A Religião da Maçonaria Iluminada pela Cabala

Uma teoria sobre o propósito oculto da Maçonaria

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A Religião da Maçonaria
Iluminada pela Cabala

«Dr. William Wynn Westcott (1848-1925), médico legista da Coroa britânica, foi iniciado na Maçonaria em 1871. Tornou-se o V∴M∴ de sua Loja em 1874. Foi iniciado na Societas Rosicruciana in Anglia em 1880, tornando-se seu líder em 1891. Também foi cofundador da Ordem Hermética da Aurora Dourada em 1887. Foi V∴M∴ da Quatuor Coronati na gestão de 1893-1894. A presente P∴A∴ foi originalmente apresentada naquela Loja, e posteriormente publicado na coletânea Ars Quatuor Coronatorum, Vol. I, págs. 55-58, em 1888.»

A Maçonaria, nossa Ordem Inglesa, descreve-se como um “sistema de moralidade velado em alegorias e ilustrado por símbolos”. Tenho certeza de que uma breve consideração nos convencerá de que ela é algo mais do que isso.

“A vida não se resume em viver;
Nem a morte em simplesmente morrer”

escreveu o poeta Montgomery1, e este aforismo também se aplica à Maçonaria.

Nosso Ritual nos apresenta amplas evidências internas de que o mistério de nossa Arte é mais profundo do que um mero esquema de máximas morais. Nosso Ritual contém orações distintas, dirigidas a um Deus único e claramente definidoç pois a Unidade do Deus a quem nos dirigimos é a essência de seu tipo.

Nosso Ritual inclui vários juramentos gravíssimos. Quanto a quê? À moral? Não, quanto ao segredo. Estas promessas estão sujeitas a certas penalidades. Que penalidades? Multa? Reclusão? Não, a penalidades cuja natureza todos conhecemos e que, portanto, não preciso detalhar.

Será que alguma pessoa racional acreditaria que tais fórmulas foram originalmente concebidas com o propósito de velar um esquema de moralidade; um sistema de moral adequado a todos os homens, cuja realização seria a conquista da perfeição terrena? Nosso Ritual incorpora e traça uma lenda definida, ou conjunto de lendas, e insiste na aceitação desses eventos como uma verdade positiva, totalmente à parte de qualquer evidência da história comum. Não, mesmo apesar de tais evidências. Esses eventos devem ser compreendidos pelo maçom perfeito como verdade maçônica, e não apenas acreditados, mas pessoalmente praticados. Poderia uma reivindicação tão incomum, para não dizer inatural, ser feita a uma pessoa simplesmente para velar um preceito moral? Poderia tal estado de corpo e espírito tornar-se peremptório apenas para compor uma bela alegoria?

Nossos mistérios são positivamente guardados por sinais, toques e palavras, tão rigorosamente concedidos e tão cuidadosamente preservados, que os profanos estão claramente convencidos de que mesmo as revelações aparentemente mais confiáveis sobre eles são apenas imaginárias. Se esses modos secretos de reconhecimento encobrissem apenas um plano para tornar os homens mais santos ou mais caridosos, não seria razoável supor que essa santidade teria se desenvolvido neles?

Não, meus irmãos, se ela tivesse sido criada apenas para fazer segredo da moralidade, ela seria apenas uma associação vã e tola.

Portanto, a Maçonaria deve ser algo mais, muito mais. Para nós, os representantes da Maçonaria de hoje, pode ser apenas uma coisa insignificante, e temo que muitas vezes o seja. Mas lembremo-nos de nossa grande reivindicação, da origem primitiva de nossa Ordem; este deve ser nosso campo de pesquisa para descobrir a origem de nosso sigilo, da constituição da Fraternidade, dos intensos juramentos impostos a cada um de nós.

E agora eu perguntaria a cada um de vocês qual é o maior objetivo da existência terrena? Não é preparar-se para outra? Não estamos todos certos de que um dia chegaremos ao fim desta existência terrena? Não sentimos que o “eu”, o “Ego” dentro de cada um de nós, não se acabará com este mundo? “Sorrir, morrer, talvez sonhar; ai, aí está o problema”2.

Portanto, o objetivo de cada mortal é alcançar uma vida ideal, preparar-se para outra fase da existência; e como? Como, senão através do próprio Criador? Quem poderia construir ou arruinar a minha vida – senão eu e meu Criador? Religião é o nome que nós, mortais, damos às nossas aspirações em relação ao nosso Criador e aos nossos planos de interpretá-Lo.

Então a Religião é a chave a ser testada nesta fechadura secreta; uma religião secreta pode precisar ser escondida, mas de quê? De quem? Do próprio Criador? Não; dos nossos próximos, que desde o início da história, nunca deixaram de manchar a face desta bela terra com blasfêmias, com idolatria, com perseguições, com martírio religioso. Frequentemente o zelo e a intolerância religiosa andam de mãos dadas.

Para combater o risco de vida, que arma deveríamos esperar encontrar? Qual, senão a ameaça de morte? Talvez não seja uma arma perfeita, nem ideal, nem celestial; mas é uma arma aplicável e competente o suficiente para nos proteger contra os malfeitores.

Ora, a Maçonaria tem, ao que parece, uma grande ideia central, um criador, um Deus Único. A história nos dá algum registro de que os detentores de tal dogma tenham sido a massa dos habitantes, ou os maiores homens do mundo, ao longo dos séculos? Ou a história nos mostra que os crentes em uma Divindade única e impessoal, pura e imaculada, que não consentem com a iniquidade, sempre foram apenas uma minoria, frequentemente perseguida e sempre injuriada? A minoria tem sido, sem dúvida, crescente e, ultimamente, importante demais para ser esmagada por ameaças de morte, e, paralelamente, descobrimos agora, como indiquei inicialmente, que chegamos ao ponto de termos esquecido por quê nossos juramentos foram concebidos.

Tal, meus irmãos, é a sugestão do meu tema; nosso atual sistema de moralidade alegórica é descendente linear de um verdadeiro Monoteísmo velado, que em um mundo pagão e perseguidor, teve a necessidade, em cada nível e em cada era, de algum esquema de autodefesa.

Podemos não ser capazes de traçar em ordem definida cada passo na vasta procissão de formas pelas quais o segredo monoteísta foi encoberto, velado e preservado, ou mesmo traçar um sulco distinto na roda do tempo em qualquer nação ou século, mas a história não está livre da sobrevivência de fragmentos de evidências de que uma associação mística estava em ação, preservando e consagrando algum alto ideal, algum grande dogma.

A ausência de histórias distintas e definidas de sociedades monoteístas secretas é realmente uma evidência de sua realidade e de sua operação bem-sucedida, e o vasto número de formas assumidas pelos verdadeiros Crentes, ora assemelhando-se a uma organização militar, ora a um sacerdócio, ora a uma seita filosófica, ora ao segredo mantido por três, dois ou até mesmo um homem – um rei – ora de ampla importância, é para mim apenas uma evidência da realidade da minha afirmação.

E eu afirmo, e poderia fornecer evidências consideráveis em apoio à visão de que mesmo entre o sacerdócio do que aparentemente foram as religiões mais degradadas e extravagantes, sempre existiu uma doutrina esotérica mantida por uma hierarquia seleta, e essa doutrina é a Unidade de Deus, como Criador, Artífice e Governante, à parte dos modos de Sua manifestação a nós mortais, seja por processos e emanações sublimes, ou por Filiação, ou pela influência do Espírito Santo, ou pelo desenvolvimento sexual, ou pela maternidade; todos esses modos de representar a ação de um Deus único e impessoal, em relação às Suas obras.

Os judeus sempre foram monoteístas genuínos e sempre foram perseguidos, e o Antigo Testamento, sua própria narrativa, é talvez o principal volume existente que registra as lutas pela preservação de uma teocracia pura, pela preservação de uma religião monoteísta, pura e livre de idolatria. E embora às vezes encontremos, superficialmente falando, toda a nação judaica3 se desviando, ainda assim há evidências colaterais de que houve, em todas as épocas, alguns verdadeiros crentes.

À medida que o poder judaico declinava, e finalmente caía, o monoteísmo puro tremeu e teve que se esconder por um longo período dos conquistadores pagãos dominantes. Daí surgiu uma série de associações secretas que se estende até os nossos dias e cujo desenvolvimento está agora em nosso meio como a Maçonaria. Para mim, ela é a descendente linear dos primeiros esquemas e associações concebidos para perpetuar uma religião pura e um correspondente sistema de ética moral.

Nossa irmandade secreta, note-se, tem uma base especialmente judaica; nossa principal lenda está ligada ao maior legislador e governante judeu, Salomão. Nossa doutrina atual é um Unitarismo4, revestido das virtudes cristãs. Se a Maçonaria surgiu como um sistema inteiramente novo no século XVI ou XVII, deve ter surgido em terra cristã e certamente teria sido marcada por características especialmente trinitárias, que teriam permanecido permanentes.

Agora, como evidência colateral da minha afirmação, peço que me acompanhe na consideração de que em nossa Maçonaria ainda podem ser rastreadas alusões e referências àquele sistema de ensinamentos e dogmas esotéricos, que foi inegavelmente o resultado da destruição do Monoteísmo exotérico da Judeia, quero dizer, a Cabala judaica – que primeiro tomou forma como uma Sophia (sabedoria ou doutrina ) secreta definida após a Queda de Jerusalém, e que foi fundada com base nas verdades monoteístas acumuladas durante séculos de observância externa mais ou menos pura de uma religião monoteísta.

Essa Cabala então gradualmente se cristalizou em um esquema teológico e se tornou mais e mais elaborada durante as eras das trevas que se seguiram à ruína da era de Augusto; ao paganismo dominante seguiu-se a total ignorância das massas até que um amanhecer surgiu na Europa e um monoteísmo foi desenvolvido novamente, não judaico, mas cristão, e se tornou exotérico, e seu exoterismo se tornou sua fraqueza, e seu sacerdócio tornou-se mais uma vez egoísta e negligenciou a verdade primordial – no entanto, mesmo durante esse período, a pureza esotérica foi preservada por poucos, pelos eruditos, pelos piedosos.

Não vou me aprofundar na área de discussão que gira em torno da origem exclusiva da Maçonaria nas guildas comerciais, no Templarismo, na raça judaica, nos hermetistas ou nos rosa-cruzes.

Estou satisfeito em reconhecer que todas essas associações estiveram envolvidas em seu crescimento, e estou satisfeito que nosso sistema atual aponte apenas para a verdade fundamental, confessando que em sua progressão ao longo da escada do tempo foi auxiliado por cada uma delas, sobreviveu a elas e, assim, provou seu direito de existir. Para dizer o mínimo, o mistério só seria aumentado por um dogma de que os oficiais da Maçonaria no século XVII eram tão intensamente eruditos que construíram propriō mōtū5 um sistema no qual as doutrinas e ensaios da mais antiga Apórrita6 brilham.

A Cabala, como sistema de Teosofia, tem pretensões preeminentes de ser considerada prīmus inter parēs7, entre todas as especulações teístas da humanidade que têm influência e participaram da formação do Afanismo Maçônico8. Apontarei brevemente alguns pontos maçônicos que são esclarecidos por uma comparação com a Cabala. Algumas referências aos mistérios são convenientemente intercaladas; dentre elas, há muitas evidências de que as formas egípcias são as mais antigas; agora, deve-se lembrar especialmente que a Palestra sobre o Painel Simbólico do primeiro grau, na verdade, se refere a esses costumes dos antigos egípcios como a fonte de origem de muitos pontos maçônicos; refere-se também às doutrinas de Pitágoras, cuja estrela de cinco pontas mencionarei mais adiante.

Entre os pontos maçônicos derivados dos antigos mistérios, noto os três graus do sistema, correspondendo aos mistérios de Serápis, Isis e Osíris. Nosso segundo grau tem sugestões femininas; observe Shibboleth, a espiga de milho, a água, pois milho se refere à deusa Ceres, feminina, ou Deméter, Gemeter, mãe terra, e água é feminina em todas as línguas antigas; compare com Binah, divindade mãe; e nosso terceiro grau é uma aproximação muito próxima daquela que representou a morte de Osíris. A bateria de aclamações quando o candidato é restaurado à luz é uma imitação direta do súbito choque de trovões e relâmpagos simulados com que o neófito dos mistérios eleusianos era saudado. A morte de Osíris e a ressurreição como Hórus são representadas como a morte do companheiro e a ascensão de um novo mestre maçom.

O aprendiz maçom é referido a três luzes: Osíris no oriente, Ísis no ocidente e Hórus, que era o mestre ou senhor vivo no lugar de Osíris, no sul. Observe também que não há luz no norte, o emblema da noite e da escuridão; nisso também a ideia é antiga. As três grandes, embora emblemáticas luzes, compõem um triângulo brilhante; as três luzes menores, compõe um inferior ou mais escuro; as duas combinadas podem ser consideradas em um grupo como uma estrela de seis pontas, a Hexapla, ou Selo de Salomão, que também era um emblema notável em todas as antigas iniciações. A Hexapla era um símbolo do número seis, considerado um número masculino atribuído pelos cabalistas ao Microprosopo, o Vau do alfabeto hebraico, e do Tetragrammaton, as seis Sephiroth do meio, especialmente a 6ª mediana, a Tiphereth, ou Beleza da Divindade.

O Pentalfa, ou emblema da saúde, o emblema pitagórico, é a estrela maçônica de cinco pontas, cinco em hebraico é Hé, uma potência feminina de acordo com a Cabala, e pode ser a Hé superior, a ideia mãe, ou a Hé inferior, a Noiva de Deus, a Igreja, o Reino; as duas juntas constituem Elohim, um substantivo plural feminino, constantemente usado como um título para o poder criativo na narrativa de Gênesis no capítulo um, e até o final do versículo quatro do capítulo dois, onde a narrativa jeovista começa.

É uma curiosa coincidência que a palavra Acácia, que se refere ao enterro de H. A., e que os Companheiros Maçons, vestidos de branco, carregavam nas mãos como emblema de sua inocência, seja a mesma palavra grega ἀκακία, que significa inocência9; era também um emblema da imortalidade.

A insistência em que um candidato à Maçonaria se prove isento de deformidades é um requisito comum à seleção de um sacerdote judeu entre os levitas (vide Levítico 21:1810) e à recepção de um neófito tanto nos mistérios egípcios quanto nos eleusianos, e um ponto adicional de semelhança é visto na recusa em admitir uma pessoa escravizada, ou qualquer pessoa que não esteja livre. Se todo o objetivo da Maçonaria fosse propagar o amor fraternal e a caridade, por que se recusar a estender suas bênçãos ao aleijado, ao mutilado ou àquele que está em sujeição?

A lenda dos Três Grandes Mestres, dos quais um se perde – é removido para o mundo invisível – é uma imagem curiosa da primeira tríade cabalística das emanações do invisível e incognoscível Ain Soph Aur, o ilimitado, a luz ilimitada, primeiro há Kether, a Coroa, daí procedem Chokmah e Binah, sabedoria e entendimento, e então a Coroa é ocultada e perdida para a percepção em sua exaltação, a palavra é perdida e substituída por outros títulos.

Nas Dez Sephiroth, assim como em nossas Lojas, somos ensinados sobre dois grandes pilares, um à direita e outro à esquerda, os pilares da Misericórdia e do Julgamento; entre eles, existe um terceiro, o da severidade temperada pela misericórdia, chamado pilar da Suavidade. Estes são semelhantes aos pilares maçônicos da Sabedoria, Força e Beleza, enquanto o Ain Soph Aur, acima deles, representa a Estrela Mística Flamejante no Oriente. Sabedoria, Força e Beleza são a Tríade Sephirótica de Chokmah, Geburah e Tiphereth.

As diversas emanações das Sephiroth da Cabala, uma procedendo da outra, produzem, por serem sempre projetadas em forma visível, um caminho tortuoso, que nos lembra imediatamente da Escada em Caracol. De fato, uma forma de contemplação do Eterno foi descrita pelos cabalistas como ascendendo pelos nomes sephiróticos e descendo pelos caminhos. Este caminho tortuoso é também como o relâmpago, como consta no Sepher Yetzirah ou “Livro das Formações”, que foi traduzido por mim e agora foi publicado em Bath11, sendo, talvez, o mais antigo tratado filosófico monoteísta existente. Observe que o Filho de Deus também é chamado de “Luz do Mundo”.

Os quatro pendões referem-se às quatro virtudes cardeais, diz a Lição sobre o Painel Simbólico do primeiro grau, que são temperança, fortaleza, prudência e justiça; estas, por sua vez, eram originalmente ramos da Árvore Sephirótica, Chesed primeiro, Netzach fortaleza, Binah prudência e Geburah justiça. Virtude, honra e misericórdia, outra tríade, são Chokmah, Hod e Chesed.

Outra Tríade Sephirótica bem conhecida merece menção aqui, a frase final da Oração do Senhor, da versão do Livro de Orações, que, no entanto, não é encontrada na versão Douay12, nem no Novo Testamento revisado, a saber: o reino, o poder e a glória – Malkuth, Netzach e Hod13.

Como pode ser visto no diagrama, muitas tríades podem ser formadas, e diferentes autores falam de números diferentes; assim, Frater S. C. Gould, de Manchester, New Hampshire, descreve nove; Fra. MacGregor Mathers14, observa dez, mas ainda mais podem ser formadas, é claro, se a sequência relativa não for insistida.

A Escada em Caracol consiste em 3, 5 e 7 degraus, se não mais; destes três, referiam-se aos três Governantes de uma Loja. Estas são as três letras-mães do alfabeto hebraico, A, M, S, típicas novamente de fogo, ar e água, e das três primeiras Sephiroth. Cinco para sustentar uma Loja e sete para torná-la perfeita; estas são as sete letras duplas hebraicas, emblemas paralelos aos sete planetas e sete Sephiroth inferiores. Três, cinco e sete somam quinze, o que equivale a Yah, Deus, Yod e He, dez e cinco; toda palavra hebraica também é um número, e vice-versa. Essas sete pessoas, novamente, são típicas dos sete rabinos mais eruditos que realizaram a Assembleia nomeada no Zohar, Idra Suta, na qual a essência da Divindade é discutida como um Mistério Sagrado. A ainda mais Sagrada Assembleia de Rabinos, a Idra Rabba, incluía mais três, que formavam os Guardiões dos Véus do Capítulo original do R. A., para os quais os cargos inferiores de Tesoureiro, I. G. e Sentinela são agora substituídos; algum patrono muito erudito da ordem fez essa mudança, temendo que pudesse ser uma blasfêmia representar esses três poderes supremos em uma Loja, o que poderia se tornar um negócio muito comum. Eles eram símbolos da primeira Tríade Sephirótica. Os maçons mal sabem o quão próximos estiveram da personificação dos tipos mais exaltados de Onipotência.

A letra G, no centro de uma Loja de Companheiros Maçons, recebeu várias explicações; eu acrescentaria que ela tem uma relação com Gimel, o G hebraico, a terceira letra do alfabeto, o três, que significa Trindade da Divindade; a terceira Sephirah é Binah, a mãe de Microprosopo, o filho, uma potência feminina, Mãe de Deus, com G maiúsculo uncial grego. A interpretação maçônica atual é uma tolice, a ideia de um conferencista ornamental moderno.

Novamente, as duas linhas paralelas, uma representando Moisés e a outra representando o Rei Salomão, envolvendo um círculo, tendo um ponto central, são inteiramente cabalísticas. O ponto é Tiphereth, a beleza da conduta dentro de um círculo de virtudes e delimitada pelos pilares da Misericórdia e da Justiça.

Considere por um momento os vários títulos:

  • Grande Arquiteto, a Fundação, Yesod, o centro da tríade mais baixa.
  • Grande Geômetra, a beleza do projeto, Tiphereth, centro da tríade mediana.
  • Altíssimo, o terrível Kether, a Coroa, parcialmente oculta, à vista de cujo rosto um mortal, despreparado, deve morrer.

Observe a grandeza e o mistério que se elevam à medida que subimos a escada maçônica ou a Árvore Sephirótica.

A perambulação do candidato sob orientação apropriada é uma imitação adequada da cerimônia dos Mistérios Antigos.

Outro resquício da mesma forma existiu até recentemente, e talvez ainda exista, na Escócia: o costume das terras altas, Deasil, que consistia em dar três voltas ao redor de uma pessoa na direção do sol, para obter um efeito positivo. Perambular contra o sol era chamado de Widdershins, e era um ato ruim e mau presságio.

A Maçonaria, como um desenvolvimento especial de uma longa série de associações secretas monoteístas, sendo constituída com base em operações maçônicas por agentes masculinos, talvez tenha necessariamente excluído as mulheres; muitas sociedades místicas militares e hierárquicas também consistiram, em sua essência, apenas de homens. O estado precário da cultura feminina no mundo antigo e durante a Idade Média também contribuiu, sem dúvida, para a exclusão das mulheres dos ritos místicos e da interferência ativa nas cerimônias religiosas; uma exclusão que, se estivéssemos prestes a constituir uma nova forma de culto oculto, dificilmente seria tolerada no presente ano da graça e certamente não poderia ser defendida por argumentos15. Essa antiga exclusão das mulheres dos ritos secretos (para os quais havia algumas poucas exceções) foi expandida também em outra direção, com resultados nefastos: refiro-me à remoção completa de todos os símbolos, formas e estágios femininos das ideias dos poderes superiores, anjos, arcanjos e emanações da Divindade, que certamente existiam nas formas mais antigas da Cabala e nas mentes dos compositores dos primeiros capítulos do Pentateuco. Não há dúvida de que muitas mentes se apegam firmemente à religião católica romana devido à sua insistência em prestar reverência e louvor à mulher beatificada – Maria – que representa as antigas visões da contraparte feminina da Divindade.

Com esta digressão devo concluir e peço um julgamento leniente sobre estas observações discursivas sobre nossa ordem mística, pois mesmo que as opiniões sejam errôneas, elas ainda podem suscitar uma refutação que será considerada de grande valor para os irmãos presentes e para os maçons em geral.


O Ir∴ Gould contestou o argumento principal do artigo. Por mais correto que fosse afirmar que os ensinamentos religiosos da Maçonaria eram agora monoteístas ou não-sectários, isso não poderia fortalecer os pontos de vista do Ir∴ Westcott, a menos que se demonstrasse que esse sempre fora o caso. Ora, de fato, em quase todos os documentos autênticos dos Maçons, encontram-se invocações diretas à Trindade, e o Credo Maçônico vigente era desconhecido antes de 1717-1723.

O Ir∴ Simpson salientou que muitas das peculiaridades apresentadas pelo palestrante não se restringiam à Cabala, mas, ao contrário, eram universalmente encontradas em todo o Oriente. Portanto, essas peculiaridades não teriam relevância no presente caso; contudo, esse fato não diminuía o valor das demais semelhanças mencionadas. Ele concluiu com um voto de agradecimento.

O Ir∴ Dr. Woodman levantou-se com grande prazer para reforçar o voto de agradecimento ao Ir∴ Dr. Westcott. Ele destacou a visão correta a ser adotada em relação aos ensinamentos da Maçonaria, em linguagem que correspondia de perto à de nossas cerimônias, insistindo que o grande e derradeiro propósito era o conhecimento de Deus. Que, nesses objetivos, não apenas nos unimos à Cabala, mas, como o Dr. Westcott havia demonstrado, também seguimos, em muitos casos, seus métodos.

O Ir∴ Speth admitiu, como declarado no artigo, que a Maçonaria exigia homens moralmente livres e íntegros como candidatos aos seus mistérios, e que não faz muito tempo esses pré-requisitos eram exigidos em seu sentido físico e literal. Mas ele não via que nisso copiávamos os levitas. Qualquer que tenha sido a origem primária de nossa arte, seu passado imediato estava ligado às corporações de ofício. Estas recusavam um aprendiz com membros debilitados, porque as chances de ele se tornar um fardo para os cofres da fraternidade eram óbvias; tampouco era provável que ele se mostrasse um servo útil, especialmente em uma ocupação tão árdua quanto a maçonaria. Pelo mesmo motivo importante, a Maçonaria rejeitava um candidato à beira da miséria. As guildas insistiam no nascimento livre por um sentimento de orgulho e superioridade em relação ao servo ou ao filho do servo, um sentimento que o Ir∴ Speth de forma alguma condenava, pois provavelmente todos nós teríamos sido motivados por ele se tivéssemos vivido na época em que a vilania e a servidão ainda floresciam. Além disso, se as guildas tivessem ensinado seus mistérios a um servo, é óbvio que ele poderia ter sido forçado por seu senhor a trabalhar para ele naquele ofício específico sem remuneração adequada, reduzindo assim o padrão salarial. O Ir∴ Speth, portanto, considerava a observância levítica uma mera coincidência. Além disso, o Ir∴ Westcott havia aludido ao caráter feminino do segundo grau, mas não conseguiu demonstrar que o grau em si era antigo. Caso contrário, qualquer semelhança agora não teria importância, por ser importada e casual. Ele próprio considerava o segundo grau um fragmento do primeiro grau, separado de sua origem no início do século passado; mas esse era um assunto demasiado extenso para ser abordado naquele momento.

O Ir∴ Mathers apoiou o palestrante e, em resposta ao último orador, mencionou vários pontos como corroborativos da natureza essencialmente feminina do segundo grau.

O Ir∴ Woodford (na presidência), ao concluir, não pôde deixar de parabenizar mais uma vez os membros pela evidente conveniência e utilidade de tais discussões, tão sabiamente inauguradas pela Loja Quatuor Coronati. Ele achava que agora estava claro que elas não só eram interessantes para os presentes, como também possuíam grande valor educativo, por conduzirem à reflexão, ao estudo e à verificação. Ele se sentia honestamente obrigado a dizer que não concordava nem com as premissas nem com as conclusões do Ir∴ Westcott. Seus estudos sobre os mitos, lendas e cosmogonias do mundo o levaram a considerar o ensinamento trinitário, e não o monoteísta, como universal. Embora admitisse uma grande influência hebraica na Maçonaria, não lhe atribuía preponderância, mas apontava para os mistérios fenícios, romanos e gregos, o hermetismo, o rosacrucianismo e outros fatores como grandes contribuintes para a complexa estrutura atual. Contudo, acolhia com satisfação todas as contribuições de todas as fontes e de todos os estudiosos para a elucidação do tema geral, e reconhecia que o Ir∴ Westcott certamente havia chamado a atenção para muitas analogias curiosas.

Em seguida, seguirem-se os votos de agradecimento, e os irmãos se retiraram para um ágape.


  1. «Trecho do poema The Issues of Life and Death do poeta James Montgomery (1771–1854).» ↩︎

  2. «Trecho de Hamlet, de William Shakespeare (1564-1616).» ↩︎

  3. «O Estado de Israel só seria reconhecido em 1948, décadas depois.» ↩︎

  4. «Corrente de pensamento que surgiu após a Reforma Protestante que considera que Deus é único e rejeita o conceito da Trindade (Pai, Filho e Espírito Santo).» ↩︎

  5. «Latim para “por iniciativa própria”.» ↩︎

  6. «Transliteração do grego απόρρητα, “segredo”.» ↩︎

  7. «Latim para “primeiro entre iguais”, isto é, aquele que tem maior antiguidade, dignidade e honra em um grupo de semelhantes.» ↩︎

  8. «De acordo com a Enciclopédia Maçônica de Albert C. Mackey, “nos Mistérios Egípcios de Osíris, a imagem de um homem morto era carregada em uma argha, arca ou sarcófago, por uma procissão de iniciados; e esse encerramento no sarcófago ou sepultamento do corpo era chamado de afanismo, ou desaparecimento, e o lamento por ele formava a primeira parte dos Mistérios” (ênfase nossa).» ↩︎

  9. «De acordo com o dicionário, ἀκᾰκίᾱ (akăkíā) vem de ἄκακος (ákakos), a (“sem”) + kakos (“maldade”).» ↩︎

  10. «“Nenhum homem que tenha algum defeito poderá aproximar-se: ninguém que seja cego ou aleijado, que tenha o rosto defeituoso ou o corpo deformado; ninguém que tenha o pé ou a mão defeituosos, ou que seja corcunda ou anão, ou que tenha qualquer defeito na vista, ou que esteja com feridas purulentas ou com fluxo, ou que tenha testículos defeituosos. Nenhum descendente do sacerdote Arão que tenha qualquer defeito poderá aproximar-se para apresentar ao Senhor ofertas preparadas no fogo. Tem defeito; não poderá aproximar-se para trazê-las ao seu Deus.” Levítico 21:18-21» ↩︎

  11. «Uma cidade histórica da Inglaterra.» ↩︎

  12. «Uma antiga tradução da Bíblia do latim para o inglês antigo, também conhecida como Douay-Rheims Bible. Ela foi publicada antes da reforma protestante.» ↩︎

  13. «Ou seja, omitiam a frase “[…] pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém” que conclui a oração do Pai Nosso em Mateus 6:9-13.» ↩︎

  14. «A Kabbalah Revelada, Editora Madras.» ↩︎

  15. «Na época em que Westcott apresentou este artigo, ele estava fundando a Ordem Hermética da Aurora Dourada junto com Samuel Liddell MacGregor Mathers e William Robert Woodman, sob autorização da Adepta alemã Anna Sprengel. Esta ordem admitia (e ainda admite) homens e mulheres como membros.» ↩︎


Traduzido por Alan Willms. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.

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