

Capítulo IX
O Pantáculo ¶

O Sigillum Dei Æmeth, um Pantáculo feito pelo Dr. John Dee.
Tal como a Taça Mágica é a comida divina do Magus, o Pantáculo Mágico é a comida terrena dele.
A Baqueta era a sua força divina, e a Espada a sua força humana.
A Taça é oca para receber a influência do alto. O Pantáculo é plano como as planícies férteis da Terra.
O nome Pantáculo implica numa imagem do Todo, omne in parvo; mas isto é através de uma transformação mágica do Pantáculo. Assim como tornamos a Espada simbólica de tudo pela força da nossa Magia, assim também nós trabalhamos sobre o Pantáculo. Aquilo que é meramente um pedaço de pão comum será o corpo de Deus!
A Baqueta era a vontade do homem, a sabedoria dele, o seu verbo; a Taça era a sua compreensão, o veículo da graça; a Espada era a sua razão; e o Pantáculo será seu corpo, o templo do Espírito Santo.
Qual o comprimento deste Templo?
Do Norte ao Sul.
Qual a largura deste Templo?
Do Leste ao Oeste.
Qual é a altura deste Templo?
Do Abismo ao Abismo.
Não existe, pois, qualquer coisa móvel ou imóvel sob os céus que não esteja incluída neste pantáculo, se bem que ele seja apenas de “oito polegadas de diâmetro, e da grossura de meia polegada”.
O fogo não é, de forma alguma, matéria; a água é uma combinação de elementos; o ar é quase inteiramente uma mistura de elementos; a terra contém todos tanto em mistura quanto em combinação.
Assim deve ser com este Pantáculo, o símbolo da terra.
Tal como este Pantáculo é feito de pura cera de abelhas, não nos esqueçamos de que “tudo quanto vive é santo”.
Todos os fenômenos são sacramentos. Todo fato, e mesmo toda falsidade, deve entrar no Pantáculo; ele é o grande depósito do qual o Magista tira aquilo de que necessita.
“Nos bolos castanhos de trigo provaremos da comida do mundo, e seremos fortes.”1
Quando falamos da Taça, foi mostrado como todo fato deve ser tornado significativo, como toda pedra deve ter seu lugar próprio no mosaico. Ai, se houver uma pedra fora de lugar! Mas aquele mosaico não pode ser construído, quer bem quer mal, a não ser que toda pedra ali esteja.
Estas pedras são as simples impressões ou experiências; nem sequer uma pode ser ignorada.
Não recuse coisa alguma só porque você sabe que é a taça de veneno oferecida pelo seu inimigo; beba confiantemente; é ele quem cairá morto!
Como posso eu dar à arte do Camboja seu devido lugar no estudo da arte, se eu nunca ouvi falar do Camboja? Como pode o geólogo avaliar a idade daquilo que jaz abaixo do giz, a não ser que ele tenha um tipo de conhecimento sem qualquer relação com a geologia: a história da vida dos animais dos quais aquele giz é o que resta?
Esta, pois, é uma dificuldade muito grande para o Magista. Ele não pode abarcar a soma total de experiências possíveis, e se bem que ele possa se consolar filosoficamente com a ideia de que o Universo é contérmino com aquela experiência que ele tem, ele verificará que esta experiência cresce tão rapidamente durante os primeiros anos de sua vida que ele quase será tentado a crer na possibilidade da existência de experiências além das dele mesmo; e do ponto de vista prático ele se verá confrontado por tantas avenidas de conhecimento que ficará sem saber qual escolher entre elas.
O asno hesitou entre dois tufos de capim; quanto mais aquele asno maior, aquele asno incomparavelmente maior, entre dois mil!
Felizmente, isto não tem muita importância; mas ele deveria pelo menos escolher aqueles ramos de conhecimento que lidam diretamente com problemas de ordem universal.
Deveria escolher não um ramo apenas, mas vários; e estes deveriam ser tão diversos uns dos outros quanto possível em suas naturezas.
É importante que ele cultive excelência em algum esporte e que esse esporte seja o mais bem calculado para lhe manter o corpo em bom estado de saúde.
Ele deveria ter uma sólida base de estudos dos clássicos, da matemática e da ciência; também, suficiente conhecimento geral das línguas modernas e das maneiras de viver para lhe permitir viajar em qualquer parte do mundo com facilidade e segurança.
História e geografia ele pode assimilar quando e como lhe convier; e o que deveria interessá-lo mais em qualquer assunto são os laços deste com algum outro assunto, para que o seu Pantáculo não seja sem aquilo que pintores chamam de “composição”.
Ele perceberá que, não importa quão boa seja a sua memória, dez mil impressões entram em sua mente para cada uma que ele é capaz de reter por um dia que seja. E a excelência de uma memória jaz na sabedoria de sua seleção.
As melhores memórias selecionam e julgam de tal forma que praticamente nada é retido, a não ser que tenha alguma coerência com o plano geral da mente.
Todos os Pantáculos conterão as concepções ultimais do círculo e da cruz; se bem que alguns preferirão substituir a cruz por um ponto, ou por um Tau, ou por um triângulo. A Vesica Piscis é algumas vezes usada em vez do círculo, ou o círculo pode ser simbolizado como uma serpente. Tempo e espaço, e a ideia de causalidade, são algumas vezes representados; assim também os três estágios na história da filosofia, em que os três assuntos de estudo foram, sucessivamente, a Natureza, Deus e o Homem.
A dualidade da consciência é também algumas vezes representada; e a Árvore da Vida mesma pode ser ali figurada, ou as categorias. Um emblema da Grande obra deve ser adicionado. Mas o Pantáculo será imperfeito a não ser que cada ideia seja contrastada de uma maneira equilibrada com o seu oposto, e a não ser que haja uma conexão necessária entre cada par de ideias e todo outro par.
O Neófito talvez faça bem em executar os primeiros esboços do seu Pantáculo de forma muito ampla e complicada, simplificando subsequentemente, nem tanto por exclusão como por combinação, da mesma forma que um zoólogo, começando com os quatro grandes símios e o homem, os combina sob a palavra única “primatas”.
Não é prudente simplificar demasiado, desde que o hieróglifo final deve ser um infinito. A última resolução não tendo sido executada, seu símbolo não deve ser representado.
Se qualquer pessoa conseguisse acesso a V.V.V.V.V.2 e Lhe solicitasse discursar sobre qualquer assunto, é quase certo que Ele poderia fazê-lo apenas através de um silêncio ininterrupto; e mesmo isto poderia não ser por completo satisfatório, desde que o Tao Teh King diz que o Tao não pode ser declarado, quer pelo silêncio, quer pela fala.
Nesta tarefa preliminar de coligir materiais, a ideia do Ego não é de grande importância; todas as impressões são fases do não-ego, e o Ego serve apenas de receptáculo. De fato, para a mente bem treinada, não existe dúvida de que as impressões são reais, e de que a mente, se não é uma tabula rasa, só não o é por causa das “tendências” ou “ideias inatas” que impedem certas ideias de serem recebidas com a mesma facilidade que outras.3
Estas “tendências” devem ser combatidas; fatos desagradáveis devem ser insistentemente considerados até que o Ego seja perfeitamente indiferente quanto à natureza da sua comida.
“Mesmo como o diamante brilhará rubro para a rosa e verde para a folha da roseira; assim tu permanecerás à parte das Impressões.”
Esta grande tarefa de separar o ser das impressões, ou “vrittis”, é um dos muitos significados do aforismo “solve”, correspondente ao “coagula” implicado em Samadhi; e este Pantáculo, portanto, representa tudo o que somos, a resultante de tudo que nós temos uma tendência a ser.
No Dhammapada lemos:
Tudo que somos resulta da mente; na mente é fundado, construído da mente;
Quem age ou fala maus pensamentos é seguido pela dor certa e cega.
Assim o boi firma seu pé, e a roda da carroça o segue.Tudo que somos resulta da mente; na mente é fundado, construído da mente;
Quem age ou fala com pensamento reto, a felicidade certamente o segue.
Da mesma forma, não deixa a sombra de cair em seu lugar próprio.
O Pantáculo é, então, em certo senso, idêntico com o Carma ou Kamma do Magista.
O Carma de um homem é seu livro de contas. O balanço não foi ainda estabelecido, e ele não sabe quanto é; ele nem sequer sabe bem que dívidas ele poderá ter que pagar, ou quais lhe são devidas; nem sabe em quais datas mesmo esses pagamentos que ele prevê poderão vir a ser cobrados.
Um negócio conduzido em tais linhas estaria numa confusão terrível; e verificamos que de fato o homem comum está justamente numa tal confusão. Enquanto trabalha dia e noite em algum detalhe sem importância dos seus negócios, alguma força gigantesca pode estar avançando pede claudo para ele.
Muitos dos lançamentos neste “livro de contas” são, para o homem comum, necessariamente ilegíveis; o método de lê-los é dado naquela importante instrução da A∴A∴ chamada “Thisharb”, Liber CMXIII.
Agora, considere que este Carma é tudo que um homem tem ou é. Seu objetivo final é livrar-se disto por completo – quando chega a hora de entregar4 o Ente ao Bem-Amado; mas, no princípio, o Magista não é aquele Ente; ele é apenas o monturo de lixo do qual aquele Ente será construído. Os instrumentos Mágicos têm que ser fabricados antes que possam ser destruídos.
Esta ideia de Carma tem sido confundida por muita gente que deveria ter mais senso (inclusive Buda), com ideias de justiça poética e retribuição.
Existe a história de um dos Arahats do Buda que, sendo cego, ao andar de um lado para outro matou sem saber um certo número de insetos (os budistas consideram a destruição da vida como o crime mais chocante). Seus irmãos Arahats inquiriram como isto pôde acontecer, e Buda inventou para eles uma longa história de como, numa encarnação prévia, aquele indivíduo maliciosamente privara uma mulher do sentido da visão. Isto é apenas uma história de fadas, um lobisomem para amedrontar as crianças, e provavelmente a pior maneira de influenciar as mentes jovens que já foi inventada pela estupidez humana.
O Carma não trabalha de jeito algum desta forma.
Em qualquer caso, parábolas morais devem ser cuidadosamente construídas, ou podem provar-se um perigo para aqueles que as usam.
Vocês devem se recordar do apólogo da Paciência e da Paixão, por Bunyan: a malvada Paixão brincou com todos os seus brinquedos e quebrou-os; a bondosa Paciência guardou os seus com todo cuidado. Bunyan esquece de mencionar que quando a Paixão quebrou seus brinquedos, ela já havia crescido além da capacidade deles.
O Carma não age desta forma, “olho por olho, dente por dente” etc. Um olho por um olho é uma espécie primitiva de justiça; e a ideia de justiça, no nosso senso humano da palavra, é completamente estranha à constituição do Universo.
Carma é a Lei de Causa e Efeito. Não existe proporção em suas operações. Uma vez que um acidente ocorra, é impossível prevermos o que poderá acontecer; e o Universo é um estupendo acidente.
Saímos mil vezes para tomar chá à tarde sem qualquer incidente; e logo na milésima primeira vez encontramos alguém que muda radicalmente o curso de nossas vidas.
Existe uma espécie de senso em que toda impressão impingida sobre nossas mentes é a resultante de todas as forças do passado; nenhum incidente é tão insignificante que não tenha de alguma forma moldado a nossa disposição. Mas não existe nada dessa ideia crua de “retribuição” nisso. Podemos matar cem mil piolhos no curso de uma breve hora ao pé do Glaciar Baltoro, como Frater P. fez certa vez. Seria estúpido supor, como desejam os teosofistas, que esta ação nos condena a sermos mortos cem mil vezes por um piolho.
Este livro de contas do Carma é conservado separado do livro de lançamentos diário; e com respeito ao volume, este livro de lançamentos diário é bem maior que o de contas.
Se comemos demasiado salmão, temos indigestão e talvez um pesadelo. É tolo supormos que virá um dia em que um salmão nos comerá e ficará indisposto.
Por outro lado, somos constantemente punidos de forma terrível por atos que absolutamente não são culpa nossa. Mesmo as nossas virtudes provocam a natureza insultada à vingança.
O Carma cresce do que se alimenta; e se vamos criar bem o nosso Carma, necessitamos fiscalizar-lhe a dieta.
Na maioria das pessoas, seus atos cancelam uns aos outros; tão logo algum esforço seja feito, é contrabalançado pela preguiça. Eros é substituído por Anteros.
Nem sequer um homem em cada mil escapa, mesmo em aparência, dos lugares-comuns da vida animal.
Nascer é dor;
A vida é dor;
Dolorosas são a velhice, a doença e a morte;
Mas a ressurreição é a maior miséria.
“Ó, que miséria nascer incessantemente!”, como disse Buda.
Capengamos de dia a dia com um pouco disto e um pouco daquilo, uns poucos bons pensamentos e uns poucos pensamentos maldosos; nada realmente é feito. Corpo e mente mudaram inexoravelmente e estão inelutavelmente mudados ao cair da noite. Mas que significado tem toda essa mudança?
Quantos podem olhar para trás, contemplar o curso dos anos, e concluir que avançaram em qualquer direção definida? E em quão poucos é aquela mudança, tal qual ela é, uma variável com inteligência e volição conscientes! O peso morto das condições originais sob as quais nós nascemos é muito maior que todo o nosso esforço. As forças inconscientes são incomparavelmente maiores do que aquelas das quais temos qualquer conhecimento. Esta é a solidez do nosso Pantáculo, o Carma do nosso planeta que nos impele, queiramos ou não, em torno do seu eixo à velocidade de mil milhas por hora. E mil é Aleph, um Aleph maiúsculo, o microcosmo do ar que vagabundeia em toda parte, o tolo do Tarô, a incertidão e fatalidade das coisas!
É, pois, muito difícil de qualquer forma construir este pesado Pantáculo.
Podemos gravar letras sobre ele com a adaga; mas elas durarão pouco mais do que durou a estátua de Ozymandias, Rei dos Reis, no meio do deserto sem fim.
Patinando, cortamos uma figura no gelo; ela é apagada em uma manhã pelos sulcos de outros patins; aquela figura nada mais fez que arranhar a superfície do gelo; e o gelo deve, ele mesmo, derreter-se diante do Sol. Em verdade o Magista pode se desesperar quando é hora de fazer o Pantáculo! Todos possuem o material, o de um homem é tão bom quanto o de qualquer outro, ou quase; mas para que aquele Pantáculo seja de qualquer forma construído com um propósito voluntário, com um propósito inteligível, ou mesmo com um propósito conhecido: “Hoc opus, Hic labor est”. É, em verdade, o trabalho de subir das profundezas do Averno, e escapar ao ar livre.
A fim de fazer isto, é muito necessário que compreendamos nossas tendências, e que nos decidamos a desenvolver umas, a destruir outras. E se bem que todos os elementos do Pantáculo devam no final ser destruídos, no entanto alguns nos auxiliarão ativamente a atingir uma posição partindo da qual esta tarefa de destruição se torna possível; e não existe qualquer elemento ali que não possa ser ocasionalmente útil.
Portanto – cuidado! Seleciona! Seleciona! Seleciona!
Este Pantáculo é um depósito infinito; sempre haverá coisas ali quando forem necessárias. Devemos de vez em quando espaná-las e evitar que deem traças, mas usualmente estaremos demasiado atarefados para fazer mais que isto. Lembremo-nos que ao viajar da Terra para as estrelas não nos atrevemos a carregar demasiada bagagem. Nada que não seja uma parte necessária da máquina deve entrar em sua composição.
Agora, se bem que este Pantáculo é composto apenas de aparências, algumas parecem ser mais falsas do que outras.
O Universo inteiro é uma ilusão; mas é uma ilusão difícil da gente se livrar. É verdadeiro, comparado com a maioria das coisas. Mas noventa e nove em cada cem impressões são falsas, mesmo em relação às coisas em seu próprio plano.
Tais distinções devem ser profundamente gravadas sobre a superfície do Pantáculo pela Santa Adaga.
Resta agora apenas um outro dos Instrumentos elementais a ser considerado; a saber, a Lâmpada.
Evitamos tratar do Pantáculo como a Patena do Sacramento, se bem que instruções especiais sobre o assunto são dadas no Livro da Lei. É composto de farinha integral, mel, vinho, óleo santo, e sangue. ↩︎
O Motto do Chefe da A∴A∴, “a Luz do Mundo em pessoa”. ↩︎
Não ocorre a um pintinho recém-saído da casca comportar-se da mesma forma que uma criança recém-nascida. ↩︎
Para entregar-se, a pessoa tem que entregar não apenas o que é mau, mas também o que é bom; não apenas a fraqueza, mas também a força. Como pode o místico entregar tudo, enquanto se apega às suas virtudes? ↩︎
Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.
