O Sapateiro de Görlitz

Uma resenha do documentário sobre a vida e legado de Jacob Boehme.

O Sapateiro de Görlitz

por Chrystian Revelles

Uma resenha sobre a VIDA E LEGADO DE JACOB BOEHME,
um documentário biográfico sobre o Sapateiro de Görlitz
Produzido por Łukasz Chwałko
Traduzido por Américo Sommerman
Revisado por Chrystian Revelles

Intuição profética. Ardor visionário. Analogias entre Deus, o Homem e o Universo. Assinaturas das Coisas. Deus como Deidade – Deus acima de Deus. O Nascimento do Deus-Filho, irrompendo como Luz no Abismo Eterno de Deus-Pai. A Dialética entre ambos – Tese e Antítese cuja Síntese, o Sétuplo Espírito Santo, é um jorro de amor tão inefável que já não pode conter-se, e por isso mesmo explode como manancial de Esplendor. Uma Catástrofe cujos estilhaços revelam a Natureza Criada, imprimindo por toda parte a Assinatura de uma Causa Ativa e Inteligente.

Pai do Idealismo Alemão de Hegel e Schelling. Um mestre para todos os Rosacruzes. Inspirador da epopeia de John Milton e do simbolismo das pinturas e poemas de William Blake; precursor da Sofiologia de Vladimir Solovyov. Tudo isso é atribuído a um simples místico e sapateiro a quem Hegel chamou “O Primeiro Filósofo Alemão”. Fez até mesmo o pessimista Schopenhauer confessar – “Por que as mesmas figuras e formas que nas obras de Boehme enchem-me de admiração e espanto, nos escritos de Hegel me parecem insuportáveis e ridículas? Pois nos escritos de Boehme o conhecimento da Verdade Eterna fala a cada página”.

O Sapateiro de Görlitz não anuncia abstrações frias e mortas de Teólogos. Fala de um Parto, um Engendramento. Fala do Abismo da Divindade, dos Arquétipos Regentes da Alma do Mundo. Arquétipos que assinam os planetas, feras, plantas, pedras, metais e estrelas. Não fala de um Criador separado e apartado de sua Criação, mas de uma verdadeira Divindade, uma Aurora Nascente que irrompe e se revela em todas as coisas e todos os seres – árvores, rios, bosques; na profundeza dos oceanos, na altitude das cordilheiras; no Sol, na Lua e na Sabedoria das estações. Seu Deus não é um fantasma teológico. Antes, se assemelha ao Um de Plotino, ou o Abismo de Mestre Eckhart; a Anima Mundi de Ficino e O Ilimitado dos Cabalistas.

Para quem contenta em deter-se no Reino da Multiplicidade, dos Fenômenos e da Aparência, A Obra de Boehme nada tem a oferecer. Seu conhecimento não dirige-se à frieza de nossos esquematismos mecânicos e racionais. Em vez disso, atinge-nos como um raio de lampejos e símbolos que transporta-nos ao Seio da Alma do Mundo – o Abismo Sem-Fundo mais próximo do que mãos e pés. Ele quer elevar-nos ao Reino das Causas, ao estranho nexo metafísico da natureza naturante, que une coisas aparentemente tão distantes como: Saturno, pedras, ossos e chumbo – análogas pelo elo invisível da Adstrigência. O próprio Sol visível não é senão imagem de um oculto Sol Invisível que deve brilhar em nosso Santuário Íntimo e ali lumiar a Secreta Instrução.

No meio iniciático, sua influência é absoluta. Boehme é o Apóstolo para os pansóficos, herméticos, rosacruzes e martinistas. Louis-Claude de Saint-Martin, o Filósofo Desconhecido, o declara “a maior luz que veio a este mundo, depois Daquele que era a Própria Luz”. Foi profundamente estudado por Éliphas Lévi, Franz Hartmann e Stanislas de Guaita. Em Papus, vemos uma reminiscência de suas ideias nas Tabelas de Correspondências e Tricotomia do Homem e do Universo. Mesmo aqui o Brasil, nossa Amada Terra de Vera Cruz, foi alcançada por Sua Influência:

“[…]o Homem Original fragmentou-se e, desde então, saindo de sua unidade original e eterna, ele modalizou-se, passando da unidade ao número, multiplicando-se através da noite dos tempos, distanciando-se cada vez mais de sua fonte e de sua pureza. E o espírito, dardando na imensidão do espaço, como uma centelha que se desprende de um braseiro infinito, perdeu-se nesse caleidoscópio multiforme e desceu até a materialização. E, nessa descida, nessa involução progressiva, ele veio modalizando-se e vestindo-se pouco a pouco de matérias espargidas ao longo dessa trajetória imensa, para, ao longo de sua queda gigantesca, sentirse animalizado e grotesco, sujeito à Roda Fatal do Destino inexorável das próprias “vestes” que escondiam a vergonha de sua culpa.[…]”

O trecho que você leu pertence ao ensaio INICIAÇÃO, O REMÉDIO DA QUEDA do mestre maçom santamariense Ary Ilha Xavier. Em sua busca espiritual, foi à França, à Paris de Papus e Louis-Claude de Saint-Martin, lá recebendo esse conhecimento pelo qual manteve viva uma linhagem ininterrupta de Simples Irmãos.

Para a Maior Glória do Eterno,

Chrystian Revelles
C.R+

“Vida e Legado de Jacob Boehme” é o primeiro documentário biográfico sobre Jacob Boehme (1575-1624), um dos pensadores europeus mais interessantes e místico influente do esoterismo ocidental. O filme explica os elementos mais importantes dos escritos de Boehme, além de apresentar o amplo impacto que suas ideias causaram em todo o mundo. Não se esquiva de temas importantes como literatura, teologia e história da filosofia.

No início do século XVII, a Europa estava às vésperas da eclosão da maior guerra religiosa de sua história. Conflitos entre representantes de diferentes denominações religiosas limitavam a liberdade de expressão. No entanto, havia um homem cujos escritos mudaram o pensamento filosófico e teológico e exerceram uma grande influência na literatura e arte dos períodos posteriores. Este filme, realizado em 2016, apresenta a vida e o pensamento de Jacob Boehme.

“De longe, a melhor tentativa moderna de visualizar o significado do pensamento místico de Boehme”. - Andrew Weeks, autor de Boehme, uma biografia intelectual do filósofo e místico do século XVII e tradutor de Aurora (1612) e Os Três Princípios da Essência Divina (1619).

“Vida e Legado de Jacob Boehme” está disponível com legenda em português. O filme está disponível online em:

https://vimeo.com/ondemand/boehme

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