A Necessidade da Magia para Todos
Este artigo é um capítulo de Magia Sem Lágrimas
Por que eu deveria praticar magia?
Capítulo II:
A Necessidade da Magia para Todos ¶
Cara Soror,
Faz o que tu queres será o todo da Lei.
Fico muito feliz em saber que você ficou tão satisfeita com minha explicação sobre o que é Magia e em que se baseiam suas teorias. É bom também saber o quanto você se interessou pelo vislumbre que teve de algumas de suas práticas no mundo; mais ainda, que você tenha compreendido que essa informação aparentemente obscura e irrelevante tem uma relação direta com sua vida pessoal de hoje. Ainda assim, não me surpreende que você tenha acrescentado: “Mas por que eu deveria me dedicar ao estudo e investir meu tempo e energia para adquirir proficiência na Ciência e na Arte da Magia?”
Ah, bem, talvez você não tenha compreendido minhas observações em uma de nossas primeiras conversas tão perfeitamente quanto acha! Pois o ponto crucial da minha explicação era que a Magia não é algo alheio ao fluxo principal da sua vida, como a música, a jardinagem ou colecionar jade poderiam ser. Não, cada ato da sua vida é um ato mágico; sempre que, por ignorância, descuido, desajeitamento ou qualquer outro motivo, você não alcança sucesso artístico perfeito, inevitavelmente experimenta fracasso, desconforto e frustração. Felizmente para todos nós, a maioria dos atos essenciais à continuidade da vida são involuntários; o “inconsciente” se acostumou tanto a cumprir sua “Verdadeira Vontade” que não há necessidade de interferência; quando essa necessidade surge, chamamos isso de doença e buscamos restaurar a máquina ao cumprimento livre e espontâneo de sua função.
Mas isso é apenas parte da história. Como as coisas são, todos nós nos aventuramos em um Universo de possibilidades imensuráveis, incalculáveis, de situações jamais contempladas pela tendência da Evolução. O ser humano é um monstro marinho; quando ele decidiu que seria melhor viver em terra firme, teve que desenvolver pulmões em vez de brânquias. Quando queremos viajar sobre a neve fofa, temos que inventar o esqui; quando desejamos trocar pensamentos, precisamos organizar um código convencional de sons, de nós em cordas, de caracteres esculpidos ou escritos – em suma – embarcar no oceano infinito de hieróglifos ou símbolos de um tipo ou de outro. (Em breve terei que explicar a suprema importância de tais sistemas; na verdade, o próprio Universo não é, e nem poderia ser, nada além de uma organização de caracteres simbólicos!)
Então cá estamos, presos numa teia de circunstâncias; se quisermos fazer algo além de ter uma vida vegetativa automática, devemos dedicarmo-nos conscientemente à Magia, “a Ciência e a Arte” (permita-me lembrá-la!) “de fazer com que Mudanças ocorram em conformidade com a Vontade”. Observe que a menor negligência ou erro significa que acontecem coisas que não se conformam a ela; quando isso ocorre, apesar dos nossos esforços, ficamos (temporariamente) perplexos; quando é a nossa própria ignorância do que deveríamos querer, ou a falta de habilidade em adaptar os nossos meios ao fim correto, então criamos um conflito na nossa própria Natureza: o nosso ato é suicida. Essa luta interior está na base de quase todas as neuroses, como Freud “descobriu” recentemente – como se isso não tivesse sido ensinado, e ensinado sem os inúmeros erros dele, pelos grandes mestres do passado! A doutrina taoísta, em particular, é a mais precisa e enfática neste ponto; aliás, pode parecer a alguns de nós que exagera; pois nada é permitido nesse esquema além do ajuste e da adaptação às circunstâncias sem atritos. “Benevolência e retidão” são, na verdade, depreciadas! Que tais ideias sequer tenham existido (diz Lǎozǐ) é mera evidência da desordem universal. Os sectários taoístas parecem assumir que a Perfeição consiste na ausência de qualquer perturbação do Fluxo da Nesciência; e isso é muito semelhante à ideia budista de Nibbāna.
Nós, que aceitamos a Lei de Thelema, mesmo que concordemos com essa doutrina na teoria, não podemos admitir que, na prática, o plano funcionaria; nosso objetivo é que o nosso Nada, idealmente perfeito em si mesmo, desfrute de si mesmo através da realização de todas as possibilidades. Todos esses fenômenos ou “eventos-ponto” são igualmente “ilusão”; o Nada é sempre Nada; mas a projeção do Nada nessa tela do fenomênico não apenas explica, como também constitui o Universo. É o único sistema que reconcilia todas as contradições inerentes ao Pensamento e à Experiência; pois nele a “Realidade” é “Ilusão”, o “Livre-arbítrio” é “Destino”, o “Self” é o “Não-Self”; e assim por diante para cada enigma da Filosofia.
Uma boa analogia é um pedaço de barbante infinito. Como em uma correia de transmissão, você não consegue dar um nó nele; todas as complexidades que você consegue imaginar são nós-de-tolo, que se desfazem ao menor toque. Sempre ou Zero ou Dois! Mas cada novo rearranjo lança mais luz sobre os possíveis emaranhados, ou seja, sobre a própria Natureza do Barbante. Ele é sempre “Nada” quando você o puxa; mas se torna “Tudo” à medida que você brinca com ele1, já que não há limite para as combinações que você pode formar a partir dele, exceto em sua imaginação (à qual a coisa toda pertence!) e que cresce enormemente com a Experiência. Portanto, vale muito a pena se realizar de todas as maneiras imagináveis.
Então (você dirá) é impossível “fazer algo errado”, já que todos os fenômenos são igualmente “Ilusão” e a resposta é sempre “Nada”. Na teoria, dificilmente se pode negar essa proposição; mas na prática – como posso dizer?
“O estado de Ilusão que, por conveniência, chamo de minha consciência atual é tal que o curso de ação A é mais natural para mim do que o curso de ação B”.
Ou: A é um atalho para o Nada; A tem menos probabilidade de gerar conflito interno.
Isso serve?
Ofereça a um cachorro um osso suculento e um maço de feno; ele naturalmente escolherá o osso, enquanto um cavalo escolherá o feno. Então, enquanto você se imagina uma Bela Dama em busca da Sabedoria Oculta, você vem até mim; se você pensasse que fosse um Menestrel Negro2, você tocaria banjo e cantaria canções calculadas para atrair a moeda corrente do Reino de um Público exigente! As duas ações são, em última análise, idênticas - veja AL I, 223 – e sua percepção desse fato faria de você uma Iniciada de posição muito elevada; mas no mundo cotidiano, você é “na verdade” a Bela Dama, e deixa o menestrel envelhecer e definhar, contratando um menino órfão para carregar seu banjo!
Ora, o que me incomoda é o seguinte: expliquei ou não essa questão da “Magia”? – “Por que eu (que acabei de ouvir falar dela, pelo menos como um assunto sério de estudo) deveria adquirir conhecimento de seus princípios e dos poderes conferidos por seu domínio?” Devo suborná-la com promessas de saúde, riqueza, poder sobre os outros, conhecimento, habilidade taumatúrgica, sucesso em todas as ambições mundanas – como eu poderia honestamente fazer? Espero que não haja tal necessidade – e, no entanto, devo confessar? – foi apenas porque todas as “coisas boas da vida” me pareceram repentinamente inúteis, que dei os primeiros passos em direção à conquista daquela Sabedoria que, enquanto desfruto plenamente do “Banquete da Vida”, me garante contra a saciedade, o veneno ou a interrupção, pelo conhecimento de que tudo é um Sonho, e me dá o Poder de transformar esse sonho à vontade em qualquer forma que agrade à minha Inclinação.
Deixe-me resumir, de forma bem sucinta: como de costume, meu entusiasmo me levou a adornar meu sábio discurso com imagens poéticas!
Por que você deveria estudar e praticar Magia? Porque você não consegue evitar, e é melhor fazer isso bem do que mal. Querendo ou não, você está em campo; por que continuar errando seus passes longos, cortando seus cruzamentos, desperdiçando suas cobranças, puxando suas bolas em profundidade, chutando por cima do gol e não acertando seu toque final – são 6 a 0 contra você, e não é permitido abandonar o jogo. Falta muito para o apito final, e o céu ameaça tempestade antes da noite que se aproxima4.
Amor é a lei, amor sob vontade.
Fraternalmente,
666
N ± N = Dois ou Nada; um é o processo Mágico, o outro o Místico. Você ouvirá muito sobre isso um dia! ↩︎
«De acordo com o dicionário Merriam-Webster, “Os espetáculos de menestréis, que geralmente se apresentavam com o rosto pintado de preto «blackface», exibiam representações exageradas e imprecisas de pessoas negras em canções, danças e diálogos cômicos. A popularidade dos shows de menestréis em seu auge desempenhou um papel significativo na promoção de estereótipos raciais negativos. Os shows profissionais de menestréis caíram em desuso e praticamente desapareceram em meados do século XX.”» ↩︎
«“Agora, portanto, vos sou conhecida por meu nome Nuit, e por ele por um nome secreto que lhe darei quando ele por fim me conhecer. Já que sou o Espaço Infinito, e as Infinitas Estrelas dele, fazei assim também. Nada amarreis! Que não haja diferença feita entre vós entre qualquer uma coisa & qualquer outra coisa; pois disso vem dor.”» ↩︎
«A metáfora original é com o jogo de golfe, mas como é um esporte pouco conhecido no Brasil, e como a maioria dos jargões não têm tradução, adaptamos para o futebol.» ↩︎
Traduzido por Alan Willms em fevereiro de 2026. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.
