! Que meu sangue seja derramado sobre o Nilo, e minha carne seja dada para Besz comer! Que meu Phallus seja escondido na goela de Mati, e minha Coroa dividida entre meus irmãos! Que as mandíbulas de Apep me triturem em peçonha! Que o mar de peçonha me engula por completo!

Que Asi minha mãe rompa suas vestes em angústia, e Nepti chore por mim em vão.

Então Asi dará Hoor à luz, e Heru-pa-kraat pulará alegre do seu útero. O Senhor de Vingança acordará; Sekhet rugirá, e Pasht gritará bem alto. Então meus membros serão reunidos, e minhas ataduras serão desatadas; e meu khu será poderoso em Khem para todo o sempre!

11:37 p.m. Eu retorno ao lugar da Tríade Maligna, de Ommo Satan, que está diante do altar. Para ali expiar a minha loucura em me apagar a todo esse grande concurso de idéias que eu tenho registrado aqui, em vez de conservar-me fixo no bastão único de Unidade-com-Meu-Ser.

11:54 p.m. E assim este grande dia chega a seu fim.

Estes são em verdade os Qliphoth, os Qliphoth de Kether, os Thaumiel, gigantescas cabeças gêmeas que odeiam e dilaceram uma à outra.

Pois o horror e a escuridão tem sido incríveis; no entanto também, a luz e o brilho tem sido quase insuportáveis.

Eu nunca estive tão longe nem tão perto... Mas a hora se aproxima. Que eu me disponha e prepare, e comece o novo dia afirmando minha Unidade com meu Senhor Adonai!

O Oitavo Dia

12.03 a.m. Assim o Oitavo Dia, a Segunda Semana, começa. Eu estou em Ásana. Por alguma razão ou outra, Pranayama é bem fácil. Concentrando-me em Adonai, eu permaneci em Kumbhakham por um minuto inteiro sem desconforto.

É verdade, por sinal. Eu estive – e estou – em perigo de considerar este Relatório como um Livro, i.e., de acentuar certas coisas por seu efeito literário, e minimizar a importância de outras que são menos amáveis a um tal tratamento.

Mas a resposta a isto, amigo Satã! É que o Cânone da Arte é Verdade, e o Cânone da Magick é Verdade; meu verdadeiro relatório fará um bom livro, e meu verdadeiro livro fará um bom relatório.

Ekam evam advaitam! Amigo Satã. Um e não dois. Hua allahu alazi lailaha illa Hua!

Mas quais serão as minhas “considerações” para esta semana? Eu estou tão absolutamente transformado em um Lince pantomorfo que todas as coisas me parecem iguais; existem tantos prós e contras a respeito de Pranayama, a respeito de Cerimonial, etc. etc. – e os prós e contras são tão numerosos, e de tanto alcance, que eu simplesmente não me atrevo a começar a discutir nem mesmo um deles. Eu posso distinguir uma avenida sem fim em cada caso. Em suma, tal como o viciado em haxixe, eu estou esmagado pela multidão das minhas próprias Imagens mágickas. Eu me tornei o grande Magista – Mayan, o Fabricante de Ilusão – o Senhor dos Irmãos do Caminho da Esquerda.

Eu não “levo minha iniqüidade como uma auréola imortal em Mal Espiritual”, como pensa o Sr. Waite; mas é quase tão ruim quanto isso. Parece haver uma única réplica a esta grande questão do Corcunda (eu gosto de simbolizar o espírito de Inquisição por “?” – uma coisinha torta que faz perguntas); e é continuar a afirmar Adonai, a recusar ser obsediado por quaisquer imagens, de disciplina ou de Magick.

Claro! Mas esta é precisamente a dificuldade – como era no Começo, é agora, e será sempre, eternamente! Minha grande resposta à pergunta, Como se tornará você um milionário? É: Eu possuirei um milhão de libras. A “resposta” não é resposta; é a reprodução da pergunta.

Que tolo eu sou! E há pessoas que me consideram esperto. Ergo, talvez!

De qualquer forma, agora (12:37 a.m.) irei dormir tranqüilamente – como estou sempre dizendo, e nunca faço quando digo! – na esperança de que a luz do dia possa trazer conselho.

7:40 a.m. Acordei fresco e confortável. Sono cheio de sonhos e quebrado a curtos intervalos. Eu deveria observar que isto é um notável resultado do forjamento desta cadeia mágicka; pois em minha vida normal eu sou um dos homens de sono mais pesado que se possa imaginar. Nove horas sólidas sem me mexer é o meu irreduzível mínimo.

9:10 a.m. Tendo executado uma hora de iluminação do Novo Ritual, irei quebrar meu jejum com café e brioche, e depois irei ao atelier de Michael Brenner.

12:15 p.m. Passei a manhã modelando Siddhásana – uma tarefa mais difícil que parecera. Muito como A tarefa!

Mas eu continuei com o mantra, e fiz algumas reflexões sobre Kamma.

Eu agora tomarei um café e sanduíche à moda Yogui, e retornarei à minha iluminação do Ritual.

No deserto da minha alma, onde nenhuma erva cresce, corre ainda uma pequenina fonte. Eu tenho ainda um fito único, pelo menos no senso menos elevado de que eu não sinto nenhum desejo ou ambição além deste de realizar a Grande Obra.

Estéril tem sido esta minha alma, nestes três anos e meio de seca (os 3½ anéis de Kundalini são sugeridos por isto); e este Ekâgrata é a nuvenzinha em forma de mão (Yod, o Lingam do Grande Shiva). E, se bem que eu arregaço meu Robe e corro diante da carruagem do Rei para entrar em Jezreel, pode ser que antes que eu atinja esses portões o céu se torne uma flama negra de nuvens e trovões, e a espada violeta do raio rompa o túrgido útero, e a chuva, como uma criança nova, talvez dance no deserto!

12:58 p.m. A Luz começa a despontar sobre o Caminho; de forma que eu vejo um pouco melhor onde estou. Esta jornada inteira parece submetida a alguma outra fórmula que IAO – talvez uma fórmula do Pentagrama com a qual eu não estou familiarizado. Se eu soubesse a Palavra do Grau, eu poderia prever coisas; mas eu não sei.

Eu creio que vou ler tudo escrito no Relatório até agora, para ver se acho um fio de Ariadne.

1:15 p.m. De volta ao quarto, e mergulhado na pintura do Ritual.

2:30 p.m. Acabei; à parte o frontispício e o colofão, que eu posso desenhar e executar amanhã.

3:00 p.m. Tomei meia hora de folga, fazendo um desenho gaiato de um pôr-do-sol. Agora lerei todo o Relatório, e refletirei sobre ele.

4:15 p.m. “Antes eu estava cego; agora eu vejo!” Ontem eu estive bem no limiar do Umbral, de fato; mas fui repelido pelo Morador. Eu não vi o Morador até mais tarde (nota das 8:53 p.m.), porque ele era demasiado sutil. Eu examinarei cuidadosamente a trilha já percorrida para ver se o identifico; porque se eu “soubesse o seu Nome” eu poderia passar – i.e., da outra vez que eu subir até o Umbral do Pilono.

Eu creio que as anotações 1:25 e 3:35 da manhã explicam tudo.

“Embalando-me em meus próprios braços, por assim dizer”. Como é fatalmente acurada a descrição! Eu escrevi isto e nem percebi a cilada infernal! Eu deveria ter-me erguido e preparado cerimonialmente como uma noiva, e esperado de maneira mágicka apropriada. Também, eu fiquei demasiado contente com os Arautos da vinda do meu Senhor – a visão de Kephra, etc. Foi talvez esta sutil satisfação comigo mesmo que me perdeu... de forma que eu caí no chocante abismo de ontem à noite!

O Guardião do Umbral nunca é visível até depois que nós caímos; ele é um Deus Velado, e golpeia como o Cavaleiro Maligno em Malory, cavalgando e matando – e ninguém o vê.

Mas quando você é despenhado no Inferno, onde ele vive, então ele desvela sua Face, e fulmina você com seu horror!

Muito bem, John St. John, agora você sabe! Você é apenas John St. John, e você tem que subir novamente através dos caminhos até o Umbral; e lembre-se desta vez de mortificar aquela auto-satisfação! Faça a nova escalada mais reverentemente e mais humildemente – ó cão, como eu te detesto pela tua Vileza! Ter subido tanto – e estar assim caído agora.

4:40 p.m. A questão se apresenta: como mortificar essa auto-satisfação?

É sabido que ascetismo favorece o egoísmo; “como eu sou bom porque me abstive de jantar!” Quão nobre! Que renuncia!

Por outro lado, o honesto vinho nas pessoas diz: “De que grande gabola eu fiz o meu caixão!”

A resposta é simples, a velha resposta: Não penses em St. John e sua tolice; pense em Adonai!

Exatamente: a única dificuldade!

Minha melhor maneira será concentrar-me no Novo Ritual, aprendê-lo de cór perfeitamente, usá-lo no momento apropriado...

Eu irei agora, com esta idéia, tomar um citron pressé; então seguirei para o meu Restaurante Secreto para jantar, sempre aprendendo o Ritual.

Eu agora pararei com o mantra, se bem que a este ponto já é tão parte de mim quanto a minha cabeça; e em seu lugar, repetirei vez e vez mais as palavras do Ritual, de forma que possa executá-lo no fim com perfeita fluência e compreensão. E desta vez, que Adonai construa a Casa!

6:10 p.m. Em vez disso, eu encontrei o Dr. Rowland, que amavelmente se ofereceu a ensinar-me como obter visões astrais! (P.S. O tom desta nota não me faz justiça. Eu sentei-me paciente e reverentemente, como um chela com seu guru, esperando ouvir a Palavra de que eu necessitava.) Daí eu prossegui minha longa e solitária caminhada até o meu Restaurante Secreto, aprendendo o Ritual no caminho.

7:15 p.m. Cheguei ao Restaurante Secreto. Pedi 6 ostras, Râble de Lievre porvrade purée de marrons, e Glace “Casserole”, com uma garrafinha de água de Perrier.

Eu sei o Novo Ritual até o fim da Confissão.

Foi difícil parar o mantra – no momento em que o pensamento divagava, lá ele vinha novamente!

8:03 p.m. Eu adicionei Café Cognac a este deboche.

Continuo aprendendo o Ritual.

8:40 p.m. Eu agora retornarei e me humilharei diante do Senhor Adonai. Está perto a noite da Lua Cheia; em minha vida a Lua Cheia tem sido sempre de grande augúrio. Mas hoje à noite eu estou demasiado abatido para ter esperança.

Vede! Eu estava viajando nos caminhos de Lamed e de Mem, da Justiça e do Sacrificado, e caí nas ciladas de ambos. Em vez da Grande Balança firmemente segura, eu encontrei apenas Libra, a casa de Vênus e da exaltação de Saturno; e estes planetas malignos, um sorrindo e o outro franzindo a testa, me derrotaram. E assim com o sublime Caminho de Mem; em vez daquele símbolo do Adepto, seu pé firmemente plantado no céu, sua figura demonstrando o Reconciliador com o Invisível, eu encontrei apenas a água estagnada e amarga do egoísmo, o Mar Morto da Alma. Pois tudo é Ilusão. Quem diz “eu” nega Adonai, a não ser que ele queira por “eu” significar Adonai. E Daleth, a Porta do Pilone, é aquela Árvore da qual o Adepto do Homem está dependurado; e Daleth é Amor Superno, que, se é inserido na palavra ANI, “eu”, dá ADNI, Adonai.

Sutil és tu e mortífero, Ó Morador do Umbral (P.S. – Este nome não é acurado: Vigia ao Lado do Pilone é um título melhor; pois ele não está no caminho direto, que é simples, fácil, e aberto. Ele não é nunca “conquistado”; encontrá-lo é prova de que as pessoas se desviaram. A Chave dá perfeitamente na Portal; mas aquele que está embriagado com o mau vinho dos Sentidos e do Pensamento não dá com a fechadura. E, naturalmente, existe um bocado de porta e muito pouca fechadura), que usa o meu próprio amor a Adonai para me destruir!

Porém como me aproximarei d’Ele, se não com alegria reverente, com um espanto delicioso? Eu devo lavar Seus pés com minha lágrimas; eu devo morrer à Sua porta; eu devo... eu não sei que...

Adonai, sê terno comigo Teu escravo, e mantém as minhas pisadas no Caminho da Verdade!... Eu retornarei e me humilharei diante do Senhor Adonai.

10:18 p.m. Outra vez em casa; acabo de fazer algumas coisas necessárias, e estou pronto para trabalhar. Eu me sinto frouxo; e eu sinto que tenho sido relaxado, se bem que provavelmente o Relatório mostra uma razoável quantidade de trabalho executado. Mas eu estou terrivelmente magoado pela Grande Queda; estas graves coisas aparentemente deixam o corpo e a mente como antes; mas elas ferem o ser, e mais tarde isso é refletido nas partes menos elevadas do homem como insanidade ou morte.

Eu devo chegar à meta, ou... o fim de John St. John.

O fim dele, de um jeito ou de outro, então!

Adeus, John!

10:30 p.m. Gastei dez minutos em pura divagação! Cada vez fico pior.

10:40 p.m. Gastei mais de dez minutos em vão!

10:57 p.m. Suficiente humilhação! Pois se bem que eu marquei a cruz com Sangue e Flama, eu não posso nem manter-me concentrado em abjeção, a qual no entanto eu sinto tão agudamente. Que verme dos vermes eu sou! Eu tentei a nova estrita Siddhásana, apenas para descobrir que eu havia me magoado tanto esta manhã com ela que não posso suportá-la, mesmo com o travesseiro para apoiar o peito do pé.

Eu tentarei executar um Pranayama, para ver se posso ficar fazendo uma coisa só durante dez minutos pelo menos!

11:30 p.m. Vinte e cinco ciclos Respiratórios... Mas isto quase me matou. Eu estava repetindo o Ritual, e eu queria tanto chegar pelo menos à Formulação do Hexagrama, se não à Recepção. Tal como foi, eu interrompi sem poder mais durante a Passagem dos Pilones; felizmente, não antes de ter alcançado aquele de Tahuti.

Mas é uma boa regra: quando em dúvida, pratique Pranayama. Pois então não podemos mais nos preocupar com o Caminho: a questão é reduzida ao simples problema: Vou, ou não vou, arrebentar?

Eu consegui todo o suor e tremor do corpo que se pudesse desejar; mas não os “pulinhos como um sapo” ou levitação. Que pena!

11:45 p.m. Eu agora lerei um pouco do Yoga-Shastra como descanso. Depois, tratar do fim do dia e o Princípio do Nono Dia. Zoroastro (ou Pitágoras?) nos informa que o número Nove é sagrado, e atinge ao cume de Filosofia. Espero que sim!

11:56 p.m. Eu entro em Ásana… e assim acaba a Oitava Lição.

O Nono Dia

12:02 a.m. Assim eu comecei este grande dia, estando em meu Ásana firme e fácil, e contendo meu alento durante um minuto inteiro enquanto atirava minha vontade com todas as minha forças em direção a Adonai.

12:19 a.m. Compus-me para a noite. Continuarei um pouco, aprendendo o Ritual.

12:37 a.m. Tendo aprendido algumas passagens de natureza apropriada a se adormecer com elas, eu farei isto. Isto é, espero que sim; de certo a Reação da Natureza contra a Vontade Mágicka deve estar cedendo finalmente!

2:12 a.m. Eu acordo. Levo algum tempo para sacudir de mim o jugo sono, muito intenso e amargo.

3:04 a.m. Assim, John St. John – pois não é conveniente falar mais dele como “eu” – executou 45 ciclos respiratórios; durante 20 minutos ele teve que lutar contra a Raiz dos Poderes do Sono, e a obstrução da sua narina esquerda.

Durante seu Kumbhakham ele quis Adonai com toda a sua força.

Que ele durma, invocando Adonai!

5:40 a.m. Bem dormiu ele, e bem acordou.

A última nota deveria prolongar-se até 3:30 a.m. mais ou menos; provavelmente mais tarde; pois, invocando Adonai, ele novamente conseguiu os começos da Luz, e as vozes de “linhas cruzadas” muito fortemente. Mas desta vez ele foi felizmente capaz de concentrar-se em Adonai com algum fervor, e estas coisas deixaram de incomodá-lo. Mas o Perfume e a Visão não vieram, nem qualquer manifestação completa da L.V.X., a Luz Secreta, a luz que brilha na escuridão.

John St. John está outra vez muito sonolento. Ele tentará concentrar-se em Adonai sem executar Pranayama – muito mais difícil, naturalmente. É um supremo esforço manter ambos os olhos abertos ao mesmo tempo.

Ele deve fazer o melhor que possa. Ele não deseja acordar-se demais, também, para que mais tarde ele não durma demais, e perca seu encontro marcado com Michael Brenner para continuar moldando Siddhásana.

7:45 a.m. Novamente eu acordo... (Ó suíno! Tu sentiste em teu íntimo “Bom! Bom! A noite foi bem interrompida; tudo vai muito bem” – e tu escreveste “eu”! Ó suíno, John St. John! Quando aprenderás que o mínimo sintoma do teu presunçoso contentamento é grande Queda do Caminho?)

É melhor levantar-me e trabalhar um pouco; pois a besta cairia no sono.

8:25 a.m. John St. John levantou-se, depois executando 20 ciclos respiratórios, recitando interiormente o Ritual, 70 por cento do qual ele agora sabe de cór.

8:35 a.m. Ao Dôme – um café-croissant. Algumas provas a corrigir durante a refeição.

10:25 a.m. Tendo ido a pé para o atelier recitando o Ritual (9:25-9:55 a.m. aproximadamente), John St. John tomou a sua pose, e começou a luta. O Tremor Interior começou, e o aposento encheu-se com a Luz Sutil. Ele estava ao ponto de Concentração; o Lótus Violeta de Ajna apareceu, flamejando como um cometa maravilhoso; a Aurora começou a despontar ao fulminar ele com o Raio todo pensamento que se erguia nele, especialmente esta Visão de Ajna; mas medo – medo terrível! – apoderou-se do seu coração. Aniquilação o confrontava, aniquilação de John St. John, que ele havia durante tanto tempo se esforçado por obter; e no entanto ele não ousou. Ele tinha a pistola carregada apontada à cabeça; ele não pôde puxar o gatilho. Isto deve ter continuado por algum tempo; sua agonia ante o seu fracasso era tremenda; pois ele sabia que estava caindo; mas se bem que ele gritou mil vezes a Adonai com a Voz da Morte, ele não pôde – não pôde. Outra vez e de novo ele esteve em frente ao portal, e não pôde entrar. E as Flamas Violetas do Ajna triunfaram sobre ele.

E Brenner disse: “Vamos descansar um pouco!” – ó ironia! – e ele desceu do seu trono, cambaleando de fadiga...

Se puderdes conceber toda a sua vergonha e desespero! Sua caneta, escrevendo isto, forma mal uma letra, e ele pronuncia uma veemente maldição através dos seus dentes cerrados.

Ó Senhor Adonai, olha-me com favor!

11:30 a.m. Depois de cinco minutos de descanso (para o corpo, isto é), John St. John estava demasiado exausto ao reassumir sua pose, a qual, aliás, é o Sinal do Grau 7º=4º, para esforçar-me conscientemente.

Mas sua natureza mesma, forçada durante estes dias ao canal único de Vontade a Adonai, continuou a luta de seu próprio acordo. Mais tarde, o homem consciente tomou coragem, e tentou, se bem que não tão impetuosamente como antes. Ele passou através dos Raios de Ajna, cujas duas pétalas agora se espalharam como asas acima da sua cabeça; e a espantosa Corona do Sol Interior com seus fogos flamejantes apareceu, e declarou ser o Ente dele. Isto ele rejeitou; e o Informe Oceano de Brilho Branco o absorveu, venceu-o; pois ele não pôde atravessá-lo. Isto continuou repetindo-se, o homem transformado (por assim dizer) em um pujante Aríete, arrojando-se de novo e de novo contra as Paredes da Cidade de Deus para abrir uma brecha. – E por enquanto ele falhou. Falhou. Falhou. Exaustão mental e física quase que completa.

Adonai, olha com favor este Teu escravo!

12:20 p.m. Ele foi a pé, recitando o Ritual, procurar o Dr. Rowland e H – para almoçar. Eles esqueceram o encontro marcado, portanto ele continua e chega ao Lavenue às 12:04 p.m. depois de ler suas cartas e fazer uma ou duas coisas necessárias. Ele ordena Epinards, Tarte aux Fraises, Glace au Café, e ½ Evian. O desgosto por comida é grande; e o por carne chega a ser detestável. O tempo está excessivamente quente; pode ter sido assim disposto por Adonai para permitir que John St. John medite em conforto. Pois ele está solenemente votado a “interpretar todo fenômeno como um trato particular de Deus com sua alma”.

12:50 p.m. Durante o almoço, ele continuará corrigindo suas provas.

1:35 p.m. O almoço acabou, e as provas corrigidas.

1:45 p.m. Ele fará mais algumas decorações neste seu Ritual, e talvez desenhará o Frontispício e Colofão. Ele está muito cansado, e talvez durma.

2:25 p.m. Ele acabou a iluminação, tanto quanto possível. Agora ele se deitará na posição do Enforcado, e invocará Adonai.

4:45 p.m. Ele estava demasiado cansado para alcançar mais que a vizinhança daquele tremendo Limiar; portanto, ele desceu de meditação ao sono, e ali seu Senhor lhe deu doce descanso.

Ele se levantará, e tomará uma bebida – um citron pressé – no Dôme; pois o dia ainda está excessivamente quente, e ele tomou pouco refresco até agora.

4:53 p.m. Deve-se observar que todo este sono está cheio de sonhos extravagantes; raramente racionais, e nunca (claro) desagradáveis, ou nós nos levantaríamos imediatamente e trabalharíamos em um círculo todas as noites. Mas O.·.M.·. pensa que tais sonhos mostram uma condição excitada e desequilibrada do cérebro de John St. John; se bem que O.·.M.·. está quase demasiado intimidado para expressar qualquer opinião, fosse a questão apenas: “É relva verde?”

Todo cochilo e sono dos últimos três ou quatro dias, sem exceção, tem tido estas imagens.

A condição ideal, provavelmente, seria o olvido perfeito – ou será que (no Adepto) o Tamo-Guna, o Poder de Escuridão Elemental, está quebrado para sempre, de forma que Seu sono é vívido e racional como a vigília de outro homem; Sua vigília como o Samadhi de outro homem; e Seu Samadhi – ao qual Ele se esforça sempre - ?????

Pelo menos, está última perspectiva é sugerida pela fórmula de Recepção Rosa Cruz:

Que possa tua mente estar aberta ao Altíssimo!

Possa teu oração ser o Centro de Luz!

Seja teu corpo o Templo da Rosa Cruz!

E pela afirmativa hindu que no Yogui que alcançou a consecução a Kundalini dorme no Swadistthana, não mais no Muladhara.

Vede também a lição Rosa Cruz sobre o Microcosmo, onde esta opinião é certamente defendida: os Qliphoth de um Adepto sendo equilibrados e treinados para encher o seu Malkuth, desocupado pelo Nephesch purificado que subiu para viver em Tiphareth.

Ou assim, pelo menos, O.·.M.·. entendeu essa leitura.

A outra idéia, da Luz descendo e enchendo cada princípio com sua glória é, parece-lhe, menos fértil; e menos de acordo com qualquer idéia de Evolução.

(Que pensaria Judas McCabbage?)

E as pessoas podem facilmente compreender que tremenda é a tarefa do postulante, pois que ele tem que glorificar e iniciar todos os seus princípios, e treiná-los às suas tarefas novas e superiores. Isto seguramente explica melhor os terríveis perigos do caminho...

Faz alguns anos, no Rio Vermelho na China, John St. John viu, em todo canto daquela rápida e perigosa correnteza, um amontoado de restos de naufrágio.

Ele, em perigo dele mesmo, pensou em sua carreira mágicka. Alcoolismo, insanidade, doença, mania, morte, roubo, prisão – todo inferno terrestre, reflexo de algum erro espiritual, havia lhe tomado os companheiros. Às dúzias fora aquele bando arrebatado e varrido, despedaçado sobre um rochedo ou outro. Ele, quase só sobre aquela raivosa torrente, ainda persistia, sua vida a cada instante o brinquedo de forças gigantescas, tão enormes que eram (quando desencadeadas) completamente fora de proporção a toda coragem, destreza ou argúcia humanas – e ele persistiu em seu curso, humildemente; não desesperadamente; não com medo; mas com uma duradoura certeza de que ele resistiria até o fim.

E agora?

Neste grande Retiro Mágicko ele se chocou contra muitas rochas, abriu muitas brechas em seu barco; as águas do Falso Mar espumejam sobre a proa, montam e pesam nas alhêtas – estará ele talvez já naufragado, sua situação desesperada oculta aos olhos dele, por enquanto, pela própria cegueira? Pois, ofuscado como ele está pelo brilho deslumbrante do Sol Espiritual desta manhã (o qual no entanto ele contemplou apenas obscuramente), para ele, agora, mesmo a luz da terra parece escura. O leme da Razão está quase quebrado; e no entanto, sob a pequenina vela-de-tormenta da sua Vontade a Adonai, o barco louco permanece em curso, manobrado pelo remo da Disciplina – Sim, ele permanece em seu curso. Adonai! Adonai! Não está o porto ainda à vista?

6:07 p.m. Ele retornou a casa e queimou (como toda noite desde que este chegou) o santo incenso de Abramelin, o Mago.

A atmosfera está cheia de vitalidade, adoçada e fortalecida; a alma, natural e simplesmente, se volta à tarefa santa com vigor e confiança; os demônios negros da dúvida e do desespero fogem; já se pode respirar um prenúncio do Perfume, e quase obter uma premonição da Visão.

Portanto, que o trabalho continue.

6:23 p.m. 7 ciclos respiratórios, bem difíceis. As roupas são uma amolação, e fazem toda a diferença.

6:31 p.m. John St. John está mais abatido pelo fracasso de hoje de manhã do que ele queria admitir. Mas o fato permanece: ele não pode concentrar sua mente por três segundos que seja. Quão desesperançado isto nos faz! Eu penso que pelo menos ainda sou capaz do usual – e me desengano.

Esta, aliás, é a suprema utilidade de um relatório como este. Torna-se impossível que nos enganemos e nos embalemos em ilusão.

Bem, ele tem que acumular mais cavalos-vapor de algum jeito, mesmo que a caldeira arrebente. Talvez jantar mais cedo, com Ritual, induza aquela Energia Entusiástica de que escrevem os Gnósticos.

Hoje de manhã o inteiro Sankhara-dhatu (a tendência do ser St. John) estava operando direito. Agora, por nenhum esforço de vontade pode ele fustigar o seu gado cansado ao longo do trilho.

Uma coisa tão mesquinha ele se tornou que ele irá mesmo buscar um Oráculo ao livro de Zoroastro.

Feito. Zoroastro respeitosamente deseja observar que “Os mais místicos discursos nos informam – Sua integridade está na Ordem Supra-Mundana; pois lá um Mundo Solar e uma Luz Infinita subsistem, como afirmam os Oráculos Caldeus”.

Não ajuda muito, ajuda?

Como se a adivinhação pudesse jamais ajudar em planos tão exaltados! Como se os enganadores elementais que operam estas coisas possuíssem os Segredos do Destino de um Adepto, ou pudessem auxiliá-lo em sua agonia!

Por esta razão, a adivinhação deveria ser abandonada logo de início: é apenas um “mero brinquedo, a base de fraude mercenária”, como Zoroastro mais praticamente nos assegura.

No entanto, nós podemos conseguir algo com o Tarot (ou outro método inconveniente) espiritualizando todo o significado ao ponto de desvanescência, até a intuição penetrar aquela parede nua da ignorância.

Que O.·.M.·. medite sobre este Oráculo enquanto sai para alimentar o corpo de John St. John – e assim alimentar seu próprio corpo!

6:52 p.m. Sai, sai para o cocho! Vai dar de comer à besta!

6:57 p.m. Aparando sua barba em preparação para sair, ele reflete que o tom deplorável (como diria o nosso Reitor) da última nota não é o grito da besta esfomeada, mas sim do escravo impelido além de suas forças.

“Adonai, aplica Teu chicote! Adonai, carrega na cadeia!”

7:25 p.m. Que diabo está acontecendo com o tempo? As horas voam como borboletas – a Lua, cheia a rebentar, alumia o Boulevard. Minha Lua – Lua cheia do meu desejo! (Ha, ha, tu besta! Então, “Eu e Mim e Meu” não morreram ainda?)

Sim, Senhor Adonai! Mas a lua cheia significa muito para John St. John; ele teme (teme, Ó Senhor do Pilone do Oeste!) que, uma vez passe a lua cheia, ele não consiga passar...

“A colheita acabou, o verão findou, e nós não estamos salvos!”

No entanto, não arrasou Abramelin a tolice de limitar os caminhos espirituais pelos movimentos dos planetas? E Zoroastro também, naquele mesmo oráculo já citado?

7:35 p.m. Hors d’Oeuvres, Bouillabasse, Contrefilet Rôti, Glace. ½ Graves.

A verdade é que o Chittam está excitado e corre, o controle estando avariado; e o Ego está subindo à tona novamente.

7:50 p.m. Esta correria do Chittam é simplesmente chocante. John St. John precisa pará-lo de algum jeito. Horas e horas parecem ter passado desde a última nota.

7:57 p.m. Ele está com tanta pressa que (em um momento de lucidez) ele se percebe tentando comer pão, rabanete, carne e batata de uma só vez.

Pior, a besta está divertida e excitada com a novidade da sensação, e sente prazer em anotá-la.

Besta! Besta!

8:03 p.m. Depois de miríadas de æons. Ele bebeu apenas por volta de um terço da sua meia garrafa de vinho branco leve; no entanto, ele está como um bebedor de haxixe, porém pior. A perda do senso de tempo causada por haxixe ele experimentou durante seus testes com aquela droga em 1906; mas de forma pouco importante. (Danação sobre ele! Está todo alegre! Ele chama isto um Resultado. Um resultado! Danação sobre ele!) O.·.M.·. que escreve isto está tão zangado com ele que deseja rabiscar a página toda com as maldições mais medonhas! E John St. John quase atirou uma garrafa no garçom por este não ter trazido o prato seguinte do jantar. Não lhe será permitido acabar com este vinho. Ele pede água gelada.

8:12 p.m. As coisas vão um pouco melhor. Mas ele tenta 100 pequenos movimentos musculares, comprimindo a mesa com seus dedos em ritmo; e experimenta uma quase irresistível tendência de apressar. Este relatório está sendo escrito com uma rapidez de relâmpago... Uma tentativa de escrever devagar é dolorosa.

8:20 p.m. O pensamento, também, está divagando pelo mundo inteiro. Desde a última nota, a besta muito provavelmente não pensou uma só vez em Adonai.

8:35 p.m. A Leitura do Ritual ajudou muito, se bem que as coisas estão ainda longe de calmas. No entanto, a tremenda correnteza do Chittam está novamente rolando a sua gigantesca maré em direção ao mar – o Mar da aniquilação. Amém.

9.00 p.m. Retornando a casa, com seus olhos fixos na suprema glória da Lua, em seu coração e cérebro invocando Adonai, ele agora entrou no seu quartinho, e prepara todas as coisas para a devida execução do Novo Ritual, o qual ele sabe de cór.

9:35 p.m. Quase pronto. Em um estado de tensão mágicka muito intensa – tudo pode acontecer.

9:48 p.m. Lavado, pôs o Robe, o Templo em ordem. Esperará até as 10 horas e começará com a primeira pancada do relógio. O.·.M.·. 7º=4º começará; e então solenemente renunciará a todos os seus Robes, Armas, Dignidades, etc., renunciando aos seus Graus mesmos através do processo de traçar os sinais deles às avessas em direção ao exterior. Ele conservará apenas uma coisa: o Anel Secreto que lhe foi confiado pelos Mestres; pois disto ele não se pode desfazer, mesmo se quisesse. Esta é a própria Palavra de Passe do Ritual; e será posto no seu dedo quando ele tiver renunciando a tudo mais.

11:05 p.m. A cerimônia vai admiravelmente. Imagens Mágickas fortes. À Recepção, vede! O Signo da Ordem Suprema, em um braseiro de glória de que não se pode falar. E ali, entrevisto, o símbolo de meu Senhor Adonai, como um pujante Anjo brilhante com luz infinita.

De acordo com o Ritual, O.·.M.·. retirou-se da Visão; a Visão do Universo, um regirante abismo de sóis coruscantes de todas as cores; no entanto impregnado e dominado por aquele superno brilho. Mas O.·.M.·. recusou a Visão; e um conflito começou e continuou durante muitas idades – assim pareceu. E agora todos os inimigos de O.·.M.·. se reuniram contra ele. Os mesquinhos acontecimentos do dia de hoje; as irritações mesmas do seu corpo, as emoções dele, os planos dele, suas preocupações com o Relatório e o Ritual e – Ó! Tudo! – e, também, os pensamentos que estão ainda mais próximos ao grande Inimigo, o senso de separação; aquele senso mesmo, finalmente – e então O.·.M.·. retirou-se do conflito por um momento, de forma que, o dever deste Relatório tendo sido executado, isto o deixasse livre para a luta.

Talvez tenha sido uma armadilha – possa o Senhor Adonai conservá-lo no Caminho.

Adonai! Adonai!

(P.S. – Acrescente que a luz “ultravioleta” ou “astral” no quarto era tão forte que era brilhante como luz do dia. Ele nunca viu coisa semelhante, nem mesmo na cerimônia que ele executou na Grande Pirâmide de Gizeh.)

11:14–11:34 p.m. O.·.M.·. então passou de visão a visão de esplendor sem par. O infinito abismo do espaço, um orbe, sem raios, de brilho líquido e incolor, apagando-se além das bordas em uma flama de brancura e ouro... A Rosa Cruz flamejando com lustro inefável... e mais, muito mais, que dez escribas dificilmente poderiam catalogar em um século.

A Visão do Sagrado Anjo Guardião, mesma; porém, Ele foi visto de longe, não intimamente...

Portanto O.·.M.·. não está contente com todas estas maravilhas; mas fechará agora ordeiramente o Templo, isto no Começo do Décimo Dia – e Dez são as Santas Sephiroth, as Emanações da Coroa; Abençoada seja Ela!... E ele poderá fazer novas considerações sobre esta Operação, com as quais ele talvez descubra qual é o erro pelo qual ele falha tão repetidamente.

Fracasso. Fracasso.

11:49 p.m. O Templo está fechado.

Agora então, Ó Senhor Adonai! Que o Décimo Dia seja favorável a O.·.M.·.. Pois na luta ele é sem nenhum valor. Nem valente, nem afortunado, nem hábil – a não ser que Tu lutes a seu lado, cubras seu peito com Teu escudo, secundes os seus golpes com Tua lança e Tua espada.

Sim! Que o Nono Dia termine em silêncio e escuridão, e que O.·.M.·. seja visto vigiando e esperando e querendo Tua Presença.

Adonai! Adonai! Ó Senhor Adonai! Que Tua Luz ilumine o Caminho daquele mísero cego John St. John, aquele ser que, separado de Ti, está separado de toda Luz, Vida, Amor.

Adonai! Adonai! Que seja escrito de O.·.M.·. que “o Senhor Adonai o rodeia todo como um Raio, e um Pilone, e uma Cobra, e um Phallus; e no meio Ele é como a Mulher que esguicha o leite das estrelas de seus seios; sim, o leite das estrelas de seus seios”.

O Décimo Dia

12:17 a.m. Agora que o perfume do incenso claramente se dissipou, pode-se sentir fortemente o Perfume Invocado da Cerimônia. E este perfume místico de Adonai é como puro Almíscar, mas infinitamente sutilizado – bem mais forte, e ao mesmo tempo bem mais delicado. (P.S. – Dúvida sobre este perfume; talvez haja uma explicação corriqueira para ele. No balanço da evidência, cuidadosamente considerada, tende-se a favorecer a teoria mística.)

Deve-se acrescentar aqui um curioso augúrio. Sentando-se para a grande luta (11:14 p.m.), John St. John achou um prego sobre o assoalho a seus pés. Ora, um prego é Vau em hebraico, e o Trunfo do Tarot correspondendo a Vau é o Hierofante ou Iniciador – o que amplamente conforta O.·.M.·..

Uma tão mísera coisa ele se tornou!

Mesmo tal como uma criancinha tateando em sua fraqueza atrás de sua mãe, assim tenteia Tua criancinha à Tua procura, Ó Tu Resplandecente Com Tua Própria Luz!

12:55 a.m. Ele leu por completo o relatório dos dias VIII e IX.

Ele está demasiado cansado para compreender o que lê. No entanto, a despeito disto tudo, ele praticará um pouco de Pranayama, e então irá dormir, sempre querendo Adonai. Pois Pranayama com seu intenso esforço físico é um grande remédio para a mente. Mesmo como o longo trilho do deserto, o convívio com os ventos e as estrelas, a marcha diária com sua luta contra o calor, a sede e a fadiga, curam todos os males da alma, assim Pranayama dispersa os fantasmas que Mayan, o terrível fazedor de Ilusão, espalha como obstáculos no Caminho.

1:13 a.m. 10 Ciclos Respiratórios; calmos, perfeitos, sem o mínimo esforço; suficientes para ire-se dormir após eles.

Ele lerá o Ritual do princípio ao fim uma vez, e então dormirá.

(O Pranayama precipitou um curto ataque de diarréia, provocado pela friagem da Cerimônia.)

6:23 a.m. Ele dormiu das 1:45 a.m. (aproximadamente) até agora. A manhã é fria e úmida; choveu.

John St. John está horrivelmente cansado; o “controle” está por um fio. Ele leva cinco minutos para se decidir, cinco mais para se lavar e escrever isto. E ele tem um milhão de desculpas para não praticar Pranayama.

6:51 a.m. 15 Ciclos Respiratórios, suficientemente firmes e fáceis.

O cérebro está fresco e lúcido; mas não existe energia nele. Pelo menos, nenhum Sammaváyamo. E no presente, a Superinscrição na Cruz de John St. John é FRACASSO.

Maravilhosos e múltiplos que são os resultados dele, ele os rejeitou e os considera como refugo... Isto está certo, John St. John! No entanto, como é que há chance para o grande demônio corcunda de cochichar em tua orelha a dúvida: Será que existe em verdade algum caminho místico? Não será tudo desapontamento e ilusão?

E a “Pobre Coisa” John St. John vai-se de rabo entre as pernas, trêmulo e triste, como um beberrão que tentou comprar fiado numa taverna e foi rejeitado – e isto na Véspera de Natal!

Não há dinheiro em sua bolsa, nem vapor nas suas caldeiras – eis o que se passa com John St. John.

Está bem claro o que aconteceu ontem. Ele fracassou nos quatro Pilones, um por um; de manhã, o Medo estancou-o naquele de Hórus, e assim por diante; enquanto que à noite ele ou falhou no Pilone de Thoth (i.e., foi obsediado pela – alegada – necessidade de anotar seus resultados), ou falhou em conquistar a dualidade de Thoth. Outrossim, mesmo se ele compreendeu a base, ele seguramente falhou no ápice da Pirâmide.

Em qualquer caso, ele não pode culpar a Cerimônia, que é potentíssima; um ou dois pequenos detalhes talvez necessitem correção, mas não mais.

Aqui está ele, então, ao pé do morro novamente, um Sísifo Rosacruz com a Pedra dos Filósofos! Um Ixion ligado à Roda do Destino e do Samsara, incapaz de alcançar o centro, onde há Repouso.

Ele deve acrescentar à nota das 1:13 a.m. que as vozes “linhas cruzadas” vieram enquanto ele se compunha para o sono, na Vontade de Adonai. Desta vez ele destacou uma tropa de cavalaria para dispersá-las. Talvez uma divisão pouco sábia das suas forças; mas ele estava tão justamente indignado com as eternas ilusões que ele pode ser desculpado.

Desculpado! Por quem? Tu deves ter sucesso ou fracassar! Ó homem com o bastão, com tua frágil fortaleza de Três em Um, o Juiz grita “Fora”; e tu explicas o que aconteceu aos teus amigos nos chuveiros. Mas teus amigos já ouviram essa história, e tua explicação não aparecerá na contagem dos pontos.

O recorde dirá Sr. John St. John X Maya, 0, no jornal local. Não há jeito de explicar isto!

Fracassado! Fracassado! Fracassado!

Agora então eu tomarei (7:35 a.m.) a posição do Enforcado, e invocarei Adonai.

9:00 a.m. Provavelmente o sono retornou depressa. Não foi uma boa noite, se bem que sem sonhos, tanto quanto a memória se lembra.

A chuva desce lentamente, sem acabar com a secura, mas ensopando as ruas.

A chuva de outono, não a chuva de primavera!

Assim é nesta alma, Senhor Adonai. O pensamento de Ti é pesado e inquieto, bambo e solto, como uma velha gorda, bêbada ao ponto de estupor em seu cortiço; que foi como uma jovem num campo de lírios, reta como uma seta, forte de sol, pura de lua, uma forma toda esbelteza e pronta atenção, dançando, dançando de sua própria exuberância de vida.

Adonai! Adonai!

9.17 a.m. Levantei-me, vesti-me, etc., refletindo sobre o Caminho. Mais cego que nunca! O cérebro está em revolta; tem sido reprimido por demasiado tempo. No entanto, é impossível descansar. É tarde demais. O Deus Irresistível, cujo nome é Destino, foi invocado, e Ele respondeu.

O assunto está em Suas mãos; Ele deve terminá-lo ou com aquela poderosa Experiência espiritual que eu tenho buscado, ou com loucura completa, ou com a morte. Pelo Corpo de Deus, jura que a morte seria – bem-vinda, bem-vinda, bem-vinda!

E a Ti, e de Ti, Ó tu grande Deus Destino, não há apelo. Tu não te desvias um fio de cabelo da tua rota prescrita.

Aquilo que “John St. John” significa (ou então o nome nada vale), é o que deve ser – e o que é aquilo? O resultado é Contigo – não podemos então esperar com bravura, quer pelo Salão de Festins do Rei, quer pelo Carrasco e o Cepo?

9:45 a.m. Quebra-jejum: croissant, sanduíche, dois cafés. Concentrando-me fora da Obra tanto quanto possível.

10:10 a.m. Cheguei ao atelier de Brenner. O descanso produziu uma idéia luminosa: por que não acabar tudo com destruição? Digamos um grande ritual de Geburah, maldições, maldições, maldições! John St. John não deveria ter esquecido como amaldiçoar. Em seus dias em Witsdale Head pessoas caminhavam milhas para ouvi-lo xingar!

Maldição sobre todos os Deuses e todos os Demônios – todas essas coisas, em suma, que compõem John St. John. Pois esse – como ele sabe agora – é o Nome do grande Inimigo, o Guardião do Umbral. Foi aquele poderoso espírito cujo horror informe o repeliu, pois isso era ele!

Agora, então, retornar à concentração e à Vontade a Adonai.

10:20 a.m. Uma coisa está bem: o voto de “interpretar todo fenômeno como um trato particular de Deus com a minha alma” está se mantendo. Toda impressão que atinge o consciente é por este tornada em um símbolo ou um símile da Obra.

11:18 a.m. Terminada a pode; recitei o Ritual, que agora sei de cór; então quis Adonai: completamente sem concentração.

Para que este Relatório seja bem interpretado, porém, deve ser compreendido que o “Padrão de Vida” sobe em uma progressão incrível. O que eu consegui hoje teria sido anotado há cinco dias como “Alto grau de concentração; sucesso além de todas as minhas expectativas”.

Os fenômenos que hoje eu descarto com enfado são os mesmos que John St. John trabalhou durante quatro anos, continuamente, para conseguir; e que, quando conseguidos, pareciam ultrapassar o possível da glória. A corrente do Chittam está novamente sendo acumulada pela represa da Disciplina. Há menos dor de cabeça, e mais senso de estar no Caminho – esta é a única maneira de expressar isto.

11:45 a.m. Pior e pior; se bem que a pose está até mais bem mantida que antes.

Em desespero, eu recorri a uma simples prática, a fixação da mente em um único objeto imaginado; neste caso o Triângulo com a Cruz sobreposta. Parece bem fácil fazer isto hoje em dia; por que não deveria conduzir ao Resultado? Supunha-se que o faria.

Talvez valha a pena tentar, de qualquer jeito; as coisas dificilmente poderiam ser piores do que já são.

Ou, poderíamos ir ao Hammam, e tomar um longo banho e dormir – mas quem pode dizer se isto me daria descanso e me refrescaria, ou apenas destruiria o edifício inteiro tão laboriosamente construído nestes dez dias?

12:15 p.m. No Panthéon. ½ Marennes, Rognons Brochette, Lait chaud.

John St. John está todo dolorido, não pode de jeito nenhum colocar-se em uma posição confortável; está faminto, e não tem apetite; sedento, e detesta o pensamento de beber!

Ele deve fazer alguma coisa – alguma coisa bem drástica, ou ele estará em séria situação de corpo e mente – as sombras da sua alma, a qual está doente ao ponto de morrer. Pois “onde estão agora os seus deuses?” Onde está o Senhor, o Senhor Adonai?

12:35 p.m. A besta decididamente sente-se melhor; mas quanto a se estar mais concentrado, eu duvido. Honestamente, ele está agora tão cego que não pode decidir!

Talvez um “café, cognac e cigare” o estimulem ao ponto de, ou regressar ao trabalho, ou atravessar Paris para ir ao Hammam.

Ele fará o experimento, lendo as suas provas tipográficas.

Uma boa coisa: O Chittam está se movendo lentamente. Os garçons todos o apressam – que contraste com ontem à noite!

1:15 p.m. As provas lidas novamente. John St. John não está se sentindo nada bem.

2:15 p.m. Um passeio ao longo do Boul’ Mich’ e uma visita ao atelier de Morrice melhoraram bastante as coisas.

3:30 p.m. A cura continuada. Não há preocupação quanto ao Trabalho, mas um esforço para pô-lo por completo fora da mente.

Um café creme, quarenta minutos na Academie Marcelle – uma luta tremenda, ao vale-tudo – e J.S.J. está no Luxembourg, para ver as lindas pinturas.

3.40 p.m. A prova do pudim, observa o mais místico dos discursos (certamente!), está em Comê-lo.

Poder-se-ia com justiça objetar contra quaisquer Resultados destes Dez dias de tensão. Mas se saúde abundante e nova capacidade para muito trabalho for o efeito, quem se atreverá a atirar uma pedra?

Não que isto importe um tostão para o Adepto. Mas outros podem ser impedidos de entrar no Caminho pela tola tagarelice dos ignorantes, e assim flores podem ser perdidas que deveriam ir fazer parte da sempre verde coroa de Adonai. Ah, Senhor, colhe-me completamente pela raiz, e põe aquilo que Tu colhes como uma flor sobre Tua fronte!

4:10 p.m. Voltou a pé ao Dôme para beber um citron pressé, através dos lindos jardins, tristes com suas folhas caídas. Refletindo no que o Dr. Henry Maudsley uma vez lhe escreveu sobre o misticismo. “Como outros maus hábitos (ele poderia ter dito “Como todos os seres vivos”), o misticismo cresce com aquilo de que se alimenta”. Importantíssimo, então, aplicar constantemente o nosso espírito crítico a todo o nosso trabalho. Mesmo a devoção a Adonai poderia se tornar suspeita, não fosse a definição de Adonai.

Adonai é aquele pensamento que infunde, fortifica e purifica; suprema sanidade e supremo gênio. Qualquer coisa que não seja isto não é Adonai.

Daí a recusa de todos outros Resultados, por mais gloriosos; pois eles são todos relativos, parciais, impuros. Anicca, Dukkha, Anatta: Mudança, Sofrimento, Insubstancialidade; estas são as características deles, por mais que eles pareçam ser Atman, Sat, Chit, Ananda: Alma, Ser, Conhecimento e Felicidade.

Mas a consideração principal era a de conveniência. Não tem John St. John, possivelmente, estado a se entupir de Métodos e Resultados?

Certamente esta manhã foi mais como um estômago sobrecarregado de comida que como uma carraspana após uma bebedeira.

Uma falta menos grave, bem menos; é fácil e absurdo ter-se uma espécie de êxtase histérico em religião, amor, ou vinho. Um alemão tirará seu chapéu e dançará e yolerê-lará ao nascer do Sol – e nada mais sai disso! Darwin estuda a Natureza com mais reverência e entusiasmo, porém sem exibições – e lá sai a Lei de Evolução. Assim está escrito: “Pelos seus frutos os conhecereis”. Mas, nesta questão de enfarte espiritual, que foi que Darwin fez quando chegou ao estágio (ao qual ele chegou, ficai certos! Muitas vezes) em que queria mandar ao diabo todos os pombos do mundo?

Não que este desejo tenha realmente aparecido em John St. John; por pior que ele se sentia, ele sente sempre que a Consecução é a única saída. Este é o bom Karma dos seus dez anos de esforço constante.

Bem, no final das contas, ele voltará ao Trabalho imediatamente, e espera que as suas recentes poucas horas no mundo se provem um legítimo movimento estratégico para a retaguarda, e não um eufemismo de fuga desabalada!

5:04 p.m. Existem outras sérias considerações a fazer a respeito de Adonai. Este título do Pensamento Desconhecido foi adotado por O.·.M.·. em Novembro de 1905, na Burma Superior, na ocasião de sua passagem através do ordálio, e sua recepção do Grau, que deveria realmente ser atribuído a Daath (por causa da sua natureza, a Mestria da Razão), se bem que é comumente chamado 7º=4º.

Pareceu-lhe naquele período que tanta conversa e tempo eram desperdiçados discutindo a natureza da Consecução (uma discussão predestinada ao fracasso, na falta de qualquer Conhecimento, e em vista da natureza auto-contraditória da Faculdade de Raciocínio quando aplicada à Metafísica) que seria mais sábio abandonar a questão por inteiro, e concentrar-se em um simples Progresso Mágicko.

O Passo seguinte para a humanidade em geral seria então “o Conhecimento de Conversação do Sagrado Anjo Guardião”.

Uma coisa de cada vez.

Mas aqui ele se vê a discutir e discutir consigo mesmo a natureza daquele Conhecimento.

Muito melhor agir como até agora, e aspirar simples e diretamente, como uma pessoa aspira outra; sem se importar com as objeções críticas (completamente insuperáveis, naturalmente) contra esta, ou qualquer outra, concepção.

Pois como esta experiência transcende a razão, é inútil arrazoar sobre ela.

Adonai, eu Te invoco!

Mais simples, então, retornar à dicção Egoísta, lembrando-nos sempre, apenas, de que por “eu” é significado de John St. John, ou O.·.M.·., ou Adonai, dependendo do contexto.

5:30 p.m. Li alguns d’Os Livros para induzir-me novamente ao Trabalho.

Portanto eu acenderei o Santo Incenso, e me voltarei novamente em direção ao Pensamento Único.

6:27 p.m. Todo este tempo na posição do Enforcado, e pensando em tudo menos isso.

Tão ruim quanto no primeiro dia!

7:10 p.m. Mais perda de tempo, assistindo, sem motivo algum, a um jogo de pôquer. Fui a pé ao Café de Versailles. Jantar. Hors’ Oeuvres, Escargots, Cassoulet de Castelnaudary, Glace, ½ Evian. Sinto-me completamente vazio. Não tenho nem mesmo a coragem do desespero. Não existe nada em mim para se desesperar.

Pouco me importo.

7:35 p.m. Um raio de luz ilumina o escuro caminho – eu não posso saborear o meu jantar. Os caramujos, quando os puxo da casca com o garfo, são tão feios, gosmentos, gordurosos horrores negros! Tão parecidos com a minha alma!... Ugh!

Eu escrevo uma carta a Fuller e assino meu nome com um pentagrama interrompido.

Faz-me pensar em um “busted flush”.

Mas através de tudo a luz do sol espia: e.g., estes seus caramujos eram as minhas seis almas inferiores; a sétima, a verdadeira alma, não pode ser comida pelo devorador.

Que tal isto para altitude?...

8:03 p.m. Possivelmente um mantra estimulador consertaria as coisas; por exemplo, digamos o Velho Favorito:

Aum Tat Sat Aum

e demos uma chance aos hindus.

Pelo menos podemos tentar.

Portanto, eu começo imediatamente.

9:10 p.m. Isto é intolerável. Outra hora desperdiçada conversando com Nina e Howard. O mantra mal lembrado, quase esquecido. Eu fui para a cama, e tomarei as coisas sob controle seriamente, mesmo que o esforço me mate.

9:53 p.m. Desde as 9:17 p.m. pratiquei Pranayama, se bem que me permitindo algumas irregularidades pela ocasional omissão de um Kumbhakham.

É muito difícil persistir. Eu me percebo, ao fim da sentença acima, automaticamente me metendo na cama.

Não, John!

10:14 p.m. Tenho estado tentando extrair algum senso daquele extraordinário tratado de misticismo, “Konx Om Pax”. Outro fracasso, mas perdoável.

Eu agora implorarei a Adonai, o melhor que possa, que me devolva meus poderes perdidos.

Pois eu nem um Magista sou mais! Estou tão perdido no meio das ilusões que fabriquei na busca por Adonai, que me tornei a mais vil delas todas!

10:27 p.m. Uma experiência estranha e desagradável. Meu pensamento subitamente se transmutou em um grito muscular, de forma que minhas pernas deram um violento arranco. Isto, creio eu, é no fundo a explicação do Bhuchari-Siddhi. Uma forma muito má de pensamento incontrolado. Eu estava ao ponto de dormir; e fenômeno acordou-me.

O fato é, tudo acabou! Eu estou perdido! Eu tentei a Grande Iniciação e fracassei; estou sendo varrido para dentro de estranhos inferno.

Senhor Adonai! Que os fogos sejam purificadores; que eles “balancem, destruam, assolem!”

Eu suponho que esta audaciosa e imprudente tentativa acabará em Ataxia Locomotor ou G.P.I.

Pois que acabe! Eu vou persistir.

11:47 p.m. O primeiro poder a regressar é o poder de sofrer.

A vergonha disto! A tortura disto!

Eu dormitei intermitentemente, como um homem que está muito doente. Eu tenho apenas medo de não acordar para o Fim do dia.

Deus! Que dia!

Eu não ouso confiar em minha vontade para que me mantenha acordado; portanto eu me levanto, lavo-me, e caminharei em volta do quarto até chegar a hora de minha Ásana.

Sede! Ó, como tenho sede!

Eu não teria imaginado que pudesse haver tal sofrimento.

O Décimo Primeiro Dia

12:19 a.m. Parece uma parva coisa de que se orgulhar, simplesmente de estar acordado. No entanto eu fiquei enrubescido de triunfo como um menino que ganhou a sua primeira corrida.

Os poderes de Ásana e Pranayama retornam. Eu pratiquei 21 ciclos respiratórios sem fadiga.

A energia retorna, e Argúcia para prosseguir no Caminho – tudo isto frutos daquela única vitória sobre o sono.

Quão delicados são estes poderes, por simples que pareçam!

Possa eu ser muito humilde, agora e para todo o sempre!

Certamente, pelo menos aquela lição foi marcada a fogo em mim.

E quão alegremente eu daria todos estes poderes pelo Único Poder!

12:33 a.m. Outro agudo ataque de diarréia. Eu tomo 4 g Plmb. C. Ópio e modifico a minha determinação de permanecer fora da cama a noite inteira, pois um resfriado é sem dúvida a causa principal.

É realmente extraordinário como o mínimo sucesso acorda uma horda monstruosa de demônios egoístas, pavões vaidosos e cheios de pose, enfeitando-se e exibindo-se e gritando!

Isto é simplesmente de nos danar, o Egoísmo é a espora de toda energia, de certo modo; e neste caso particular é a única coisa que não é Adonai (o que quer mais que seja), e assim é a antítese da Obra.

Tijolos sem palha, realmente! Facílimo. Este trabalho é como ser solicitado para julgar um concurso entre Bandas de Música, e ser informado que eu posso fazer o que quiser, menos escutar. Ainda pior! Eu poderia formar alguma idéia de como elas estão tocando através dos outros sentidos; mas no presente caso, toda faculdade é inimiga da Obra. À primeira vista o problema parece insolúvel. Talvez seja assim, para mim. Pelo menos, eu ainda não o resolvi. No entanto, eu cheguei bem perto disso, muitas vezes, no passado; resolvi-o realmente, se bem que em um senso menos importante que aquele que agora busco. Eu não devo contentar-me com pouco ou muito; mas somente com a Ultimal Consecução.

Aparentemente, o método é apenas este: acumular – não importa como – desta mesma forma, um engenheiro – um metro e setenta de altura calçado – através de seus homens constrói uma represa. As neves se derretem nas montanhas, o rio sobe, e a terra árida é irrigada, de uma forma completamente independente da força física daquele metro e setenta do engenheiro. O engenheiro poderia até ser arrebatado e afogado pelas forças que ele mesmo organizou. Assim também o Reino dos Céus.

E agora (12:57 a.m.) John St. John irá dormir, invocando Adonai.

1:17 a.m. Não posso dormir nem concentrar-me.

Em vez disso, grotescas imagens “astrais” de um tipo bem baixo, como gargoyles.

Eu suponho que terei que jogar alguns pentagramas para tira-las daqui como um maldito Neófito. “Je m’emmerde!”

3:08 a.m. Louvado seja o Senhor, eu acordo! Se é que se pode chamar de acordar àquilo que é apenas uma luta desesperada para manter os olhos abertos.

3:18 a.m. Pranayama todo errado – muito difícil. Levantei-me, lavei-me, bebi algumas gotas d’água. (N.B. – Esta noite tenho bebido várias vezes, uma golfada de cada vez; outras noites e dias, não. Todas as assimilações no corpo devidamente registradas.)

3:30 a.m. Pratiquei 10 Ciclos Respiratórios; estou bem acordado.

Posso portanto agora adormecer novamente.

8:12 a.m. Acordei às 7.40 a.m., li uma carta que chegou, e tentei em vão concentrar-me.

8:52 a.m. Levantei-me e escrevi uma carta. Quebrarei meu jejum – café croissant – e irei dar uma caminhada com o Novo Mantra, usando meu método recentemente inventado de praticar Pranayama durante a marcha. O tempo está perfeito novamente.

9:14 a.m. Quebra-jejum – comido à maneira Yogui – ao fim. A caminhada começa.

11:15 a.m. A caminhada acabou. Conservei o mantra em movimento suficientemente bem. Fiz também considerações sobre a Natureza do Caminho.

O resultado final é que isto não tem importância. Adquira completo poder de Concentração; o resto é puro enfeite.

Não se preocupe; trabalhe!

Eu agora farei um Pantáculo para auxiliar a dita faculdade de concentração.

A Voz dos Nadi (aliás) está ressoando bem, e o Chittam está um pouco mais sob controle.

1:05 a.m. Trabalhei bem no Pantáculo, pensando em Adonai. Naturalmente nós estamos “reduzidos a uma baixa concepção antropomórfica” – mas que importa? Uma vez o Correto Pensamento venha, ele transcenderá toda e qualquer concepção. A objeção é tão tola quanto a objeção contra o método de explicar geometria através de diagramas, “porque linhas impressas tem grossura” – e assim por diante.

Esta é a imbecilidade da objeção “Protestante” contra imagens. Que tolos esses mortais são!

Os gregos antigos, também, depois de esgotar todos os seus mais sublimes pensamentos com Zeus, e Hades, e Poseidon, verificaram que não podiam encontrar uma imagem apropriada do Todo, o supremo – portanto eles simplesmente esculpiram um homem-bode, dizendo: Que isto represente Pã!

Também, no santo dos santos do mais secreto Templo existe um relicário vazio.

Mas quem vai ali a primeira vez, pensa: Deus não existe.

Quem vai ali no Fim, quando adorou todas as outras deidades, conhece aquele Deus Não.

Assim também eu passo pelo Ritual todo, e tento todos os Meios; no Fim pode ser que eu descubra Não rituais e Não meios; mas um ato ou um silêncio tão simples que não pode ser dito ou compreendido. Senhor Adonai, traze-me ao Fim!

1:25 p.m. Após escrever o acima, e adicionar alguns toques ao Pantáculo, estou pronto a ir almoçar.

1:45 p.m. Cheguei ao Panthéon, com mantra.

Rumpsteak aux pommes soufflees, poire, ½ Evian, e os três Cs.

Estava meditando sobre ascetismo. John Tweed contou-me uma ocasião que Swami Vivekananda, perto do fim da vida, escreveu uma carta patética deplorando que sua santidade lhe proibia “cair na farra”.

Que farsa é uma tal santidade! Quão mais sábio é que o homem proceda como homem, o Deus como Deus.

Esta é a verdadeira base, firme como uma rocha, da minha objeção aos sistemas orientais. Eles deploram todas as virtudes másculas como perigosas e malignas; e eles consideram má a Natureza. Realmente, tudo é maligno relativamente a Adonai; pois toda mancha é uma impureza. Um enxame de abelhas é mau – dentro de nossas roupas. “Sujeira é matéria no lugar errado”. É sujeira estabelecer uma conexão entre sexo e estátuas, moralidade e arte.

Somente Adonai, que em um senso é o Verdadeiro Significado de todas as coisas, não pode manchar qualquer idéia. Isto é uma dura afirmação, porque nada, está claro, é mais imundo que tentar usar Adonai como uma folha de parreira para cobrir nossa vergonha.

Seduzir mulheres sob pretexto de religião é uma indizível imundice; se bem que tanto o adultério quanto a religião são, em si, limpos. Misturar geléia e mostarda é um erro.

2:05 p.m. Também acaba de me ocorrer que esta Operação é (entre outras coisas) uma tentativa de provar a proposição:

Resultado é a direta e imediata conseqüência do Trabalho.

De todos os Santos Iluminados Homens de Deus que eu conheço, eu sou o único que tem esta opinião.

Mas eu creio que este Relatório, quando eu tiver tempo de examiná-lo, e observá-lo de alguma distância, para ter perspectiva, será verificado como uma prova conclusiva da minha tese.

Eu creio que todo fracasso poderá seguramente ser atribuído à minha própria maldita tolice; todo pequeno sucesso, a coragem, habilidade, argúcia, tenacidade.

Se apenas eu tivesse um pouco mais destes!

2:22 p.m. Eu aproveito além do mais esta oportunidade de asseverar meu Ateísmo. Eu creio que todos estes fenômenos são tão explicáveis quanto a formação de geada ou de glaciers.

Eu creio que a “Consecução” é um simples, supremamente um estado do cérebro humano. Eu não creio em milagres; eu não creio que Deus pudesse fazer com que um macaco, um clérigo, ou um racionalista chegassem à consecução.

Eu estou tomando todo este trabalho com o Relatório principalmente na esperança de que ele mostrará exatamente que condições físicas e mentais precedem, acompanham, e seguem a “consecução”; de forma que outros possam reproduzir, através dessas condições aquele Resultado.

Eu creio na Lei de Causa de Efeito – e eu detesto a cantiga tanto dos Supersticiosos quanto dos Racionalistas.

“A Confissão de São Judas McCabeage”

Eu creio em Charles Darwin Todo Poderoso, criador da Evolução; e em Ernst Haeckel seu único filho e Senhor, Quem por nós homens e para nossa salvação desceu da Alemanha; que foi concebido por Weissman, nascido de Buchner, sofreu sob du Bois-Raymond, foi impresso, encadernado e posto em estantes; que foi erguido novamente em inglês (não dos melhores), ascendeu ao Panteão do Guia Literário, e está sentado à mão direita de Edward Clodd; de onde ele virá para julgar os cabeçudos.

Eu creio em Charles Watts; na Associação da Imprensa Racionalista; no jantar anual no Restaurante Trocadero; na regularidade das subscrições, na ressurreição em uma edição de bolso, e na Estante de Livraria Eterna.

AMÉM.

3:00 p.m. Cheguei ao atelier de Brenner, e continuei com a “moulage” de minha Ásana.

4:20 p.m. Deixei o Atelier; caminhada com o mantra.

4:55 p.m. Marcha-mantra. Pranayama; tempo rápido. Muito fortificante e fadigoso ao mesmo tempo.

No Dôme para tomar um citron pressé.

Tenho estado refletindo sobre a grosseira concepção ateísta, tal como é mostrada mesmo em pinturas como as de Rafael e Fra Angelico.

Quão infinitamente mais sutil e nobre é a contemplação de

O Deus Ultimal

Oculto no coração da matéria,

O inescrutável mistério das pequeninas coisas corriqueiras. Com que solenidade o homem sábio se aproxima de um grão de pó!

E é este o Mistério de que eu me aproximo!

Porque Tu, Adonai, és a imanente e essencial Alma das Coisas; não separado delas, ou de mim; mas Aquilo que atrás do jogo de sombras, a Causa de tudo, a Quintessência de Tudo, o Transcendentor de tudo.

E tu eu busco incessantemente; se Tu Te ocultares no Céu, ali eu Te buscarei; se Tu Te revestires das Chamas do Abismo, mesmo ali eu Te perseguirei; se Tu Te fizerdes um lugar secreto no Coração da Rosa ou nos Braços da Cruz que se estende através do Espaço Infinito, se Tu estiveres no mais intrínseco da matéria, ou atrás do Véu da mente; Tu eu seguirei; Tu eu alcançarei; Tu eu colherei ao meu ser.

Assim então como eu Te persigo de trincheira a trincheira do meu cérebro, e Tu atiras contra mim Véu após Véu Mágicko de glória, ou de medo, ou de desespero, ou de desejo; pouco importa; no Fim eu Te conseguirei – Ó meu Senhor Adonai!

E mesmo como a Captura é deleite, não é a Perseguição deleite? Pois nós somos amantes desde o Princípio, se bem que Te apraz fazer-Te a Syrinx do meu Pã. Não nos cerca a maré da primavera, e não são estas as clareiras nos bosques da Arcádia?

5:31 p.m. Em casa; estabelecendo-me na mais estrita meditação sobre Adonai meu Senhor; querendo a Sua presença, o Perfume e a Visão, mesmo como está escrito no Livro da Magia Sagrada de Abramelin o Mago.

8:06 p.m. Cedo isto tornou-se um sono, se bem que a vontade estava atenta e pronta e concentrada.

O sono, também, foi profundo e refrescante. Eu agora irei jantar.

8:22 p.m. Chegado, com mantra, ao Café de Versailles.

9:10 p.m. ½ dúzia Marennes, Râble de Lièvre, citron pressé.

Eu sou agora capaz de concentrar-me PARA FORA do Caminho um pouco. Se isto simplesmente significa que eu estou escorregando de volta ao mundo, ou que eu estou mais equilibrado no, e Mestre do, Caminho, eu não sei dizer.

10:04 p.m. Voltei a pé para casa, bebi um citron pressé no Dôme, e preparo-me para a noite.

Quando atravessava o boulevard, eu olhei para a lua brilhante, alta e majestosa no oriente, em busca de uma mensagem. E veio a mim esta passagem do Livro da Abramelin:

“E tu começarás a inflamar-te em oração...”

É a sentença que prossegue para declarar o Resultado.

(P.S. – Com isto ergueu-se aquele curioso senso de confiança, segura premonição de sucesso, que eu experimento na maior parte das tarefas físicas, mas especialmente quando vamos dar uma tacada longa ou complicada. Se isto significa mais que percepção e execução (por uma vez) se puseram em uníssono, eu não sei dizer.)

É bom que assim termine este décimo primeiro dia do meu Retiro, e o trigésimo terceiro ano da minha vida.

Trinta e três anos levou este Templo em construção...

Tem sido sempre meu hábito nesta noite lançar os olhos sobre o ano decorrido, e perguntar: Que fiz eu?

A resposta é invariavelmente “Nada”.

No entanto, do que os homens contam como proezas eu não fiz poucas. Eu viajei um pouco, escrevi um pouco... Parece-me que eu me afanei muito o tempo todo – e isto para não ter nada completamente acabado ou bem sucedido.

Uma Tragédia – uma comédia – dois ensaios – uma dúzia de poemas, mais ou menos – dois ou três contos – mais algumas ninharias de um tipo ou de outro; é um miserável recorde, se bem que a Tragédia é suficientemente boa para durar uma existência. Ela marca uma época em literatura, se bem que ninguém mais o perceberá durante cinqüenta anos pelo menos.

As viagens, também, tem sido tolice. Este foi um ano mesquinho, insignificante.

A única indicação absoluta é: de foram alguma viva de outra maneira que sozinho.

Mas são 10:35 p.m.; estas considerações, se bem que de certa forma pertencem à Obra, não são a Obra.

Que eu comece a me inflamar em oração!

O Décimo Segundo Dia

12:17 a.m. Quando portanto eu havia terminado de preparar a câmara, de forma que estava tudo escuro, a não ser pela Lâmpada sobre o Altar, eu comecei, como foi escrito acima, a inflamar-me em oração, chamando meu Senhor; e eu queimei na Lâmpada aquele Pantáculo que eu havia feito d’Ele, renunciando às Imagens, destruindo as Imagens, para que Ele Mesmo pudesse erguer-se em mim.

E a Câmara encheu-se daquele maravilhoso fulgor de luz ultravioleta auto-luminosa, sem fonte, que não tem contraparte na Natureza salvo seja na Aurora do Norte...

E foram-me reveladas certas Palavras de Poder...

E eu invoquei meu Senhor e recitei o Livro Ararita diante do Altar...

Este Santo Livro Inspirado (que me foi entregue no inverno do ano passado) foi agora finalmente compreendido por mim; pois ele é, se bem que eu não o sabia então, um esquema completo desta Operação.

Por esta razão eu adicionarei este Livro Ararita ao fim do Manuscrito. (Isto não foi permitido. O Livro Ararita será publicado pela A.·.A.·. quando apropriado – Ed.) Também, eu pedi ao meu Anjo a Escritura sobre o Lâmen de Prata; uma Escritura do verdadeiro Elixir e Orvalho Superno. E isto foi-me concedido.

Então, sutilmente, facilmente, simplesmente, imperceptivelmente deslizando, eu passei ao nada. E eu fui envolto no brilho negro de meu Senhor, que interpenetrou em toda e cada parte, fundindo sua luz com minha escuridão, e deixando ali não escuridão, mas pura luz.

Também, eu contemplei meu Senhor em uma forma, e senti o tremor interior acender-se em um Beijo – e eu percebi os Verdadeiros Sacramentos – e eu contemplei num momento todas as visões místicas em uma só; e o Santo Graal me apareceu, e muitas outras coisas inexpressíveis foram conhecidas por mim.

Também foi-me dado usufruir da sutil Presença de meu Senhor interiormente durante todo este décimo segundo dia.

Então eu solicitei ao Senhor que Ele me tomasse à Sua presença eternamente mesmo agora.

Mas Ele Se retirou, pois eu devo fazer aquilo para que fui aqui enviado; a saber, governar a terra.

Portanto com doçura inefável Ele apartou-se de mim; no entanto, deixando um conforto indescritível, uma Paz... a Paz. E a Luz e o Perfume de certo ainda permanecem comigo na pequena Câmara, e eu sei que meu Redentor vive, e que Ele estará de pé no último dia sobre a terra.

Pois Eu sou Ele que vive, e estava morto; e vede! Eu estou vivo para todo sempre, e tenho as Chaves do Inferno e da Morte. Eu sou Amoun o Sol Que Se Levanta; eu passei da escuridão à Luz. Eu sou Asar Un-nefer o Feito-Perfeito. Eu sou o Senhor da Vida, triunfante sobre a morte...

Não há parte de mim que não seja dos Deuses...

O defunto Ankh-af-na-khonsu

Diz com sua voz que é vera e calma:

Ó Tu que tens um braço só!

Ó Tu que brilhas no luar!

Eu teço a Ti no meu encanto;

Eu Te atraio em meu cantar.

O defunto Ankh-af-na-khonsu

Se apartou da turba negra,

Juntou-se aos que moram na luz,

Abrindo Duant, lar das estrelas;

E recebendo as suas chaves.

O defunto Ankh-af-na-khonsu

Fez o seu passo pela noite,

Para o prazer seu ter da terra

Entre os viventes.

Amém

Amém sem mentira

Amém, e Amém de Amém.

12:40 a.m. Eu me deitarei para dormir em meus Robes, ainda usando o Anel dos Mestres, e tendo minha Baqueta em minha mão.

Pois para mim agora sono é o mesmo que vigília, e vida o mesmo que morte.

Em Tua L.V.X. não são luz e escuridão apenas crianças gêmeas que correm uma atrás da outra brincando de pegar?

7:55 a.m. Acordei-me de um sono longo, doce e sem sonhos, como uma jovem águia que se eleva no ar para saudar a aurora.

9:20 a.m. Após o quebra-jejum, fui a pé, a caminho do atelier, através do jardim do Luxembourg até a minha fonte favorita. É inútil tentar descrever o orvalho e as flores na clara luz do Sol de Outubro.

No entanto, a luz que eu contemplo é mais que luz do Sol. Meus olhos estão demasiado fracos da Visão; eu não posso suportar o brilho das coisas.

O relógio do Senado bate as horas; e minhas orelhas são invadidas pela sua misteriosa melodia. É o Infinito Movimento Interior das coisas, assegurado pela co-extensão da soma delas com o todo, que transcende os mortíferos pares de opostos, mudança que implica decadência, estabilidade que soletra monotonia.

Eu compreendo todos os Salmos de Bendição; existe um louvor espontâneo, uma fonte em meu coração. Os autores dos Salmos devem ter sabido algo desta Iluminação quando escreveram.

9:30 a.m. Parece, também, que esta Operação está transformada. Eu suponho que o relatório deverá parecer aos leitores como uma colcha de retalhos das cores mais desarmonizadas, uma coisa sem continuidade nem coesão. Para mim, agora, parece desde o começo um progresso simples e direto em linha reta. Eu mal posso lembrar-me de que houve impedimentos.

Naturalmente, minha memória racional, catando detalhes, acha as coisas diferentes. Mas eu pareço ter duas memórias, quase como que pertencentes a dois planos diversos de existência. Em linguagem Qabalística, meu consciente nativo é agora Neschamah; não Ruach ou Nephesch.

Eu realmente não posso escrever mais. Esta escrita é uma descida ao Ruach, e eu desejo permanecer onde estou.

11:17 a.m. Às 10.00 p.m. cheguei ao atelier de Brenner, e assumi a pose. Imediatamente, automaticamente, o tremor interior começou, e novamente a sutil radiância fluiu através de mim.

A consciência novamente morreu e renasceu como o divino, sempre sem choque ou esforço.

Como a Magick é simples, uma vez o caminho encontrado!

Quão quieta está alma! A turva chuvarada de emoção acabou; as pesadas partículas de pensamento estão depositadas no fundo; quão límpido, quão lúcido é o lustre dela. Somente de cima, da Árvore da Vida que se estende sobre ela, cujas folhas luzem e tremem no vento luminoso do Espírito, goteja a espaços, em gotas de luz, o Orvalho da Imortalidade.

Muitos e maravilhosos foram também as Visões e poderes a mim nesta hora oferecidos, mas eu os recusei a todos, pois estando em meu Senhor e Ele em mim, não há necessidade destes brinquedos.

12:00 p.m. Acabou a pose. Nesta Segunda vez na pose, praticamente nenhum pensamento se ergueu para enublar o Sol; mas curioso pressentimento de que ainda há mais por vir.

Possivelmente a Prova que eu havia pedido, a Escritura no Lâmen...

12:40 p.m.  Chez Lavenue. Certas considerações de ordem prática sugerem-se.

Eu teria estado muito melhor em um apropriado Gabinete Mágicko, com um discípulo para arranjar as coisas, comida mágicka apropriada preparada cerimonialmente, um jardim privado para passear... e assim por diante.

Mas pelo menos é útil e importante sabermos que numa emergência podemos fazer as coisas numa grande cidade e num quartinho.

1:14 p.m.  O almoço é bom; os rins estavam bem cozidos; a tarte aux fraises estava excelente; o Borgonha veio direto do Tonel de Baco. O Café e Cognac estão além de todo elogio; o charuto é o melhor Cabaña que já fumei.

Eu reli este caderno do Relatório; e eu dissolvo meu ser em riso quintessencial.

As notas são algumas delas tão engraçadas!... Previamente, isto me havia escapado.

1:23 p.m.  E agora a Ruptura de tudo isto me toma!

1:25 p.m. A excelsa beleza das mulheres no Restaurante... que John St. John teria chamado de velhas corocas!

1:27 p.m. Minha alma está cantando... minha alma está cantando!

1:30 p.m. Nada importa o que eu faço... tudo vai infinitamente, incrivelmente bem!

“O Senhor Adonai está em volta de mim como um Raio e um Pilone e uma Cobra e um Phallus.”

3:17 p.m. Tive uma longa palestra sobre Arte com Barne.

“O Mestre se considera sempre um estudante”.

Assim, portanto, o que quer que seja que eu tenha conseguido, nisto como em Arte, existe sempre tanta coisa mais possível que não podemos nunca estar satisfeitos.

Muito menos, então, saciados.

11:15 p.m. Tendo retornado à vida do mundo – no entanto, um mundo transfigurado! – eu executei todo o meu trabalho, pratiquei todas as minhas recreações, todas as coisas que fazemos, muito cautelosamente e beatificamente.

Por volta das 10:30 p.m. a ruptura começou a arrebatar-me; no entanto eu a resisti, e continuei com o meu jogo de bilhares, por educação.

E ali mesmo no Café du Dôme a glória estava dentro de mim, e eu nela; de forma que toda vez que eu falhava numa tacada, e me endireitava e bebia aquele ar ambrosial, eu me sentia ao ponto de cair por causa da intensa doçura que dissolvia e desvanecia a alma. Mesmo como um amante que desmaia de excesso de prazer ao primeiro beijo do seu amor, assim mesmo era eu, Ó meu Senhor Adonai!

Portanto aqui estou de volta à minha câmara para inflamar-me em oração diante do Altar que eu ergui.

E eu estou pronto, vestido no Robe, armado, ungido...

11:35 p.m. Ardesco!

O Décimo Terceiro Dia

São Oito da manhã.

Tendo entrado no Silêncio, que eu permaneça no Silêncio!

AMÉM


Traduzido por Marcelo Ramos Motta