

Toda cantiga de ninar contém profundos segredos mágicos que estão a dispor de qualquer pessoa que tenha feito um estudo das correspondências da Santa Cabala. O ato de desvendar um imaginário significado de tais “tolices” faz pensar nos Mistérios; nós entramos em profunda contemplação de coisas santas, e Deus Mesmo guia a alma a uma real iluminação. Daí também a necessidade de Encarnação; a alma deve descer a toda falsidade para poder alcançar Toda-Verdade.
Por exemplo:
A velha Mãe Hubbard
Foi à sua dispensa
Pegar um osso para seu pobre cão;
Quando ela chegou lá,
A dispensa estava vazia,
Assim o pobre cão não ganhou nada.
Quem é esta antiga venerável Mãe de quem se fala? Em verdade ela não é outra senão Binah, como é evidente do uso da santa letra H pela qual o nome dela principia.
Nem é ela a Mãe Ama, estéril – mas a fértil Aima; pois ela tem Vau, o filho, como segunda letra do seu nome, e R, a penúltima letra, é o Sol, Tiphereth, o Filho.
As outras três letras do nome dela, B, A, e D, são os três caminhos que unem as três supernas.
A que dispensa foi ela? Mesmo às mais secretas cavernas do Universo. E quem é este cão? Não é ele o nome de Deus soletrado cabalisticamente às avessas? E o que é este osso? Este osso é a Baqueta, o santo Ligam!
A completa interpretação da runa agora é evidente. Esta rima é a lenda do assassinato de Osiris por Tifão.
Os membros de Osiris foram espalhados no Nilo.
Isis buscou-os em todo canto do Universo, e encontrou todos com exceção do sagrado lingam dele, que não foi encontrado até bem recentemente (veja-se Fuller, The Star in the West).
Tomemos outro exemplo deste rico armazém de lendas mágicas.
A pequena Bo Peep
Perdeu seus carneiros
E não sabia onde encontrá-los.
Deixe-os em paz!
E eles virão para casa,
Arrastando as caudas atrás.
“Bo” é a raiz significando Luz, da qual surgiram palavras tais como a Árvore-Bo, Bodhisattva e Buda.
E “Peep” é Apep, a Serpente Apófis. Este poema, portanto, contém o mesmo símbolo que aquele nas Bíblias egípcia e hebraica.
A serpente é a serpente da iniciação, da mesma forma que o Carneiro é o Salvador.
Este venerável, a Sabedoria da Eternidade, senta-se em sua angústia fria à espera do Redentor. E este santo verso triunfantemente nos assegura que não há razão para ansiedade. Os Salvadores virão um atrás do outro, como quiserem, e conforme sejam necessários, e arrastarão as suas caudas, isto é, esses que seguem o santo mandamento deles, ao fito ultimal.
Novamente, lemos:
A pequena Miss Muffett
Estava sentada num tufo,
Comendo coalhada e soro,
Lá vem uma enorme aranha,
E sentou-se ao seu lado,
E espantou a pobre Miss Muffett, que foi embora.
A pequena Miss Muffett inquestionavelmente representa Malkah; pois ela é solteira. Ela está sentada sobre um “tufo”; isto é, ela é a alma não regenerada sobre Tophet, o abismo do inferno. E ela come coalhada e soro, isto é, não o puro leite da mãe, mas leite que se decompôs.
Mas quem é a aranha? Realmente, eis aqui oculto um venerável arcano! Como todos os insetos, a aranha representa um demônio. Mas por que uma aranha? Quem é esta aranha “que segura com as mãos, e está nos Palácios dos Reis”? O nome desta aranha é Morte. É o medo da morte que antes de mais nada torna a alma cônscia de sua miserável condição.
Seria interessante se a tradição tivesse conservado para nós as aventuras subsequentes de Miss Muffet.
Mas devemos prosseguir à consideração da seguinte rima:
O pequeno Jack Horner
Estava sentado em um canto,
Comendo um pastel de natal.
Ele enfiou seu polegar,
E tirou uma ameixa,
E disse: “Que bom menino que eu sou!”.
Na interpretação deste notável poema existe uma divergência entre duas grandes escolas de Adeptos.
Uma mantém que Jack é apenas uma corrupção de John, Ion, aquele que vai – Hermes, o Mensageiro. A outra prefere tomar Jack simplesmente e reverentemente como Iacchus, a forma espiritual de Baco. Mas não faz muita diferença se nós insistimos sobre a rapidez ou sobre a raptura do Santo Espírito de Deus; e que é d’Ele que aqui se fala é evidente, pois o nome Horner não poderia ser aplicado a nenhum outro, mesmo pelo leitor mais casual dos Santos Evangelhos e das obras de Congreve. E o contexto torna isto ainda mais claro, pois ele está sentado em um canto, isto é, no lugar de Cristo, a Pedra Angular, comendo, isto é, deliciando-se, com aquilo que o nascimento do Cristo nos assegura. Ele é o Consolador que substitui o Salvador ausente. Se existisse ainda qualquer dúvida quanto à Sua identidade, seria resolvida pelo fato que é o polegar, que é atribuído ao elemento de Espírito, e não um dos quatro dedos atribuídos aos elementos menores, que ele enfia no pastel da nova dispensação. Ele tira um que está maduro, sem dúvida para enviá-lo como um instrutor ao mundo, e regozija-se porque está assim executando tão bem a vontade do Pai.
Passemos deste mui abençoado assunto a ainda outro.
Tom, Tom, o filho do flautista,
Roubou um porco e fugiu.
O porco foi comido,
E Tom apanhou,
E Tom desceu a rua rugindo.
Esta é uma das mais exotéricas destas rimas. De fato, não é muito mais que um mito solar. Tom é Toum, o Deus do Poente (chamado o Filho de Apolo, o Flautista, o criador de música). A única dificuldade do poema consiste no porco; pois quem quer que tenha assistido a um violento pôr do Sol sobre o mar nos trópicos compreenderá que incomparável descrição daquele pôr do Sol é dada naquela maravilhosa última linha. Alguns têm opinado que o porco se refere ao sacrifício da tarde, outros que ele é Hathor, a Senhora do Oeste, em seu mais sensual aspecto.
Mas é provável que este poema seja apenas a primeira estrofe de uma epopeia. Tem todas as marcas características. Alguém disse da Ilíada que ela não acaba, mas apenas para. Isto é a mesma coisa. Podemos estar certos de que existe mais deste poema. Diz demasiado e diz muito pouco. Como é que esta tragédia toda resulta da mera comilança de um porco roubado? Desvelai o mistério de quem o comeu!
Devemos então abandonar o caso como sendo pelo menos parcialmente insolúvel. Consideremos este poema:
Hickory, dickory, dock!
O camundongo subiu no relógio;
O relógio bateu uma,
E o camundongo desceu,
Hickory, dickory, dock!
Aqui estamos imediatamente em terreno mais claro. O relógio simboliza a espinha dorsal, ou, se preferires, o Tempo, escolhido como uma das condições de consciência. O camundongo é o Ego; “Mus”, “mouse”, sendo apenas Sum, eu sou, soletrado ao contrário cabalisticamente.
Quando este Ego ou Prana ou Kundalini é impelido para cima ao longo da espinha, o relógio bate 1, isto é, a dualidade da consciência é abolida. E a força desce novamente ao seu nível original.
“Hickory, dickory, dock” talvez seja simplesmente o mantra que foi usado pelo Adepto que construiu esta rima, desta forma esperando fixá-la na mente dos homens, para que eles pudessem atingir Samadhi, pelo mesmo método. Outros lhe atribuem um significado mais profundo – que é impossível considerar neste momento, pois devemos tratar agora de: –
Humpty Dumpty estava sentado no muro;
Humpty Dumpty teve uma grande queda;
Todos os cavalos do rei
E todos os homens do rei
Não puderam colocar Humpty Dumpty de volta.
Isto é tão simples que quase não requer explicação. Humpty Dumpty é naturalmente o Ovo do Espírito, e o muro é o Abismo – sua “queda” é, portanto, a descida do espírito à matéria; e é penosamente bem sabido que nem todos os cavalos nem todos os homens do rei podem colocar-nos de volta no alto.
Somente O Rei Ele-Mesmo pode fazer isso!
Mas a gente mal ousa comentar sobre um tema que foi tão frutuosamente tratado por Ludovicus Carolus, aquele mui santo iluminado homem de Deus. Seu perito tratamento da identidade dos três caminhos recíprocos – de Daleth, Teth e Pe, é uma das mais maravilhosas passagens da Santa Cabala. A resolução feita por ele daquilo que nós supomos o jugo da escravidão em puro amor, o bordado colar honorífico para o pescoço que nos é concedido pelo Rei mesmo, é uma das passagens mais sublimes desta classe de literatura.
Peter, Peter, comedor de abóbora,
Tinha uma esposa e não podia conservá-la.
Ele a botou em uma casca de amendoim;
Então ele a conservou muito bem.
Este antigo texto autêntico da escola Hinayana de Budismo é muito estimado até hoje pelos mais cultos e mais devotos seguidores daquela escola.
A abóbora é naturalmente o símbolo da ressurreição, como é sabido por todos os estudantes da história de Jonas e a cabaça.
Peter, portanto, é o Arahat que pôs fim à sua série de ressurreições. Que ele é chamado de Pedro é uma referência ao simbolismo de Arahats como pedras na grande muralha dos guardiães da humanidade. Sua esposa é naturalmente (no simbolismo usual) o seu corpo, que ele não pode conservar até colocá-lo em uma casca de amendoim, o robe amarelo de um Bhikkhu.
Buda disse que se qualquer homem se tornasse um Arahat ele teria que tomar os votos de um Bhikkhu no mesmo dia, ou morrer; e é esta palavra de Buda que o desconhecido poeta queria comemorar.
Taffy era um homem do país de Gales,
Taffy era um ladrão;
Taffy veio à minha casa
E roubou uma perna de boi.
Eu fui à casa de Taffy;
Taffy estava na cama.
Eu peguei numa faca
E cortei a cabeça de Taffy.
Taffy é apenas um diminutivo de Taphtatharath, o Espírito de Mercúrio e o Deus dos homens no país de Gales, ou ladrões. “Minha casa” é naturalmente equivalente a “meu círculo mágico”. Note-se que Beth, a letra de Mercúrio e do “Mago”, significa “uma casa”.
A carne é o símbolo do Boi, Ápis, o Redentor. Isto é, portanto, aquilo que está escrito: “Ó meu Deus, disfarça tua glória! Vem como um ladrão, e roubemos os sacramentos!”.
No verso seguinte verificamos que Taffy “está de cama”, devido à operação do sacramento. A grande obra do Alquimista foi terminada; o mercúrio está fixado.
Nós então podemos tomar a Santa Adaga e separar o Caput Mortuum do Elixir. Alguns Alquimistas creem que a perna de boi representa aquela densa substância física que é embebida por Mercúrio para sua fixação; mas aqui, como sempre, deveríamos preferir a interpretação mais espiritual.
Adeus, Bebê Bunting!
Papai foi caçar.
Ele foi buscar uma pele de coelho
Para embrulhar meu Bebê Bunting.
Esta é uma recomendação mística à alma recém-nascida para que fique quieta, para que se mantenha firme em meditação; pois em Adeus [Bye], Beth é a letra do pensamento, Yod a do Eremita. A rima diz à alma que o Pai de Tudo a vestirá com Seu próprio silêncio majestoso. Pois não é o coelho aquele “que se escondeu e ficou quietinho”?
Bate um bolo, bate um bolo, ajudante de padeiro!
Assa-me um bolo tão depressa quanto possas!
Bate-o e fura-o e marca-o com um P!
Assa-o no forno para o bebê e para mim!
Esta rima é usualmente acompanhada (mesmo hoje em dia no quarto das crianças) por um bater de palmas cerimonial – o símbolo de Samadhi. Compare-se o que é dito sobre o assunto em nosso comentário da famosa passagem sobre o “Advento” na epístola aos Tessalonicenses.
O bolo é, naturalmente, o pão do sacramento, e seria imodesto da parte de Frater P. comentar a terceira linha – se bem que podemos observar que, mesmo entre os Católicos Romanos, a hóstia tem sempre sido marcada com um falo ou cruz.
(Nota por Soror Virakam) ¶
(Quase meia-noite. Neste momento interrompemos o ditado e começamos a conversar. Então Fra. P. disse: “Ó, se eu apenas pudesse ditar um livro como o Tao Teh King!”. Então ele fechou seus olhos, como se meditando. Um momento antes eu notara uma mudança no rosto dele, muito extraordinária, como se ele não fosse mais a mesma pessoa; de fato, nos dez minutos em que estivéramos conversando, ele parecera ser uma quantidade de pessoas diversas. Notei especialmente que as pupilas de seus olhos estavam tão dilatadas que o olho inteiro parecia negro. (Tremo tanto e tenho uma tal sensação de trepidação interna, só de pensar em ontem à noite, que quase não posso escrever). Então, muito devagar, o quarto inteiro encheu-se de uma espessa luz amarela (de um dourado profundo, mas não brilhante. Eu quero dizer, não ofuscante, mas fosca). Fra. P. pareceu ser uma pessoa que eu não havia visto nunca, mas, no entanto, conhecia muito bem – sua face, roupas e tudo mais eram desse mesmo amarelo. Eu estava tão perturbada que olhei para o teto para ver se descobria o que estava causando aquela luz; mas somente pude ver as velas. Então a cadeira na qual ele estava sentado pareceu erguer-se; era como um trono, e ele parecia estar ou morto ou dormindo; mas certamente não era mais Fra. P. Isto me amedrontou, e eu tentei compreender olhando em volta do quarto; quando olhei de novo na direção dele, a cadeira estava erguida, e ele estava ainda da mesma maneira. Eu percebi que estava só; e, pensando que ele estava morto, ou que tinha partido – ou alguma outra coisa terrível – perdi os sentidos.)
(Este discurso foi assim deixado por acabar; mas é apenas necessário acrescentar que a capacidade de extrair tal mel espiritual destas flores pouco promissoras é a marca de um adepto que tornou perfeita a sua Taça Mágica. Este método de exegese cabalística é uma das melhores maneiras de exaltar a razão à consciência mais alta. Evidentemente o método estimulou Fra. P. de tal forma que num instante ele se concentrou por completo e entrou em transe.2 Ed.)
Este capítulo foi ditado em resposta a uma observação casual de Soror Virakam. Fra. P. disse, brincando, que tudo contém a Verdade, se soubermos como encontrá-la; e, sendo desafiado, passou à prova de sua asserção. O capítulo é aqui inserido não por qualquer valor que possa ter, mas a fim de provar o leitor. Se o que segue é considerado uma pilhéria, o leitor é um certo tipo de tolo inútil; se for pensado que Fra. P. acredita que os autores das rimas tinham qualquer intenção oculta, então o leitor é outro tipo de tolo inútil. Soror Virakam escolheu as rimas ao acaso. ↩︎
Veja-se os comentários sobre o absurdo da oração em “Eleusis” (Crowley, Collected Works, vol. III, pp. 223, 224). ↩︎
Traduzido por Marcelo Ramos Motta (Frater Ever). Revisado por Frater ΑΥΜΓΝ.
