Hieróglifos: Vida e Linguagem Necessariamente Simbólicas
Este artigo é um capítulo de Magia Sem Lágrimas
Por que usamos todos esses símbolos no esoterismo?
Capítulo III:
Hieróglifos: Vida e Linguagem Necessariamente Simbólicas ¶
Cara Soror,
Faz o que tu queres será o todo da Lei.
A irritação na sua última carta é muito natural! Você escreveu: —
“Mas por quê? Por que todo esse simbolismo elaborado? Por que não dizer diretamente o que se quer dizer? Certamente o assunto já é bastante complexo – é preciso mesmo usar uma máscara para torná-lo mais claro? Eu já te conheço bem o suficiente para ter certeza de que você não vai me enrolar com nenhuma bobagem de santidade sobre o inefável, sobre a linguagem humana ser inadequada para revelar tais Mistérios, sobre a necessidade de construir uma nova linguagem para explicar um novo sistema de pensamento; é claro que sei que isso teve que ser feito no caso da química, da matemática avançada, aliás, de quase todos os assuntos técnicos; mas sinto que você tem alguma outra explicação, mais profunda, na manga. Afinal, muito do que busco aprender contigo já é algo familiar para muitas das grandes mentes da humanidade há muitos séculos. De fato, a Cabala é uma linguagem especial, e já é bastante antiga; não há muito material novo que se encaixe nessa estrutura. Mas por que, em primeiro lugar, recorreram a esse jargão simbólico?”
Você expressou muito bem a questão; e quando reflito sobre o assunto, estou pouco confiante de que a explicação que estou prestes a te dar lhe satisfará, ou mesmo que se sustentará! Como último recurso, terei que afirmar que somos justificados pela experiência, pelo sucesso empírico na comunicação do pensamento que acompanhou e continua a acompanhar nossos esforços.
Mas para dar uma resposta completa, terei que voltar ao início e reformular o problema original; e peço que não pense que estou me esquivando da pergunta ou adotando o método irlandês de respondê-la por outra pergunta, embora eu saiba que possa parecer que sim.
Permita-me começar pela reformulação do nosso problema inicial: o que queremos é a Verdade; queremos uma aproximação ainda maior à Realidade; e queremos descobrir e discutir os meios adequados para atingir esse objetivo.
Muito bem; comecemos pela mais simples de todas as perguntas possíveis – e a mais difícil – “O que é alguma coisa?”, “O que nós sabemos?” e outras questões que surgem naturalmente a partir destas.
- Eu vejo uma árvore.
- Ouço-a — farfalhar ou ranger ao vento.
- Toco-a — dura.
- Cheiro-a — acre.
- Provo-a — amarga.
Agora, todas as informações fornecidas por esses cinco sentidos precisam ser reunidas, embora nenhuma delas concorde de modo algum. A lógica pela qual construímos nossa complexa ideia de uma árvore tem mais furos que uma esponja.
Mas já estamos nos adiantando muito: primeiro precisamos analisar a impressão única e simples. “Eu vejo uma árvore”. Esse fenômeno é o que chamamos de “evento-ponto”. É a convergência de dois elementos, o observador e aquilo que é observado. É único e simples; contudo, não podemos conceber nenhum dos dois como algo que não seja complexo. E o Evento-Ponto não nos diz absolutamente nada sobre nenhum dos dois; ambos, como Herbert Spencer e sabe-se lá quantos outros já demonstraram, são incognoscíveis; ele existe por si só, isolado e distante. Aconteceu; inegavelmente é Realidade. No entanto, não podemos confirmá-lo, pois jamais poderá acontecer novamente exatamente da mesma forma. O que é ainda mais desconcertante é que, como leva tempo para o olho transmitir uma impressão à consciência (ela pode se alterar de mil maneiras diferentes nesse processo!), tudo o que realmente existe é uma memória do Evento-Ponto, não o Evento-Ponto em si. Então o que é essa Realidade da qual temos tanta certeza? Obviamente, ela não tem um nome, já que nunca aconteceu antes, nem pode acontecer novamente! Para sequer discutir o assunto, precisamos inventar um nome, e esse nome (como todos os nomes) não pode ser nada além de um símbolo.
Mesmo assim, como frequentemente se ressalta, tudo o que fazemos é “registrar o comportamento de nossos instrumentos”. E não estamos em situação muito melhor depois disso; pois nosso símbolo, referindo-se a um fenômeno único em si mesmo, e não apreensível por outro, pode não significar nada para os nossos semelhantes. O que acontece, claro, é que Eventos-Ponto semelhantes, embora não sejam idênticos, ocorrem com muitos de nós, e assim somos capazes de construir uma linguagem simbólica. Minha memória da misteriosa Realidade se assemelha o suficiente à sua para nos levar a concordar que ambas pertencem à mesma classe.
Mas permita-me, além disso, pedir-lhe que reflita sobre a própria formação da linguagem. Exceto no caso de palavras onomatopeicas e algumas outras, não há nenhuma conexão lógica entre uma coisa e o som do nome que lhe damos. “Au-au” é um nome mais racional do que “cachorro”, que é uma mera convenção adotada pelos portugueses, enquanto outras nações preferem dog, chien, hund, cane, kalb, kutta e assim por diante. Veja bem, são todos símbolos, minha querida criança, e não adianta você espernear!
Mas não para por aí. Quando tentamos transmitir um pensamento por escrito, somos obrigados a nos sentar firmemente e construir uma Cabala sagrada do nada. Por que uma curva aberta à direita soaria como o oceano, mas se aberta no topo, soa como você1? E todas essas letras simbólicas arbitrárias são combinadas por meio de dispositivos igualmente simbólicos e arbitrários para assumir significados convencionais, essas palavras novamente são combinadas em frases por um procedimento não menos autoritário.
E então as pessoas se perguntam como é possível haver erros e mal-entendidos na transmissão de pensamentos de uma pessoa para outra! Em vez disso, considerem uma intervenção milagrosa da Providência quando até mesmo uma das ideias mais simples “chega lá”. Ora, sendo assim, é evidentemente sensato construir o próprio alfabeto, com definições precisas, para lidar com um assunto abstruso e técnico como a Magia. Palavras “comuns” como Deus, self, alma, espírito e outras foram usadas tantas vezes e de tantas maneiras diferentes, geralmente por autores que desconheciam ou não se importavam com a necessidade de definições, que usá-las hoje em qualquer ensaio científico é quase ridículo.
Irmã, por enquanto isso é tudo; por favor, chega de reclamações; sente-se quietinha com seu 7772 e memorize-o!
Amor é a lei, amor sob vontade.
Fraternalmente,
666
«A curva aberta à direita é a letra C que no inglês tem o mesmo som de sea, “mar”, enquanto a curva aberta no topo é U, que no inglês soa como you, “você”.» ↩︎
«Liber 777, descrito pelo autor como “Um completo dicionário de correspondências de todos os elementos mágicos, reimpresso com várias inserções, fazendo-o o único livro de referência, de fácil compreensão, da área já publicado”. Crowley recomendava que seus estudantes memorizassem as principais colunas destas tabelas de correspondências, assim como fez enquanto avançava pelos graus da Ordem Hermética da Aurora Dourada.» ↩︎
Traduzido por Alan Willms em março de 2026. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.
