O Caminho do Amor Thelêmico: Conclusão

Um capítulo de O Caminho do Amor Thelêmico

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Conclusão

Logo após apresentar a seção anterior no templo, eu me perguntei o seguinte: “não há uma contradição aqui?” No Magia em Teoria e Prática, Crowley define Magick como a “ciência e a arte de causar mudanças em conformidade com a vontade”. Mas em seu comentário a Liber V, ele afirma que o verdadeiro propósito da Magick é terminar toda discriminação entre quaisquer duas coisas, pressionando-nos a abraçar toda imagem. Em suma, existe uma mudança dramática de usar a tecnologia espiritual para “conseguir o que quer” para a adoção de uma atitude transparente, receptiva em relação a todas as coisas que acontecem. Após escrever uma longa resposta para provar que de fato havia uma contradição, eu voltei atrás para ler o último parágrafo do comentário de Liber V com mais atenção. O que eu descobri é que não havia necessariamente uma contradição entre as duas definições de Magick, mas sim que a segunda definição de Magick (de Liber V) era muito madura e desenvolvida.

Se você observar com atenção os principais símbolos nas tradições da Aurora Dourada, você perceberá que eles têm a ver com a mescla do humano com o divino, ou do microcosmo com o macrocosmo, ou do externo com o interno, etc. Observe a cruz e o triângulo, por exemplo. Todos vocês sabem que o objetivo de longo prazo que vocês buscam é o conhecimento e conversação do SAG, que é simbolizado pelo grau de 5=6 ou a mescla do pentagrama (você) com o hexagrama (Deus).

Então o principal objetivo da Magia cerimonial é obter o Conhecimento e Conversação. No entanto, você sabe que para chegar lá, você tem que se tornar em um receptáculo apto. Como isso é feito? Estudando a bibliografia do Neófito da A∴A∴, você sabe que a Fórmula do Neófito é uma tecnologia espiritual usada para pegar alguma coisa inerte e dar a ela momentum em direção a um objetivo em particular. No ritual de Neófito da Aurora Dourada, você é aquela coisa; e C & C é o objetivo. O uso da fórmula do Neófito não para por aí. Espera-se que você pegue essa fórmula e junto com o conhecimento que você tem de suas próprias deficiências internas, invoque o oposto delas, de modo que você consiga funcionar como um indivíduo equilibrado. Por exemplo, se você não é generoso, poderia invocar Júpiter. Do ponto de vista da magia cerimonial ocidental, é assim que você chega ao conhecimento e conversação. E, de fato, através disso você está provocando mudanças em conformidade com a vontade. Mas há um outro ponto de vista em relação a este assunto que precisamos considerar. Por que nem sempre a Magia não funciona? Por que nós frequentemente somos barrados em nosso Caminho?

A definição de Magick de Crowley no comentário em Liber V pode dar a resposta. Sempre que realizamos um ritual, nós estamos reduzindo a lacuna entre nós mesmos e o objeto desejado, ou seja, estamos cortejando o Anjo ainda mais; quem sabe até mesmo beijando-o e abraçando-o de vez em quando. Lembre-se de que nossos símbolos sempre mostram isso: a mescla do externo com o interno ou do humano com o divino. Esta outra definição afirma que a Magia deve encerrar a discriminação entre duas coisas no esforço derradeiro de abraçar a tudo.

Considere isso: todo ritual é uma mescla de dois opostos (você lembra da mescla de Nu e Hadit em Liber Aleph?). Nossa jornada em direção a Deus é a mesma coisa. No entanto, estamos trabalho de um ponto de vista tão limitado que só enxergamos as árvores e não o bosque; portanto, nós gradualmente estamos trabalhando para eliminar todo senso de dualidade e separação entre nós e o mundo ao nosso redor. Esta é uma batalha diária, cujo clímax culmina no C & C, pelo qual a aparente divisão entre homem e Deus cessa.

Precisamos eliminar todos os aparentes desequilíbrios dentro de nós através da invocação de seus opostos. Quando uma experiência que não gostamos ocorre a nós, precisamos abraça-la e nos esforçarmos para adequá-la ao seu lugar em nossas vidas. Isso não é Magia cerimonial formal feita em uma sala com um altar; é Magia do dia a dia, a Magia de um verdadeiro iniciado que é feita no Templo do seu corpo, no altar da sua Alma. Seu objetivo principal é o casamento de si com o Sagrado Anjo Guardião (uma mescla, de modo que dois se torna um). E o objetivo derradeiro é abraçar todos os eventos que ocorrem em nosso caminho como a Vontade Perfeita de Nuit.

A definição de magia como causar mudanças em conformidade com a vontade é ativa e dinâmica; teoricamente é a Magia de um Adepto, alguém que alcançou o Conhecimento e Conversação, e busca aprimorar esse relacionamento. A outra definição, no entanto, parece ser passiva e mais mística; quiçá o tipo de Magia praticada por alguém que cruzou o Abismo e foi tocado pelo próprio abraço de Babalon – quem sabe não é a Magia de alguém que já alcançou a consciência de Kether?

Esta segunda definição tem consistência com todos os escritos de Crowley, especialmente Liber AL, Aleph e V. Ela também se conforma ao Theory of the Magick of LVX de Frater Perseverantia, que devo citar novamente aqui: “Para este fim, a arte mágica é de adaptação interior a circunstâncias exteriores além do nosso presente controle”.

Observe esta última frase, a arte mágica é uma de adaptação interna às circunstâncias externas além do nosso presente controle. Existem coisas que não conseguimos controlar e mudar através da Magia cerimonial. E a principal coisa que não conseguimos controlar são aquelas experiências desafiadoras que o Anjo te envia, você só consegue responder adotando uma atitude de aceitação e compreensão. Da rejeição à tolerância a aceitação e Amor Perfeito, a única coisa sob o seu poder são as suas reações[1]. Desta forma, o tom da prática mágica gradualmente evolui de um tipo mais ativo para um tipo mais “passivo, místico”. De mais dinâmico e externo para mais interno e meditativo.

Isso não quer dize que temos que esperar para aplicar a definição de Magick de Crowley no comentário de Liber V. De fato, há muita coisa feita nesta ordem[2] que envolve esse tipo de trabalho!

Será que quando os objetivos ritualísticos não são atendidos é por causa da assim chamada “ânsia de resultado” que ouvimos com frequência? Ou será que implica que você está almejando coisas que você não deveria ter? Será que significa que a Vontade do Anjo é que você não alcance este objetivo? Há algo mais que você deve aprender?

As vezes eu acho que a definição popular de Magick de Crowley faz com que as pessoas evitem os desafios e frustrações pessoais que requerem uma análise e introspeção profundas. Se nós não trabalharmos para abraçar os eventos que vêm na nossa direção, nós rejeitamos a Vontade Divina. Podemos estar nos esforçando ladeira acima em um ritual por anos quando você só precisava voltar seus olhos e ouvidos para dentro.

Mas onde está o equilíbrio ideal? Acho que está em usar toda a tecnologia ritualística de um indivíduo em conjunto com o conhecimento de suas deficiências interiores de modo a melhorar estas deficiências, o que derradeiramente leva à criação daquela adaptação interior perfeita a todas as circunstâncias além de seu controle. Isso também está em conformidade com a definição de Magick de Perseverantia e com a de Crowley no comentário do Liber V.

Não se preocupe em fazer um ritual para conseguir dinheiro em si. Ou talvez sim. Mas fazer um ritual e sentar a bunda no chão não vai te trazer porra nenhuma. Ao invés disso, foque em se organizar, escrever um currículo, desenvolver habilidades interpessoais[3], educar-se, adquirir uma habilidade profissional e (para a maioria dos thelemitas!) cortar o cabelo e tirar os piercings. Você está lidando com a cultura predominante – não espere que as empresas vão querer te contratar com cabelo comprido, maquiagem gótica e piercings pelo corpo todo. Combine isso com um ritual para criatividade, diligência e carisma. Eu te garanto que se você trabalhar nas habilidades interiores necessárias, você alcançará o objetivo desejado; e aprenderá mais sobre si e o Anjo no processo. Trabalhe nas habilidades interiores necessárias e o restante seguirá. Esta é a ciência, arte e [Senso Comum!] da Magick.

Amor é a lei, amor sob vontade.



  1. Leia Os Dicursos de Epiteto. Epiteto (55-135 AC) foi um ex-escravo que se tornou um filósofo estoico. ↩︎

  2. «Refere-se à ordem onde este artigo foi apresentado.» ↩︎

  3. Leia o Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas de Dale Carnegie. ↩︎


Traduzido por Alan Willms