O que é uma Linhagem da A∴A∴?

Sobre a estrutura de trabalho e sucessão da A∴A∴.

O que é uma Linhagem da A∴A∴?

Enquanto a maioria das ordens iniciáticas trabalha em um sistema baseado em grupos e lojas, onde os membros se reúnem em um templo e trabalham em conjunto, na A∴A∴ o trabalho é individual. Você trabalha sozinho com a eventual orientação do seu instrutor, que age mais como um conselheiro, e não como um mestre[1].

Relação instrutor-estudante

O membro da A∴A∴ estuda sob a orientação de um instrutor, a única pessoa com quem ele tem contato na Ordem[2]. Essa pessoa é responsável por validar o progresso do estudante e transmitir instruções e chaves que provêm da tradição oral. Caso o estudante se torne qualificado para também instruir, ele também terá contato com as pessoas que vier a orientar na Ordem.

O instrutor da A∴A∴ deve estar pelo menos um grau à frente do estudante, seguindo um dos lemas da Ordem: “Na A∴A∴ cego não guia cego”. Desta forma, um membro do grau de Probacionista 0=0 deve ser instruído por alguém que seja pelo menos do grau de Neófito 1=10; um Neófito 1=10 deve ser instruído por alguém que seja pelo menos um Zelator 2=9; e assim por diante.

Ao alcançar o grau de Adeptus Minor 5=6(interno), o membro deverá alcançar a experiência do Conhecimento e Conversação de seu Santo Anjo Guardião, isto é, o contato com seu Verdadeiro Instrutor. Dali em diante seu Anjo “o levará ao ápice da Ordem da R.C. e o preparará para enfrentar o indescritível terror do Abismo que fica entre a Humanidade e a Divindade”[3], isto é, avançar pelos graus da Segunda Ordem e atingir o grau de Magister Templi 8=3.

O que são linhagens?

Esta palavra pode ser empregada para definir dois conceitos relacionados.

Primeiramente, linhagem pode ser a linha de sucessão que conecta o estudante a seu instrutor, e o instrutor ao instrutor dele, e assim por diante até chegar a um dos fundadores da Ordem. Por exemplo, Euclydes Lacerda de Almeida foi recebido na Ordem por Marcelo Ramos Motta, que foi recebido por Karl Johannes Germer, que por sua vez foi recebido por Edward Alexander Crowley, cofundador da A∴A∴. Então pode-se dizer que a linhagem de Euclydes é via Motta > Germer > Crowley[4]. Todo Neófito potencialmente é uma nova linhagem da A∴A∴.

Em segundo lugar, também usamos o termo linhagem para denotar os grupos reivindicadores, o conjunto de pessoas que alegam ser legítimos membros da A∴A∴ e que operam abaixo de um dado membro sênior da Ordem, cujo instrutor já faleceu. Por exemplo, Frater אדני é instruído por Frater 939, que foi instruído por Motta, e assim por diante. Ao se tornar um estudante de אדני, diz-se que você faz parte da linhagem de Frater 939[5].

Linhagens vs. Comando Central

Quando foi fundada, a A∴A∴ possuía três cargos administrativos:

  • Cancellārius: o secretário, responsável pelos documentos e comunicações. Cargo originalmente ocupado pelo Capitão J. F. C. Fuller (Frater P.A.)
  • Imperātor: responsável pelo comando da Ordem. Cargo originalmente ocupado por Aleister Crowley (Frater O.S.V.)
  • Praemonstrātor: responsável pelas instruções. Cargo originalmente ocupado por George Cecil Jones (Frater D.D.S.)

Por volta de 1911, Frater P.A. e Frater D.D.S. se desligaram da A∴A∴. A Ordem ficou sob responsabilidade única de Aleister Crowley (Frater O.S.V.). Ao longo dos anos seguintes, diferentes pessoas ocuparam estes cargos, mas quando Crowley faleceu em 1947, ele deixou todas as suas posses, bem como o governo da A∴A∴ e da O.T.O., nas mãos de Karl Johannes Germer.

Embora com a devida autoridade, Karl Germer nunca se impôs como o líder de todos os membros remanescentes da A∴A∴. Ao invés disso, cada um dos membros sêniores sobreviventes continuaram a cuidar de seus próprios estudantes, e a A∴A∴ cresceu de maneira orgânica.

Com a morte de Germer, a situação se tornou mais complexa, porque ele não deixou um sucessor para comandar a A∴A∴. Alguns argumentam que Motta é o herdeiro da Ordem[6], porém Motta também nunca apontou um herdeiro[7], e caímos na mesma situação anterior.

Até hoje nenhum grupo foi reconhecido por todas as linhagens sobreviventes como sendo a tríade governante da A∴A∴ como um todo — embora um destes grupos tente se impor como tal. O que ocorre na prática é que cada linhagem possui sua própria tríade governante, ou uma pessoa que centraliza estas funções — geralmente o membro sênior.

Autenticidade da sucessão

Com tantas discussões conflitantes sobre autenticidade, é difícil determinar se um grupo possui uma sucessão válida da A∴A∴. Estes são alguns parâmetros que poderíamos utilizar para determinar se uma linhagem é autêntica:

  • Partir de Aleister Crowley. Ou seja, o elo mais antigo desta corrente de sucessão deve ser este cofundador da Ordem, já que foi o único que permaneceu ativo até sua morte.
  • Graus verificados. Cada membro da corrente deve ter seu grau reconhecido pelo Instrutor, sem auto reconhecimento ou avanço por conta própria.
  • O membro sênior vivo deve ser pelo menos um 5=6. A partir deste ponto um membro pode trabalhar com seu próprio Santo Anjo Guardião, porém antes disso é preciso haver alguém capacitado para auxiliá-lo em sua preparação para este grau e confirmar sua consecução.
  • Não deve haver nenhum “pulo” de Grau. Todos os antecessores devem ter passando por cada grau intermediário, sucessivamente: 0=0, 1=10, 2=9, 3=8, 4=7, D. L. e 5=6[8].

Embora algumas reivindicações de sucessão pareçam mais válidas do que outras, não existe uma linhagem que atenda a todos estes requisitos minunciosamente.

Uma vez que a A∴A∴ não é uma ordem no formato tradicional como a Maçonaria, a O.T.O. e a Golden Dawn, documentos e reconhecimento oficial não importam tanto quanto resultados. É importante que os Aspirantes à A∴A∴ façam seu trabalho de pesquisa sobre a linhagem à qual pretendem se juntar, analisando qual grupo reivindicador parece estar mais alinhado à sua própria Natureza. Como diz Mestre Therion, em relação à Terceira Ordem:

“Os Irmãos da A∴A∴ não recusam ninguém. Eles não fazem objeção a ninguém que afirma ser um Deles. Se alguém fizer isso, que aja de acordo.”

 

[1] O modelo é semelhante à tradição guru-śiṣya, no entanto, o “guru” não é recompensado e nem exaltado, ele serve apenas como um facilitador. Seu “guru” é o “śiṣya” de outro guru, que por sua vez é o śiṣya de um terceiro guru, e assim sucessivamente, até chegar ao fundador da Ordem, a origem da corrente.

[2] Isso na teoria, pois como muitos membros da A∴A∴ também são membros em outras ordens iniciáticas thelêmicas, eventualmente eles acabam se identificando, no entanto jamais devem trabalhar em conjunto nas suas atribuições da A∴A∴.

[3] Trecho de One Star in Sight, um dos apêndices de Magick in Theory and Practice.

[4] Na tradição guru-śiṣya isso é chamado de Paramparā.

[5] Na tradição guru-śiṣya isso é chamado de Sampradāya.

[6] De acordo com Sascha Germer, Karl teria dito em seu leito de morte que Motta é o “the follower” (o seguidor). Motta passou anos tentando compreender o que isto significava, se seria aquele que segue ou sucede a Besta de acordo com o Livro da Lei (“[...]Vem um para te seguir: ele o exporá. [...]”, AL II:76) ou se seria o herdeiro do comando da A∴A∴ e da O.T.O. Eventualmente descobriria que outra pessoa também havia sido chamada de “the follower” por Sascha.

[7] No único testamento deixado por Motta, ele aponta um triunvirato para comandar sua S.O.T.O. A A∴A∴ não é mencionada.

[8] “Também Ele conferiu a D.D.S., O.M., e outro, a Autoridade da Tríade, que por sua vez a delegaram a outros, e eles novamente, para que o Corpo de Iniciados seja perfeito, uniformemente da Coroa até o Reino e além.” – Liber Causae.


Escrito e traduzido por Alan M. W. Quinot.