A Taça

Este artigo é um capítulo de Liber ABA – Magick – O Livro Quatro

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Capítulo VII
A Taça

Tal como a Baqueta Mágica é a Vontade, a Sabedoria, a Palavra do Magista, assim também a Taça Mágica é a sua Compreensão.

Esta é a taça sobre a qual foi escrito: “Pai, se tal for Tua Vontade, deixa que esta Taça passe de Mim!”. E também: “Podeis beber da taça em que bebo?”.

É também a taça na mão de NOSSA SENHORA BABALON, e a taça do Sacramento.

Esta Taça está cheia de amargura, e de sangue, e de intoxicação.

A Compreensão do Magus é o seu elo com o Invisível do lado passivo.

Sua Vontade erra ativamente ao se opor à Vontade Universal.

Sua Compreensão erra passivamente quando aceita influência daquilo que não é a ultimal verdade.

No começo, a Taça do estudante está quase vazia; e mesmo a verdade que ele recebe pode escoar e ser perdida.

Dizem que os venezianos faziam um vidro que mudava de cor quando veneno era colocado nele; o estudante deve fabricar sua Taça com tal vidro.

A mínima experiência no caminho místico lhe mostrará que, de todas as impressões que ele recebe, nenhuma é verdadeira. Ou elas são intrinsecamente falsas, ou elas são erradamente interpretadas pela mente dele.

Existe apenas uma verdade, e uma só. Todos os outros pensamentos são falsos.

E à medida que ele progride no conhecimento de sua mente, ele virá a compreender que a estrutura inteira desta mente é tão defeituosa que é completamente incapaz, mesmo em seus momentos de exaltação, de verdade.

Ele reconhecerá que qualquer pensamento apenas estabelece uma relação entre Ego e não-Ego.

Kant demonstrou que mesmo as leis da natureza são apenas as condições do pensamento. E como a corrente dos pensamentos é o sangue da mente, diz-se que a Taça Mágica está cheia com o sangue dos Santos. Todo pensamento deve ser oferecido como um sacrifício.

A Taça dificilmente pode ser descrita como uma arma. Ela é redonda, como o pantáculo – não reta, como a baqueta e a adaga. Recepção, não projeção, é a sua natureza1.

Portanto, aquilo que é redondo é para ele um símbolo da influência do mais alto. Este círculo simboliza o Infinito, tal como toda cruz ou Tau representa o Finito. Aquilo que é quadrado mostra o Finito fixado em si mesmo; por esta razão, o altar é quadrado. É a base sólida da qual procede a operação inteira. Uma forma2 de taça mágica tem uma esfera sob o bojo, e se apoia numa base cônica.

Esta taça (crescente, esfera, cone) representa os três princípios de Lua, Sol e Fogo – os três princípios que, de acordo com os hindus, têm seu curso no corpo3.

Esta é a Taça de Purificação, como diz Zoroastro:

“Portanto, primeiro o sacerdote que governa os trabalhos do fogo deve aspergir com a água lustral do mar que ressoa.”

O mar é que lava o mundo. E o “Grande Mar” é, na Cabala, um nome de Binah, a “Compreensão”.

É pela Compreensão do Magus que seu trabalho é purificado.

Binah, além disso, é a Lua, e o bojo desta taça é da forma da lua.

Esta Lua é o caminho de Gimel, através do qual a influência da Coroa desce sobre o Sol de Tiphereth.

E isto está baseado sobre a pirâmide de fogo que simboliza a aspiração do estudante.

No simbolismo hindu, o Amrita ou “orvalho da imortalidade”4 goteja constantemente sobre o homem, mas é queimado pelo fogo grosseiro dos seus apetites. Os Yogis tentam preservar este orvalho virando a língua para trás dentro da boca.

A respeito da água nesta Taça, pode ser dito que, da mesma forma como a baqueta deveria ser perfeitamente rígida, o sólido ideal, assim também deveria a água ser o fluido ideal.

A Baqueta é ereta, e deve estender-se ao Infinito.

A superfície da água é lisa, e deve estender-se ao Infinito.

Uma é a linha, a outra o plano.

Mas da mesma forma como a Baqueta é fraca sem grossura, assim também a água é falsa sem profundidade. A Compreensão do Magus deve incluir todas as coisas, e aquela compreensão deve ser infinitamente profunda.

H.G. Wells disse que “toda palavra que um homem ignora representa uma ideia que ele desconhece”. E é impossível compreender todas as coisas perfeitamente antes que todas as coisas sejam sabidas.

A Compreensão é a estruturação do conhecimento.

Todas as impressões são desconexas, como o Bebê do Abismo terrivelmente sabe; e o Mestre do Templo deve permanecer sentado durante 106 estações na Cidade das Pirâmides porque esta coordenação é uma tarefa tremenda.

Não existe nada particularmente secreto nesta doutrina concernente ao conhecimento e à compreensão.

Um espelho recebe as impressões, mas não coordena nenhuma.

A mente do selvagem apresenta apenas a mais simples forma de associação de ideias.

Mesmo o homem civilizado ordinário vai pouco além.

Todo progresso do pensamento é feito colecionando o maior número possível de fatos, classificando-os e agrupando-os.

O filólogo, se bem que talvez fale apenas uma língua, tem um tipo de mente muito mais elevado que o linguista que fala vinte.

Esta Árvore de Pensamento possui um exato paralelo na árvore da estrutura nervosa.

Hoje em dia anda por aí muita gente que é “bem-informada”, mas não tem a mínima concepção do significado dos fatos que conhece. Não desenvolveram a parte mais elevada do cérebro, necessária para este fim. A indução lhes é impossível.

Esta capacidade de acumular fatos na memória sem compreender-lhes o significado é compatível com a imbecilidade. Alguns imbecis têm sido capazes de acumular mais conhecimento em suas memórias do que talvez qualquer ser humano sadio poderia ser capaz.

Este é o grande defeito da educação moderna – as crianças são entupidas com fatos, e nenhuma tentativa é feita para explicar a conexão entre tais fatos e as consequências deles. O resultado é que mesmo os fatos em si depressa são esquecidos.

Qualquer mente de alta qualidade é insultada e irritada por tal tratamento, e qualquer memória de alta qualidade corre perigo de ser estragada por ele.

Nenhum par de ideias tem significado até que as duas sejam harmonizadas em uma terceira; e a operação só é perfeita quando as ideias parceiradas são contraditórias. Esta é a essência da lógica de Hegel.

A Taça Mágica, tal como descrita acima, é também a flor. É o lótus que se abre para o Sol e recolhe o orvalho.

Este Lótus está na mão de Isis, a Grande Mãe. É um símbolo semelhante ao da Taça na mão de NOSSA SENHORA BABALON.

Existem também os Lótus no corpo humano, de acordo com o sistema hindu de fisiologia a que nos referimos no capítulo sobre Dharana.5

Existe o lótus de três pétalas no Sacro, em que a Kundalini jaz adormecida. Este lótus é o receptáculo do poder reprodutor.

Existe também o lótus de seis pétalas oposto ao umbigo – que recebe as forças que nutrem o corpo.

Existe também um lótus no plexo Solar, que recebe as forças nervosas.

O lótus de seis pétalas no coração corresponde a Tiphereth, e recebe aquelas forças vitais que estão relacionadas com o sangue.

O lótus de dezesseis pétalas oposto à laringe recebe a nutrição necessária à respiração.

O lótus de duas pétalas da glândula pineal recebe a nutrição necessitada pelo pensamento, enquanto que acima da junção das estruturas cranianas está aquele sublime lótus, o lótus de mil pétalas, que recebe a influência do alto, e no qual, no Adepto, a Kundalini despertada desfruta seu prazer com o Senhor do Todo.

Todos estes lótus estão representados pela Taça Mágica.

No homem comum eles estão apenas parcialmente abertos, ou abertos somente à sua nutrição natural. De fato, é melhor pensar neles como fechados, segregando aquela nutrição que, por falta de Sol, vira veneno.

A Taça Mágica não deve ter cobertura; no entanto, deve ser conservada cuidadosamente velada o tempo todo, a não ser quando estamos invocando o Altíssimo.

Esta Taça deve também ser escondida dos profanos. A Baqueta deve ser conservada secreta para que os profanos, tocando-a, não a quebrem; a Taça para que, desejando tocá-la, eles não a sujem.

No entanto, a aspersão com água da Taça não apenas purifica o Templo, mas abençoa aqueles que estão fora deste: livremente deve a água ser libada! Mas que ninguém conheça o vosso verdadeiro propósito, e que ninguém saiba o segredo da vossa força. Lembrai-vos de Sansão! Lembrai-vos de Guy Fawkes!

Dos métodos de aumentar a Compreensão, aqueles da Santa Cabala são talvez os melhores, contanto que o intelecto esteja completamente cônscio do absurdo desses métodos, e nunca se deixe convencer.6

Além disso, meditação de certos tipos é útil; não aquela estrita meditação que busca aquietar a mente, mas uma meditação tal como Sammasati.7

Do lado exotérico, se necessário, a mente deveria ser treinada pelo estudo de alguma ciência bem desenvolvida, tal como a química ou a matemática.

A ideia de organização é o primeiro passo; a de interpretação, o segundo. O Mestre do Templo, cujo grau corresponde a Binah, está jurado a “interpretar todo fenômeno como um trato particular entre Deus e sua alma”.

Mas mesmo o principiante pode com vantagem tentar esta prática.

Ou um fato qualquer concorda e está em harmonia com o resto, ou não; se não, a harmonia Universal está quebrada; e, como a harmonia Universal não pode estar quebrada, a discórdia deve estar na mente do estudante, assim demonstrando que ele não está atunado àquele coro Universal.

Que ele deslinde primeiro os grandes fatos, depois os pequenos; até que, num verão, quando ele já for careca e estiver sonolento após o almoço, ele compreenda e aprecie a existência das moscas!

Esta falta de Compreensão com a qual todos nós começamos é tão terrível, tão lamentável. Neste mundo existe tanta crueldade, tanto desperdício, tanta estupidez.

A contemplação do Universo deve, a princípio, ser quase que pura angústia. Esse fato é responsável pela maior parte das especulações da filosofia.

Filósofos medievais desviaram-se irreparavelmente em suas interpretações, porque sua teologia necessitava da referência de todas as coisas ao ponto de vista do bem-estar humano.

Eles até se tornaram estúpidos; Bernardin de St. Pierre (não foi?) disse que a bondade de Deus era tal que, onde quer que os homens tivessem construído uma grande cidade, Ele colocara um rio para auxiliá-los a transportar mercadoria. Mas a verdade é que de forma alguma podemos imaginar o Universo como tendo sido especialmente planejado. Se os cavalos foram criados para serem montados pelos homens, não foram os homens criados para alimentarem os vermes?

E assim nós vemos uma vez mais que a ideia-do-Ego deve ser impiedosamente desenraizada antes que a Compreensão seja alcançada.

Existe uma contradição aparente entre esta atitude e aquela do Mestre do Templo. O que pode ser mais egoísta que sua interpretação de tudo como um trato particular entre Deus e sua alma?

Mas é Deus que é tudo e não qualquer das partes; e todo “trato” deve assim ser uma expansão da alma, uma destruição da sua separabilidade.

Todo raio de Sol expande a flor.

A superfície da água na Taça Mágica é infinita; não existe nenhum ponto que difira de qualquer outro ponto.8

Portanto, ultimalmente, tal como a baqueta é um ligamento e uma restrição, assim é a Taça uma expansão – ao Infinito.

E este é o perigo da Taça; ela deve necessariamente estar aberta a tudo; no entanto, se algo é posto nela que seja desproporcionado, desequilibrado, ou impuro, ela é danificada.

E aqui novamente nós temos dificuldade com os nossos pensamentos. A grosseria e estupidez de impressões simples enublam a água; emoções a agitam; percepções ainda estão longe da perfeita pureza da verdade, pois causam reflexos; enquanto que as tendências alteram o índice de refração, e decompõem a luz. Mesmo a consciência em si é aquilo que distingue entre o mais baixo e o mais alto, entre as águas que estão abaixo do firmamento e as que estão acima do firmamento, aquele pavoroso estágio na grande maldição da criação.

Como na melhor das hipóteses esta água9 é apenas um reflexo, quão tremendamente importante é que ela esteja quieta!

Se a taça for sacudida, a luz será decomposta.

Portanto, a Taça é colocada sobre o Altar, que é quadrado, a vontade multiplicada pela vontade, a confirmação da vontade no Juramento Mágico, sua fixação em Lei.

É fácil percebermos quando a água está enlameada, é fácil nos livrarmos da lama; mas existem muitas impurezas que desafiam tudo a não ser destilação, e mesmo algumas devem ser fracionadas até 70 vezes 7!

Existe, no entanto, um solvente e harmonizador universal, um certo orvalho que é tão puro que uma única gota derramada na água da Taça trará temporariamente tudo à perfeição.

Este orvalho é chamado Amor. Mesmo tal como, no caso do amor humano, o Universo inteiro parece perfeito ao homem que está sob seu controle, da mesma forma, e muito mais, com o Amor Divino do qual agora falamos.

Pois o amor humano é uma excitação, e não uma aquietação da mente; e, como está ligado ao indivíduo, apenas redunda em mais perturbação no fim.

Este Amor Divino, pelo contrário, não está apegado a nenhum símbolo.

Ele detesta limitação, quer em sua intensidade ou em seu alcance. E este é o orvalho das estrelas de que se fala nos Livros Santos, pois NUIT, a Senhora das Estrelas, é chamada “a Contínua do Céu”, e é esse Orvalho que banha o corpo do Adepto “em um doce perfume de suor”.10

Se bem, portanto, que todas as coisas são colocadas nesta Taça, pela virtude deste orvalho todas elas perdem sua identidade. E, portanto, esta Taça está na mão de BABALON, a Senhora da Cidade das Pirâmides, onde ninguém pode ser distinguido de qualquer outro, onde ninguém pode sentar-se até ter perdido seu nome.

Daquilo que está na Taça também é dito que é vinho. Esta é a Taça de Intoxicação. Intoxicação significa envenenamento, e particularmente refere-se à peçonha em que flechas são banhadas. (A palavra grega τόξον significa “um arco”.) Pense na Visão da Flecha em Liber 418, e consulte-se as passagens nos Livros Santos que falam da ação do espírito sob o símbolo de uma peçonha virulenta.

Pois para cada coisa individual a consecução significa, antes de mais nada, a destruição da individualidade.

Cada uma de nossas ideias deve ser levada a entregar o Ser ao Bem-Amado, de forma que nós eventualmente possamos, por nossa vez, entregar o Ser ao Bem-Amado nós mesmos.

Será lembrado da Lição de História11 como os Adeptos, “que haviam com rostos sorridentes abandonando seus lares e suas posses, puderam com tranquilidade e firme correção abandonar a própria Grande Obra; pois esta é a última e a mais elevada projeção do Alquimista”.

O Mestre do Templo cruzou o Abismo, entrou no Palácio da Filha do Rei; ele necessita apenas pronunciar uma palavra, e tudo será dissolvido. Mas, em vez disto, ele é encontrado escondido na terra, cuidando de um jardim.

Este mistério é demasiado complexo para ser elucidado nestes fragmentos de pensamento impuro; é um assunto para meditação.


  1. Tal como o Magista está na posição de Deus para com o Espírito que ele evoca, ele de pé no Círculo, e o espírito no Triângulo, assim também o Magista está no Triângulo com respeito ao seu próprio Deus. ↩︎

  2. Uma forma feia. Melhor é a dada na ilustração. ↩︎

  3. Estes “princípios” são vistos pelo aluno quando pela primeira vez ele é bem-sucedido em aquietar a mente. Aquele que está em curso no momento é o que ele vê. Isto é uma experiência tão maravilhosa, mesmo para alguém que tenha levado suas visões astrais a um altíssimo plano, que o aluno é capaz de confundi-la com o Fito. Veja-se o capítulo sobre Dhyana.

    As letras hebraicas correspondentes a estes princípios são Gimel, Resh e Shin, e a palavra formada por elas significa “uma flor” e também “expulso”, “expelido”. ↩︎

  4. A – o prefixo de negação; mrita, mortal. ↩︎

  5. Estes Lótus estão todos situados na coluna espinhal, que tem três canais, Sushumna no meio, Ida e Pingala de cada lado (compare-se com a Árvore da Vida). O canal central é comprimido em sua base por Kundalini, o poder mágico, uma serpente adormecida. Despertai-a; ela roja espinha acima, e o Prana flui através do Sushumna. Veja-se Raja Yoga para mais detalhes. ↩︎

  6. Veja-se o “Interlúdio” que segue. ↩︎

  7. Veja-se Equinox I (5), “The Training of the Mind”; Equinox I (2), “The Psychology of Hashish”; Equinox I (7), Liber DCCCCXIII. ↩︎

  8. “se confundis as marcas do espaço, dizendo: Elas são uma; ou dizendo, Elas são muitas… então esperai os terríveis julgamentos de Ra Hoor Khuit… Isto regenerará o mundo, o mundozinho minha irmã…” Estas são as palavras de NUIT, Nossa Senhora das Estrelas, de quem Binah não é mais que o agitado reflexo. ↩︎

  9. A água nesta Taça (a Taça é também um coração, tal como é mostrado pela transição entre o antigo Tarô e o moderno: o naipe “Corações” em velhos baralhos, e mesmo em modernos baralhos espanhóis e italianos, é chamado “Copas”) é a letra Mem (a palavra hebraica para água), que tem para seu Atu o Enforcado. Este Enforcado representa o Adepto pendurado por um tornozelo de uma forca, a qual tem a forma da letra Daleth – a letra da Imperatriz, a Vênus Celeste do Tarô. Suas pernas formam uma cruz, seus braços um triângulo, como se por seu equilíbrio e autossacrifício ele estivesse trazendo a luz do mais alto e estabelecendo-a mesmo no abismo.

    Elementar como isto é, ainda assim é um hieróglifo muito satisfatório da Grande Obra, se bem que o estudante é aqui prevenido de que a óbvia interpretação sentimental deve ser abandonada logo que compreendida. É uma mui nobre ilusão e, portanto, uma ilusão muito perigosa, o figurarmo-nos como o Redentor. Pois quanto mais puras e sutis forem as ilusões desta Taça, tanto mais difíceis serão elas de se perceber. ↩︎

  10. Veja-se Liber Legis i 27. ↩︎

  11. Liber LXI, o livro dado àqueles que desejam tornar-se Probacionistas da A∴A∴. ↩︎


Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.

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