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Memória

A memória é do próprio material da Consciência. Considere que nunca conseguimos saber o que está acontecendo, mas sim apenas o que acabou de acontecer, mesmo quando estamos o mais ativamente concentrados no que chamamos de “presente”.

Além disso, nenhuma impressão menor do que Samma Samādhi pode fingir conferir qualquer ideia coerente do Self. Aquela só existe em uma ordem de Consciência muito mais profunda que a percepção direta, em um tipo de pensamento que é capaz de combinar a quintessência de inúmeras impressões em uma só, como também de transformar essa tabula rasa[1] em um Ego compreensível positivo. Quer este processo seja alucinatório ou não, certamente é a memória que, mais do que qualquer outra função da mente, determina suas possibilidades.

Agora, qualquer que seja a visão que possamos tomar da natureza do Self, está claro que nosso limite de erros diminuirá constantemente à medida em que o alcance de nossas observações for estendido. Calcular a órbita de Netuno a partir de um período de dias em que ele está retrógrado poderia levar a falácias formidáveis. Quando a memória está seriamente enfraquecida, o estado resultante se aproxima da demência. Então, figurativamente, a memória é a argamassa da arquitetura da mente.

Parece impossível até mesmo começar a discutir sua natureza como ela é em si mesma; pois ela não é uma Coisa de modo algum, mas apenas uma relação entre impressões. Devemos nos contentar em observar suas virtudes.

Antes de mais nada, há aquilo que já foi observado, a sua extensão no tempo. Em segundo lugar há a faculdade de seleção.

Seria tão indesejável quanto impossível que a memória retivesse todas as impressões indiscriminadamente. Tais memórias só são encontradas em asilos para lunáticos. A memória, seja ela qual for, depende do metabolismo cerebral; e prospera em uma harmonia adequada de exercício, repouso e cuidado, assim como a força muscular.

A memória como tal é praticamente inútil; é como uma biblioteca abandonada. Seus dados devem ser coordenados pelo julgamento, e usados ​​com habilidade; ela se assemelha a um grande Órgão que requer um organista.

Ao classificar impressões simples, obtém-se ideias de ordem superior; a repetição desse processo fornece uma estrutura à mente, o que a torna em um valioso instrumento de pensamento. E estes meios permitem que se retenha, e traga à vontade de seu silencioso local de repouso, mil vezes o número de fatos que sobrecarregariam a memória inexperiente. É preciso modelar a mente sobre o arranjo das extremidades das fibras nervosas e do cérebro.

À vontade! Eis aqui a grande chave para a seleção adequada, que se deve lembrar resolutamente todos os fatos que possam ser úteis, e igualmente resolutamente esquecer todos os que são impertinentes, para o Verdadeiro Caminho de sua Estrela no Espaço. Pois somente assim pode-se economizar a faculdade mnemônica; e isto é para dizer: nenhum homem pode começar a treinar sua memória devidamente até que esteja ciente de sua Verdadeira Vontade.

Existe então — como em todos os assuntos relativos ao intelecto — um círculo vicioso; pois uma pessoa só pode se tornar consciente de sua verdadeira Vontade por um julgamento (da intensidade do Samādhi) sobre todos os fatos que é capaz de assimilar. A resolução da antinomia é encontrada ambulandō[2]: isto é, pelo treinamento seletivo indicado acima.

Surge uma complicação adicional de toda essa questão durante a prática do Yoga, quando os invólucros da mente são retirados sucessivamente, a pessoa começa a lembrar não apenas de fatos há muito esquecidos, mas também de assuntos que não se referem ao Ego encarnado de forma alguma. A memória se estende no tempo até a infância, até a morte anterior, e ainda mais longe para uma série ilimitada de experiências cujo escopo depende do grau de progresso da pessoa. Mas, paralelamente a essa intensificação da ideia do Ego, de sua expansão através dos Êons, surge (em consequência do enfraquecimento do Ahaṃkāra, a faculdade que produz Ego) uma tendência a lembrar de algo que não aconteceu a “si”, mas a “outras pessoas” ou seres.

Aqui está um dos obstáculos mais irritantes no Caminho dos Sábios; pois o desenvolvimento normal da memória no Tempo leva a uma melhor compreensão da Verdadeira Vontade do indivíduo (como ele concebe a si mesmo) de forma que ele percebe um universo teologicamente mais racional conforme progride. Ser compelido a assimilar as experiências dos supostos “seres alheios” é ficar confuso: a velha divisão de Choronzon (Restrição a ele em nome de Babalon!) mais uma vez abre brechas para o Adepto, que possivelmente já se supunha (em certo sentido) uma pessoa Livre da Cidade das Pirâmides.

Mas é justamente essa experiência — na falta de qualquer outra — que eventualmente insiste em seu cometimento de cruzar o Abismo: pois a alternativa à pura insanidade é vista como a descoberta de uma Fórmula Geral abrangente da Experiência Universal sem referência ao Ego (real ou suposto) em qualquer sentido.

Este paradoxo, como todos os outros, deve ser uma lição de supremo valor: isto é, que toda dificuldade é para nossa vantagem, que toda questão é colocada apenas para nos levar a uma resposta envolvendo um triunfo infinitamente mais glorioso do que poderíamos ter concebido.

E a meditação sobre todo esse assunto provavelmente pode nos levar a esta visão adicional de Maravilha: que a natureza das coisas em si é, na realidade, apenas uma função da Memória.


[1] «Latim para “tábua em branco”, uma metáfora utilizada por Aristóteles para explicar que os indivíduos nascem desprovidos de qualquer conteúdo mental inerente, e que todo conhecimento vem da experiência e da percepção.»

[2] «Latim para “caminhando” ou “viajando”.»


Traduzido por Alan M. W. Quinot em novembro de 2019.