Introdução

Este artigo é um capítulo de Liber ABA – Magick – O Livro Quatro

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Introdução

ἔσσεαι ἀθάνατος, θεός ἄμβροτος, οὐκέτι θνητός1.

Pitágoras.

“A magia é o conhecimento mais Elevado, Absoluto e Divino da Filosofia Natural, avançado em suas obras e operações maravilhosas por uma compreensão correta da virtude interior e oculta das coisas; de modo que, quando os Agentes verdadeiros são aplicados aos Pacientes adequados, efeitos estranhos e admiráveis serão assim produzidos. Por isso, os magistas são profundos e diligentes investigadores da Natureza; eles, devido à sua habilidade, sabem como antecipar um efeito que, para o vulgo, parecerá um milagre”.

A Goetia do Lemegeton do Rei Salomão.

“Onde quer que a magia simpática ocorra em sua forma pura e não adulterada, presume-se que, na natureza, um evento segue o outro necessariamente e invariavelmente sem a intervenção de qualquer agente espiritual ou pessoal.

Assim, sua concepção fundamental é idêntica à da ciência moderna; subjacente a todo o sistema está uma fé, implícita, mas real e firme, na ordem e uniformidade da natureza. O magista não duvida que as mesmas causas sempre produzirão os mesmos efeitos, que a realização da cerimônia adequada, acompanhada do feitiço apropriado, inevitavelmente resultará nos efeitos desejados, a menos que, de fato, seus encantamentos sejam impedidos e frustrados pelos encantos mais potentes de outro feiticeiro. Ele não suplica a nenhum poder superior: não busca o favor de nenhum ser volúvel e caprichoso: não se humilha perante nenhuma divindade terrível. Contudo, seu poder, por maior que ele acredite ser, não é de modo algum arbitrário e ilimitado. Ele só pode exercê-lo enquanto se conformar estritamente às regras de sua arte, ou ao que pode ser chamado de leis da natureza, conforme concebidas por ele. Negligenciar essas regras, infringir essas leis no menor detalhe, é incorrer em fracasso e pode até mesmo expor o praticante inábil a extremo perigo. Se ele reivindica soberania sobre a natureza, trata-se de uma soberania constitucional rigorosamente limitada em seu alcance e exercida em exata conformidade com os costumes antigos. Assim, a analogia entre as concepções mágicas e científicas do mundo é estreita. Em ambas, a sucessão de eventos é perfeitamente regular e certa, sendo determinada por leis imutáveis, cujo funcionamento pode ser previsto e calculado com precisão; os elementos do capricho, do acaso e do acidente são banidos do curso da natureza. Ambas abrem um horizonte aparentemente ilimitado de possibilidades para aquele que conhece as causas das coisas e que pode tocar as engrenagens secretas que põem em movimento o vasto e intrincado mecanismo do mundo. Daí a forte atração que tanto a magia quanto a ciência exercem sobre a mente humana; daí o poderoso estímulo que ambas dão à busca do conhecimento. Elas atraem o investigador cansado, o buscador de pés doloridos, através do deserto da decepção no presente, com suas promessas intermináveis do futuro: levam-no ao topo de uma montanha extremamente alta e mostram-lhe, além das nuvens escuras e da névoa que se espalha a seus pés, uma visão da cidade celestial, distante, talvez, mas radiante com um esplendor sobrenatural, banhada pela luz dos sonhos”.

Dr. J. G Frazer, “O Ramo de Ouro”.

“Até agora, portanto, na medida em que a profissão pública de magia tem sido um dos caminhos pelos quais os homens alcançaram o poder supremo, ela contribuiu para emancipar a humanidade do jugo da tradição e elevá-la a uma vida mais ampla e livre, com uma visão de mundo mais abrangente. Este é um serviço considerável prestado à humanidade. E quando nos lembramos ainda que, em outro sentido, a magia pavimentou o caminho para a ciência, somos forçados a admitir que, se a arte negra causou muito mal, também foi fonte de muito bem; que, se é filha do erro, também foi mãe da liberdade e da verdade”.

Ibid.

“Examinai tudo; retende o que é bom”.

São Paulo.

“Também os mantras e encantamentos; o obeah e o wanga; o trabalho da varinha e o trabalho da espada; estes ele aprenderá e ensinará”.

“Ele deve ensinar; mas ele pode tornar severos os ordálios”.

“A palavra da Lei é Θελημα”.

Liber AL vel XXXI: O Livro da Lei.

Este livro é para

TODOS:

para cada homem, mulher e criança.

Meus trabalhos anteriores foram mal interpretados e seu alcance era limitado por causa do uso de termos técnicos. Eles atraíram apenas diletantes e excêntricos, pessoas fracas que buscavam na “Magia” uma fuga da realidade. No começo, eu também me atraí conscientemente pelo tema dessa maneira. Isso tem repelido muitas mentes científicas e práticas, justamente as que eu mais almejava influenciar.

Mas a

MAGIA2

é para

TODOS.

Escrevi este livro para ajudar a bancária, o pugilista, a bióloga, o poeta, a construtora, o comerciante, a operária, o matemático, a estenógrafa, o golfista, a chefe de família, o cônsul — e todos os demais — a se realizarem plenamente, cada um em sua própria função.

Permitam-me explicar em poucas palavras como foi que acabei estampando a palavra

MAGIA

no Estandarte que tenho carregado diante de mim por toda a minha vida.

Antes mesmo de chegar à adolescência, eu já sabia que era A BESTA, cujo número é 666. Eu não entendia absolutamente nada do que isso implicava; era uma sensação de identidade apaixonadamente extasiante.

No meu terceiro ano em Cambridge, dediquei-me conscientemente à Grande Obra, compreendendo por isso a Obra de me tornar um Ser Espiritual, livre das limitações, acidentes e enganos da existência material.

Assim como H. P. Blavatsky alguns anos antes, me vi sem um nome para designar meu trabalho. “Teosofia”, “Espiritualismo”, “Ocultismo”, “Misticismo” – todos esses termos carregavam conotações indesejáveis.

Por isso escolhi o nome

MAGIA

como, essencialmente, o mais sublime, e na verdade o mais desacreditado, de todos os termos disponíveis.

Jurei reabilitar a

MAGIA,

identificá-la com a minha própria carreira e compelir a humanidade a respeitar, amar e confiar naquilo que desprezavam, odiavam e temiam. Cumpri minha Palavra. Mas chegou a hora de levar meu estandarte para o meio da multidão da vida humana.

Devo fazer da

MAGIA

o fator essencial na vida de

TODOS.

Ao apresentar este livro ao mundo, devo então explicar e justificar minha posição, formulando uma definição de

MAGIA

e expondo seus princípios fundamentais de tal forma que

TODOS

possam compreender instantaneamente que suas almas, suas vidas, em todas as suas relações com todos os outros seres humanos e em todas as circunstâncias, dependem da

MAGIA

e de sua correta compreensão e aplicação.

I. Definição:

Magia é a Ciência e a Arte de fazer com que Mudanças ocorram em conformidade com a Vontade.

(Exemplo: minha Vontade é informar ao mundo certos fatos dentro do meu conhecimento. Portanto, pego “armas mágicas”, caneta, tinta e papel; escrevo “encantamentos” – estas frases – na “linguagem mágica”, ou seja, aquela que é compreendida pelas pessoas a quem desejo instruir. Eu conjuro “espíritos”, como impressores, editores, livreiros e assim por diante, e os comando a transmitir minha mensagem a essas pessoas. Portanto, a composição e a distribuição são um ato de Magia pelos quais eu faço com que Mudanças ocorram em conformidade com a minha Vontade3.)

II. Postulado:

Qualquer Mudança necessária pode ser efetuada pela aplicação do tipo e grau apropriados de Força, da maneira apropriada, através do meio apropriado, ao objeto apropriado.

(Exemplo: desejo preparar 28g de cloreto de ouro. Devo pegar o tipo certo de ácido, nitro-hidroclorídrico e nenhum outro, em quantidade suficiente e de força adequada, e colocá-lo em um recipiente que não quebre, vaze ou corroa, de maneira a não produzir resultados indesejáveis, com a quantidade necessária de ouro e assim por diante. Cada Mudança tem suas próprias condições.

No estado atual de nosso conhecimento e poder, algumas mudanças não são possíveis na prática; por exemplo, não conseguimos causar eclipses ou transformar chumbo em estanho, ou criar homens a partir de cogumelos. Mas teoricamente é possível causar em qualquer objeto qualquer mudança da qual esse objeto seja capaz por natureza; e as condições são cobertas pelo postulado acima.)

III. Teoremas:

1. Todo ato intencional é um Ato Mágico4.

(Exemplo: Consulte a “Definição” acima.)

2. Todo ato bem-sucedido está de acordo com o postulado.

3. Toda falha prova que um ou mais requisitos do postulado não foram cumpridos.

(Exemplos: Pode haver falha na compreensão do caso; como quando um médico faz um diagnóstico errado e seu tratamento prejudica o paciente. Pode haver falha em aplicar o tipo certo de força, como quando um camponês tenta apagar uma lâmpada elétrica soprando. Pode haver falha em aplicar o grau certo de força, como quando um lutador tem sua pegada interrompida. Pode haver falha em aplicar a força da maneira correta, como quando alguém apresenta um cheque na janela errada do Banco. Pode haver falha em empregar o meio correto, como quando Leonardo da Vinci viu sua obra-prima desbotar. A força pode ser aplicada a um objeto inadequado, como quando alguém tenta quebrar uma pedra, pensando que é uma noz.)

4. O primeiro requisito para causar qualquer mudança é a compreensão qualitativa e quantitativa completa das condições.

(Exemplo: A causa mais comum de fracasso na vida é a ignorância da própria Verdadeira Vontade, ou dos meios pelos quais cumprir essa Vontade. Um homem pode imaginar-se um pintor e desperdiçar sua vida tentando se tornar um; ou ele pode realmente ser um pintor, e ainda não conseguir entender e medir as dificuldades peculiares a essa carreira.)

5. O segundo requisito para causar qualquer mudança é a habilidade prática de colocar em movimento as forças necessárias.

(Exemplo: Um bancário pode ter uma compreensão perfeita de uma determinada situação, mas carecer da qualidade de decisão, ou dos recursos necessários para tirar proveito dela.)

6. “Todo homem e toda mulher é uma estrela”. Ou seja, todo ser humano é intrinsecamente um indivíduo independente com seu próprio caráter e seu próprio movimento.

7. Todo homem e toda mulher têm um curso, dependendo em parte do self e em parte do ambiente que é natural e necessário a cada um. Qualquer um que é forçado a sair de seu próprio curso, seja por não compreender a si mesmo, seja por oposição externa, entra em conflito com a ordem do Universo e sofre de acordo.

(Exemplo: um homem pode pensar que é seu dever agir de uma certa maneira, por ter criado uma imagem fantasiosa de si mesmo, em vez de investigar sua real natureza. Por exemplo, uma mulher pode tornar-se miserável para o resto da vida pensando que prefere o amor à consideração social, ou vice-versa. Uma mulher pode ficar com um marido antipático quando na verdade seria feliz em um sótão com um amante, enquanto outra pode se enganar em uma fuga romântica quando seus únicos verdadeiros prazeres são presidir em funções tradicionais. Novamente, o instinto de um menino pode dizer-lhe para ir para o mar, enquanto seus pais insistem em que ele se torne um médico. Nesse caso, ele será tanto malsucedido quanto infeliz na medicina.)

8. Uma pessoa cuja vontade consciente está em desacordo com sua Verdadeira Vontade está desperdiçando sua força. Ela não pode esperar influenciar seu ambiente de forma eficiente.

(Exemplo: Quando uma guerra civil assola uma nação, ela não está em condições de invadir outros países. Alguém com câncer emprega sua nutrição tanto para seu próprio uso quanto para o do inimigo que é parte dele. Ele logo falha em resistir à pressão de seu ambiente. Na vida prática, uma pessoa que está fazendo algo que sua consciência lhe diz ser errado o fará de maneira muito desajeitada. A princípio!)

9. Uma pessoa que está fazendo sua Verdadeira Vontade tem a inércia do Universo para ajudá-la.

(Exemplo: O primeiro princípio do sucesso na evolução é que o indivíduo deve ser fiel à sua própria natureza e, ao mesmo tempo, adaptar-se ao seu ambiente.)

10. A Natureza é um fenômeno contínuo, embora não saibamos em todos os casos como as coisas estão conectadas.

(Exemplo: A consciência humana depende das propriedades do protoplasma, cuja existência depende de inúmeras condições físicas peculiares a este planeta; e este planeta é determinado pelo equilíbrio mecânico de todo o universo da matéria. Podemos então dizer que nossa consciência está causalmente conectada com as galáxias mais remotas; ainda assim, não sabemos nem mesmo como ela surge a partir das – ou com as – mudanças moleculares no cérebro.)

11. A ciência nos permite aproveitar a continuidade da Natureza pela aplicação empírica de certos princípios cuja interação envolve diferentes ordens de ideias, conectadas umas às outras de uma forma além de nossa compreensão atual.

(Exemplo: Somos capazes de iluminar cidades por meio de métodos práticos. Não sabemos o que é a consciência, ou como ela está conectada com a ação muscular; o que é eletricidade ou como ela está conectada com as máquinas que a geram; e nossos métodos dependem de cálculos envolvendo ideias matemáticas que não têm correspondência no Universo como o conhecemos5.)

12. O ser humano desconhece a natureza de seu próprio ser e de seus poderes. Até mesmo sua ideia de suas limitações é baseada na experiência do passado, e cada passo em seu progresso estende seu império. Portanto, não há razão para atribuir limites teóricos6 ao que ele consegue ser, ou ao que ele consegue fazer.

(Exemplo: Duas gerações atrás, era teoricamente impossível que o ser humano conhecesse a composição química das estrelas fixas. Sabe-se que nossos sentidos estão adaptados para receber apenas uma fração infinitesimal das possíveis taxas de vibração. Instrumentos modernos nos possibilitaram detectar algumas destas vibrações além dos nossos sentidos por métodos indiretos, e até mesmo a utilizar suas qualidades peculiaries à serviço do ser humano, como no caso dos raios de Hertz e Roentgen. Como Tyndall disse, o ser humano pode a qualquer momento aprender a perceber e utilizar vibrações de todos os tipos, concebíveis e inconcebíveis. A questão da Magia é uma questão de descobrir e empregar forças até então desconhecidas na natureza. Sabemos que elas existem, e não podemos duvidar da possibilidade de instrumentos mentais ou físicos capazes de nos colocar em relação com elas.)

13. Todo ser humano está mais ou menos consciente de que sua individualidade compreende várias ordens de existência, mesmo quando sustenta que seus princípios mais sutis são meramente sintomáticos das mudanças em seu veículo grosseiro. Pode-se presumir que uma ordem semelhante se estende por toda a natureza.

(Exemplo: Não se confunde a dor de dente com a cárie que a causa. Os objetos inanimados são sensíveis a certas forças físicas, como a condutividade elétrica e térmica; mas nem em nós e nem neles – tanto quanto sabemos – há qualquer percepção consciente direta dessas forças. Portanto, influências imperceptíveis estão associadas a todos os fenômenos materiais; e não há razão para que não devamos trabalhar sobre a matéria por meio dessas energias sutis como fazemos por meio de suas bases materiais. De fato, usamos a força magnética para mover o ferro e a radiação solar para reproduzir imagens.)

14. O ser humano é capaz de ser e usar qualquer coisa que ele perceba; pois tudo o que ele percebe é, em certo sentido, uma parte de seu ser. Desta forma, ele pode subjugar todo o Universo, do qual ele é consciente, à sua Vontade individual.

(Exemplo: O ser humano tem usado a ideia de Deus para ditar sua conduta pessoal, para obter poder sobre seus semelhantes, para desculpar seus crimes e para inúmeros outros propósitos, incluindo o de se perceber como Deus. Ele tem usado as concepções irracionais e irreais da matemática para ajudá-lo na construção de dispositivos mecânicos. Ele tem usado sua força moral para influenciar as ações até mesmo de animais selvagens. Ele tem empregado o gênio poético para fins políticos.)

15. Toda força no Universo é capaz de ser transformada em qualquer outro tipo de força usando meios adequados. Desta forma, existe um suprimento inesgotável de qualquer tipo particular de força de que possamos precisar.

(Exemplo: O calor pode ser transformado em luz e eletricidade, usando-o para acionar dínamos. As vibrações do ar podem ser usadas para matar homens, ordenando-os na fala de modo a inflamar paixões de guerra. As alucinações relacionadas com as misteriosas energias do sexo resultam na perpetuação da espécie.)

16. A aplicação de qualquer dada força afeta todas as ordens do ser existentes no objeto ao qual é aplicada, qualquer que tenha sido a ordem diretamente afetada.

(Exemplo: Se eu atingir uma pessoa com uma adaga, sua consciência, e não apenas seu corpo, será afetada por meu ato; embora a adaga, como tal, não tenha relação direta com ela. Da mesma forma, o poder de meu pensamento pode atuar na mente de outra pessoa a ponto de produzir mudanças físicas de longo alcance nela ou em outras através dela.)

17. Uma pessoa pode aprender a usar qualquer força para servir a qualquer propósito, valendo-se dos teoremas acima.

(Exemplo: Uma pessoa pode usar uma navalha para tornar-se vigilante sobre sua fala, usando-a para cortar-se sempre que profere uma palavra escolhida descuidadamente7. Ele pode servir ao mesmo propósito resolvendo que cada incidente de sua vida deve lembrá-lo de uma coisa particular, tornando cada impressão o ponto de partida de uma série conectada de pensamentos que terminam naquele objeto.

18. Ele pode atrair para si qualquer força do Universo tornando-se um receptáculo adequado para ela, estabelecendo uma conexão com ela e arranjando condições para que a natureza dela a obrigue a fluir em sua direção.

(Exemplo: Se eu quero água pura para beber, eu cavo um poço em um lugar onde haja água subterrânea; eu evito que ela vaze; e procuro aproveitar a conformidade da água às leis da hidrostática para encher o poço.)

19. A percepção do ser humano de si mesmo como separado e oposto ao Universo é uma barreira para que ele conduza suas correntes. Isso o isola.

(Exemplo: Um líder popular é mais bem-sucedido quando se esquece de si mesmo e se lembra apenas “da causa”. A busca egoísta gera ciúmes e cismas. Quando os órgãos do corpo afirmam sua presença de outra forma que não por satisfação silenciosa, é sinal de que estão doentes. A única exceção é o órgão de reprodução. No entanto, mesmo neste caso, a autoafirmação testemunha sua insatisfação consigo mesmo, uma vez que não consegue cumprir sua função até que seja completada por sua contraparte em outro organismo.)

20. O ser humano só consegue atrair e empregar as forças para as quais está realmente preparado.

(Exemplo: Você não consegue fazer uma bolsa de seda com a orelha de um porco. Um verdadeiro cientista aprende com cada fenômeno. Mas a Natureza é muda para o hipócrita; pois nela não há nada falso8.)

21. Em essência, não há limite para a extensão das relações de qualquer ser humano com o Universo; pois assim que ele se torna um com qualquer ideia, os meios de medição deixam de existir. Mas seu poder de utilizar aquela força é limitado por seu poder e capacidade mental e pelas circunstâncias de seu ambiente humano.

(Exemplo: Quando uma pessoa se apaixona, o mundo inteiro se torna, para ela, nada além de amor ilimitado e imanente; mas seu estado místico não é contagioso; seus semelhantes se divertem ou se aborrecem com isso. Ela só consegue estender aos outros o efeito que seu amor teve sobre si mesma por meio de suas qualidades físicas e mentais. Além disso, Cleópatra e outras pessoas em posição de autoridade moldaram a sorte de muitas outras pessoas, permitindo que o amor influenciasse suas ações políticas. O Magista, por mais que consiga fazer contato com as fontes secretas de energia na natureza, só consegue usá-las na medida permitida por suas qualidades intelectuais e morais. O intercurso de Maomé com Gabriel só foi efetivo por causa de seu estadismo, militarismo e a sublimidade de seu domínio do árabe. A descoberta de Hertz dos raios que agora usamos para telegrafia sem fio era estéril até se refletir nas mentes e vontades das pessoas que poderiam pegar sua verdade e transmiti-la ao mundo da ação por meio de instrumentos mecânicos e econômicos.)

22. Todo indivíduo é essencialmente suficiente para si. Mas ele é insatisfatório para si mesmo até que se estabeleça em sua correta relação com o Universo.

(Exemplo: Um microscópio, por mais perfeito que seja, é inútil nas mãos dos selvagens. Um poeta, por mais sublime que seja, deve impor-se à sua geração se quiser desfrutar de [e mesmo compreender a] si mesmo, como teoricamente deveria ser o caso.)

23. Magia é a Ciência da compreensão de si mesmo e de suas condições. É a Arte de aplicar esse entendimento à ação.

(Exemplo: Um taco de golfe destina-se a mover uma bola especial de uma maneira especial sob circunstâncias especiais. Um taco Niblick raramente deve ser usado no tee ou um Brassie sob a margem de um bu__nker9. Mas, também, o uso de qualquer taco exige habilidade e experiência.)

24. Todo ser humano tem o direito irrevogável de ser o que é.

(Exemplo: Insistir que qualquer outra pessoa siga os seus próprios padrões é ultrajar não apenas aquela pessoa, mas a si mesmo, já que ambas as partes nascem igualmente da necessidade.)

25. Todo ser humano deve fazer Magia toda vez que age ou até mesmo pensa, já que um pensamento é um ato interno cuja influência afeta a ação, embora não o faça naquele momento.

(Exemplo: O menor gesto causa uma mudança no próprio corpo de uma pessoa e no ar ao seu redor: ele perturba o equilíbrio de todo o universo e seus efeitos continuam eternamente por todo o espaço. Cada pensamento, não importa o quão rapidamente seja suprimido, tem seu efeito na mente. Ele permanece como uma das causas de todo pensamento subsequente e tende a influenciar toda ação subsequente. Um jogador de golfe pode perder algumas jardas em sua tacada, mais algumas com sua segunda e terceira, ele pode alcançar o green seis polegadas longe do buraco; mas o resultado desses contratempos insignificantes é a diferença de uma tacada inteira e, portanto, provavelmente entre acertar e errar o buraco.)

26. Todo ser humano tem um direito, o direito de autopreservação, de realizar-se ao máximo10.

(Exemplo: Uma função desempenhada de forma imperfeita prejudica não apenas a si mesma, mas tudo associado a ela. Se o coração tem medo de bater por medo de perturbar o fígado, o fígado carece de sangue e se vinga do coração perturbando a digestão, que desordena a respiração, da qual depende o bem-estar cardíaco.)

27. Todo ser humano deve fazer da Magia o fio condutor de sua vida. Ele deve aprender suas leis e viver de acordo com elas.

(Exemplo: O banqueiro deve descobrir o verdadeiro significado de sua existência, o verdadeiro motivo que o levou a escolher essa profissão. Ele deve entender o banco como um fator necessário na existência econômica da humanidade, em vez de apenas um negócio cujos objetivos são independentes do bem-estar geral. Ele deve aprender a distinguir os valores falsos dos reais e a agir não com base em flutuações acidentais, mas sob considerações de importância essencial. Esse banqueiro se mostrará superior aos demais, porque não será um indivíduo limitado por coisas transitórias, mas uma força da Natureza, tão impessoal, imparcial e eterno quanto a gravidade, tão paciente e irresistível quanto as marés. Seu sistema não estará sujeito ao pânico, assim como a lei dos quadrados inversos não é perturbada pelas eleições. Ele não ficará ansioso com seus negócios porque eles não serão seus; e por essa razão ele será capaz de dirigi-los com a confiança calma e lúcida de um observador, com uma inteligência desanuviada pelo interesse próprio e um poder que não é prejudicado pela paixão.

28. Todo ser humano tem o direito de cumprir sua própria vontade sem temer que ela interfira na dos outros; pois se ele está em seu caminho adequado, é culpa dos outros se eles interferem com ele.

(Exemplo: Se um homem como Napoleão realmente fosse escolhido pelo destino para controlar a Europa, ele não deveria ser culpado por exercer seus direitos. Opor-se a ele seria um erro. Qualquer um que fizesse isso teria cometido um erro quanto ao seu próprio destino, exceto na medida em que fosse necessário para ele aprender as lições da derrota. O sol se move no espaço sem interferência. A ordem da Natureza fornece uma órbita para cada estrela. Uma colisão prova que uma estrela ou outra se desviou de seu curso. Mas quanto a cada pessoa que se atém ao seu verdadeiro curso, quanto mais firmemente age, menos provável é que as outras fiquem em seu caminho. Seu exemplo as ajudará a encontrar seus próprios caminhos e segui-los. Toda pessoa que se torna um Magista ajuda as outras a fazerem o mesmo. Quanto mais firme e seguramente as pessoas se movem, e quanto mais tal ação é aceita como padrão de moralidade, menos conflitos e confusão atrapalharão a humanidade.)


Espero que os princípios acima demonstrem a

TODOS

que seu bem-estar, que sua própria existência, estão ligados à

MAGIA.

Confio que eles compreenderão, não apenas a razoabilidade, mas também a necessidade da verdade fundamental a qual fui o meio de transmissão à humanidade: “Faz o que tu queres será o todo da Lei”. Confio que eles se afirmarão como indivíduos absolutos, que compreenderão que é seu direito se afirmarem e cumprirem a tarefa para a qual sua natureza os capacita. Sim, mais ainda, que este é o seu dever, e não apenas para consigo mesmos, mas também para com os outros, um dever fundado na necessidade universal, e que não deve ser evitado por conta de quaisquer circunstâncias fortuitas do momento que possam parecer inconvenientes ou mesmo cruéis.

Espero que os princípios descritos acima os ajudem a compreender este livro e evitem que sejam dissuadidos de o estudar pela linguagem mais ou menos técnica em que está escrito.

A essência da

MAGIA

é bastante simples em consciência. O mesmo não se pode dizer da arte de governar. O Objetivo é simplesmente a prosperidade; mas a teoria é complexa, e a prática, repleta de obstáculos.

Da mesma forma,

MAGIA

é simplesmente ser e fazer. Eu acrescentaria: “sofrer”. Pois Magia é o verbo; e faz parte do Treinamento usar a voz passiva. Isso, no entanto, é uma questão de Iniciação, e não de Magia em seu sentido comum. Não é minha culpa se ser é algo desconcertante e fazer, desesperador!

Contudo, uma vez que os princípios acima estejam firmemente fixados na mente, torna-se bastante fácil resumir a situação brevemente. É preciso descobrir por si só, e certificar-se sem sombra de dúvida, quem se é, o que se é, por que se é. Feito isso, pode-se expressar em palavras, ou melhor, em uma Única Palavra, a vontade implícita no “Porquê”. Consciente do caminho correto a seguir, o próximo passo é compreender as condições necessárias para percorrê-lo. Depois disso, deve-se eliminar de si todo elemento estranho ou hostil ao sucesso e desenvolver as partes de si que são especialmente necessárias para controlar as condições mencionadas.

Façamos uma analogia. Uma nação precisa tomar consciência de seu próprio caráter antes que se possa dizer que ela existe. A partir desse conhecimento, ela deve discernir seu destino. Em seguida, deve considerar as condições políticas do mundo; como outros países podem ajudá-la ou prejudicá-la. Deve então destruir em si mesma quaisquer elementos discordantes com seu destino. Por fim, deve desenvolver em si mesma as qualidades que lhe permitam combater com sucesso as condições externas que ameaçam se opor ao seu propósito. Tivemos um exemplo recente no caso do jovem Império Alemão, que, conhecendo a si mesmo e sua vontade, disciplinou-se e treinou-se de modo a conquistar os vizinhos que o oprimiram por tantos séculos. Mas depois de 1866 e 1870, veio 1914! Ela se considerou sobre-humana, desejou algo impossível, não conseguiu eliminar seus próprios ciúmes internos, não conseguiu entender as condições da vitória11, não se treinou para dominar o mar e, assim, tendo violado todos os princípios da

MAGIA,

foi derrubada e despedaçada pelo provincianismo e pela democracia, de modo que nem a excelência individual nem a virtude cívica foram suficientes para elevá-la novamente àquela unidade majestosa que fez uma tentativa tão ousada de dominar a raça humana.

O estudante sincero descobrirá, por trás das tecnicalidades simbólicas deste livro, um método prático para se tornar um Magista. Os processos descritos permitirão que ele distinga entre o que ele realmente é e o que ele ingenuamente imaginara ser12. Ele deve contemplar sua alma em toda a sua terrível nudez, não deve temer encarar essa realidade assustadora. Deve descartar as vestes vistosas com as quais sua vergonha o encobriu; deve aceitar o fato de que nada pode transformá-lo em algo além do que ele é. Pode mentir para si mesmo, drogar-se, esconder-se; mas ele sempre estará lá. A Magia lhe ensinará que sua mente o está traindo. É como se dissessem a um homem que os desenhos de moda de alfaiates são o cânone da beleza humana, de modo que ele tentasse se tornar informe e sem feições como eles, e estremecesse de horror ao pensar em Holbein fazendo um retrato dele. A Magia lhe mostrará a beleza e a majestade do ente que ele tentou suprimir e disfarçar.

Tendo descoberto sua identidade, ele logo perceberá seu propósito. Outro processo lhe mostrará como tornar esse propósito puro e poderoso. Ele poderá então aprender a avaliar seu ambiente, a fazer aliados e a prevalecer contra todos os poderes cujo erro os levou a cruzar seu caminho.

No decorrer deste treinamento, ele aprenderá a explorar os Mistérios Ocultos da Natureza e a desenvolver novos sentidos e faculdades em si mesmo, por meio dos quais poderá se comunicar e controlar Seres e Forças pertencentes a ordens de existência que até então eram inacessíveis à pesquisa profana e disponíveis apenas àquela

MAGIA

(tradicional) não científica e empírica que eu vim destruir para que eu pudesse cumprir meu propósito.

Envio este livro ao mundo para que todo homem e mulher possam abraçar a vida da maneira correta. Não importa se a sua morada atual for a cabana de um pastor; em virtude da minha

MAGIA,

ele será um pastor como Davi foi. Se for o ateliê de um escultor, ele talhará em si mesmo o mármore que mascara sua ideia, de modo que não será menos mestre que Rodin.

Testemunhe de minha mão:

TO MEΓA ΘHPION (תריון): A Besta 666; MAGUS 9=2 A∴A∴ cuja Palavra do Æon é THELEMA; cujo nome é chamado V.V.V.V.V. 8=3 A∴A∴ na Cidade das Pirâmides; OU MH 7=4 A∴A∴; OL SONUF VAORESAGI 6=5, e … … 5=6 A∴A∴ na Montanha de Abiegnus: mas FRATER PERDURABO na Ordem Externa da A∴A∴ e, no Mundo dos homens na Terra, Aleister Crowley de Trinity College, Cambridge.


  1. «“Serás um deus imortal, incorruptível, e a morte não terá mais domínio sobre ti.”» ↩︎

  2. «Em português existem os termos “magia” e “mágica” que, apesar de popularmente serem utilizados de maneira intercambiável, esotericamente distinguem a magia dos magos da mágica dos ilusionistas. Como no inglês só há um termo “magic” para ambos os casos, Crowley reutilizou a grafia do inglês antigo “magick” como uma forma de distinguir os termos. Nesta tradução, optamos por sempre utilizar o termo “magia” para “magick” e “mágica” para “magic”, especialmente para facilitar a vida de quem pesquisa pelo termo na Internet. Vale observar que Crowley não utilizava o “k” no adjetivo “magical”.» ↩︎

  3. Em certo sentido, pode-se dizer que Magia é o nome dado à Ciência pelo vulgo. ↩︎

  4. Por “intencional” quero dizer “desejado”. Mas até mesmo atos aparentemente não intencionais na verdade o são. Assim, respirar é um ato da Vontade de viver. ↩︎

  5. Por exemplo, expressões “irracionais”, “irreais” e “infinitas”. ↩︎

  6. Isto é, exceto – possivelmente – no caso de questões logicamente absurdas, tais como aquelas que os escolásticos discutiram em relação a “Deus”. ↩︎

  7. «Refere-se a uma prática de controle adversativo chamada Liber Jugorum, publicada no The Equinox I(4) em setembro de 1910.» ↩︎

  8. Não há objeção de que o próprio hipócrita seja parte da Natureza. Ele é um produto “endotérmico”, dividido contra si mesmo, com tendência a se desfazer. Ele verá suas próprias qualidades em todos os lugares e, assim, obterá uma concepção radicalmente errônea dos fenômenos. A maioria das religiões do passado falhou ao esperar que a Natureza se conformasse com seus ideais de conduta adequada. ↩︎

  9. «Tee é o “pito” sobre o qual repousa a bola de golfe no início da partida. Bunker são os obstáculos cavados no curso de golfe.» ↩︎

  10. Pessoas de “natureza criminosa” estão simplesmente em conflito com suas verdadeiras Vontades. O assassino tem a Vontade de viver; e sua vontade de matar é uma vontade falsa em desacordo com sua verdadeira Vontade, uma vez que ele arrisca morrer pelas mãos da Sociedade ao obedecer a seu impulso criminoso. ↩︎

  11. Pelo menos, permitiu que a Inglaterra descobrisse suas intenções e, assim, unisse o mundo contra ela. ↩︎

  12. O professor Sigmund Freud e sua escola descobriram, nos últimos anos, uma parte desse corpo da Verdade, que tem sido ensinado por muitos séculos nos Santuários de Iniciação. Mas a incapacidade de compreender a plenitude da Verdade, especialmente aquela implícita em meu Sexto Teorema (acima) e seus corolários, levou ele e seus seguidores ao erro de admitir que o declaradamente suicida “Censor” é o árbitro apropriado da conduta. A psicanálise oficial, portanto, está comprometida em sustentar uma fraude, embora o fundamento da ciência tenha sido a observação dos efeitos desastrosos no indivíduo de ser falso com seu Eu Inconsciente, cuja “escrita na parede”, na linguagem dos sonhos, é o registro da soma das tendências essenciais da verdadeira natureza do indivíduo. O resultado tem sido que os psicanalistas interpretaram mal a vida e proclamaram o absurdo de que todo ser humano é essencialmente um animal antissocial, criminoso e insano. É uma prova de que os erros do Inconsciente dos quais os psicanalistas se queixam nada mais são do que o “pecado original” dos teólogos que eles tanto desprezam. ↩︎


Capítulo traduzido por Alan Willms em janeiro de 2026.

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