Uma Entrevista com David Shoemaker

Um bate-papo com o Prolocutor do TOTSS e sucessor de Soror Meral.

Uma Entrevista com David Shoemaker

8 de março de 2020 e.v.

AW: As pessoas aqui no Brasil não te conhecem muito bem. Elas também não sabem muito sobre Phyllis Seckler (Soror Meral) e o trabalho dela. Você poderia nos contar um pouco sobre você? Quem é você e o que você faz?

DS: Eu sou um psicólogo clínico e entrei em contato com as obras de Aleister Crowley quando eu estava me pós-graduando, estudando muito a obra de Carl Jung. Na época eu percebi que eu ansiava por mistério em minha vida, mais do que estava disponível ou me era evidente na relativamente seca psicologia tradicional que estudávamos na universidade. Sempre me senti atraído a Jung, e ao me aprofundar na obra dele foi quando eu percebi que eu ansiava por um sistema de filosofia e um modo de vida que levava em conta o inefável e o misterioso, mas eu não percebia isso. Até aquela época eu havia sido mais ou menos ateu por muitos anos, e fora isso tinha uma conexão espiritual com a música. Eu também sou um musicista. Eu percebi que estavam disponíveis alguns sistemas de iniciação ativos. Eu estava lendo os livros da Llewellyn sobre paganismo e esbarrei com os livros de Israel Regardie, mais especificamente A Aurora Dourada, O Pilar do Meio e Um Jardim de Romãs. Eles despertaram meu interesse de um modo que eu não esperava. Percebi que eu realmente não estava interessado no caminho da Wicca ou algo do gênero, o que eu realmente queria era um estudo mais abrangente da teoria e da prática mágica, então me senti fortemente atraído pela magia cerimonial na época. Eu li O Pilar do Meio de Regardie e através dele descobri a obra de Crowley e, é claro, os escritos de Regardie sobre a psicologia cabalística me deixaram maravilhado. Na época eu já sabia que este seria o trabalho da minha vida. Então eu me afiliei à O.T.O. e iniciei no caminho da A∴A∴. Logo depois eu me mudei para a Califórnia, onde me conectei a Soror Meral, que dava aulas na casa dela, há cerca de uma hora e meia de distância de onde eu morava em Sacramento. Então nos tornamos muito próximos, ela se tornou minha superiora direta na A∴A∴. Nós montamos um grupo local juntos.

AW: Um grupo do College of Thelema?

DS: Na época era um grupo do Temple of Thelema, então sim, uma parte da organização do College of Thelema. Eu a ajudei dando aulas e reativamos juntos a 418 Lodge da O.T.O. como um corpo iniciático ativo, e começamos a fazer iniciações na área de Sacramento. Então, conforme continuávamos a nos tornar próximos como amigos, e como colegas espirituais, na ocasião da morte dela ela essencialmente revisara seu testamento para deixar para mim e minha organização (que se tornou conhecida como Templo da Estrela de PrataTemple of the Silver Star — TOTSS) sua biblioteca, arquivos e direitos literários. Grande parte de meu trabalho desde então têm sido o de estender e publicar a obra dela através do Templo da Estrela de Prata e da A∴A∴.

AW: Então você foi atraído ao caminho oculto pelo mistério, e não por causa de dinheiro, sexo, etc. (risos)

DS: Bem… não! (risos) Eu acho que havia esse glamour na ideia de ser um mago (risos). Não, foi estritamente o chamado ao caminho. Sabe, apenas a ideia de que havia um caminho para o desenvolvimento interno que eu poderia seguir, que tinha alguns rituais e práticas legais ao longo do percurso. Assim que eu comecei a ler Crowley, ficou claro que estas não eram as armadilhas da religião convencional que eu tanto evitava. Havia este caminho de espiritualidade e mistério que permitiria que eu pensasse racionalmente e aplicasse o método científico à minha própria vida interior. E é claro, isso me atrai como um psicólogo, ter essa abordagem de ciência subjetiva. A teurgia cética ou iluminismo científico. E isso foi um forte atrativo para mim, ser capaz de ter paixão, e poder, e mistério, mas como eu disse no meu livro Vivendo Thelema, não precisar deixar o meu cérebro na entrada.

AW: Como era a Phyllis Seckler?

DS: Ela era maravilhosa. Ela era muito acolhedora e de fato quando você chegava na casa dela, o que ela mais gostava de fazer era preparar uma torrada para você (risos). Ela preparava torrada com manteiga e vinho branco, e geralmente isso era servido no pátio dos fundos enquanto nos sentávamos ao ar livre, no jardim dela, e conversávamos sobre todo tipo de coisas, se o tempo estivesse bom. Ela amava cuidar do jardim dela, e ela tinha uma bela casa no alto das colinas. E foi lá que eu a encontrei pela primeira vez em 1994, acho que eu só tinha um ano ou algo assim de estudo mágico. Era surpreendente estar sentado na casa dela, é como ser católico e tomar vinho com o papa no quintal dele (risos). No mínimo foi uma experiência que mudou a minha vida. Acho que ela gostou de mim desde o começo. Ela consultou o meu mapa astrológico e me disse que eu estaria no topo e, é claro, eu não sabia o que ela queria dizer com isso ou o que isso significava para mim, mas foi uma daquelas ocasiões em que a validação de alguém que você respeita muito te empodera e te ajuda a se sentir como “okay, acho que estou no caminho certo e fazendo algo que eu posso ser bom”. E com uns vinte e poucos anos de idade, uma pessoa que nem havia iniciado sua carreira profissional, ainda estando na universidade, e novo na magia, isso foi realmente validador e empoderador.

AW: Soror Meral teve um grande papel no restabelecimento da O.T.O. após o último grupo ativo ter fechado suas portas sob a administração de Karl Germer. Além disso, ela também foi uma das pessoas responsáveis por carregar a tocha da A∴A∴ após a morte de Germer. Você poderia nos contar mais sobre isso?

DW: Soror Meral já estava em contato com Grady McMurtry por algum tempo, mas no final dos anos 60 ela o convidou para se mudar de Washington, DC para a Califórnia, onde ela morava, para começar a trabalhar na reestruturação da O.T.O. Ela pagou pela mudança dele e eventualmente eles se casaram. Então Soror Meral, Grady e Mildred Burlingame (outro membro sobrevivente da Loja Ágape da O.T.O. do sul da Califórnia) realizaram o primeiro conjunto de iniciações desde o encerramento da Loja Ágape nos anos 50. Isso marcou o início das atividades da O.T.O. moderna. Soror Meral, McMurtry e outros trabalharam ao longo dos anos 70 para incorporar e organizar a O.T.O. no que ela é hoje. Eles eventualmente romperam um com o outro e se divorciaram, mas continuaram a trabalhar juntos na O.T.O., até a morte de McMurtry em 1985.

Soror Meral era o membro da A∴A∴ de mais alto grau no momento da morte Karl Germer em 1962, tendo sido confirmada por ele como uma Adeptus Minor 5=6. Ao longo dos anos 60, ela se manteve ocupada criando seus filhos e continuando de sua carreira de professora de artes do ensino médio, mas ela nunca parou de fazer o trabalho da A∴A∴. Eventualmente ela começou a aceitar Probacionistas, incluindo Grady McMurtry (embora depois ela o tenha expulsado como um Probacionista que falhou), Lon Milo DuQuette, eu mesmo, e muitos outros. Ela estava operando como uma Praemonstrator da A∴A∴ de facto, levando o sistema adiante para a era moderna. A Tríade administrativa da A∴A∴ foi formalmente reestabelecida nos anos 80, e continua até os dias de hoje segundo as instruções diretas de Soror Meral para mim, através do portal da A∴A∴ em onestarinsight.org

Provavelmente também é importante notar que há todo tipo de acusações selvagens e imprecisas sobre Soror Meral e a família dela ter roubado os arquivos da casa de Sascha Germer após a morte de Karl Germer. Estes rumores são absolutamente falsos. Soror Meral deixou todos os arquivos e biblioteca dela para mim através da organização do Templo da Estrela de Prata, e eu posso garantir que não há nenhum material roubado dos Germers ali!

AW: Nos anos 70, acho que mais precisamente em 1971, Phyllis Seckler, Grady McMurtry e Israel Regardie estavam em contato, trocando cartas e se visitando. Eu digo isso porque já vi uma foto deles juntos. Há uma carta onde Seckler diz que, embora ela estivesse em comunicação com o Anjo dela, ela ainda gostaria de ter alguém de carne e osso para consultar, e ela pede que Regardie seja esta pessoa. Você sabe algo sobre o trabalho de Israel Regardie na A∴A∴? Eu pergunto isso porque muitos dos leitores da revista vêm de um grupo reivindicante da A∴A∴ que partiu de Regardie.

DS: Eu não tenho nenhuma evidência de que Regardie tenha trabalhado o sistema da A∴A∴ formalmente. Certamente tenho muito respeito pelo trabalho dele no geral, e eu não julgaria ninguém que estivesse tentando seguir sua liderança. Phyllis era uma pessoa humilde, e de muitas formas humilde sobre suas próprias consecuções, e ela sempre estava procurando por pessoas com as quais pudesse aprender. E eu digo isso num sentido mais abrangente, de que eu acho que qualquer pessoa sábia ao longo da vida prestará atenção nas pessoas de quem pode aprender. Quando se está em contato com alguém como Regardie, ele tem especialidades que você não tem, e vice-versa. Então ao pedir que ele a ajudasse eu não acho que deveríamos confundir isso com ser o superior dela na A∴A∴. E eu posso afirmar, baseado em todas as conversas que tive com ela ao longo dos anos, que esse não foi o caso.

AW: Quantos anos você tinha na época em que conheceu Seckler?

DS: Quando eu a encontrei pela primeira vez eu tinha uns vinte e cinco ou vinte e seis anos. Eu sei que muitas pessoas encontram Thelema e a magia muito antes em suas vidas, mas para mim o caminho simplesmente tomou uma forma diferente com Jung e a música. Eu também me envolvi com o trabalho de Guitar Craft de Robert Fripp e fui em um seminário dele quando adolescente. Ele estava ensinando a partir do Quarto Caminho de Gurdjieff, via J. G. Bennett, e seus seminários de Guitar Craft foram construídos sobre estes conceitos. Então eu havia encontrado a meditação e explorações filosóficas como estas, e estava estudando Jung, mas como eu disse antes, eu não encontrei o ocultismo ou a magia ou Thelema até que eu estava quase na metade da minha pós-graduação.

AW: Você foi direto para a A∴A∴, O.T.O., etc., ou primeiro você passou por outras ordens como a AMORC, BOTA, ou algo assim?

DS: Eu escrevi para vários grupos porque naqueles dias, antes da Internet, você geralmente só encontrava grupos através de panfletos nas livrarias ou achando o endereço de um grupo na contracapa de uma revista ou de um livro. Então eu escrevi para os grupos que me despertavam o interesse, como a AMORC e a BOTA, mas o que atraiu a minha atenção no sentido de realmente me afiliar no final de 1993 foi a O.T.O. e a A∴A∴, inclusive o trabalho preparatório do Temple of Thelema. Então mais tarde eu me juntei à AMORC por um tempo, mas eu nunca me afiliei à BOTA. Eu me envolveria um pouco com outras tradições só para meio que ter uma noção do que elas eram, como eu me sentiria ali, mas o fato é que eu tinha uma prática muito bem estabelecida na Magia Thelêmica na época, então a maioria dessas outras coisas na verdade só eram distrações. Você sabe, receber a nova monografia da AMORC e ser instruído a fazer um certo ritual de um certo jeito com um certo tipo de altar. Isso simplesmente era uma distração e eu não precisava realmente disso. Eu já tinha uma vida inteira de materiais de estudo nas tradições da A∴A∴ e da O.T.O.

AW: Muitas pessoas na A∴A∴ acham que precisam de algum tipo de trabalho complementar em grupo para manter suas mentes sadias, para não virarem mulheres ou homens das cavernas (risos). Você entrou na O.T.O. e no Temple of Thelema. O que te atraiu para o trabalho em grupo?

DS: Eu acho que fui atraído pela ideia de ter uma comunidade de aspirantes. Isso é o que eu estava tentando fazer desde o início. Encontrar sistemas de iniciação. De qualquer modo, eu não estava inclinado a pensar nisso como um caminho solitário. Eu sei que há rituais solitários e práticas pessoais diárias e coisas do gênero, mas depois que eu fui iniciado em todos estes grupos diferentes eu comecei a apreciar que certos aspectos do caminho iniciático prosperavam em comunidade, como rituais em grupo, e havia outros aspectos que eu também gostava. Sabe, é uma escolha muito pessoal. Algumas pessoas não têm nenhum interesse em grupos, e a A∴A∴ é uma estrutura perfeita para eles, já que é sempre só você e um professor (com exceção dos dois rituais de iniciação no início). Mas para os outros, você tem um monte de trabalho em grupo no Templo da Estrela de Prata, que foi fundado em 2008 por uma autorização de Soror Meral. Nós somos uma ordem thelêmica baseada no padrão da Golden Dawn, e o trabalho em grupo é uma parte importante do que significa estar na Ordem. Aqueles que moram perto dos grupos podem se encontrar regularmente para os rituais.

AW: Você disse que o trabalho é em grande parte presencial, mas se um brasileiro quiser se afiliar ao TOTSS, como essa pessoa faria, já que não há um Templo no Brasil, mas somente Grupos de Estudos?

DS: Certo. No momento, nossas iniciações para o Templo da Estrela de Prata ocorrem na Califórnia e no Reino Unido, mas nos próximos meses e anos, conforme continuamos a crescer — e nós crescemos muito nos últimos doze anos — haverá mais oportunidades para iniciações acontecendo em vários lugares ao redor do mundo, onde houver grupos de pessoas interessadas. Então no Brasil, por exemplo, é claro que você está realizando seus eventos públicos de tempos em tempos, mas se tivermos um conjunto de pessoas morando relativamente perto umas das outras em uma localidade no Brasil, e todas quiserem entrar, então seria possível trazer um time de iniciadores para fazê-lo. O processo começa quando as pessoas visitam o website do Templo da Estrela de Prata (totss.org) e preenchem a ficha de afiliação para a Trilha Iniciática. Quando houver gente o suficiente querendo iniciação no Brasil, então torna-se factível trazer um time para fazê-la.

AW: Você mencionou uma “Trilha Iniciática”, então existem outras “trilhas”?

DS: Sim, a Trilha Acadêmica do TOTSS está disponível para qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo, agora mesmo, porque em grande parte as instruções são via teleconferência. Esta não é uma experiência iniciática, então só para deixar claro, nós não estamos realizando iniciações online nem nada tolo do tipo. Ao invés disso, usamos teleconferências para que instrutores façam reuniões com seus estudantes individuais ou apresentem seminários online para os estudantes ao redor do mundo. Alguns destes estão acontecendo agora mesmo para o público. Para os estudantes que estiverem interessados no trabalho do TOTSS, mas não puderem viajar até lá, ou para aqueles que simplesmente preferem trabalhar de uma maneira solitária, a Trilha Acadêmica fornece bastante treinamento fundamental que pode ajudar a pessoa mais tarde, como por exemplo para aproveitar o máximo do trabalho daquela pessoa na A∴A∴.

AW: Você disse que a Trilha Iniciática se baseia na estrutura da Golden Dawn, mas quão diferente é o TOTSS da GD?

DS: Okay, ótima pergunta. Sim, nossa estrutura iniciática é um sistema de graus baseado na Árvore da Vida e nos manuscritos cifrados da Golden Dawn, mas tudo foi atualizado para estar em conformidade com a Lei de Thelema. Os conjuntos de símbolos foram atualizados. As divindades e outras entidades foram todas atualizadas para estarem de acordo com a visão de mundo e cosmologia thelêmicas. E nós também trabalhamos muito duro para remover quaisquer traços remanescentes de sexismo ou conceitos do modo judaico-cristão de ver as coisas que estavam embutidos no sistema da antiga Golden Dawn, então nós abolimos essas coisas. Para quem quiser saber de mais detalhes sobre isso, eu gravei um episódio sobre isso no meu podcast Living Thelema, com o título de “The Golden Dawn Tradition in Modern Thelema”.

AW: Então alguém que já trabalhou em uma ordem baseada na Golden Dawn pode esperar encontrar um monte de coisas novas no TOTSS?

DS: Sim, você não pode pegar o livro A Aurora Dourada ou os rituais de qualquer outra ordem baseada na Golden Dawn e esperar ver a mesma coisa no TOTSS. Nós fizemos muitas, muitas revisões. Devo acrescentar também que, embora a ordem tenha sido fundada em 2008, nós somos uma continuação de uma tradição ininterrupta de iniciação que remete até a Golden Dawn original. Nós somos a continuação de uma tradição que começou na Golden Dawn e passou por um número de grupos sucessores até os dias de hoje, mas a cada etapa, quando a próxima geração começava, era iniciada por um membro sênior da organização anterior, então em nenhum momento ela estava morta. De maneira consistente, por mais de um século, um membro de alto grau da Segunda Ordem de uma organização começaria a próxima organização. Então há um elo ininterrupto de tradição viva de trabalho em templo e transmissão oral, e muito do que fazemos no Templo da Estrela de Prata nunca foi publicado. E provavelmente nunca será.

AW: O sistema da A∴A∴ produz Adeptos, pessoas que alcançaram o Conhecimento e Conversação do Santo Anjo Guardião. E quanto ao TOTSS, ele prepara as pessoas para alcançarem o Anjo?

DS: Sim, o sistema do TOTSS poderia ser trabalhado de maneira independente para conduzir uma pessoa desde os estágios iniciais de seu treinamento até o Conhecimento e Conversação do SAG. Este é o objetivo do sistema inteiro. Uma pessoa poderia fazer isso pelo TOTSS sem nunca se afiliar à A∴A∴. Do mesmo modo, uma pessoa poderia fazer isso na A∴A∴ sem nunca ter se afiliado ao TOTSS. Estes sistemas são independentes — relacionados, mas independentes. A afiliação em um não requer e nem implica na afiliação no outro. Gosto de esclarecer isso sempre que possível. Por exemplo, a Segunda Ordem do TOTSS não significa apenas que você entrou na A∴A∴. Então sim, o sistema do TOTSS leva os aspirantes, em sua conclusão, ao Conhecimento e Conversação. Este é o objetivo.

AW: O sistema da Golden Dawn original era mais focado em magia cerimonial. E quanto ao TOTSS, há algo das tradições orientais, como o Yoga, Budismo, etc.?

DS: Assim como ocorreu na A∴A∴, as mudanças que fizemos no TOTSS incorporam muito mais do trabalho oriental que não existia no sistema da Golden Dawn. Também há muito mais de psicologia profunda. O progresso através da Primeira Ordem do TOTSS não consiste meramente das ferramentas mágicas tradicionais, mas também emprega muitas ferramentas psicológicas que promovem o equilíbrio e a saúde psicológicas. E a sanidade (risos), que é muito útil. Na Segunda Ordem, quando um conjunto mais completo de ferramentas mágicas é ensinado, o iniciado está uma posição melhor para usar tais ferramentas, tendo passado pelo trabalho equilibrador da Primeira Ordem, tanto psicologicamente quanto energeticamente, em termos de iniciações e trabalho diário. Este é um dos motivos pelos quais eu acho que é útil aprender estas ferramentas no contexto de um sistema de treinamento, porque se você encontra uma escola como o TOTSS onde estas coisas são entregues de maneira competente, e administradas por pessoas que são diligentes e cuidadosas, então eu acho que você tem um sistema que pode produzir Adeptos mais eficazes, porque eles têm isso, eles aprenderam de uma maneira sistemática e receberam ferramentas no momento exato quando a experiência demonstra que provavelmente elas serão mais benéficas para eles. Quando as coisas não são feitas de um modo sistemático ou são feitas atropeladamente, simplesmente não é tão eficaz. A A∴A∴ endereça isso em grande parte, mas há várias pontas soltas na A∴A∴, mesmo que haja certas ênfases em cada grau. Isso tudo é posto em etapas que fazem sentido, mas ainda não é tão detalhado e estruturado como em uma organização como o TOTSS.

AW: Falando um pouco sobre a A∴A∴ nos tempos antigos: eu estava revisando a lista de membros dos primeiro quatro ou cinco anos da Ordem, e a maioria das pessoas nunca avançou além do Grau de Probacionista. Havia um alto índice de fracassos na A∴A∴, muitas pessoas se desligavam ou simplesmente desapareciam. Como estão as coisas hoje, se você fosse chutar um percentual de pessoas que têm sucesso na A∴A∴ (por sucesso eu quero dizer avançar de Probacionista a Neófito), que número você me daria?

DS: É, esta é uma boa métrica para entender sucesso básico na A∴A∴, porque a Probação é apenas isso. É uma chance de as pessoas provarem a si mesmas, provarem ao universo, ao Superior delas, ou a seja lá o que for, que elas conseguem fazer o trabalho básico, se ater a ele e manter um diário e mostrar alguma habilidade em autoanálise no processo. Eu diria que atualmente 50% das pessoas chegam a Neófito.

AW: Este é um bom número. Crowley nos dava 8%.

DS: Sim (risos). Eu acho que um dos principais motivos é que hoje em dia as pessoas estão chegando na A∴A∴ com um pouco mais de experiência, não importa se tiveram treinamento prévio ou não. Simplesmente há muito mais coisas para ler lá fora, e as pessoas geralmente estão mais aprofundadas em magia e prática pessoal antes de aparecer na A∴A∴. Mas nós também tivemos várias pessoas que chegaram na A∴A∴ que tiveram um treinamento preliminar no Templo da Estrela de Prata, e o fato de que as pessoas no Templo já mantém um registro e trabalho mágico diários, faz com que quando elas comecem na A∴A∴ isso não seja uma coisa nova que precisam fazer. É algo que eles já estavam fazendo, no sentido do ritmo de prática diária e vigilância de uma prática mágica. Eu acho que isso também leva ao sucesso.

AW: Isso faz sentido. Certo, a A∴A∴ foi fundada há cerca de cem anos. Crowley mudou de ideia algumas vezes, por exemplo, ele introduziu o período de Estudante dos Mistérios, ele mudou o design dos robes, e mudou algumas outras coisinhas, mas desde que a A∴A∴ foi fundada, vocês mudaram alguma coisa em sua abordagem ao trabalho da A∴A∴?

DS: Não. Nossa administração da A∴A∴ continua a utilizar Liber Collegii Sancti e Uma Estrela à Vista como documentos fundamentais e todos os ensinamentos e treinamento são feitos de acordo com estes documentos. O que fizemos foi elaborar em cima destes documentos básicos, então por exemplo, o documento do Juramento te diz quais práticas você deveria fazer naquele Grau, mas para implementá-lo é útil ter uma lista mais detalhada das coisas que você precisa fazer, mas tudo veio do currículo central conforme delineado por Crowley e Jones, então a inovação vem mais no sentido de concretizar a implementação dele. Se isso faz sentido.

AW: Se uma pessoa está começando a estudar Thelema, e ela basicamente esteve por conta própria e agora quer se juntar a uma organização estruturada, como ela escolheria entre a A∴A∴, TOTSS, O.T.O., etc.? Por exemplo, eu imagino que alguém que não gosta de grupos procuraria a A∴A∴. Você tem sugestões para tal iniciante?

DS: Claro. Então, se a pessoa não quisesse trabalho em grupo, a A∴A∴ ou a Trilha Acadêmica do Templo da Estrela de Prata seriam coisas boas para se considerar. Se alguém ainda é novo na Obra então a Trilha Acadêmica forneceria as bases do trabalho. Essa seria uma forma mais fácil de começar do que simplesmente ir direto para a A∴A∴. Se a pessoa estiver aberta para a experiência de rituais em grupo, eu a encorajaria a verificar se há eventos públicos do Templo da Estrela de Prata ou da O.T.O. que ela possa visitar, talvez assistir a uma Missa Gnóstica, ou no caso do TOTSS, nós temos aulas públicas em vários lugares. Nos próximos anos vocês verão mais apresentações públicas de nosso ritual público central, que é chamada de Missa dos Quatro Portões. Ela não é uma variação da Missa Gnóstica, é uma missa completamente diferente, mas que começará a ocorrer com maior frequência. Enfim, vá para estes eventos como um membro do público e tente sentir como é a organização, sentir como é o estilo ritualístico. Você pode avaliar as pessoas envolvidas e sentir se elas são uma boa combinação ou não para você. Na O.T.O., por exemplo, isso varia de grupo local para grupo local. Obviamente como em qualquer grupo social você terá um conjunto diferente de personalidades e um sentimento diferente em cada grupo, então tente andar por aí e veja o que mais combina contigo. Fique longe de qualquer coisa que você sinta que seja pouco saudável para você. É claro, muitos de nós ficamos nervosos quando visitamos novos grupos de pessoas que nós não conhecemos, mas se você sair de uma experiência inicial sentindo como se o ambiente não fosse sadio ou fosse negativo, é improvável que aquele grupo seja uma boa opção para você.

AW: Quais foram os livros que o TOTSS lançou?

DS: Bem, nós começamos em 2008 com a publicação dos diários de Jane Wolfe do tempo de Cefalù. São diários manuscritos e datilografados por Jane, com comentários de Crowley nas margens, publicados na forma de fac-símile. Eles são muito instrutivos e interessantes. Então começamos a publicar as coletâneas de escritos de Phyllis Seckler, em dois volumes. O primeiro volume é uma coleção dos escritos dela sobre o Tarô de Thoth e a Astrologia, e cartas selecionadas de seus primeiros anos, como a correspondência com Jane Wolfe e Karl Germer. Este livro está disponível na Amazon. O segundo volume só está disponível em capa dura, produzido pela Titan Press, e é uma coletânea da maioria dos ensaios que ela escreveu nas introduções da revista dela, a In The Continuum. Também possui outra seção de cartas selecionadas, mas agora de seus anos mais recentes, quando ela estava no papel de professora, instruindo os outros. Este livro está disponível à venda na Weiser Antiquarian. Após isso, nós lançamos a coletânea de cartas de Karl Germer, essencialmente abrangendo os anos de sua vida ativa na magia, com cartas entre ele, Seckler, Wolfe e outras personalidades. Dá muitos insights sobre sua gestão da O.T.O. e da A∴A∴ após a morte de Crowley, mostrando seus pontos fortes no sentido de seu trabalho com os indivíduos e do que ele escrevia para eles. Nós também fizemos uma coletânea da poesia de Soror Meral, e provavelmente nosso próximo projeto envolverá mais diários e escritos ritualísticos de Jane Wolfe, do período dela em Los Angeles. Provavelmente sairá em mais do que um volume.

AW: E quanto aos seus próprios livros independentes?

DS: Bem, Vivendo Thelema saiu em 2013 baseado em muitos episódios do podcast que eu gravei. O podcast Living Thelema ainda é um projeto ativo, eu só não gravo tão frequentemente quanto costumava, mas todos os episódios estão arquivados em livingthelema.com. Eu lançarei uma nova coleção de Vivendo Thelema provavelmente chamada de volume dois, baseada nas coisas que eu não incluí no primeiro livro. Mas em termos de coisas que eu já publiquei, eu também lancei Winds of Wisdom em 2016, que é uma coleção de minhas visões nos 30 Æthyrs e algumas instruções práticas sobre o trabalho de skrying com os Æthyrs. E o meu projeto mais recente foi em parceria com Lon Milo DuQuette, onde coeditamos o Complete Book of Ceremonial Magick da Llewellyn, que está disponível agora e é uma visão geral abrangente de muitas tradições diferentes dentro do corpo de trabalho cerimonial do ocidente, incluindo Thelema, Golden Dawn, Abramelin, Demonologia, Alquimia, e assim por diante.

AW: Okay, agora a pergunta mais difícil de todas (risos). Algumas pessoas dizem que existe uma coisa chamada de “gaydar”, um radar hipotético que uma pessoa gay pode usar para detectar se outra também é gay. Existe alguma coisa semelhante a um “Adepto-dar”? (risos)

DS: Quer saber? Eu diria que sim, mas é mais como um continuum. O nível de precisão do “Adepto-dar” (risos) não é tão grande que você possa necessariamente dizer a partir de uma interação casual com alguém que “ah você é daquele grau” ou algo desse tipo. Mas há uma qualidade de consciência e presença em alguém que tem o Conhecimento e Conversação, e em quem fez o trabalho dos graus além deste. Eu diria que certamente há uma qualidade naqueles que parecem ter alcançado o 8=3, que se torna evidente se você passar tempo com a pessoa, e o tipo de ambiente que possibilita isso não é o de uma festa com bebidas e lotada de gente, mas quando você tem interações mais substanciais com a pessoa que teve a consecução, há uma qualidade na presença, discurso e modo de se expressar. Sua personalidade também é reveladora neste sentido, então eu diria que minha resposta básica é sim.


Traduzido por Alan Michel Willms Quinot em março de 2020.