O Fogo Mágico

Este artigo é um capítulo de Liber ABA – Magick – O Livro Quatro

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Capítulo XVI
O Fogo Mágico;
com Considerações Sobre o Turíbulo, o Carvão e o Incenso


O Incensário (modelo patenteado por Crowley)

Todas as coisas são lançadas ao Fogo Mágico. Ele simboliza a consumação final de todas as coisas em Shivadarshana. É a destruição absoluta tanto do Magista quanto do Universo.

O Turíbulo está sobre um pequeno altar. “Meu altar é de latão rendado: queimai sobre ele em prata ou ouro!” Este altar está no Oriente, como que para simbolizar a identidade de Esperança e Aniquilação. Este latão contém os metais de Júpiter e Vênus fundidos em uma liga harmoniosa. Isto é então simbólico do amor divino, e é “rendado” porque este amor não está fechado em direção ou extensão; não é particularizado, é universal.

Sobre este altar está o Incensário propriamente dito; tem três pernas, simbólicas do fogo.1 Seu bojo é um hemisfério e, apoiada nas bordas, está uma placa peneirada de buracos. Este Incensário é de prata ou ouro, porque estes são chamados os metais perfeitos; é sobre a perfeição que o imperfeito é queimado. Sobre esta placa queima um grande fogo de carvão, impregnado com nitrato de potássio. Este carvão é (como os químicos estão começando a perceber) o elemento proteico definitivo: absolutamente negro, porque absorve toda a luz; não passível de fusão pela aplicação de qualquer calor conhecido; o mais leve elemento que ocorre na natureza em estado sólido; e o constituinte essencial de todas as formas conhecidas de vida.

Foi tratado com nitrato de potássio, cujo potássio tem a flama violeta de Júpiter, o pai de todos; cujo nitrogênio é aquele elemento inerte que, por apropriada combinação, se torna um constituinte da maior parte dos explosivos conhecidos; e oxigênio, o alimento do fogo. Este fogo é soprado pelo Magista; este braseiro de destruição foi aceso pela sua palavra e pela sua vontade.

Neste Fogo ele joga o Incenso, simbólico de oração, o veículo grosseiro ou imagem de sua aspiração. Devido à imperfeição desta imagem, nós obtemos mera fumaça em vez de perfeita combustão. Mas não podemos usar explosivos em vez de incenso, porque não seria verdade. Nossa oração é a expressão do mais baixo aspirando ao mais alto; está sem a clara visão do mais alto, não compreende o que é que o mais alto deseja. E, não importa quão doce o seu aroma, é sempre nublada.

Nesta fumaça surgem visões. Nós buscamos a luz, e vede, o Templo escurece! Na escuridão esta fumaça parece assumir estranhas formas, e podemos ouvir o grito de bestas. Quanto mais densa a fumaça, mais escuro torna-se o Universo. Nós exclamamos e trememos ante as coisas imundas e insubstanciais que evocamos!

No entanto, não podemos trabalhar sem o Incenso! A não ser que nossa aspiração tome forma, ela seria incapaz de influenciar forma. Isto também é o mistério da encarnação.

A base deste Incenso é Resina de Olíbano, o sacrifício da vontade humana do coração. Este olíbano foi misturado com metade de seu peso de estoraque, os desejos terrenos, escuros, doces e pegajosos; e este novamente com metade do seu peso de madeira de aloés, que simboliza Sagitário, a flecha,2 e assim representa a aspiração em si; é a flecha que atravessa o arco-íris. Esta flecha é a “Temperança” no Tarô; é uma vida equanimemente equilibrada e reta que torna nosso trabalho possível; no entanto, esta vida deve, ela mesma, ser sacrificada!

Na combustão destas coisas surgem em nossa imaginação estes aterradores ou tentadores fantasmas que pululam o “Plano Astral”. Esta fumaça representa o “Plano Astral”, que jaz entre o material e o espiritual. Podemos agora devotar alguma atenção à consideração deste “plano”, a respeito do qual já foi escrita uma grande quantidade de tolice.

Quando um homem fecha seus olhos e começa a olhar em sua volta, no começo não vê nada senão escuridão. Se ele continua tentando penetrar a penumbra, um novo par de olhos gradualmente se abre.

Certas pessoas pensam que estes são os “olhos da imaginação”. Aqueles com mais experiência compreendem que isto verdadeiramente representa coisas vistas; se bem que aquelas coisas são, em si mesmas, totalmente falsas.

A princípio, o vidente perceberá uma penumbra cinzenta; em experimentos subsequentes talvez apareçam figuras com as quais o vidente pode conversar, e sob cuja orientação ele poderá viajar. Este “plano”, sendo tão grande e tão variado quanto o Universo material, não pode ser efetivamente descrito por nós; devemos referir o leitor a Liber O e ao Equinox I (2), pp. 295-334.

Este “Plano Astral” foi descrito por Homero na Odisseia. Aí estão Polifemo e os Lestrigões, aí estão Calipso e as Sereias. Aí, também, estão aquelas coisas que muitos têm imaginado serem os “espíritos” dos mortos. Se o estudante alguma vez toma qualquer dessas coisas por verdade, ele deve adorá-la, desde que toda verdade merece adoração. Em tal caso, ele está perdido; o fantasma terá poder sobre ele e o obcecará.

Enquanto uma ideia está sendo examinada, você está livre dela. Não faz mal que um homem experimente fumar ópio, ou comer nozes; mas no momento em que para de examinar e começa a agir por hábito e sem reflexão, ele está em perigo. Todos nós comemos demais, porque gente de uniforme e prestativa tem sempre aparecido cinco vezes por dia com provisões para seis meses, e dava menos trabalho comer e acabar logo com a coisa do que nos perguntarmos se estávamos com fome. Se você prepara a sua própria comida, você logo verificará que não prepara mais nem menos do que quer; e a saúde retorna. Se, no entanto, você vai ao outro extremo, e não pensa em nada senão em dieta, quase certamente contrairá aquela típica forma de melancolia em que o paciente está convencido de que o mundo inteiro está unido para envenená-lo. O Professor K. Xorro demonstrou que carne de boi causa gota; o professor Q. Tossi provou que o leite é a causa da tuberculose. Sir Ruffon Wratts nos diz que comer repolho causa velhice. Pouco a pouco você chega àquele estado de que Mr. Hereward Carrington se gaba: a única coisa que você come é chocolate, e mastiga chocolate incessantemente, mesmo em seus sonhos. No entanto, tão logo você o ingere, desperta para a terrível verdade por Guterbock Q. Hosenscheisser, Quarta Avenida, Grand Rapids, E.U.A., de que o chocolate é a causa da prisão de ventre, e a prisão de ventre é a causa do câncer, e você passa a extrair de si o chocolate por meio de um enema que lançaria um camelo em convulsões.

Uma semelhante loucura ataca até mesmo verdadeiros cientistas. Metchnikoff estudou as doenças do intestino grosso até não poder ver outra coisa, e então calmamente propôs cortar o intestino grosso de todo mundo, apontando que o abutre (que não tem intestino grosso) é uma ave de grande longevidade. Mas a longevidade do abutre deve-se ao seu pescoço retorcido, e muita gente bem-pensante tenciona experimentar com o Prof. Metchnikoff.

Porém, os piores de todos os fantasmas são as ideias morais e as ideias religiosas. A sanidade consiste na faculdade de ajustar as ideias em devida proporção. Qualquer pessoa que aceita uma verdade moral ou religiosa sem compreensão é mantida fora do manicômio somente porque não raciocina logicamente partindo das premissas. Se realmente acreditássemos no cristismo,3 se realmente acreditássemos que a maioria da humanidade está condenada à punição eterna, correríamos sem parar tentando “salvar” os outros. Não seria possível dormir até que o horror da mente deixasse o corpo exausto. De outra forma, seríamos moralmente insanos. Quem entre nós pode dormir se alguém que amamos está em mero perigo de vida? Não podemos sequer ver um cão se afogando sem pelo menos parar o que estamos fazendo para olhar. Quem poderia então viver em Londres e refletir sobre o fato de que a população inteira, com exceção de uns mil Irmãos de Plymouth, está condenada? No entanto, os mil Irmãos de Plymouth (que são os mais insistentes em proclamar que serão os únicos a serem salvos) parecem passar muito bem, obrigado. Se eles são hipócritas ou moralmente loucos, isto é um assunto que podemos deixar à consciência deles mesmos.

Todos estes fantasmas, de qualquer natureza, devem ser evocados, examinados e dominados; outrossim perceberemos que, justamente quando precisamos dela, há alguma ideia com a qual jamais lidamos; e talvez aquela ideia, pulando sobre nós de surpresa, e como se fosse pelas costas, nos estrangule. Esta é a lenda do feiticeiro estrangulado pelo Diabo!


  1. Porque Shin, a letra hebraica para o Fogo, tem três línguas de flama, e seu valor é 300. ↩︎

  2. Note-se que há duas flechas: a Divina, desfechada para baixo; a humana, desfechada para cima. A primeira é o Óleo; a segunda o Incenso, ou antes, a parte mais sutil deste. Veja-se Liber CDXVIII, Quinto Æthyr. ↩︎

  3. “Nós ficaríamos loucos se levássemos a Bíblia a sério; mas para levar a Bíblia a sério seria necessário já estar louco”. – Crowley. ↩︎


Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.

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