Livro II - Características

Um capítulo de: Milinda Panha - As Perguntas do Rei Milinda

Aspectos técnicos do dogma budista, ilustrados por diálogos.

Livro II - Características

Capítulo 1
A Inexistência do Indivíduo

O rei Milinda aproximou-se de Nagasena, cumprimentou-o e sentou-se ao seu lado. Nagasena retribuiu-lhe os cumprimentos, estabelecendo-se assim entre ambos disposições amistosas.

Perguntou-lhe o rei:

― Qual o seu nome, Venerável?

― Chamam-me Nagasena. Mas, ó rei, os pais dão aos filhos um nome: Nagasena, Surasena, Virasena, Sihasena. No entanto, esses nomes nada mais são do que apelativos, expressões comuns sob as quais não existe indivíduo. [1]

― Ouçam todos! Os meus quinhentos escudeiros e os oitenta mil monges! Diz Nagasena que o nome não exprime a existência do indivíduo. Mas, ó venerável, se não há indivíduo, quem lhe dá roupas, alimentos, moradia, remédio? Quem se serve dessas coisas? Quem pratica a virtude? Quem medita? Quem realiza o Caminho, o Fruto, o Nirvana? Quem pratica o assassínio, o roubo, a impureza, a mentira, a embriaguez? Quem comete os cinco pecados? Se for assim, não há bem, nem mal, nem autor, nem idealizador, nem praticante de atos benéficos ou perniciosos. Não há fruto, amadurecimento de ações boas ou más. Se não existe o teu assassino, nesse caso não haverá homicídio. Não há professores, nem preceptores, nem formatura. Quando dizes: “meus confrades me chamam Nagasena”, quem é esse Nagasena a quem te referes? Os cabelos são Nagasena?

― Não, maharajá!

― São os pelos, as unhas, os dentes, a pele, a carne, os tendões? Nagasena são os ossos, a medula, os rins, o coração, o ligado, a epiderme, o baço, os pulmões, os intestinos, o mesentério, os alimentos não digeridos, os resíduos da digestão, a bile, a fleugma, o pus, o sangue, o suor, a gordura, as lágrimas, o óleo da pele, a saliva, o muco nasal, a urina, o cérebro?

― Não, maharajá! 

― Ou então há de ser a forma, a sensação, a percepção, a consciência?

― Não, maharajá!

― Então será a reunião dos cinco elementos: forma, sensação, percepção, junção, consciência?

― Não, maharajá!

― É algo distinto dos cinco elementos?

― Não, maharajá!

― Inútil interrogar. Não estou vendo Nagasena. Que é Nagasena? Um vocábulo, nada mais. Tua palavra é falsa e mentirosa! Não existe Nagasena.

― Rei, és delicado como um príncipe. És muito delicado. Se, ao meio dia, fores pisar a terra quente, quando a areia queimar a sola dos pés, e estes se ferirem nos gravetos e pedrinhas do chão, teu corpo cansado, tua alma exausta, tu te sentirás indisposto. Vieste a pé ou de carro?

― Não viajo a pé, venerável. Vim no meu carro.

― Se vieste em teu carro, Maharajá, dá-me a sua definição. O timão é o carro?

― Não, venerável.

― Serão o eixo, as rodas, a caixa, os suportes da cobertura, o jugo, as rédeas, o aguilhão?

― Não, venerável.

― Será o conjunto de todas essas coisas?

― Não, venerável.

― Seria alguma coisa diferente de tudo isso?

― Não, venerável.

― Inútil perguntar ao rei. Não vejo carro. Que é um carro? Um vocábulo, nada mais. Tua palavra, Maharajá, é falsa, mentirosa. Não existe carro. Tu és o primeiro entre os reis do Jambudipa. De quem tens medo para mentires assim? Ouçam todos os quinhentos secretários do monarca e os oitenta mil monges: o rei Milinda afirmou ter vindo de carro até aqui. Convidado a definir o carro, não pôde provar a existência do veículo. Pode-se admitir isso?

Os quinhentos secretários aplaudiram Nagasena e disseram ao rei Milinda:

― Maharajá, responde agora, se puderes.

O rei replicou:

― Não estou mentindo, venerável. É pelo timão que se inicia a designação, a noção comum, a expressão habitual, o nome “carro”.

― Muito bem, Maharajá! Sabes agora o que é o carro. Assim também é pelos cabelos e pelas outras partes do corpo humano que se inicia o apelativo, a noção comum, a expressão corrente, o nome Nagasena. Mas, na realidade, não há indivíduo. A religiosa Vajira disse na presença do Buda:

“Assim como a combinação das peças dá lugar à palavra carro, assim também a existência dos skandas dá lugar ao convencional ser vivo”. [2]

― Maravilhoso, Nagasena! Respondeu a todos os pontos da minha pergunta. Se o Buda estivesse aqui, ele te aplaudiria. Muito bem, muito bem, Nagasena!

Capítulo 2
O Número

― Quantos anos tens de vida religiosa, Nagasena?

― Sete.

― Que é sete? Tu és sete ou o número é sete?

Nesse momento, estendia-se pelo chão e sobre uma jarra de água a sombra do rei com os seus ornamentos. Perguntou-lhe então Nagasena:

― Eis a tua sombra, Maharajá, sobre o chão e sobre a jarra de água. Quem é o rei? Tu ou a tua sombra?

― O rei sou eu e não a minha sombra, que se projeta por minha causa.

― Assim também, Maharajá, sete é o número dos anos, não eu de quem se origina o sete, assim como a sombra vem de ti.

― Maravilhoso, Nagasena! Admirável, Nagasena!

Capítulo 3
Diversas Maneiras de Discussão

― Queres discutir comigo, Venerável?

― Sim, se discutires À maneira dos sábios. Não, se discutires como os reis.

― Como discutem os sábios?

― Quando em uma discussão nós somos enlaçados, nós nos soltamos do laço. Nós aplicamos uma critica e recebemos outra. Ora estamos perdendo, ora estamos ganhando. Os sábios não se irritam. É assim que eles discutem.

― E como discutem os reis?

― Os reis expressam uma opinião. Se alguém contesta, eles mandam aplicar-lhe algumas pauladas. É assim que os reis discutem.

― Então vou discutir como os sábios e não como os reis. Sua Reverência pode discutir comigo livremente, como faria com um outro religioso, um noviço, um fiel , ou serviçal do convento. Não tenha nenhum receio.

― Está bem, maharajá.

Capítulo 4
Escaramuça

― Venerável Nagasena, eu te interrogarei.

― Interroga, Maharajá.

― Já te interroguei.

― E eu já te respondi.

― Que me respondeste?

― Que me interrogaste?

Capítulo 5
Preparativos da Entrevista

O rei Milinda pensou consigo: “Este religioso é sábio e capaz de discutir comigo. Vou interrogá-lo sobre muitas questões e o sol se deitará antes de terminar. Seria melhor discutirmos em palácio.”

Recomendou a Devamantyia: “Avise a Sua Reverência que a discussão se realizará em meu palácio.”

O rei Milinda levantou-se, despediu-se e montando o cavalo afastou-se, repetindo o nome de Nagasena, como se esse nome fosse unia lição para ser decorada.

No dia seguinte pela manhã, Devamantyia, Anantakaya, Mankura, Sabbadina, apresentaram-se ao rei e perguntaram-lhe:

― Majestade, o venerável Nagasena pode vir?

― Sim, pode.

― Em companhia de quantos religiosos?

― Quantos quiser.

Observou Sabbadina:

― Ele pode trazer dez.

Repetiu o rei:

― Venha com quantos quiser.

Sabbadina repetiu a informação e o rei disse:

― Tudo já foi arranjado. Ele venha com quantos quiser. Eu já o disse, mas Sabbadina parece não estar de acordo. Não podemos oferecer comida a monges?

Sabbadina ficou calado.

Então, Devamantyia, Anantakaya e Mankura foram falar com Nagasena e disseram-lhe:

― O rei convida-o a ir ao palácio em companhia de tantos religiosos quantos Sua Reverência quiser.

Nagasena vestiu-se, tomou a tigela e o manto e acompanhado de oitenta mil religiosos entrou em Sagala.

Anantakaya, que ia ao lado de Nagasena, perguntou-lhe:

― Venerável, quando eu digo “Nagasena” que é Nagasena?

― E que pensas tu que seja?

― O sopro interior, a alma (jiva), que entra e sai. Isso é Nagasena, segundo penso.

― Neste caso, poderia o homem viver, se o sopro interior depois de sair não voltasse a entrar, ou se, depois de entrar, não saísse?

― Não, venerável.

― Mas, naqueles que sopram em búzios, naqueles que sopram em flautas, o sopro volta aos pulmões?

― Não, venerável.

― Então, por que não morrem?

― Não posso discutir com um lógico, tal como Nagasena. Mas diz-me, venerável, nesse caso o que ocorre?

― No caso, não é alma, e sim trata-se de propriedades do corpo, chamadas expiração e inspiração.

E o monge então discorreu sobre o Abhidhamma e Anantakaya declarou-se fiel leigo.

Capítulo 6
Finalidade da Vida Religiosa

No palácio real, Nagasena sentou-se no lugar que lhe foi designado.

O rei, pessoalmente, serviu ao monge e aos seus companheiros um excelente almoço, dando também a cada um duas vestes e a Nagasena ofereceu três.

Depois disse a esse monge:

― Venerável, dez religiosos podem ficar conosco. Os outros têm liberdade para se retirarem.

Quando Nagasena veio sentar-se ao lado do monarca, perguntou-lhe o rei:

― Venerável, de que iremos falar?

― Estamos buscando um objetivo.

― Está bem. Então, qual a finalidade do seu afastamento do mundo? Para o reverendo, qual o seu último objetivo?

― A extinção da dor presente, sem surgir nenhuma outra. Nosso objetivo último: o Nirvana absoluto.

― E todos que se retiram do mundo têm esse objetivo?

― Não. Alguns buscam o Nirvana. Outros temem o rei ou os assaltantes. Outros não desejam pagar suas dívidas. Enfim, alguns se afastam do mundo induzidos por um pensamento correto, enquanto outros o fazem para terem um meio de vida.

― E tu, venerável, saíste do mundo para alcançar o Nirvana?

― Eu era ainda um menino, sem a plena consciência do meu objetivo, quando dizia comigo mesmo: “Os ascetas budistas são sábios. Eles me instruirão.” Agora, tendo recebido a necessária instrução, vejo qual o objetivo do afastamento do mundo.

― És hábil, Nagasena.

Capítulo 7
Causa dos Renascimentos

― Nagasena, é possível um homem morrer e não renascer?

― Um renasce, outro não. Renasce quem está cheio de paixões. Quem está livre delas não renasce.

― E tu, venerável, vais renascer?

― Se não me livrar do apego, renascerei. Se vencer o apego, não renascerei.

Capítulo 8
Meios de Libertação

― É pela atenção concentrada que nos livramos do renascimento?

― Pela atenção concentrada, pela sabedoria, por outros estados de alma salutares.

― Mas a atenção concentrada não é a mesma coisa que a sabedoria?

― Não! São diferentes. A atenção concentrada acha-se nas cabras, nos carneiros, nos bois, nos búfalos, nos camelos, nos burros. Jamais a sabedoria.

Capítulo 9
A Atenção Concentrada e a Sabedoria

― Qual é a característica da atenção concentrada e a da sabedoria?

― Uma define-se pela reunião. Outra pela cisão.

― Como é isso? Dá um exemplo.

― Já tens visto os ceifadores, Maharajá?

― Sim.

― Como eles ceifam a cevada?

― Com a mão esquerda agarram um feixe de talos e com a foice na mão direita cortam o feixe.

― Maharajá, mediante a atenção concentrada, o asceta reúne os processos da inteligência e mediante a sabedoria, ele corta as paixões. Por isso, uma é figurada pela reunião e a outra pela cisão.

Capítulo 10
A Virtude

― Falaste, Nagasena, em “outros estados de alma salutares”. Quais são?

― A virtude, a fé, a energia, a reflexão, o recolhimento.

― Qual é a característica da virtude?

― A virtude define-se como base. Ela é a base de todos os estados de alma salutares: faculdades, forças, elementos da intuição suprema, meditações, esforços, condições do poder mágico, êxtases, emancipações, recolhimentos, conquistas espirituais. Baseados na virtude, não se extinguem os estados de alma salutares.

― Dá uma comparação.

― Assim como todas as espécies de plantas nascem, crescem e desenvolvem-se, apoiando-se no solo, assim é com apoio na virtude que o asceta desenvolve as cinco faculdades: fé, energia, reflexão, recolhimento, sabedoria.

― Dá outra comparação.

― Assim como todos os trabalhos que exigem força física executam-se com apoio no solo, assim é com apoio na virtude que o asceta cultiva as cinco faculdades.

― Outra comparação.

― Para construir uma cidade, o arquiteto começa por limpar o terreno. Arranca os tocos de árvores, o capim, aplaina o chão, depois desenha o traçado das ruas e praças. Assim também, apoiando-se na virtude, o asceta cultiva as cinco faculdades.

― Dá-me ainda outra comparação.

― O acrobata manda limpar o chão, antes de exibir-se ao público, a fim de executar os seus saltos sobre um terreno macio. Assim também procede o asceta para o cultivo das cinco faculdades.

O Bem-aventurado [3] disse, ó rei: “Apoiando-se na virtude, cultivando o pensamento e a sabedoria, o sábio, o monge fervoroso e prudente pode extirpar a erva daninha da existência. Assim como a terra é a base dos seres vivos, esse é o fundamento de todo progresso no bem. Este é o ponto de partida de todo o ensinamento do Buda. Este é o Código das regras do excelente Patimokka.” [4]

Capítulo 11
A Fé

― Venerável, qual é a característica da fé?

― A purificação e o impulso.

― De que modo a purificação é característica da fé?

― A fé elimina os obstáculos, quando se eleva. Quando se afastam os obstáculos, o espírito torna-se límpido e puro. Assim a purificação é característica da fé.

― Dá-me outra comparação.

― Imagina um grande rei com todo o seu exército em marcha. Os elefantes, os cavalos, os carros agitam a água do ribeiro que atravessam, que fica misturada com areia e barro. Depois da passagem do exército, o rei pede que lhe tragam água para beber. Supõe, Maharajá, que os servidores reais atirem na água uma pedra que serve para limpar água. Que acontece? Afastam-se as pedrinhas, as ervas aquáticas, a lama deposita-se no fundo do leito do ribeiro. Então a água torna-se límpida, pura, e os serviçais do rei podem levá-la ao monarca. Ora, a água é o espírito, os serviçais são os monges, e as pedrinhas as ervas, a lama são as paixões. A pedra que purifica o espírito é a fé. Esta elimina os obstáculos e o espírito torna-se límpido e puro. É assim que a purificação é característica da fé.

― E o impulso?

― Vendo outros espíritos libertos, o asceta avança para conquistar o estado de quem entrou no caminho (sopanna); tem apenas mais uma existência terrestre a atravessar (sakadagami); ou não vai mais voltar à terra (anagami); ou ao falecer deve entrar no nirvana absoluto (arhat). O sábio então avança para realizar aquilo que outras realizaram.

― Dá outra comparação.

― Uma grande chuva cai no alto de um monte. A água escorre pelos flancos do monte e depois de encher buracos, valas, bueiros, ela segue por um ribeiro e vai fazer um rio transbordar. Aproxima-se muita gente que deseja atravessar o rio, mas não sabe se ele está muito fundo ou raso e permanece indecisa em uma das margens. Aparece então um homem que consciente da sua força e do seu poder, pula na água para atravessar o rio. Toda aquela gente imita aquele homem e imitando-o entra no leito do rio e nada até chegar à outra margem.

Assim procede o asceta. Vendo outros espíritos se libertarem, ele se esforça por vencer os sucessivos degraus da santidade. Por isso, a fé caracteriza-se pelo impulso.

Diz o Bem-aventurado no Samyuttanikaya: [5] “Pela fé, ele atravessa a corrente; pela fé, ele atravessa o oceano; pela energia, ele vai além do sofrimento; pela sabedoria, ele é purificado.”

Capítulo 12
A Energia

― Nagasena, qual é a característica da energia?

― O apoio. Apoiados nela, os estados de alma salutares não se abatem.

― Dá-me uma comparação.

Se se apoia uma parede, quase caindo, em uma forte escora de madeira, a parede não vai ao chão. Assim, a energia caracteriza-se pelo seu apoio. Sustentados por ela, não se abatem os estados de alma salutares.

― Outra comparação, ainda.

― Quando um pequeno exército é obrigado a recuar, diante de um grande exército, se o rei enviar tropas de apoio, o exército inimigo recuará. Portanto, a característica da energia é o apoio. Ensinou o Bem-aventurado: “Religiosos! O discípulo enérgico elimina o que é pernicioso, desenvolve o que é salutar, elimina o que é censurável, desenvolve o que é irrepreensível e mantém-se puro”.

Capítulo 13
A Reflexão

― Nagasena, qual é a característica da reflexão?

― A enumeração e a admissão.

― A enumeração? Como?

― A reflexão enumera os estados de alma: salutares ou perniciosos; censuráveis ou irrepreensíveis; vis ou excelentes; negros ou brancos; todos com as suas subdivisões.

Mediante a reflexão, descobrem-se as quatro meditações, [6] os quatro esforços, [7] as quatro bases do poder mágico, [8] as cinco faculdades, [9] os sete elementos de Budhi, [10] o nobre caminho de oito pistas, [11] a tranquilidade, a clarividência, a ciência, a libertação. Em consequência desse exame, o asceta procura os estados de alma que se deve procurar, evita aqueles que importa evitar, pratica os outros que têm de ser praticados, refeita aqueles que devem ser rejeitados. Assim a reflexão tem como característica a enumeração.

― Dá uma comparação.

― O tesoureiro de um monarca, todos os dias, lembra ao rei a sua riqueza, dizendo-lhe: “Sua Majestade possui tantos elefantes, tantos cavalos, tantos carros, tantos infantes, tais e tais bens... Não esqueça, Majestade!” Assim, a reflexão enumera os estados de alma. A característica da reflexão está portanto na enumeração.

― E a admissão?

― Assim como o ministro de um monarca sabe quais são os seus súditos bons ou ruins, aceitando uns a serviço do rei, rejeitando outros, assim funciona a reflexão.

O Bem-aventurado aconselhou: “A reflexão serve para toda gente”.

Capítulo 14
O Recolhimento

― Nagasena, qual é a característica da concentração? ― A supremacia. Os estados de alma salutares su­bordinam-se à concentração. Esta é o cume do qual esses estados de alma são as encostas, as ladeiras e o sopé.

― Dá uma comparação.

― Quando um monarca mobiliza o seu exército para a guerra, os elefantes, os cavalos, a infantaria, estão sob seu comando, obedecem às suas ordens. Dá-se o mesmo com a concentração.

Recomendou o Bem-aventurado: “Religiosos, cultivai a concentração. O homem, na concentração, vê a realidade”.

Capítulo 15
A Sabedoria

― Nagasena, quais são as características da sabedoria?

― A cisão, à qual já me referi, e a iluminação.

― Como?

― A sabedoria dissipa as trevas da ignorância, produz a clareza da ciência, faz brilhar a luz do conhecimento, revela as santas verdades. Por ela o asceta adquire o perfeito entendimento da impermanência, da dor e da impersonalidade.

― Dá uma comparação.

― Se entrarmos em uma casa com uma luz acesa, a luz dissipando as trevas produz a claridade no interior da casa, de forma que se mostram as coisas que estão lá. Assim procede a sabedoria.

Capítulo 16
Estados da Alma

― Nagasena, esses estados de alma diversos produzem um mesmo resultado? Sim, todos têm por objetivo destruir as paixões.

― Como assim? Dá um exemplo.

― Assim como os diversos elementos de um exército concorrem para um só resultado, a derrota do inimigo, do mesmo modo os diferentes estados de alma têm um único objetivo: a destruição das paixões.

Capítulo 17
A Cadeia dos Renascimentos

― Nagasena, quem renasce? A mesma pessoa ou outra?

― Nem a mesma pessoa, nem outra. Dá-me uma comparação.

― Quando criança frágil, eras como hoje, que estás grande?

― Não, Venerável. Eu era outra pessoa.

― Sendo assim, não tens nem pai, nem mãe, nem preceptor. Não pudeste aprender as artes, adquirir virtudes, sabedoria! Haverá pois uma mãe para cada fase do embrião, uma mãe para a criança, outra para o homem feito. Quem se instrui é uma pessoa, quem se instrui é outra. Um é o autor do crime, outro o indivíduo a quem se cortam as mãos e os pés.

― De modo nenhum, Venerável. E tu que dizes?

― Já fui criança e agora sou homem, eu mesmo.

O ser humano, em suas diversas fases, tem sua unidade no corpo. [12]

― Dá uma comparação.

― Quando se acende um facho, este pode queimar a noite inteira?

― De certo.

― E a chama da última noite é a mesma da segunda, esta a mesma da primeira?

― Não.                                                                    

― Há então um facho diferente em cada noite?

― Não, o mesmo facho queimou a noite inteira.

― Assim, Maharajá, o encadeamento dos Kharmas é contínuo. Um surge, quando o outro desaparece. De algum modo, não há nem antecedente, nem consequente. Portanto, não é o mesmo, nem o outro, que acusa o último ato de consciência.

― Dá outro exemplo.

― Quando o leite transforma-se em coalhada, manteiga fresca, depois manteiga refinada, pode-se dizer que o leite fresco é o mesmo que a manteiga ou a manteiga refinada?

― Não, mas todos procedem do mesmo leite.

Capítulo 18
O Arhat não Renascerá

― Nagasena, aquele que não vai renascer sabe que não renascerá mais?

― Sim.

― Como sabe?

― Pelo desaparecimento da causa, da condição do renascimento. [13]

― Dá uma comparação.

― Supõe o lavrador que semeou e encheu o seu celeiro. Depois, come o cereal, vende-o, ou dispõe dele, segundo suas conveniências.

― Esse lavrador sabe que o celeiro não se encherá outra vez?

― Sabe.

― Como?

― Pelo desaparecimento da causa, daquilo de que ocasionava encher-se o celeiro. Assim, quem não tem de renascer sabe que não renascerá, pois desapareceu a causa, a ocasião do seu renascimento.

Capítulo 19
A Inteligência, a Sabedoria e o Erro

― Nagasena, quem possui inteligência, possui a sabedo­ria?

― Sim, Maharajá.

― Então, neste caso, a inteligência é a mesma coisa que a sabedoria.

― Sim.

― Quem possui inteligência e sabedoria, pode errar?

― Pode errar em alguns pontos, em outros não.

― Em quais pontos pode errar?

― Nas ciências que não estudou, na descrição de uma região onde nunca viajou, sobre o significado de um termo que nunca ouviu.

― Em quais pontos não pode errar?

― Sobre as verdades, que são o fruto da sabedoria: a impermanência, a dor, a impessoalidade.

― E o seu erro, como findará?

― Quando a inteligência aparece, dissipa-se o erro.

― Um exemplo.

― O facho de luz em uma casa escura desfaz as trevas, espalhando claridade. Assim, quando a inteligência aparece, dissipa-se o erro.

― E a sabedoria, que será?

― Tendo exercido sua função, a sabedoria desaparece imediatamente. Mas aquilo que ela suscitou, o conhecimento da impermanência, da dor, da impessoalidade, isso não desaparece. [14]

― Uma comparação.

― Supõe que alguém, à noite, queira escrever a outra pessoa. Manda chamar o escriba e pede uma lâmpada. Faz o ditado da carta e terminando-o, apaga a lâmpada.

― Outro exemplo.

― Nas regiões orientais, os camponeses colocam, ao lado de cada casa, potes cheios de água para se apagar algum incêndio que ocorrer. Quando uma casa é incendiada, derramam-se os potes sobre ela e o fogo extingue-se. Depois disso, pretenderão os camponeses fazer uso dos potes?

― De certo que não. Para que vão servir os potes?

― Semelhantes aos cinco potes, são as cinco faculdades: fé, energia, reflexão, concentração, sabedoria. O campônio é como o asceta. Semelhantes ao fogo são as paixões. Assim como o fogo é extinto pelos cinco potes de água, assim as paixões são abafadas pela sabedoria. Uma vez extintas, as paixões não renascem.

― Outra comparação.

― Supõe o médico que, depois de pilar juntas cinco raízes de plantas medicinais, dá o suco ao seu doente, que se cura. Pensa o médico em aplicar-lhe outra vez o remédio?

― De certo que não. Para quê?

― Semelhantes às cinco raízes medicinais são as cinco faculdades. [15] Semelhante ao médico é o asceta. Semelhantes às doenças são as paixões. Semelhante ao doente é o infiel. Assim como os humores pecaminosos são expulsos pelas cinco drogas e o doente está curado, assim as paixões são expulsas pelas cinco faculdades. Uma vez expulsas, elas não renascem. Depois de exercer a sua função, a sabedoria desaparece. Mas subsistem os conhecimentos oriundos da sabedoria.

― Dá-me ainda outra comparação.

― Supõe um combatente, um guerreiro que dispõe de cinco flechas para vencer o inimigo. Disparadas as cinco flechas, vê derrotado o exército adversário. Será que pretende continuar disparando flechas?

― Decerto que não.

― Semelhante às cinco flechas são as cinco faculdades. Semelhante ao guerreiro é o asceta. Semelhantes ao exército inimigo são as paixões. Assim como o exército adversário foi derrotado pelas cinco flechas, assim se rompem as paixões pelas cinco faculdades. Uma vez rompidas, as paixões não renascem. Depois de desempenhar sua função, a sabedoria também desaparece. Mas permanecem os conhecimentos que ela produz.

Capítulo 20
Sensações do Arhat

― Nagasena, aquele que não vai renascer está sujeito às sensações dolorosas?

― Algumas. Outras, não.

― Quais?                                 

― Pode ter sofrimentos físicos. Mentais, não.

― Por quê?

― Não desapareceu a causa, a ocasião dos sofrimentos físicos não desapareceu, mas extinguiu-se a causa dos sofrimentos morais.

O Bem-aventurado disse: “Ele só pode ter uma espécie de sensação, a física, não a sensação moral.”

― Se ele sofre, por que não realiza logo a sua extinção pela morte?

― Maharajá, o Arhat está livre de apego e de aversão. Os santos não querem o fruto verde, colhem-no quando está maduro.

Escreveu Sariputa, Marechal da Lei:

“Não desejo a morte. Não desejo a vida. Aguardo minha hora, como o servidor espera o seu salário.”

Capítulo 21
Diversidade das Sensações

― Nagasena, a sensação agradável é salutar, perniciosa ou neutra?

― Pode ser uma ou outra.

― Mas se a sensação salutar não é dolorosa, se a sensação dolorosa não é salutar, será impossível a associação “salutar” e “dolorosa” como “perniciosa” e “agradável”.

― Está vendo esse serviçal, Maharajá? Supõe que colocam uma bola de ferro quente em uma das mãos e na outra uma bola gelada. As duas bolas vão queimá-lo?

― Sim.

― São ambas quentes ou ambas geladas?

― Não.

― Vê a debilidade do teu raciocínio. Se é o quente que queima, como as duas bolas não são quentes, é impossível que ambas queimem. Se é o frio que queima, as duas bolas, não sendo frias, dá-se a mesma impossibilidade.

― Não posso contestar. Diz-me então o que ocorre.

Então o monge citou uni trecho do Abhidhamma.

“Há seis prazeres na vida de família, seis prazeres na vida de asceta. Seis desprazeres na vida de família. Seis desprazeres na vida do asceta. Seis estados de indiferença na vida de família, seis desses estados na vida dos ascetas.

Na vida de família, há seis prazeres, seis desprazeres, seis estados de indiferença. Na vida do asceta, há seis prazeres, seis desprazeres, seis estados de indiferença. São, portanto, trinta e seis espécies de sensações, que podem ser passadas, presentes ou futuras”.

Capítulo 22
Renascimento do Nomeforma

― Nagasena, que é que renasce?

― O Nomeforma.

― É o Nomeforma presente que renasce?

― Não. O presente Nomeforma comete uma ação boa ou má. Como conseqüência dessa ação, nasce outro Nomeforma.

― Se não é o mesmo Nomeforma que renasce, não estará isento de pecados anteriores o novo Nomeforma?

― De fato seria assim, se não houvesse renascimento. Mas há renascimento e, portanto, não é isso que acontece.

― Exemplo.

― Supõe que alguém rouba mangas que pertencem a outro homem. O dono das mangas agarra o ladrão e leva-o ao rei, acusando-o de roubo. Defende-se o acusado, alegando: “As mangas que eu colhi não pertencem a este homem. As suas mangas nasceram de outras mangueiras. Não mereço nenhuma punição.” Ele é culpado?

― Sim.

― Por quê?

― Apesar do argumento desse homem, as mangas que ele colheu têm afinidade com as outras.

― Pois bem, Maharajá, quando o Nomeforma executa um ato, bom ou mau, esse ato determina o renascimento de outro Nomeforma. Não se pode afirmar que este se tenha libertado de pecados anteriores.

― Dá-me outro exemplo.

― Supõe que alguém toma de outrem uma quantidade de arroz ou de cana de açúcar. Aplica-se o mesmo raciocínio.

― Mas vejamos este caso. No inverno um indivíduo acende uma fogueira no campo. Aquece-se e depois vai embora, sem extinguir o fogo, que se alastra, queimando a lavoura próxima, pertencente a um camponês vizinho. Este prende-o e leva-o à presença do monarca, afirmando ser tal indivíduo o causador do incêndio da lavoura.

Defende-se o acusado: “Eu não incendiei a lavoura deste homem. O fogo que deixei aceso não foi o mesmo fogo que se alastrou, incendiando a plantação. Não devo ser punido.” Esse homem é culpado?

― É.

― Por quê?

― Apesar do seu argumento, o último fogo relacionava-se com o anterior.

― Dá-se o mesmo com o Nomeforma.

― Outra comparação.

― Indo jantar no sótão da sua casa, um homem leva para lá um archote aceso. Incendeia-se o teto da casa e de lá o fogo alastra-se às outras casas da aldeia. Os aldeões prendem-no, acusando-o da autoria do incêndio. Perguntam-lhe: “Por que incendiaste a aldeia?” Responde-lhes o homem: “Eu não incendiei a aldeia. O fogo que levei para o sótão foi um e o que se alastrou pela aldeia foi outro”. Se aqueles homens comparecessem à tua presença, Maharajá, a quem darias razão?

― Aos aldeões.

― Por quê?

― O fogo que incendiou a aldeia saiu do fogo do archote que o homem levou para o sótão da sua casa.

― Dá-se o mesmo com o Nomeforma.

― Sem dúvida é outrem o renascido, mas nem por isso deixa de proceder de alguém que morreu. Portanto, não se pode dizer que esteja libertado de pecados anteriores.

― Dá-me outra comparação.

― Um indivíduo casa com uma menina, paga o dote e vai embora. A menina cresce e, estando já púbere, contrata casamento com outro homem. Este paga o dote e festeja o seu casamento com ela.

Vem então o primeiro indivíduo protestar contra o esbulho. Defende-se o segundo marido: “Não me casei com tua mulher. A menina de quem ficaste noivo, pagando o dote, era uma pessoa e esta com quem me casei é outra.”

Discutindo sempre, dirigiram-se afinal à tua presença. Como resolverias a questão?

― Eu daria razão ao primeiro.

― Por quê?

― Porque a moça procede da menina.

― Dá-se o mesmo com o Nomeforma.

Capítulo 23
Repreensão

― Nagasena, tu mesmo renascerás?

― Por que repetes esta pergunta? Já não te res­pondi? “Se eu for apegado, renascerei. Se livrar-me do apego, não renascerei”.

― Dá-me um exemplo.

― Supõe que alguém prestou um serviço ao rei, que, para recompensá-lo, nomeia-o a um cargo, que lhe permite gozar uma vida de prazeres. Se esse homem se queixasse da ingratidão do rei, procederia corretamente?

― Não, venerável.

― Então, Maharajá, por que procedes deste modo comigo, fazendo-me uma pergunta à qual já respondi?

Capítulo 24
O Nome e a Forma [16]

― Nagasena, falaste de Nome e Forma. Que é Nome?

― A Forma é material. As ideias e as sensações constituem o Nome.

― Por que o Nome ou a Forma não podem renascer isoladamente?

― Renascem sempre juntos porque se apoiam um no outro.

― Exemplo.

― A galinha. Se não houvesse um germe dentro da galinha, não se formada o ovo. Germe e ovo estão condicionados, um pelo outro, e o seu nascimento é simultâneo. Destarte, se não houvesse Nome não haveria Forma. Nome e Forma estão condicionados, um pelo outro. O seu nascimento é simultâneo. E assim eles se produzem por um indefinido período temporal.

Capítulo 25
Que é Duração? [17]

― Nagasena, falas de uma duração indefinida. Que é período? Que é duração?

― O período passado, o presente, e o futuro.

― Mas existe duração?

― Devemos distinguir o que existe e o que não existe. As estruturas passadas, desaparecidas, desfeitas, transformadas, pertencem já à duração inexistente. Aqueles que podem produzir um efeito ou têm a possibilidade de produzi-lo, pertencem à duração existente. Os seres que morrendo vão renascer além, quando morrem estão na duração inexistente. Os seres que entram no Parinirvana acham-se na duração inexistente, pois estão completamente extintos.

Capítulo 26
Origem

― Nagasena, qual é a raiz da duração passada, da futura, da presente?

― A ignorância. [18] Da ignorância derivam, sucessivamente, as estruturas, a consciência, o Nomeforma, os seis sentidos, o contato, a sensação, a sede, o apego, a existência, o nascimento, a velhice, a morte, a tristeza, o luto, o sofrimento, o descontentamento, o desespero. Mas a origem dessa duração é incognoscível.

― Dizes que a origem da duração é incognoscível. Dá uma comparação.

― Deposita-se a semente na terra. Sai um germe que medra, cresce, desenvolve-se e dá um fruto. Uma semente desse fruto, depositada na terra, também se desenvolve e dá um fruto. Isso tem fim?

― Não.

― Do mesmo modo, a origem da duração é incognoscível.

― Dá-me outro exemplo.

― Da galinha sai o ovo, do ovo nasce a galinha.

― Podes apresentar outro exemplo?

Nagasena traçou um círculo no chão e perguntou ao rei:

― O círculo tem fim?

― Não.

― Ocorre o mesmo com as estruturas. A órbita ocular e as sensações óticas produzem a percepção visual. Da junção dessas três condições, advém o contato, do contato saem as sensações, das sensações a sede, da sede a ação, da ação provém outra vez a órbita ocular.

Capítulo 27
Ponto de Partida

― Nagasena, agora falaste de origem. Que entendes por “origem”?

― Refiro-me à origem da duração que passou.

― Tu te referes a toda e qualquer origem?

― Não. Há uma cognoscível e outra incognoscível.

― Qual?

― Pode-se dizer que a origem é incognoscível, quando, antes de um dado momento, havia ignorância somente. Mas se nasce uma criatura, que não existia ainda, ou se desaparece, depois de ter existido, então há origem cognoscível.

― Disseste, Nagasena, que o inexistente nasce e que depois de ter existido desaparece. Assim limitado, não pode deixar de extinguir-se.

― Mas o que está cortado nas duas pontas não pode aumentar?

― Sem dúvida. Mas não é esse o sentido da minha pergunta. Quero saber: pode aumentar pelas pontas?

― Sim. Pode.

― Dá um exemplo.

O monge deu o exemplo da árvore, dizendo que os skandas são os germes do sofrimento.

Capítulo 28
Nascimento das Estruturas

― Nagasena, há estruturas que nascem?

― Há.

― Quais?

― Havendo olho e formas, produz-se a faculdade da percepção visual. Desta decorrem, em série, o contato visual, a sensação, a sede, o apego, a existência, o, nascimento, a velhice, a morte, o sofrimento. Eis a origem de todo sofrimento.

Capítulo 29
Origem das Estruturas

― Nagasena, há estruturas que nascem do nada?

― Não. Quando nascem, as estruturas têm já certa existência.

― Dá uma comparação.

― Esta casa onde está saiu do nada?

― Não. Aqui nada se acha que não tenha já existido. A madeira estava na floresta, a argila no solo. A casa resultou do esforço de homens e de mulheres que trabalharam com esses materiais. Assim, não há estruturas nascidas do nada.

― Dá outra comparação.

― As sementes no solo germinam, crescem, tornam-se árvores, que dão flores e frutos. Essas árvores não saíram do nada. Já existiam, sob a forma de sementes. Dá-se o mesmo com as estruturas.

― Dá-me outro exemplo.

― O oleiro extrai do solo a argila com que fabrica potes. Esses potes não saem do nada. Existiam antes como argila. Dá-se o mesmo com as estruturas.

― Dá-me outra comparação.

― Se não houvesse em uma vina [19] nem cavalete, nem armação, nem chavetas, nem pescoço, nem corda, nem arco, nem esforço humano, como nasceria o som? Se não houvesse nem arani, [20] nem correia, nem amadou, nasceria o fogo? Não! Se não houvesse lente, calor do sol, excremento seco de vaca, nasceria o fogo? Não! Portanto não há estruturas nascidas do nada. Se não houvesse espelho, luz, rosto, nasceria a imagem refletida?

Capítulo 30
A Alma não Existe

― Nagasena, existe o Vedagu?

― Que chamas Vedagu, Maharajá?

― A alma que está dentro de nós vê a forma com o olho, ouve o som com o ouvido, aspira o perfume com o nariz, prova o sabor com a língua, encosta-se nos objetos tangíveis com o corpo, conhece os fenômenos com o sentido interno, tal como nós, sentados dentro deste palácio, podemos ver o que nos agrada, olhando pela janela ou pela porta.

― Não falaste das cinco portas, Maharajá. Ouve. Dá-me atenção. Se a alma interna vê a forma pelos olhos, como podemos nós, sentados no interior deste palácio, ver as formas por uma das quatro janelas que escolheram? O resultado disso seria vermos uma forma pela orelha, pelo nariz, língua, pelo corpo, pelo sentido interno.

― Não, Venerável.

― Tuas afirmativas não concordam. Mais ainda: se as janelas desta sala não tivessem cortinas, poderíamos ver melhor as formas que estão lá fora. Se os olhos fossem arrancados, essa alma interna enxergaria mais facilmente as formas, no espaço ambiente? Se fossem obstruídos os ouvidos, cortados o nariz, a língua, o corpo, seria possível ouvirem-se sons, aspirarem-se perfumes, saborearem-se manjares, tocarem-se objetos?

― Não, Venerável.

― Tuas afirmativas não concordam. Se Dina, aqui presente, saísse desta sala, ficasse sob o pórtico da entrada, saberias que ele saiu e está sob o pórtico?

― Sim, Venerável.

― E se ele voltasse e ficasse à tua frente, saberias disso?

― Sim, Venerável.

― E ainda com essa alma, se colocássemos na língua uma substância qualquer, essa alma interna saberia que tal substância é azeda, salgada, amarga, ácida, doce?

― Sim, Venerável.

― E se esse gosto fosse até os intestinos, a alma interna saberia disso?

― Não, Venerável.

― Tuas afirmativas discordam. Mais ainda: suponhamos que se derramem em um tonel cem jarras de vinho de frutos de palmeira. Se mergulharmos nesse tonel um homem amordaçado, saberá ele que o vinho é doce ou não?

― Não! Não saberá!

― Por quê?

― Porque o vinho não entraria em sua boca.

― Tuas afirmativas não concordam.

― Não posso discutir com um dialético hábil como tu. Diz-me qual o teu fundamento nesta discussão.

O monge expôs-lhe então um resumo do Abhidhamma. Como consequência do olho e das formas produz-se a percepção visual. Os estados de consciência que se seguem – tato, sensação, concepção, pensamento, concentração, a atenção, a consciência de sermos uma pessoa viva, tudo isso decorre de algo precedente. No caso, não há Vedagu.

Capítulo 31
Falando de Percepções

― Nagasena, lá onde ocorre a percepção visual, também há a percepção do sentido interno?

― Sim.

― Qual a primeira?

― A visual.

― Então a primeira dá ordem à outra para que ocorra ao mesmo tempo? Ou então a segunda diz à primeira: “Quando ocorreres, eu também ocorrerei”?

― Não, Majestade. Elas não falam uma à outra.

― Como então uma funciona depois da outra?

― Pela tendência, pelo precedente, pela prática.

― Como pela tendência?

― Quando chove, por onde a água escorre?

― Pelo terreno inclinado.

― Se chover outra vez?

― A água escorrerá por onde a anterior escorreu.

― Acaso, a primeira água teria dito à segunda: “onde eu escorro, escorrerás também tu?” Ou: “tu escorrerás por onde eu escorrer?”

― Não, Venerável, elas não falam uma à outra Escorrem, seguindo a inclinação.do terreno.

― Dá-se o mesmo com a percepção visual e com a percepção interna.

― De que maneira se sucedem pela porta essas duas percepções?

― Supõe uma cidade na fronteira, rodeada de muralhas e tendo uma única porta para entrada e saída. Se alguém quiser sair, por onde o fará?

― Pela porta.

― E se alguém mais quiser sair, por onde sairá?

― Pela porta.

― Para a saída de ambos, houve combinação entre os dois?

― Não. Passaram pela mesma porta por ser ela o único lugar por onde podiam sair.

― O mesmo acontece com a percepção visual e a do sentido interno.

― E quanto à antecedência?

― Uma primeira carreta vai por uma estrada. Por onde passará a segunda?

― Pelo mesmo caminho da anterior.

― Houve alguma combinação prévia entre ambas?

― Não. A segunda segue a primeira pela precedência.

― Assim é também com as duas percepções.

― E, quanto à prática, de que modo se sucedem?

― Em ciência, todos começam errando, quando aprendem a calcular, a escrever. Depois, mediante a atenção e a prática, nós nos tornamos hábeis. Assim, pela prática, quando há, percepção visual também ocorre a percepção do sentido interno.

Capítulo 32
Sentido Interno e Sensação

― Nagasena, logo que há percepção do sentido interno, também há sensação?

― Sim, Majestade. Lá onde se produz a percepção do sentido interno, também se produzem o tato, a sensação, a ideia, o pensamento, a reflexão, a análise e todos os estados de consciência, que se sucedem ao tata.

― Qual a característica do tato?

― O contato.

― Exemplo.

― Dois carneiros que dão marradas um no outro, dois pratos metálicos de bombo que batem um no outro. Um dos carneiros, ou um dos pratos é como o olho, o outro a forma. O seu encontro é o contato.

Capítulo 33
Característica da Sensação [21]

― Nagasena, qual é a característica da sensação?

― Sentir e gozar. Dá um exemplo.

― Supõe um indivíduo que tenha prestado um serviço ao rajá, que o recompensa ricamente e lhe possibilita uma existência de prazeres. Esse homem pensa consigo: “prestei um serviço ao rajá. Este, satisfeito, deu-me um emprego. Por isso gozo de tal ou qual sensação”.

Ou então suponha-se um homem que fez uma boa ação. Depois de morrer, vai para o céu, onde vive entre prazeres. Esse homem diz consigo: “'cometi outrora uma boa ação e por isso agora estou gozando desta sensação”.

Capítulo 34
Característica do Renascimento

― Nagasena, qual a característica do reconhecimento?

― O fato de se distinguir. Que é que se distingue? O negro, o amarelo, o vermelho, o branco, o rosa.

― Dá-me uma comparação.

― Ao entrar na sala onde está o tesouro real, o tesoureiro, vendo os objetos pertencentes ao monarca, logo os reconhece, distinguindo a cor desses objetos: negro, amarelo, vermelho, branco, rosa. Assim a característica do reconhecimento é o fato de distinguir.

Capítulo 35
Característica do Pensamento

― Qual a característica do pensamento?

― O fato de pensar e o de preparar o pensamento.

― Exemplo.

― Um homem preparou uma bebida venenosa. Ele e outros beberam-na Por isso ele sofre e os outros também. Do mesmo modo, quem comete uma ação má, depois de morrer vai para o inferno e arrasta para lá os que o imitaram.

Outro homem misturou manteiga refinada, manteiga fresca, azeite, mel, melaço, que bebeu e deu a beber a outras pessoas. Ele e essas outras pessoas sentem prazer. Do mesmo modo, quem praticou uma boa ação vai para o céu, depois de morrer, e leva para lá aqueles que o imitaram.

Capítulo 36
Característica da Consciência

― Nagasena, qual é a característica da consciência?

― A percepção.

― Exemplo.

― O guarda de sentinela em um cruzamento de ruas, no centro da cidade, pode perceber quem está se aproximando pelo oriente, pelo sul, pelo oeste, pelo norte.

Assim, mediante a consciência, o homem percebe a forma que vê com o olho, o som que ouve pelo ouvido, o cheiro que aspira pelo nariz, o sabor na língua, o objeto tangível em que encosta o seu corpo, os estados mentais, que ele apreende com o sentido interno. Destarte, a característica da consciência é a percepção.

Capítulo 37
Característica da Concepção

― Nagasena, qual é a característica da concepção?

― Dá-me um exemplo.

― A adaptação.

― Um carpinteiro adapta uma peça de madeira a um entalhe (em outra peça de madeira). A adaptação é a característica da concepção.

Capítulo 38
Característica do Raciocínio

― Nagasena, qual é a característica do raciocínio?

― A vibração (anumajjana).

― Dá um exemplo.

― Quando se bate em uni gongo, ele emite uma ressonância prolongada. A batida é a concepção (vittaka), a ressonância é o raciocínio (vicara).

Capítulo 39
Individualidade dos
Estados de Consciência

― Nagasena, sendo combinados, será possível dissociarem-se esses estados de consciência e atribuir a cada um sua natureza particular, dizendo, aqui está o tato, a sensação, o reconhecimento, o pensamento, a consciência, a concepção, o raciocínio?

― Não, Majestade. É impossível.

― Dá uma comparação.

― Supõe que o cozinheiro de um rei prepara um suco ou um molho com leite coalhado, sal, gengibre, cominho, pimenta e outros temperos. Pede-lhe o rajá: “dá-me o sabor do leite coalhado, ou do sal, etc.” Estando os temperos já misturados, seria possível separar cada sabor?

― Não, certamente, embora todos estejam presentes com sua característica particular.

― Dá-se o mesmo com os estados de consciência.

Capítulo 40
O Sal

O monge perguntou:

― Pode-se reconhecer o sal com o olho?

― Sim, Venerável.

― Reflete no que estás dizendo.

― Estou enganado. Reconhece-se o sal com a língua.

― Está certo.

― Mas todo sal reconhece-se com a língua?

― Sim.          

― Neste caso, corno é que se transporta sal em carro de bois?

― O carro de bois transporta sal que não foi provado por nenhuma língua?

― Não, o carro de bois combina coisas relacionadas com diferentes domínios dos sentidos: sal e peso.

― Pode-se pesar sal em uma balança?

― Sim, Venerável.

― Não. Na balança o que se pesa é o peso.


[1] Não existe indivíduo ‒ Refere-se o monge a um dos postulados básicos da doutrina budista do Hinayana (pequeno veículo), a saber, a inexistência de ego ‒ eu ‒ permanente.

[2] Kanda = Skandha ‒ Grupo de fatores, físicos e psicológicos, cuja reunião contribui para a formação de um ente corporal, vivo, no caso, o ente humano, ao qual os budistas aplicam o termo composto de duas palavras Nama-Rupa.

[3] Bem-aventurado ‒ Um dos espíritos de Buda, não designava exclusivamente Gautama. Na Índia, esse epíteto aplicava-se aos deuses cultuados pelos brâmanes.

[4] Patimokka ‒ Manual em que se relacionam as transgressões às regras monásticas e aos princípios de moral, que os monges devem evitar. Nesse manual também se estabelecem as normas para o funcionamento das reuniões capitulares, que se realizavam duas vezes por mês.

[5] Samyuttanikaya – Livro em que se expõem os diálogos entre Buda e os seus discípulos.

[6] As quatro meditações ‒ a) sobre a impureza do corpo; b) sobre os vícios das sanções; c) sobre o caráter efêmero do pensamento; d) sobre as condições da existência.

[7] Os quatro esforços ‒ a) para prevenir o fruto das más ações; b) para impedir as más ações no presente; c) para suscitar os efeitos futuros das boas ações; d) para conservar e desenvolver as boas ações no futuro. (Vide nota 18).

[8] As quatro bases do poder mágico ‒ Vontade, energia, pensamento, investigação.

[9] As cinco faculdades ou cinco forças ‒ Fé, energia, reflexão, recolhimento, sabedoria.

[10] Os sete elementos de Budhi ‒ Reflexão, investigação, energia, alegria, calma, recolhimento, equanimidade.

[11] O nobre caminho de oito pistas ‒ As pistas são: a) a crença na lei de causalidade; b) o pensamento reto; c) a palavra verídica; d) a ação reta; e) os meios honestos de viver; f) o esforço sincero; g) a verdadeira lembrança e a disciplina interna, h) a verdadeira concentração do pensamento.

[12] A personalidade do indivíduo aos 40 anos é a mesma de quando esse indivíduo tinha 20, apesar das alterações fisiológicas, intelectuais, morais. Assim, personalidades sucessivas, no decurso dos renascimentos têm um mesmo ser, com aparências diferentes, oriundas das novas combinações dos skandas.

[13] Nagasena omitiu a referência à causa mais influente para o renascimento ‒ Tanha, o desejo de viver no mundo físico, inseparável, aliás, da ação dos skandas.

[14] Sabedoria ‒ Para os filósofos gregos pré-socráticos, ‒ entre eles Pitágoras ‒ a sabedoria era o saber de verdades transcendentais, saber de cunho intuitivo, ainda que formulado racionalmente. Segundo Aristóteles, Metafísica, livro I, cap. 1 e 2, a sabedoria é o fundamento da ética.

Do ponto de vista da Teologia cristã, sabedoria é por inspiração o conhecimento das verdades divinas e humanas, sendo também epíteto do Logos ou Verbo divino.

Não parece bem exposta a definição de Nagasena para sabedoria.

[15] Vide nota 35.

[16] Nama-Rupa ‒ Segundo Chrismas Humphreys ‒ Buddhism ‒, a antiga tradução “Nome e forma” é insuficiente para a apreensão do significado da designação Nama-Rupa”, união estrutural de fatores físicos e psicológicos, que funcionam com um objetivo unitário, a saber a manutenção do ente em que se realizarão os efeitos cármicos de ações praticadas em um tempo já passado, por outro Nama-Rupa. Não há transferência de atos nem continuidade de consciência e sim apenas a atualização do que havia de potencial em ações praticadas em tempo já passado. Os fatores cármicos, apesar de unidos, não se confundem, sendo veiculados pelas forças que atuam no plano da vida universal, manifesta como matéria e como mente.

[17] Duração ‒ Desde os filósofos gregos, distinguiram-se os conceitos de tempo e de duração. Segundo Aristóteles, a duração de uma coisa ou de um fato seria a continuidade dessa coisa ou fato desde o seu início até o seu fim. A duração estaria, portanto, “incluída” no tempo. (De Coelo, I, 9, 279).

Espinosa, entretanto, afastou o conceito de duração do de tempo, considerado como “medida”. Segundo Espinosa, a duração é a “continuação indefinida da existência”. (Ética, II, def. 5).

Leibnitz e Kant permaneceram no plano da noção intelectualista de duração incluída no conceito de tempo. Bergson, revivendo Espinosa e sem dúvida orientando-se pelo pensamento hindu, dá ao conceito de duração um sentido psicológico, interpretando-a como sucessão de estados psíquicos, sem justaposição, mas que se fundem uns nos outros.

Em Ensaios Sobre os Dados Imediatos da Consciência, Bergson fala de uma “duração cujos momentos heterogêneos se interpenetram” e, em “Pensamento e Movimento”: “A duração interior é a vida continua de uma memória que prolonga o passado no presente. Sem a sobrevivência do passado no presente, não haveria duração, mas somente instantaneidade”.

Nagasena, entretanto, apresenta a duração como serie de períodos, fragmentos do processo de criação e destruição de Nomeformas, sem prejuízo do processo de causalidade, de causas que no Passado geram efeitos no Presente. A noção de duração, formulada por Bergson, é de cunho vedantino. A de Nagasena está de acordo com o principio budista de impermanência.

[18] Ignorância, Avidya ‒ Não ciência, não reconhecimento. A ignorância (avidya) é o obstáculo maior à libertação do homem da roda dos renascimentos, a geratriz de todo sofrimento.

Avidya é um dos doze Nidanas ou doze elos da cadeia de causas da existência. Isso por ser ela a ignorância que supõe estarem as criaturas essencialmente separadas uma das outras.

[19] Vina ‒ Instrumento musical semelhante à viola das orquestras no Ocidente.

[20] Arani ‒ Um dos pedaços de madeira que, mediante fricção em outro pedaço; servem para a produção de chispas, que ateiam fogo em porções de palha ou excremento seco de vaca.

[21] Sentido interno, Antakharana ‒ Corresponde ao “sensorium comune” da Escolástica. Aristóteles ensina que o “sensorium” é o órgão interno em que se reúnem as sensações oriundas dos diversos órgãos sensoriais, de modo que o espírito forme uma só representação de um objeto.


Traduzido por Raul Xavier