

Capítulo VIII
A Espada ¶
“A palavra do Senhor é rápida e poderosa, e mais afiada que uma espada de dois gumes.”
Tal como a Baqueta é Chokmah, a Vontade, o “Pai”, e a Taça é a Compreensão, Binah, a “Mãe”, assim também a Espada Mágica é a Razão, o “Filho”, as seis Sephiroth do Ruach, e nós veremos que o Pantáculo corresponde a Malkuth, a “Filha”.
A Espada é a faculdade analítica; dirigida contra qualquer demônio, ataca a complexidade deste.
Somente o simples pode resistir à espada. Como nós estamos abaixo do Abismo, portanto, esta arma é inteiramente destrutiva: ela divide Satã contra Satã. É somente nas formas mais baixas de Magia, as formas puramente humanas, que a Espada se tornou uma arma tão importante. Uma adaga deveria bastar.
Mas a mente do homem é normalmente tão importante para ele que a espada é no presente a mais volumosa de suas armas; feliz daquele que pode fazer com que a adaga baste!
O punho da Espada deve ser feito de cobre.
A guarda é composta de dois arcos da lua crescente e minguante – um de costas para o outro. Esferas são colocadas entre eles, formando um triângulo equilátero com a esfera na extremidade do punho.
A lâmina é reta, pontiaguda e afiada até a guarda. É feita de aço, para ser equilibrada com o punho, pois o aço é o metal de Marte, tal como o cobre é o metal de Vênus.
Estes dois planetas são macho e fêmea – e assim refletem a Baqueta e a Taça, se bem que num senso muito mais baixo.
O punho é de Vênus, pois o Amor é a causa desta análise impiedosa – pois, se assim não fosse, a espada seria uma arma de Magia Negra.
O punho da Espada está em Daäth, a guarda se estende para Chesed e Geburah; a ponta está em Malkuth. Alguns magistas fazem as três esferas respectivamente de chumbo, estanho e ouro; as luas de prata, e o punho enchem de mercúrio; assim tornam a Espada simbólica dos sete planetas. Mas isto é pedantismo e fantasia.
“Quem quer que empunhe a espada morrerá pela espada” não é uma ameaça, e sim uma promessa mística. É a nossa complexidade que deve ser destruída.
Aqui está outra parábola. Pedro, a Pedra dos Filósofos, decepa a orelha de Malco, o servo do Sumo Sacerdote (a orelha é o órgão do Espírito). Em análise, a parte espiritual de Malkuth deve ser separada desta pela pedra filosofal, e então Christus, o Ungido, as junta novamente. “Solve et coagula!”
Note-se que isto acontece na hora da prisão de Cristo, que é o filho, o Ruach, imediatamente antes de sua crucificação.
A Cruz do Calvário deveria ser de seis quadrados, um cubo desdobrado, e este cubo é esta mesma pedra filosofal.
A meditação revelará muitos mistérios que estão ocultos neste símbolo.
A Espada ou Adaga é atribuída ao Ar, que circula em toda parte, que penetra em toda parte, mas é instável; não um fenômeno sutil como o fogo, não uma combinação química como a água; mas uma mistura de gases.1
A Espada, por necessária que seja ao Principiante, é uma arma grosseira. Sua função é manter os inimigos à distância ou forçar uma passagem através deles – e se bem que deve ser brandida para ganharmos admissão ao palácio, não pode ser levada à cinta durante o festim nupcial.
Poderíamos dizer que o Pantáculo é o pão da vida, e a Espada a faca que o corta. Devemos ter ideias, mas devemos criticá-las.
Também, a Espada é aquela arma com a qual aterrorizamos os demônios e os dominamos. Devemos manter o Ego senhor das impressões. Não devemos permitir que o círculo seja rompido pelo demônio; não devemos permitir que qualquer ideia nos arrebate.
Será visto prontamente como tudo isto é elementar e falso; mas, para o principiante, é necessário.
Em toda lida com demônios a ponta da Espada é mantida apontada para baixo; ela não deve ser usada para invocações, tal como ensinam certas escolas de magia.
Se a Espada é levantada em direção à Coroa, não é mais realmente uma espada. A Coroa não pode ser dividida. Certamente a Espada não deveria ser levantada.
Porém, a Espada pode ser empunhada com ambas as mãos e mantida firme e ereta, simbolizando que o pensamento se unificou com a aspiração única, e foi queimado como uma flama. Esta flama é Shin, o Ruach Alhim, não o mero Ruach Adam. A consciência divina, não a humana.
O Magista não pode manejar a Espada a não ser que a Coroa esteja em sua cabeça.
Os Magistas que tentaram fazer da Espada a única ou mesmo a principal arma apenas destruíram a si mesmos, não pela destruição de combinação, mas pela destruição de divisão.2 A fraqueza sobrepuja a força.
O mais estável edifício político que a história conhece foi aquele da China, que estava baseado principalmente na polidez social; e o da Índia se tem provado suficientemente forte para absorver seus muitos conquistadores.3
A Espada foi a grande arma do século passado. Toda ideia foi atacada por pensadores, e nenhuma delas resistiu ao ataque. Daí a presente ruína da civilização.
Não sobrou nenhum princípio fixo. Hoje em dia todo estadismo construtivo é empirismo ou oportunismo. Tem-se duvidado se existe qualquer relação real entre Mãe e Prole, qualquer diferença verdadeira entre Macho e Fêmea.
A mente humana, em desespero, pressentindo insanidade iminente no estilhaçar destas imagens incoerentes, tem tentado substituí-las por ideias que são salvas da destruição, no momento mesmo de nascerem, apenas pelo fato de serem extremamente imprecisas.
A Vontade do Rei, pelo menos, era fácil de ser determinada a qualquer momento; ninguém ainda descobriu um meio de determinar a vontade do povo.
Toda ação voluntária consciente é impedida; a marcha dos acontecimentos é agora apenas inércia.
Que o Magista considere estes fatos antes de empunhar a Espada. Que ele compreenda que o Ruach, esta frouxa combinação de seis Sephiroth, somente ligadas umas às outras pela conexão com a vontade humana em Tiphereth, deve ser rompido.
A mente deve ser decomposta em uma forma de insanidade antes que possa ser transcendida.
Davi disse: “Odeio os pensamentos”.
O hindu diz: “Aquilo que pode ser pensado não é verdadeiro”.
Paulo disse: “a inclinação da carne é inimizade contra Deus”.
E todo aquele que medita, mesmo por uma hora, cedo descobrirá como este lépido vento vagabundo faz com que sua flama pisque. “O vento sopra onde quer.” O homem normal é menos que uma palha.4
A conexão entre o Alento e a Mente tem sido suposta por alguns como apenas etimológica. Mas a conexão é mais verdadeira que isso.5
Em qualquer caso, existe indubitavelmente uma conexão entre as funções respiratória e mental. O estudante verificará isto pela prática de Pranayama. Através deste exercício, certos pensamentos são barrados, e aqueles que, mesmo assim, vêm à mente, vêm mais devagar, de forma que a mente tem tempo de perceber a falsidade deles e destruí-los.
Na lâmina da Espada Mágica está gravado o nome AGLA, um Notariqon formado pelas iniciais da sentença Ateh Gibor Leolahm Adonai, “A Ti seja o Poder através das Idades, Ó meu Deus”.
E o ácido que corrói o aço deveria ser óleo de vitríolo. Vitríolo é um Notariqon de “Visita Interiora Terræ Rectificando Invenies Occultum Lapidem”. Isto quer dizer: Pela investigação de tudo e pela colocação de tudo em harmonia e proporção, você encontrará a pedra oculta, a mesma pedra dos filósofos já mencionada, a qual transforma tudo em ouro. Este óleo que pode corroer o aço é, além disso, aquele de que está escrito, Liber LXV i 16: “Como um ácido corrói o aço… assim sou Eu para o Espírito do Homem”.
Note-se como está estreitamente entrelaçado todo este simbolismo!
O centro do Ruach sendo o coração, é visto que esta Espada do Ruach deve ser mergulhada pelo Magista em seu próprio coração.
Mas existe uma tarefa subsequente, da qual é falado – Liber VII v 47. “Ele esperará pela espada do Bem-Amado, e oferecerá sua garganta para o golpe.” Na garganta está Daäth – o trono do Ruach. Daäth é o Conhecimento. Esta destruição final do conhecimento abre o portal da Cidade das Pirâmides.
Está escrito também, Liber CCXX iii 11: “Que a mulher seja cingida com uma espada diante de me”. Mas isto se refere a Sañña armando Vedana, a conquista de emoção pela clareza de percepção.
Também é dito, Liber LXV v 14, da Espada de Adonai, “… que tem quatro lâminas; a lâmina do Raio, a lâmina do Pilone, a lâmina da Serpente, a lâmina do Falo”.
Mas esta Espada não é para o Magista ordinário. Pois esta é a Espada flamejando em todas as direções que guarda o Éden, e nesta Espada a Baqueta e a Taça estão escondidas – de forma que, embora o ser do Magista seja fulminado pelo Raio e envenenado pela Serpente, ao mesmo tempo os órgãos cuja união é o supremo sacramento são deixados intactos nele.
À vinda de Adonai, o indivíduo é destruído em ambos os sensos. Ele é estilhaçado em mil pedaços; no entanto, é simultaneamente unido ao simples.6
Disto também fala “São Paulo” em sua Epístola à Igreja de Tessalônica: “Pois o Senhor descerá do Céu, com um grito, com a voz do Arcanjo, e com a trombeta de Deus; e os que morreram em Cristo se erguerão primeiro. Então nós que estamos vivos e permanecemos seremos arrebatados com eles às nuvens para encontrar o Senhor no ar; e assim estaremos para sempre com o Senhor”.
A estúpida interpretação deste verso como profético de uma “segunda vinda” não necessita nos preocupar; toda palavra dele, é, no entanto, digna da mais profunda consideração.
“O Senhor” é Adonai – que é o hebreu para “meu Senhor”; e Ele desce do céu, o Éden superno, o Sahashara Chacra no homem, com um “grito”, uma “voz” e uma “trombeta”, novamente símbolos aéreos, pois é o ar que transmite o som. Estes sons referem-se àqueles ouvidos pelo Adepto no momento de raptura.
Isto é mui acuradamente simbolizado no Trunfo do Tarô chamado “O Anjo”, que corresponde à letra Shin, a letra do Espírito e do Alento.
A mente inteira do homem é rompida pela vinda de Adonai, e instantaneamente arrebatada à união com Ele. “No ar”, o Ruach.
Note-se que, etimologicamente, a palavra συν, “junto com”, é o sânscrito Sam; e o hebreu ADNI é o sânscrito ADHI.
A frase “com o Senhor” é, então, literalmente idêntica à palavra Samadhi, que é o nome sânscrito para o fenômeno descrito por “São Paulo”, esta união do ego e do não-ego, sujeito e predicado, este casamento químico; e, assim, idêntica ao simbolismo da Rosa Cruz, sob um aspecto ligeiramente diverso.
E desde que casamento só pode ocorrer entre um e um, é evidente que nenhuma ideia pode ser assim unida, a não ser que seja simples.
Portanto, toda ideia deve ser analisada pela Espada. Portanto, também, deve haver apenas um único pensamento na mente da pessoa que medita.
Podemos agora passar à consideração do uso da Espada na purificação das emoções em percepções.
Foi a função da Taça interpretar as percepções pelas tendências; a Espada livra as percepções da Teia da emoção.
As percepções são sem significado em si mesmas; mas as emoções são piores, pois levam sua vítima a supor que elas são significativas e verdadeiras.
Toda emoção é uma obsessão; a mais horrível das blasfêmias é atribuir qualquer emoção a Deus, no macrocosmo, ou à alma pura, no microcosmo.
Como pode aquilo que é autoexistente, completo, ser movido? Está até escrito que “torsão em volta de um ponto é iniquidade”.
Mas se o ponto mesmo pudesse ser movido, deixaria de ser o ponto, pois o único atributo do ponto é posição.
O Magista, portanto, deve se tornar absolutamente livre neste respeito.
É a prática constante de Demônios o tentar aterrar, chocar, desgostar, seduzir. Contra tudo isto deve ele opor o Aço da Espada. Se ele se livrou da ideia-do-ego, esta tarefa será comparativamente fácil; se não se livrou assim, a tarefa será quase impossível. Diz o Dhammapada:
Ele me abusou, ele me bateu, ele me roubou, ele me insultou.
Quem se permite tais pensamentos nunca deixará de odiar.
E este ódio é o pensamento que inibe o amor, cuja apoteose é Samadhi.
Mas é demasiado esperar que o Magista noviço pratique apego ao que é desagradável; que ele primeiro se torne indiferente. Que ele se esforce por encarar fatos como fatos, com tanta simplicidade quanto ele os encararia se os fatos fossem históricos. Que ele evite uma interpretação imaginativa de quaisquer fatos. Que ele não se ponha no lugar das pessoas de quem os fatos são relatados; ou, se ele assim fizer, que isto seja feito apenas com a finalidade de compreender. Simpatia,7 indignação, elogio ou condenação não têm lugar no observador.
Ninguém até hoje considerou a questão da quantidade e qualidade da luz provida por velas feitas de cristãos azeitados.
Quem sabe que parte do missionário ordinário é preferida pelos canibais gastrônomos? É simples conjectura que os católicos são mais gostosos que os protestantes.
No entanto, estes pontos, e outros do mesmo tipo, são os únicos que têm qualquer importância no momento em que os eventos ocorrem.
Nero não considerou o que a posteridade ainda por nascer pensaria dele; e é difícil acreditar que os canibais calculem que a descrição dos seus feitos incitará velhas carolas a lhes renovar a despensa.
Pouquíssimas pessoas já viram uma tourada. Um certo tipo de gente vai para ser excitada; outro tipo pelo prazer perverso que o horror, real ou simulado, lhes oferece. Pouca gente sabe que sangue fresco derramado à luz do Sol é talvez a cor mais linda encontrada em estado livre na natureza.
É um fato notório que é praticamente impossível obter uma descrição merecedora de confiança do que ocorre numa sessão espírita; as emoções enublam a visão.
Somente na absoluta calma do laboratório, onde o observador está perfeitamente indiferente ao que possa ocorrer, e preocupa-se apenas em observar, medir e pesar o que acontece através de instrumentos incapazes de emoção, é que podemos sequer começar a ter esperança de que um registro verdadeiro dos acontecimentos seja obtido. Mesmo as bases fisiológicas comuns da emoção, os sensos de prazer e de dor, infalivelmente levam o observador a errar. Isto se bem que os sentidos possam não estar suficientemente excitados para lhe perturbarem a mente.
Mergulhemos uma das mãos numa bacia cheia de água quente, a outra numa bacia cheia de água fria, depois ambas as mãos numa bacia de água morna; uma mão dirá quente, outra frio.
Mesmo quando usamos instrumentos, as qualidades físicas destes, tais como expansão e contração (as quais podem ser chamadas, de certo modo, as raízes do prazer e da dor), causam erro.
Façamos um termômetro; o vidro fica tão excitado pela fusão necessária que ano após ano, durante trinta anos ou mais, a altura da coluna de mercúrio continuará a alterar-se; quanto mais então uma matéria tão plástica quanto a mente! Não existe emoção que não deixe uma marca na mente; e todas as marcas são más. Esperança e medo são apenas fases opostas de uma emoção única; ambas são incompatíveis com a pureza da alma. Com as paixões do homem, o caso é um pouco diverso, pois que elas são funções da própria vontade dele. As paixões devem ser disciplinadas, não suprimidas. Mas a emoção é impressa de fora para dentro. É uma invasão do círculo.
Como diz o Dhammapada:
Uma casa mal telhada está aberta a chuva e vento;
Assim a paixão tem poder para invadir a mente irrefletida.
Uma casa bem telhada é à prova da fúria de chuva e vento;
Assim a paixão não tem poder para invadir uma mente bem arrumada.
Portanto, que o estudante pratique observar as coisas que normalmente lhe causariam emoção; e que, tendo escrito uma cuidadosa descrição do que vê, ele compare tal descrição com a de alguma pessoa familiarizada com tais coisas.
Operações cirúrgicas e stripteases são excelentes escolhas para o principiante.
Ao ler livros emocionais, do tipo que é impingido a crianças, que ele sempre se esforce por contemplar o que é descrito do ponto de vista oposto àquele do autor. No entanto, que ele não emule aquela criança parcialmente emancipada que se queixou, de uma gravura do Coliseu, que “havia um coitadinho de um leão que não tinha nenhum cristão”, a não ser no primeiro caso. Crítica adversa é o primeiro passo; o segundo passo deve ir adiante.
Tendo simpatizado suficientemente tanto com os leões quanto com os cristãos, que ele abra seus olhos àquele fato que sua simpatia o impediu de perceber até agora: que a gravura foi abominavelmente concebida, abominavelmente composta, abominavelmente desenhada, e abominavelmente colorida, como seguramente será o caso.
Que ele, além disto, estude aqueles mestres, na ciência ou na arte, que observaram com mentes imperturbadas por emoção.
Que ele aprenda a perceber idealizações, a criticá-las e corrigi-las.
Que ele compreenda a falsidade de Rafael, de Watteau, de Leighton, de Bouguereau; que aprecie a veracidade de John, de Rembrandt, de Ticiano, de O’Conor.
Estudos análogos em literatura e filosofia levarão a resultados análogos. Mas que ele não negligencie a análise de suas próprias emoções; pois até que estas tenham sido conquistadas, ele será incapaz de julgar as dos outros.
Esta análise pode ser executada de diversas formas; um método é o materialístico. Por exemplo, se oprimido por um pesadelo, que ele explique: “Este pesadelo é uma congestão cerebral”.
A maneira estrita de fazer isto através da meditação é Mahasatipatthana;8 mas a prática deve ser auxiliada a todo momento da vida diária pelo esforço por interpretar ocorrências com objetividade. A relatividade do valor delas, em particular, deve ser cuidadosamente considerada.
A sua dor de dentes não incomoda ninguém a não ser dentro de um círculo muito limitado. Inundações na China significam para você apenas um parágrafo num jornal. A destruição do mundo, mesmo, não teria nenhum significado em Sirius. Não podemos sequer imaginar que os astrônomos de Sirius perceberiam uma perturbação tão insignificante.
Agora, se considerarmos que mesmo Sirius é, tanto quanto você saiba, apenas uma, e uma das menos importantes, das ideias na sua mente, por que deverá outra mente ser perturbada pela sua dor de dentes? Não é possível elaborarmos este ponto sem tautologia, pois é um ponto muito simples; mas devemos dar-lhe ênfase, precisamente porque é muito simples. Au! Au! Au! Au! Au!9
Na questão da ética, isto novamente se torna de importância vital, pois muita gente parece incapaz de ponderar os méritos de qualquer ato sem introduzir uma quantidade de assuntos completamente irrelevantes.
A Bíblia foi mal traduzida por letrados perfeitamente competentes, porque eles tiveram que levar em consideração a teologia da época. O mais flagrante exemplo é o “Cântico dos Cânticos”, uma típica peça de erotismo oriental. Mas como era impossível admitir tal coisa num livro “sagrado”, eles tentaram fazer de conta que a obra era simbólica.
Tentaram refinar a grosseria das expressões, mas mesmo seu esforço provou ser incapaz disto.
Esta forma de desonestidade atinge o cume na expurgação dos clássicos. “A Bíblia é a Palavra de Deus, escrita por homens santos durante inspiração pelo Espírito Santo. Mas nós omitiremos essas passagens que consideramos impróprias.” “Shakespeare é o nosso maior poeta – mas, é claro, ele é terrivelmente indecente.” “Ninguém pode sobrepujar o lirismo de Shelley, mas devemos fazer de conta que ele não era um ateísta.”
Alguns tradutores não puderam aturar que os chineses pagãos usassem a expressão Shang Ti, e fizeram de conta que a expressão não significava Deus. Outros, compelidos a admitir que a expressão significa Deus, explicaram que o uso do termo demonstra que “Deus não se deixara sem testemunho mesmo nessa mais idólatra das nações. Eles foram misteriosamente compelidos a utilizar a palavra, sem compreenderem o significado.” Tudo isto por causa do preconceito emocional deles de que eram melhores que os chineses.
O mais flagrante exemplo disto está na história do estudo do Budismo.
Os primeiros letrados a estudar o Budismo simplesmente não podiam compreender que o cânon budista negasse a existência da alma, considerasse o ego uma ilusão causada por uma faculdade especial da mente doentia; não podiam conceber que o fito do Budista, Nibbana, fosse de qualquer forma diverso do fito deles mesmos, o “Céu”, a despeito da completa franqueza da linguagem em diálogo tais como aquele do Arahat Nagasena e o Rei Melinda; e as tentativas deles de adaptar o texto aos seus preconceitos perdurarão como uma das grandes tolices dos sábios.
Da mesma forma, é quase impossível para o cristista bem-educado conceber que “Jesus Cristo” comia com os dedos. O entusiasta pela temperança faz de conta que o vinho das Bodas de Canaã não continha álcool.
É uma espécie de silogismo doido.
Ninguém que eu respeito faz isto.
Eu respeito Fulano.
Portanto, Fulano não fazia isto.
O moralista de hoje em dia fica furioso quando mencionamos o fato de que praticamente todos os grandes homens da história eram “grossos” e notoriamente imorais.
Chega deste assunto penoso!
Enquanto nos esforçamos por adaptar fatos e teorias, em vez de adotarmos a atitude científica de alterar as teorias (quando necessário) para que se adaptem aos fatos, permaneceremos atolados em falsidade.
O religioso zomba do cientista por causa desta atitude de mente-aberta, por causa desta adaptabilidade. “Diga uma mentira e persista nela!” é o lema dos religionários.
Não é necessário explicar mesmo ao mais humilde estudante da magia da luz a que tende um tal curso de ação.
Quer o Livro do Gênese seja verdade, quer a geologia seja verdade, um geólogo que crê no Livro do Gênese irá para Gehenna. “Não podeis servir a Deus e Mammon.”
O oxigênio do ar seria demasiado violento para a vida se puro; deve ser bastante diluído pelo nitrogênio inerte.
A mente racional sustenta a vida, mas aproximadamente setenta e nove por cento dela não só se recusa a entrar em combinação, mas impede os restantes vinte e um por cento de assim fazer. Os entusiasmos são obstruídos; o intelecto é o grande inimigo da devoção. Uma das tarefas do Magista consiste em conseguir de algum modo separar o Oxigênio e o Nitrogênio em sua mente, sufocar quatro quintos para que possa queimar o restante, uma flama de santidade. Mas isto não pode ser feito pela Espada. ↩︎Deve ser notado que esta ambiguidade na palavra “destruição” tem sido causa de muita incompreensão. Solve é destruição, mas assim também é coagula. O fito do Magus é destruir o seu pensamento parcial unindo-o ao Pensamento Universal, não acrescentar uma quebra e divisão ao Todo. ↩︎
A casta dos brâmanes nunca foi tão estrita quanto a dos funcionários civis ingleses na Índia. ↩︎
Mas, como é dito, Similia similibus curantur, nós verificamos que este Ruach é também o símbolo do Espírito. RVCh ALHIM, o Espírito de Deus, é 300, o número da santa letra Shin. Como isto é o alento, que por natureza é duplo, os dois gumes da Espada, a letra H simboliza o alento, e H é a letra de Áries – a Casa de Marte, da Espada: e H é também a letra da Mãe; este é o elo entre a Espada e a Taça. ↩︎
É indubitável que Ruach significa primariamente “aquilo que se move ou revolve”, “uma ida”, “uma roda”, “o vento”, e que o seu significado secundário era mente devido à observada instabilidade da mente, e à tendência desta a se movimentar em círculo. “Spiritus” apenas veio a significar “Espírito” no moderno senso técnico devido aos esforços dos teólogos. Nós temos um exemplo do uso apropriado da palavra no termo: Espírito de Vinho – a porção aérea do vinho. Mas a palavra “inspirar” foi talvez derivada da observação do desarranjo do alento em pessoas tomadas de êxtase divino. ↩︎
Compare-se o primeiro grupo de versos em Liber XVI. (XVI no Tarô é Pé, Marte, a Espada.) ↩︎
É verdade que algumas vezes a simpatia é necessária para a compreensão. ↩︎
Veja-se Crowley, Collected Works vol. II, pp. 252-254. ↩︎
Ao nos interrompermos desta forma canina, o latido de um cão lhe recordará durante uma ou duas semanas o que acabamos de dizer. ↩︎
Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.
