Os Princípios do Ritual

Este artigo é um capítulo de Liber ABA – Magick – O Livro Quatro

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Capítulo I
Os Princípios do Ritual

Existe uma única definição geral do propósito de qualquer Ritual mágico: é a união do Microcosmo com o Macrocosmo. O Supremo e Completo Ritual é, portanto, a Invocação do Sagrado Anjo Guardião1; ou, na linguagem do Misticismo, União com Deus2.

Todos os outros Rituais mágicos são casos particulares deste princípio geral, e a única desculpa para utilizá-los consiste em que algumas vezes uma porção particular do microcosmo é tão fraca que sua imperfeição de impureza viciaria o Macrocosmo, do qual ele é a imagem, Eidolon, ou Reflexo. Por exemplo, Deus está além do sexo; portanto, nem o homem e nem a mulher, como tais, podem ser considerados como abarcando por completo, muito menos como representando, Deus. É, portanto, de suma importância que o magista masculino cultive as virtudes femininas nas quais ele é deficiente, e esta tarefa ele deve, claro, executar sem prejudicar de forma alguma a sua virilidade. Será, então, permissível que um Magista invoque Isis e se identifique com ela; se ele fracassar nisto, sua apreensão do Universo quando atingir Samadhi não incluirá a concepção da maternidade. O resultado será uma limitação metafísica e – por corolário – uma limitação ética na Religião que ele fundar. Judaísmo e Islamismo são flagrantes exemplos desse fracasso.

Para dar outro exemplo, a vida ascética, que a dedicação à Magia tão frequentemente provoca, indica uma pobreza da natureza íntima do asceta, uma limitação, uma falta de generosidade. A Natureza é infinitamente prodigiosa – nem sequer uma semente em um milhão chega a dar fruto. Quem tem dificuldade em perceber isso, que invoque Júpiter3.

O perigo da magia cerimonial – o perigo mais sutil e mais profundo – é este: o magista naturalmente tenderá a invocar aquele ente parcial que mais fortemente o atrai, de forma que seu excesso natural naquela direção será exagerado ainda mais. Portanto, que ele, antes de começar sua Obra, se esforce por traçar o plano de seu próprio ser, e arranje suas invocações de maneira a restabelecer o equilíbrio4. Isto, é claro, deveria ter sido feito, até certo ponto, durante a preparação das armas e o mobiliário do Templo.

Considerando de uma maneira mais particular essa questão da Natureza do Ritual, suponhamos que o magista se perceba sem aquela percepção do valor da Vida e da Morte, tanto de indivíduos como de raças, que é característico da Natureza. Ele talvez tenha uma tendência a acentuar a “primeira nobre verdade” enunciada por Buda de que “Tudo é sofrimento”. A Natureza, lhe parece, é uma tragédia. Talvez ele já tenha experimentado o Grande Transe chamado Dor. Ele deveria, então, ponderar se não existe alguma Deidade que expresse esse Ciclo e, no entanto, cuja natureza seja alegria. Ele encontrará o que necessita em Dionísio ou Baco.

Existem três métodos especiais de invocar qualquer Deidade.

O Primeiro Método consiste em devoção àquela Deidade e, sendo, principalmente místico por natureza, não é necessário discuti-lo aqui, principalmente desde que uma perfeita instrução existe em Liber 175 (Veja-se Apêndice).

O Segundo Método é a invocação cerimonial. É o método que usualmente era empregado na Idade Média. Sua vantagem é ser um método direto; porém, sua desvantagem é ser cru. A Goécia dá clara instrução neste método, e assim fazem muitos outros Rituais, negros e brancos. Mais adiante dedicamos algum espaço à clara exposição desta Arte.

No caso de Baco, entretanto, podemos esboçar o método de proceder. Observamos que o simbolismo de Tiphereth expressa a natureza de Baco. É então necessário construir um Ritual de Tiphereth. Abrindo o Liber 777, veremos, na linha 6 de cada coluna, as várias partes das correspondências necessárias. Tendo organizado tudo na devida forma, nós exaltamos a mente através de repetidas invocações ou conjurações, até atingirmos a mais alta concepção daquele Deus; até que, em um senso ou outro da palavra, ELE NOS APAREÇA e inunde nossa consciência com a luz de Sua divindade.

O Terceiro Método é o Dramático, talvez o mais atraente de todos; certamente assim o é para aqueles de temperamento artístico, pois apela à imaginação por meio dos sentidos.

Sua desvantagem está principalmente na dificuldade de sua execução por uma só pessoa. Mas tem a sanção da mais alta antiguidade e é provavelmente o mais útil para se fundar uma religião. É o método da Cristandade Católica, e consiste na dramatização da lenda do Deus. A peça intitulada As Bacantes, de Eurípides, é um magnífico exemplo de um Ritual dramático; assim também, se bem que em menor grau, é a Missa romana. Nós podemos ainda mencionar muitos dos graus da Maçonaria, principalmente o Terceiro. O Ritual 5°=6□ publicado no Equinox I (3) é outro exemplo.

No caso de Baco, primeiro comemoramos seu nascimento de uma mãe mortal que entregou sua Casa-de-Tesouro ao Pai de Tudo, o ciúme e raiva excitados por esta encarnação, e a proteção celeste outorgada ao menino. Em seguida, deve-se comemorar a jornada em direção ao ocidente montando sobre um asno. Agora chega a grande cena do drama: o gentil, lindo mancebo com seus seguidores (principalmente mulheres) parece ameaçar a ordem estabelecida das coisas, e aquela Ordem Estabelecida se prepara para por fim ao perigo. Vemos Dionísio confrontar o Rei enfurecido, não com desafio, mas com doçura; no entanto, com uma sutil confiança, um riso disfarçado. Ele está coroado com vinhas. Ele fica afeminado com essas folhas que coroam sua cabeça? Mas as folhas ocultam chifres. O Rei Penteu, que representa o respeito5, é destruído por seu orgulho. Ele sobe as montanhas para atacar as mulheres que seguiram Baco, o mancebo que ele escarneceu, fustigou e encadeou, o qual, no entanto, apenas sorriu; e por estas mulheres, embriagadas de êxtase, divinamente enlouquecidas, ele é despedaçado.

Já nos parece impertinente ter dito tanto, quando Walter Pater contou a história com tanta simpatia e percepção. Não nos alongaremos em demonstrar a identidade desta lenda com o curso da Natureza, com a loucura desta, com sua prodigalidade, sua intoxicação, sua alegria e, acima de tudo, sua sublime persistência através dos ciclos de Vida e Morte. O leitor pagão deve trabalhar para entender isto nos Estudos Gregos de Pater, e o leitor cristão o reconhecerá, incidente por incidente, como o conto de Cristo. Essa lenda é simplesmente a dramatização da Primavera.

O magista que deseja invocar Baco através do método dramático deve, portanto, organizar uma cerimônia em que ele assume o papel de Baco, incorre as peripécias do Deus, e emerge triunfante além da morte. Ele deverá, entretanto, estar atento contra a possibilidade de confundir o simbolismo. Nesse caso, por exemplo, a doutrina da imortalidade individual foi arrastada até aqui para a destruição da verdade. Não é a parte absolutamente inútil do homem, sua consciência individual como “Fulano”, que desafia a morte – aquela consciência que morre e renasce em cada pensamento. O que persiste (se alguma coisa persistir) é a verdadeira essência de “Fulano”, uma qualidade da qual ele provavelmente nunca esteve consciente em toda sua vida6.

Mesmo aquilo não persiste sem mudança. Está sempre crescendo. A Cruz é um graveto seco e as pétalas da Rosa caem e apodrecem; mas na união da Cruz e da Rosa há uma constante sucessão de novas vidas.7 Sem esta união, e sem esta morte do indivíduo, o ciclo seria interrompido.

Nós dedicaremos um capítulo à remoção das dificuldades práticas deste método de Invocação. Sem dúvida, terá sido notado pela astúcia do leitor que no essencial estes três métodos são um. Em cada caso, o magista se identifica com a Deidade invocada. Invocar é chamar para dentro, interiorizar, da mesma forma que evocar é chamar para fora, exteriorizar. Essa é a diferença essencial entre os dois ramos da Magia. Em Invocação, o macrocosmo inunda a consciência. Em evocação, o magista, tendo se tornado o macrocosmo, cria um microcosmo. Você invoca um Deus para dentro do Círculo. Você evoca um Espírito para dentro do Triângulo. No primeiro método, identidade com o Deus é conseguida por amor e rendição, por abandono ou supressão de todas as partes irrelevantes (e ilusórias) de você mesmo. É o mesmo que limpar um jardim.

No segundo método, a identificação é conseguida por concentração na parte desejada de você mesmo: positivo, enquanto o primeiro método é negativo. O segundo método equivale a colocar uma flor particular do jardim em um pote, regá-la e expô-la ao Sol.

No terceiro método, a identificação é conseguida por simpatia. É muito difícil para o homem ordinário identificar-se por completo com o personagem de uma peça ou de uma novela; mas para aqueles que assim podem fazer, este método é indubitavelmente o melhor.

Observe: cada elemento deste ciclo é de valor idêntico. É errôneo dizer, triunfante, Mors janua vitæ, a não ser que você acrescente, com igual triunfo, Vita janua mortis. Para aquele que compreende esta cadeia de Æons do mesmo ponto de vista da Isis sofredora e do Osiris triunfante, sem esquecer o elo entre eles representado pelo destruidor Apófis, não existe nenhum segredo da Natureza que permaneça velado. Ele grita aquele nome de Deus que através da História tem sido ecoado de uma religião a outra, o infinito, exsurgente peã I.A.O.!8


  1. Veja-se O Livro da Magia Sagrada de Abramelin, o Mago; e Liber 418, 8ºÆthyr, Liber Samekh; veja-se o Apêndice III deste livro. ↩︎

  2. A diferença entre estas operações é mais de importância teórica do que prática. ↩︎

  3. Há certas considerações, muito mais profundas, em que parece que “Tudo o que é está certo”. Elas estão formuladas em outro lugar; podemos apenas resumi-las aqui dizendo que a sobrevivência dos mais aptos é resultado delas. ↩︎

  4. O método ideal de se fazer isso está descrito em Liber 913, Equinox I (7) e Apêndice VII deste livro. Veja-se também Liber CXI vel Aleph. ↩︎

  5. Existe uma interpretação muito mais profunda em que Penteu é, ele mesmo, o “Deus sacrificado”. Veja meu poema “Good Hunting!” e O Ramo de Ouro, do Dr. J. C. Frazer. ↩︎

  6. Veja-se O Livro das Mentiras (Liber 333) para diversas elucidações deste assunto. Em particular os capítulos A, Δ, H, IE, IΣ, IH, KA e KH. A reencarnação do Khu ou Ente mágico é um assunto inteiramente diverso, complicado em demasia para ser tratado neste manual elementar. ↩︎

  7. Veja-se Liber 333 para este assunto. Toda a teoria da Morte deve ser estudada em Liber Aleph. ↩︎

  8. Esse nome, I.A.O., é cabalisticamente idêntico àquele da Besta e Seu número 666, de forma que quem invoca o primeiro também invoca o segundo. Também com Aiwaz e o número 93. Veja-se o capítulo V. ↩︎


Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.

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