Introdução

Um capítulo de Liber 777

Um dicionário completo das correspondências de todos os elementos mágicos.

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Introdução [1]

O que segue é uma tentativa de sistematizar da mesma forma os dados do misticismo e os resultados da religião comparada.

O cético aplaudirá nossos trabalhos, porque a própria catolicidade dos símbolos lhes nega qualquer validade objetiva, uma vez que, em tantas contradições, algo deve ser falso; enquanto o místico se alegrará igualmente, pois a mesma catolicidade que abrange tudo prova essa mesma validade, pois afinal de contas algo deve ser verdadeiro.

Felizmente, aprendemos a combinar essas ideias, não na tolerância mútua das subcontrárias, mas na afirmação das contrárias, aquela superação das leis do intelecto que é loucura no homem comum, é o gênio no Super-homem, que chegou para arrancar mais grilhões de nosso entendimento. O selvagem que não consegue conceber o número seis, o matemático ortodoxo que não consegue conceber a quarta dimensão, o filósofo que não consegue conceber o Absoluto – todos esses são um; todos devem ser impregnados com a Essência Divina do Yod Fálico do Macroprosopo e dar à luz a ideia deles. Verdade (podemos concordar com Balzac), o Absoluto retrocede; nós nunca o compreendemos; mas na viagem há alegria. Eu não sou melhor do que um estafilococo porque minhas ideias ainda se aglomeram em correntes?

Mas nós divagamos.

As últimas tentativas de tabular o conhecimento são o Kabbala Denudata[2] de Knorr von Rosenroth (uma obra incompleta e, em algumas de suas partes, prostituída a serviço da interpretação dogmática), o simbolismo perdido da Cripta onde dizem que Christian Rosenkreutz foi enterrado, alguns dos trabalhos do Dr. Dee e de Sir Edward Kelly, algumas tabelas muito imperfeitas nas obras de Cornelius Agrippa, a “Arte” de Raymond Lully, alguns dos derrames muito artificiais dos teosofistas esotéricos, e nos últimos anos o conhecimento da Ordem da Rosæ Rubeæ et Aureæ Crucis e da Ordem Hermética da Aurora Dourada. Infelizmente, o espírito de liderança nestas últimas sociedades descobriu que a sua oração, “Dá-nos hoje o nosso uísque diário, e apenas um drappie mair pequenino para dar sorte!” foi severamente respondida, “Quando você nos tiver dado neste dia nossa Lição-de-Conhecimento diária”.

Sob estas circunstâncias, Daath se misturou com Dewar, e Belzebu com Buchanan.

Mas mesmo o melhor destes sistemas é excessivamente volumoso; métodos modernos nos permitiram concentrar a substância de vinte mil páginas em quarenta.

A melhor das tentativas sérias de sistematizar os resultados da Religião Comparada é aquela feita por Blavatsky. Mas embora ela tivesse um gênio imenso para a aquisição de fatos, ela não tinha nenhum para classificar e selecionar os essenciais.

Grant Allen fez uma experiência muito desleixada nestas linhas; assim fizeram alguns dos racionalistas polêmicos; mas o único homem digno de nossa nota é Frazer com seu Ramo de Ouro. Aqui, novamente, não há tabulação; é deixado para nós o sacrifício do encanto literário, e até mesmo de alguma precisão, a fim de trazer para fora o único grande ponto.

Que é este: que quando um japonês pensa em Hachiman, e um bôer no Senhor das Hostes, não são dois pensamentos, mas sim um.

A causa do sectarismo humano não é a falta de simpatia no pensamento, mas sim no discurso; e o nosso projeto ambicioso é remediar isso.

Cada nova seita agrava a situação. Especialmente as americanas, grosseiramente e crapulosamente ignorantes como elas são dos rudimentos da linguagem humana, agarram-se como cachorros vira-latas aos ossos podres de seu macaco-tagarela pútrido, e roem e rasgam-no com rosnados e uivos ferozes.

A prostituta mental, a Sra. Eddy (por exemplo), tendo inventado a ideia que as pessoas comuns chamam de “Deus”, batizou isso de “Mente”, e então ao afirmar um conjunto de proposições sobre a “Mente”, que só são verdadeiras sobre “Deus”, deixou toda a “Amãrica” histérica, dispéptica, louca em conflito. Particularmente, eu não me oponho a pessoas discutindo as propriedades do triângulo de quatro lados; mas eu estipulo um limite quando usam uma palavra bem conhecida como porco, ou curador mental, ou monte de esterco, para denotar o objeto do seu fetichismo paranoico.

Mesmo entre os filósofos sérios a confusão é muito grande. Tais termos como Deus, o Absoluto, Espírito, têm dezenas de conotações, de acordo com a época e o local da disputa e das crenças dos disputantes.

É tempo suficiente para que estas definições e suas inter-relações sejam cristalizadas, mesmo à custa de precisão filosófica aceita.

2. As principais fontes de nossas tabelas foram os filósofos e os sistemas tradicionais mencionados acima, como também, entre muitos outros, Pietro di Abano, Lilly, Éliphas Lévi, Sir R. Burton, Svāmī Vivekānanda, os clássicos hindus, budistas e chineses, o Alcorão e os seus comentadores, o Livro dos Mortos, e, em particular, pesquisa original. Os sistemas chinês, hindu, budista, muçulmano e egípcio nunca foram alinhados com a Cabala; o Tarô jamais foi tornado público.

Éliphas Lévi conhecia as verdadeiras atribuições, mas foi proibido de usá-las[3].

Todo esse segredo é muito idiota. Um Arcano indizível é um arcano que não é possível ser revelado. É simplesmente má fé fazer um homem jurar as sanções mais horríveis se ele trair…, etc., e então chamá-lo misteriosamente à parte e confidenciar-lhe o Alfabeto Hebraico para que o possa manter seguro. Talvez isso seja só ridículo; mas é uma impostura ímpia fingir que recebeu a partir dos manuscritos Rosa-cruzes que se encontram no Museu Britânico. Obter dinheiro com estes motivos, como tem sido feito por alguns recentemente, é uma fraude clara (e, espero, indiciável); e ter alguma encorajado essas fraudes, das quais ele seguramente estava ciente, parece dificilmente crível de um estudante dos mistérios tão sério e venerável quanto Dr. Wynn Westcott[4]. Presume-se, no entanto, que ele tenha sido ludibriado por seu medo, se não por sua confiança, no Místico Maquiavélico da Rua Mozart.

Os segredos dos Adeptos não devem ser revelados aos homens. Nós apenas desejamos que fossem. Quando um homem vem a mim e pede pela Verdade, eu vou embora e pratico o ensino de Cálculo Diferencial para um bosquímano; e eu só respondo o primeiro quando eu tiver sucesso com este último. Mas esconder o Alfabeto do Misticismo do aprendiz é o artifício de um charlatão egoísta. Aquilo que pode ser ensinado deve ser ensinado, e aquilo que não pode ser ensinado pode finalmente ser aprendido.

3. Assim como um guerreiro cansado, porém vitorioso, se deleita ao recordar suas batalhas – Fortisan hæc olim meminisse juvabit[5] – nós vamos nos prolongar um pouco sobre as dificuldades de nossa tarefa.

A questão dos alfabetos sagrados foi abandonada como incorrigível. Como alguém que deve provar a natureza da mulher, o mais profundo que vai mais corrupto fica, de modo que, finalmente, se vê que não há um fundo seguro. Tudo é arbitrário[6]; retirando os cáusticos e adotando um tratamento protetivo, apontamos para os curativos limpos e bonitos e pedimos para o clínico admirar! Para dar um exemplo concreto: o T inglês é claramente equivalente em som ao ת hebraico, ao τ grego, ao ت árabe e ao ϯ copta, mas a numeração não é a mesma. Novamente, temos uma analogia clara em forma (talvez toda uma série de analogias), que, ao comparar os alfabetos modernos com exemplos primevos, rompe-se e é indecifrável.

A mesma dificuldade em outra forma permeia a questão dos deuses.

Sacerdotes, para propiciar seu fetiche local, lhe lisonjeariam com o título de criador; filósofos, com uma visão mais ampla, descreveriam identidades entre muitos deuses a fim de obter uma unidade. O tempo e a natureza gregária do homem ergueram deuses como ideias desenvolvidas mais universalmente; o sectarismo elaborou falsas distinções entre deuses idênticos para fins polêmicos.

Assim, onde vamos colocar Ísis, favorecendo a ninfa do milho como ela era? Como o tipo da maternidade? Como a lua? Como a grande deusa da Terra? Como a Natureza? Como o Ovo Cósmico de onde surgiu toda a Natureza? Pois assim como a hora e o local mudaram, assim também ela é tudo isso!

E quanto a Jeová, aquele rabugento senhor do início do Gênesis, aquele legislador do Levítico, aquele deus da guerra de Josué, aquele Phallus dos escravos despovoados dos egípcios, aquele Rei-Deus zeloso dos tempos dos Reis, aquela concepção mais espiritual do Cativeiro, apenas inventado quando toda a esperança temporal estava perdida, aquele campo de batalha medieval de lógica talhada em cruz, aquele Ser despido de seus atributos e equiparado a Parabrahman e ao Absoluto do Filósofo?

Satanás, novamente, em Jó, que é meramente Promotor-Geral e processa pela Coroa, adquire com o tempo toda difamação anexa à função nos olhos das classes penais, e se torna um caluniador. Será que alguém realmente acha que qualquer anjo é tão tolo a ponto de tentar enganar o Deus Onisciente em injustiça para com os seus santos?

Então, por outro lado, o que se passa com Moloque, essa forma de Jeová denunciada por aqueles que não obtiveram lucros enormes de seus ritos? O que se passa com o Jesus selvagem e rabugento dos evangélicos, cortado por suas malícias mesquinhas do Jesus gentil das crianças italianas? Como vamos identificar o chauvinista taumaturgo de Mateus com o Logos metafísico de João? Em suma, enquanto a mente humana é móvel, também as definições de todos os nossos termos variarão.

Mas é necessário fixar-se em alguma coisa: regras ruins são melhores do que não ter regra alguma. Podemos então esperar que os nossos críticos ajudarão a reconhecer nossa fraqueza; e se for acordado que o aprendizado em excesso tenha nos deixado loucos, que possamos receber um tratamento humano e uma concessão generosa de bolas de golfe[7] em nossa velhice.

4. A Árvore da Vida é o esqueleto sobre o qual este corpo de verdade é construído. A justaposição e a proporção de suas partes devem ser plenamente estudadas. Apenas a prática permitirá que o estudante determine até que ponto uma analogia pode ser seguida. Novamente, algumas analogias podem escapar de um estudo superficial. O Besouro só está relacionado com o signo de Peixes através do Trunfo do Tarô “A Lua”. O camelo só está relacionado com a Sacerdotisa através da letra ג.

Uma vez que todas as coisas, sejam elas quais forem (incluindo coisa nenhuma), podem ser colocadas sobre a Árvore da Vida, a Tabela jamais poderia ser completa. Ela já é um pouco complicada; nós tentamos nos limitar na medida do possível em listar as Coisas Geralmente Desconhecidas. Deve ser lembrado que as tabelas menores só estão separadas das tabelas de trinta e duas partes a fim de economizar espaço; por exemplo, na tabela de sete partes os registros de Saturno pertencem à trigésima-segunda parte da tabela maior.

Neste momento, fomos incapazes de tabular vários grandes sistemas de Magia; os quatro livros menores do Lemegeton; o sistema de Abramelin se de fato as suas ramificações Qliphóticas são suscetíveis de classificação, quando o seguimos sob as grandes e terríveis Tríades Demoníacas que se encontram sob a presidência do Nome Indizível; o sistema vasto e abrangente esboçado no assim chamado Livro do Concurso das Forças que nós agora estamos editando e esperamos publicar separadamente, entrelaçado como é com o Tarô – sendo sob certo ponto de vista pouco mais do que uma ampliação e aplicação prática do Livro de Thoth.

Mas esperamos que a presente tentativa atrairá estudiosos de todos os lados, como quando o Satanás ferido se inclinou sobre sua lança,

“Imediatamente de todos os lados surgiram
muitos e fortes anjos em seu auxílio”,

e que no decorrer do tempo possa resultar um volume muito mais satisfatório.

Para a maioria das pessoas, muitas colunas parecem simples listas de palavras sem sentido. A prática, e o avanço no caminho mágico ou místico, permitirão a elas pouco a pouco interpretar mais e mais.

Assim como uma flor desabrocha sob os beijos ardentes do Sol, assim esta tabela revelará suas glórias para os olhos deslumbrantes da iluminação. Simbólica e estéril como ela é, no entanto, deve permanecer para o estudante vigoroso como um sacramento perfeito, de modo que reverentemente fechando suas páginas ele deva exclamar: “Que isso do qual partilhamos sustente-nos na busca pela Quintessência, a Pedra do Sábio, o Summum Bonum, a Verdadeira Sabedoria, e a Perfeita Felicidade”.

Assim seja!


  1. [A A∴A∴ não aprovou a Introdução a seguir; mas de acordo com o Seu princípio de nunca interferir com a vontade dos outros, permitiu que o escriba empregado na realização do trabalho de tabulação expressasse suas próprias visões.] ↩︎

  2. «Publicado no Brasil pela Editora Madras como A Kabbalah Revelada↩︎

  3. Isso provavelmente é verdade, embora de acordo com a declaração do tradutor da doutrina de Lévi e o difamador de sua nobre personalidade. ↩︎

  4. Minha correspondência com este cavalheiro não elevou minha opinião sobre sua conduta. ↩︎

  5. «“Talvez seja agradável recordar estas coisas um dia.”» ↩︎

  6. Talvez todo simbolismo seja, em última análise, assim; não há relação necessária entre pensar na ideia de uma mãe, o som do choro da criança “Ma”, e a combinação de linhas ma. Este, também, é o caso extremo, uma vez que “ma” é o som produzido naturalmente apenas abrindo os lábios e respirando. Hindus fariam um grande alarde sobre esta verdadeira conexão; mas é muito provavelmente a única. Todos esses belos esquemas rompem mais cedo ou mais tarde, a maioria mais cedo. ↩︎

  7. «Rubber-cores no original, uma gíria para um tipo de bola de golfe.» ↩︎


Traduzido por Alan Willms em 2010 e 2021. Revisado por Lucas Fortunato em 2021.