A Natureza do Santo Anjo Guardião

Citações de pessoas que alcançaram o Conhecimento e Conversação do Anjo.

A Natureza do
Santo Anjo Guardião

As experiências espirituais centrais no sistema da A∴A∴ são o Anjo e o Abismo, isto é, o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião, e a “Aniquilação” do Ego ou Travessia do Abismo entre a Humanidade e a Divindade. Uma vez que, segundo Uma Estrela à Vista, é o próprio Anjo que nos prepara para a segunda aventura, vamos falar sobre a primeira.

Mas o que é esse Anjo que buscamos alcançar? Até mesmo as pessoas que entraram em contato com Ele não conseguem expressar exatamente qual é a natureza desse ser. O próprio Aleister Crowley mudou de ideia ao longo dos anos, dando três explicações diferentes, que veremos agora:

Década de 1910:
O Anjo como o Gênio ou Eu Superior

No The Equinox Volume I, Número 1, Crowley fornece a seguinte descrição da natureza do Anjo, comparando-O com conceitos de outras culturas e sistemas:

“O Augœides[1]

Lytton o chama de Adonai em Zanoni, e eu costumo usar esse nome nos meus cadernos.

Abramelin o chama de Santo Anjo Guardião. Eu adoto esse termo:

  1. Porque o sistema de Abramelin é muito simples e eficaz.
  2. Porque, desde que todas as teorias do universo são absurdas, é melhor falar na linguagem de uma patentemente absurda, de modo a mortificar o homem metafísico.
  3. Porque uma criança consegue entender.

Os teosofistas o chamam de Eu Superior, Observador Silente ou Grande Mestre.

A Aurora Dourada o chama de Gênio.

Os gnósticos dizem que é o Logos.

Zoroastro fala sobre a união de todos esses símbolos na forma de um leão — consulte os Oráculos Caldeus.

Anna Kingsford o chama de Adonai (Vestido com o Sol).

Os budistas o chamam de Ādibuddha — (diz H.P.B.)

O Bhagavad-Gita o chama de Vishnu (no Capítulo XI).

O Yì Jīng o chama de ‘A Grande Pessoa’.

A Cabala o chama de Jechidah.

Também obtemos uma análise metafísica da natureza Dele, cada vez mais profunda, de acordo com a sutileza do escritor; pois esta visão — é tudo o mesmo fenômeno, colorido de várias maneiras pelos nossos Ruachs — acredito eu, é a primeira e a última de todas as Experiências Espirituais. Pois, embora Ele seja atribuído a Malkuth, e a Porta do Caminho de Sua ofuscação, Ele também está em Kether (Kether está em Malkuth e Malkuth em Kether — ‘como acima, e embaixo’), e o Fim do ‘Caminho dos Sábios’ é a identidade com Ele.

De modo que, embora ele seja o Santo Anjo Guardião, Ele também é Hua e o Dào.

Pois uma vez que Intrā Nōbīs Rēgnum deĪ (INRI), todas as coisas estão em Nós mesmos, e toda Experiência Espiritual é uma Revelação mais ou menos completa Dele.

No entanto, somente no Pilar do Meio que Sua manifestação é de alguma forma perfeita.

A invocação de Augœides é tudo. Só que ela é tão difícil; percorre-se todos os cinquenta portões de Binah ao mesmo tempo, iluminado em maior ou menor grau, iludido em maior ou menor grau. Mas o Primeiro e o Último são essa invocação do Augœides.”

Década de 1920:
O Anjo como o Subconsciente

Dez anos depois, durante seu tempo na Abadia de Thelema em Cefalù, Itália, Crowley já modificou um pouco sua visão, como observa Frank Benneth em seu Registro Mágico escrito na época (The Magical Record of Frater Progradior, editado por Keith Richmond):

“[...] fui tomar banho no mar esta manhã, com a Besta e Leah, e enquanto se despia, ele começou a falar comigo sobre a iniciação e disse que era uma questão de colocar a mente subconsciente em funcionamento, que quando essa mente subconsciente tivesse permissão de pleno domínio, sem interferência da mente física, a iluminação começava, pois ele disse que essa mente subconsciente era o nosso Santo Anjo Guardião. Ele ilustrou isso dizendo que tudo era sentido nessa mente, e ela está constantemente demandando sua vontade sobre a mente física, e quando essas impressões, ou desejos internos, são restringidos ou suprimidos, o resultado é o mal e todo tipo de problema.

Ele também disse que a questão sexual era o mais profundamente enraizado de todos os desejos e, portanto, causava mais danos, porque esse problema começou muito cedo na vida, e passou conosco através de nossas vidas, atormentando a maioria das pessoas com todas as torturas do inferno, e ainda assim essa mente subconsciente persistiu e só se satisfaz quando sua vontade é impingida na mente física, o que ela faz de todas as formas possíveis, através de sonhos, doenças e, se não satisfeita, termina em loucura ou em algum aborto infernal.

Porque, disse ele, os órgãos sexuais eram o símbolo físico de Deus e do Sol, pois tinham poder criativo e, portanto, de todas as partes do corpo, eram as mais semelhantes a Deus e mais próximas do Santo Anjo Guardião.”

Década de 1940:
O Anjo como um Ser Objetivo Completamente Separado

No final de sua vida, nas cartas que ele trocou com uma de suas estudantes, Crowley acreditava que o Anjo era um ser que existia no sentido objetivo, completamente separado de nós, como ele afirma em Magick Without Tears, Capítulo XLIII:

“[...] para os propósitos desta carta, proponho usar a palavra ‘anjo’ para incluir todos os tipos de seres desencarnados, de demônios a deuses — em todos os casos, eles são objetivos; um ‘anjo’ subjetivo só é diferente de um sonho em aspectos secundários.

Agora, alguns anjos são na verdade emanações dos elementos, planetas ou signos aos quais são atribuídos. Eles são seres parciais da mesma maneira que os animais. Eles não são microcosmos, como são os homens e mulheres. Eles são quase inteiramente compostos pelo planeta (ou seja lá o que for) ao qual são atribuídos. Eu considero que os outros componentes de seu ser são quase acidentais. Por exemplo, o Arcanjo Ratziel é o senhor de uma companhia de anjos chamada Auphanim; e não se deve imaginar que todos esses anjos sejam idênticos um ao outro, ou não pareceria haver muito sentido nisso. Eles têm algum tipo de composição, algum tipo de individualidade; e o caráter e a aparência do Anjo podem ser determinados por seu nome.

[...] Agora, um anjo desse tipo pode agir de modo errado, como se fosse dizer, ele pode ser falso em relação à sua própria natureza? Não vejo como alguém pode imaginar isso; pois são criaturas tão completamente parte dos elementos de que são compostas que devem ser consideradas completamente desprovidas de vontade em qualquer sentido inteligível da palavra. De fato, suas ações são meramente reações.

Eles, é claro, carecem totalmente da Tríade Superna. Portanto, não há nenhuma questão de algo neles que persistiria através da mudança. Talvez seja melhor dizer que as mudanças realmente não os afetam. Outra maneira de dizer isso seria que eles são adjetivos, não substantivos. Eles são apenas manifestações sensíveis dos elementos aos quais são atribuídos, e das letras de seus nomes.

Agora, por outro lado, existe um tipo completamente diferente de anjo; e aqui devemos ter um cuidado especial em lembrar que incluímos deuses e demônios, pois existem seres que não dependem de modo algum de um elemento específico para sua existência. Eles são microcosmos exatamente no mesmo sentido que homens e mulheres. Eles são indivíduos que escolheram os elementos de sua composição como dita a possibilidade e a conveniência, exatamente como nós. Quero que você entenda que uma deusa como Astarte, Astaroth, Cotytto, Afrodite, Hathoor, Vênus, não são meramente aspectos do planeta; eles são indivíduos separados que foram identificados um com o outro e atribuídos a Vênus apenas porque a característica saliente em seu caráter se aproxima desse ideal. [...]

Eu elaborei sobre esse tema por causa da única pergunta pessoalmente importante que surgiu nas cartas mais recentes; pois acredito que o Santo Anjo Guardião é um Ser desta ordem. Ele é algo mais do que um homem, possivelmente um ser que já passou pelo estágio da humanidade, e seu relacionamento particularmente íntimo com seu cliente é o da amizade, da comunidade, da irmandade ou da Paternidade. Ele não é, deixe-me enfatizar, uma mera abstração de você mesma; e é por isso que insisti bastante que o termo ‘Eu Superior’ implica em ‘uma heresia condenável e uma ilusão perigosa’.

Não fosse assim, não haveria sentido na Magia Sagrada de Abramelin o Mago.

Além de qualquer especulação teórica, meu Sammā-sati e meu trabalho analítico nunca me levaram sequer a um indício da existência do Anjo Guardião. Ele não é encontrado por nenhuma exploração de si mesmo. É verdade que o processo de análise leva finalmente à realização de si mesmo como sendo não mais que um ponto de vista indistinguível em si de qualquer outro ponto de vista; mas o Santo Anjo Guardião está precisamente na mesma posição. Por mais próximas que sejam as identidades de milhões de maneiras, nunca é possível obter uma identificação completa.

Mas lembre-se disso, acima de tudo; eles são objetivos, não subjetivos, ou eu não desperdiçaria boa Magia com eles.”

1949:
A Concepção de Karl Germer

Por fim, Karl Germer, que se tornou o herdeiro de Aleister Crowley e o chefe da A∴A∴ e da O.T.O., resumiu sua visão sobre o S.A.G. em uma carta para Roy Leffingwell, em 21 de março de 1949, da seguinte maneira:

“Este S.A.G. é uma entidade separada da tua própria Alma-Estelar. É quase como se cada um de nós tivesse uma Alma-Estelar-Gêmea (Dante: Beatrice; Goethe: Gretchen) que está conduzindo seu irmão ou irmã gêmea na carne humana, amando-a, ensinando-a e protegendo-a, impedindo que ela cometa erros grosseiros demais, sussurrando em seu ouvido e desesperando-se se sua gêmea manifestada não der ouvidos, ou não aprender a escutar a voz que fala às profundezas de sua alma.”

“Portanto, o objetivo final de nosso sistema é aprender a conhecê-Lo, e aprender Sua linguagem, e então intensificar a intimidade com o S.A.G., que é uma coisa que realmente existe em uma quarta dimensão, e pode estar encarnado, mas sem o conhecimento da gêmea como tal. Esse é o fato vital que deve estar na cabeça da pessoa: que essa existência encarnada é apenas uma imagem da existência nos planos superiores. É lá que está a vida real, onde as guerras são travadas, etc., etc., etc., onde a Vida e os eventos deste planeta são preparados e planejados possivelmente há milhares de anos atrás. Deveríamos nos treinar a viver naqueles planos e crescer para comungar disso.”

Ele fala mais sobre a natureza do Anjo para Jane Wolfe, em 6 de setembro de 1949:

“[…] Lekve me escreveu em sua última carta […] que ele teve uma iluminação na qual […] ele percebeu que sua concepção anterior de que o S.A.G. era apenas uma função da psique no sentido de Jung estava errada, e que a minha estava certa, isto é, (nas palavras dele), ‘que o S.A.G. é um Ser vivo com qualidades tão inefáveis que em comparação a elas a concepção do Self se reduz a um mero fantasma’, etc., etc.”

Conclusão

Diz-se que nenhum método específico pode ser dado para a obtenção do Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião, exceto pelas observações gerais encontradas no Livro da Magia Sagrada de Abramelin o Mago, no Oitavo Æthyr de A Visão e a Voz, e em Liber Samekh.

Podemos especular sobre a natureza deste Ser, mas no final das contas, essa operação é algo tão pessoal que nenhum homem pode ensinar a outro como ele pode invocar o Anjo dele, só pode ajudá-lo a se preparar para alcançar aquela experiência, a “preparar o Templo para que Deus habite nele”.


[1] De uma carta de Fra P.


Traduzido por Alan Michel Willms Quinot em março de 2020.

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