Capítulo XIV:
Ruído ¶
Cara Soror,
Faz o que tu queres será o todo da Lei.
Você me pergunta qual é, atualmente, o maior obstáculo para o progresso humano.
Minha resposta é uma só palavra: RUÍDO.
Você deve se lembrar que, no Yoga1, o compêndio conciso da Instrução Iniciática é:
“Sente-se imóvel.
Pare de pensar.
Cale-se, e
Caia fora.”
O segundo desses postula o terceiro; pois não se pode nem pensar nem parar de pensar com toda essa algazarra acontecendo.
Por outro lado, o Quarto Poder da Esfinge é o Silêncio; sobre este assunto, devo remetê-la a Pequenos Ensaios em Direção à Verdade (nº 14, p. 75).
Na verdade, estamos tentando discutir algo totalmente diferente; algo prático para o dia a dia. Muito bem, então; você observa que Goetia significa, na verdade, “uivo”, que usamos oficialmente o Sino, o Tambor, os Encantamentos, os Mantras e assim por diante. Tudo isso é verdade sobre Magia; mas nada disso se aplica ao Yoga, pois mesmo com o Mantra, a prática consiste em ir mais rápido e mais silenciosamente à medida que se avança, até se tornar um “Murmúrio Mental”. M é a letra que é pronunciada com os lábios firmemente fechados; e Silêncio é o significado da raiz MU de Mistério.
Contudo, devemos admitir o valor do som rítmico e concentrado; isso é muito diferente de Ruído2. O francês antigo tem noise, nose, um debate, briga, ruído; o franco-provençal tem noisa, nausa, nueiza. Mas Diez3 reivindica a derivação de nausea – e, por Jingo Vivo4, considero Diez um sujeito de caráter!
Hoje em dia, a maioria das conversas modernas não passa de uma série de grunhidos convencionais; a maioria das pessoas parece ter como objetivo deliberado não dizer nada com significado, pelo menos em conversas normais. (James Branch Cabell5 é extremamente engraçado em suas demonstrações desse hábito intolerável.)
Certa vez, tive uma lição muito proveitosa: quão difusa e, portanto, desnecessária é grande parte da nossa fala, mesmo naquilo que consideramos mais conciso.
Eu havia sido incumbido pelo meu Superior da reconstrução de um certo ritual. Isso foi em 1912; o ritmo do mundo já havia acelerado impiedosamente; fazer as pessoas memorizarem até mesmo passagens curtas não seria tarefa fácil. Então, alertado pelos horrores prolixos, piedosos, presunçosos e previsíveis da Maçonaria (especialmente os graus avançados dos Ritos Escocês e Egípcio), resolvi parar com a conversa fiada e ir direto ao ponto da maneira mais drástica de que eu era capaz.
Foi um grande sucesso.
Mas aí tínhamos um candidato que era completamente surdo. (Não “um pouco surdo”; seus tímpanos estavam rompidos.)
Obviamente, poderíamos mostrar-lhe bilhetes, como fizemos ao conversar com ele. Mas, durante grande parte da cerimônia, o candidato precisa ficar vendado!
Não havia uma alternativa senão comunicar pela língua de sinais em seus dedos6. Foi o que fiz – e descobri que podia eliminar, de improviso, pelo menos quarenta por cento do “mínimo irredutível” sem prejudicar em nada o efeito do ritual. “Taí uma lição!”
Claro, existe algo como a Arte da Conversação; tive a sorte de conhecer três, talvez quatro, dos melhores conversadores do mundo; mas isso não vem ao caso. Seria como censurar o impasto7 por desperdiçar tinta.
O que venho denunciar é o que acredito seriamente ser uma conspiração organizada pelas Lojas Negras para impedir as pessoas de pensar.
Nus e sem se envergonhar8! Em alguns países, já existe a obrigatoriedade de ouvir os programas de rádio governamentais; e quem sabe quanto tempo levará até que todos sejamos submetidos por lei aos balidos, berros e arrotos do tedioso disparate dos B.B.C.-zinhos9?
Eles se vangloriam da liberdade de pensamento religioso; no entanto, apenas a propaganda sectária mais restrita tem permissão para chegar aos microfones. Prevejo, sem dúvida, censura de livros – a dos jornais, por mais veementemente negada, é de fato eficaz – e até mesmo de cartas particulares. Isso significará um enorme aumento de funcionários parasitas em que se pode confiar para votar nos patifes que inventaram suas sinecuras. Foi justamente essa hera venenosa que estrangulou o álamo francês!
Mas esses canalhas sufocadores de alma conhecem bem o perigo que correm. Ainda existem algumas pessoas que aprenderam a pensar; e estão paralisadas de terror, temendo que, como pode acontecer a qualquer momento, essas pessoas percebam o perigo, se organizem e exterminem toda a ninhada de escólex!
Portanto, ninguém deve ter permissão para pensar. Abaixo os internatos privados10! As crianças devem ser doutrinadas intelectualmente por condutores de rebanho com pouca instrução, cujos salários cessariam ao primeiro sinal de discordância com os patrões. Quanto ao resto, ensurdecer o mundo inteiro com clamor insensato. Mecanizar tudo! Não dar a ninguém a chance de pensar. Padronizar o “entretenimento”. Quanto mais alto e cacofônico, melhor! Breves intervalos entre um ruído e outro podem ser preenchidos com apelos, repetidos até que o poder hipnótico lhes dê a força de ordens, para comprar este ou aquele produto dos “Homens de Negócios” que são o verdadeiro poder no Estado. Homens que traem seu país como se fosse rotina.
A história dos últimos trinta anos fala por si só, poderíamos pensar. O que esses imbecis embriagados nunca percebem é que um organismo vivo precisa se adaptar de forma inteligente ao seu ambiente, ou sucumbirá à primeira mudança séria de circunstância.
Onde estaria a Inglaterra hoje se não tivesse havido um homem, deliberadamente mantido “no deserto”11 por décadas como alguém de “juízo duvidoso”, “excêntrico”, “perigoso”, “indigno de confiança”, “impossível de se trabalhar”, para assumir o controle do país das mãos dos homens “seguros” e perplexos?
E o que ele poderia ter feito se o povo não tivesse reagido? Nada. Portanto, ainda existe um remanescente12 cuja independência, senso de realidade e hombridade começam a importar quando o querido, lanudo e bondoso rebanho de ovelhas se dispersa aterrorizado ao primeiro uivo do lobo13.
Sim, eles estão lá, e podem nos devolver a liberdade – se ao menos conseguirmos fazê-los entender que o inimigo em Whitehall é insidiosamente mais fatal do que o adversário na Casa dos Camisas Pardas14.
Com essa nota de esperança, retorno ao meu silêncio.
Amor é a lei, amor sob vontade.
Fraternalmente,
666
«Consulte a Quarta Palestra em Oito Palestras Sobre Yoga.» ↩︎
«Ruído em inglês é noise, daí as comparações que se seguem. » ↩︎
«Friedrich Christian Diez (1794-1876) foi um linguista alemão, autor de dicionários etimológicos.» ↩︎
«Jingo é uma expressão coloquial para Jesus.» ↩︎
«Escritor de ficção cientifica americano.» ↩︎
«Alfabeto tátil para surdocegueira.» ↩︎
«Técnica de pintura onde a tinta é aplicada espessamente, criando texturas e relevos na tela, tornando as pinceladas ou marcas de espátula visíveis.» ↩︎
«“O homem e a mulher estavam nus, e não se envergonhavam” – Gênesis 2:24.» ↩︎
«Refere-se aos funcionários da BBC, British Broadcasting Corporation, de maneira pejorativa. Crowley usou o termo “B.B.C.-issies” no original, formando o som da palavra sissies, “afeminados”.» ↩︎
«No original diz public school, mas na Inglaterra e Gales, elas são escolas abertas ao público em geral, que, no entanto, cobram taxas de seus alunos, não públicas no sentido de gratuitas.» ↩︎
«Crowley refere-se ao período do ostracismo ou do deserto de Winston Churchill, entre 1930 e 1938, onde ele estava politicamente isolado antes de se tornar um ícone britânico durante a Segunda Guerra Mundial. Também é uma referência bíblica a Isaías 40:3 “Alguém está gritando: ‘Preparem no deserto um caminho para o Senhor, abram ali uma estrada reta para o nosso Deus passar’!”» ↩︎
«“E acontecerá naquele dia que os restantes de Israel, e os que tiverem escapado da casa de Jacó, nunca mais se estribarão sobre aquele que os feriu; antes estribar-se-ão verdadeiramente sobre o Senhor, o Santo de Israel. Os restantes se converterão ao Deus forte, sim, os restantes de Jacó. Porque ainda que o teu povo, ó Israel, seja como a areia do mar, só um remanescente dele se converterá; uma destruição está determinada, transbordando em justiça” – Isaías 10:20-22.» ↩︎
«“Mas o mercenário, e o que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa as ovelhas” – João 10:12.» ↩︎
«Whitehall (Salão Branco) é a rua do centro do governo britânico, e Braunes Haus (Casa Parda) era a sede do partido nazista.» ↩︎
Traduzido por Alan Willms em outubro de 2026. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.
