O Neófito

Um capítulo de O Templo do Rei Salomão

Crowley entra para a Ordem Hermética da Aurora Dourada.

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O Neófito

Foi em 18 de novembro de 1898, pela indicação de Fra. V. N., e sob sua orientação, que P. entrou na Ordem Hermética da Aurora Dourada[1], e tornou-se um Neófito no Grau de 0=0 na Externa.

Pode ser de algum interesse para o leitor, e também, de certa forma, ajudar a elucidar o presente capítulo, se for feito primeiramente um breve relato da origem dessa ordem. Mas será entendido que o seguinte esboço histórico, bem como os relatos que estamos prestes a dar dos próprios rituais, são muito abreviados e resumidos. Quando afirmamos isso, os manuscritos reais em nossa posse em relação à A∴ D∴ ocupam cerca de mil e duzentas páginas e contêm mais de um quarto de milhão de palavras.

O relato oficial da A∴ D∴ (provavelmente ficção) conhecido como “A Palestra Histórica”, escrita e entregue pela primeira vez por Fra. Q. S. N., discorre da seguinte forma:

“A ordem da A∴ D∴  na Externa é uma Sociedade Hermética que ensina a Ciência Oculta ou Magia de Hermes. Por volta de 1850, vários chefes franceses e ingleses faleceram e o trabalho do Templo foi interrompido. Tais chefes eram Eliphas Levi, Ragon, Kenneth R. H. Mackenzie e Fred Hockley. Estes receberam seu poder de predecessores ainda maiores, que são atribuídos aos Fratres Rosa (sic) Crucis da Alemanha. Valentine Andrea (opera A.D. 1614) deu um relato esotérico da S. R., provavelmente ele também editou o ‘Fama Fraternitatis’[2] ou ‘A História da Sociedade’, que deve ter sido derivada dos antigos registros dos pupilos de C. R.[3]

“A primeira ordem é um grupo de quatro graus: a segunda ordem é um grupo de três graus de adeptado.

“Acima de todos estão aqueles grandes governantes que sustentam e governam severamente a Terceira Ordem, que inclui Três Títulos Mágicos de honra e supremacia; em caso de vacância, o 7=4 mais avançado[4] obtém por decreto a recompensa merecida. Os graus da primeira ordem são de esquema hebraico; os da segunda, cristão.

“Os Rituais e Segredos são recebidos dos Grandemente Honrados Chefes…”

O relato dado no primeiro parágrafo pode ou não estar correto; e a seguinte “Lição de História” escrita por um irmão da Ordem da A∴A∴ lança uma luz considerável sobre a origem da Sociedade acima; e o que nos interessa ainda mais é que menciona P. e sua ruptura final com a Ordem da Aurora Dourada. Ela discorre da seguinte forma:

“Alguns anos atrás, alguns manuscritos cifrados foram descobertos e decifrados por certos estudantes[5]. Eles atraíram muita atenção, pois supostamente procediam dos Rosa-cruzes. Você compreenderá prontamente que a autenticidade da afirmação não tem importância, sendo tal literatura julgada por si só, não por suas fontes de renome.

“Entre os manuscritos havia um que fornecia o endereço de uma determinada pessoa na Alemanha, que é conhecida por nós como S.D.A.[6]. Aqueles que descobriram as cifras escreveram para S.D.A. e, de acordo com as instruções recebidas, uma Ordem foi fundada, funcionando de maneira semi-secreta.

“Depois de algum tempo, S.D.A. faleceu: pedidos posteriores de ajuda receberam uma recusa imediata dos colegas de S.D.A. Foi escrito por um deles que o plano de S.D.A. sempre foi visto com desaprovação. Mas como a regra absoluta dos adeptos é nunca interferir com o juízo de qualquer outra pessoa, seja lá quem for — quanto mais, então, um deles mesmos, e alguém tão grandemente reverenciada! — eles se abstiveram de opor-se ativamente. O adepto que escreveu isso acrescentou que a Ordem já possuía conhecimento suficiente para possibilitar que ela ou seus membros formulassem uma ligação mágica com os adeptos.

“Pouco depois disso, alguém chamado S.R.M.D.[7] anunciou que havia formulado tal ligação, e que ele e outros dois governariam a Ordem. Rituais novos e revisados foram emitidos, e conhecimento revigorado fluiu em rios.

“Devemos omitir as manipulações infelizes que caracterizaram o próximo período. Em todo caso se provou impossível elucidar os fatos complexos.

“Portanto, nós nos contentamos em observar que a morte de um de seus dois colegas[8], e a fraqueza do outro[9], asseguraram a S.R.M.D. a autoridade única. Os rituais eram elaborados, embora suficientemente eruditos, em absurdos loquazes e pretensiosos: o conhecimento se mostrou sem valor, mesmo onde estava correto: pois é em vão que pérolas, mesmo que sejam tão claras e preciosas, são dadas aos porcos.

“Os ordálios foram menosprezados, sendo impossível a qualquer um falhar neles. Candidatos inadequados foram admitidos sem uma razão melhor do que a de sua prosperidade mundana.

“Em resumo, a Ordem falhou em iniciar.

“Escândalo surgiu e com ele cisma.

“Em 1900, certo P.[10], um irmão, instituiu um teste rigoroso para S.R.M.D. por um lado, e para Ordem por outro. …”

Aqui devemos deixar a “Lição”, retornando a ela em seu devido lugar, e depois de explicar “o Diagrama dos Caminhos e os Graus”, tratar do Ritual do Grau 0=0 de Neófito.


Diagrama 2. Os Caminhos e Graus.

Ficará imediatamente claro para o leitor que o Diagrama dos Caminhos é simplesmente a Árvore da Vida Sephirótica comum, combinada com os trunfos do Tarô, as vinte e duas letras do alfabeto hebraico, os trinta e dois caminhos do Sepher Yetzirah, os signos do Zodíaco, e os símbolos dos planetas e dos elementos.

O seguinte relato foi tirado da cópia nº 2 de S.A. do “Ritual dos 24º, 25º e 26º Caminhos que levam da Primeira Ordem da A∴D∴ na externa para o 5=6, na fala do Adepto Associado:

“Diante de você, sobre o Altar, está o diagrama das Sephiroth e dos Caminhos que você já conhece bem, tendo marcado nele o grau da ordem correspondente a cada Sephira, e os Trunfos do Tarô apropriados a cada Caminho.

“Você notará ainda que a Primeira Ordem inclui: Malkuth, correspondendo a Neófito e Zelator, e o elemento terra. Yesod a Theoricus e ar. Hod a Practicus e água. E Netzach a Philosophus e fogo.

“Destes, somente os últimos Três Graus se comunicam com a Segunda Ordem, embora dela cortados por um véu que só pode ser afastado por Convite da Segunda Ordem para o Philosophus que tenha passado nos cinco exames simbólicos dos cinco elementos e dos cinco Caminhos que conduzem da Primeira Ordem a eles, e que tenha sido devidamente aprovado pelos Poderes Superiores.

“Os Três graus da Segunda Ordem são intitulados: Adeptus Minor, ou Adepto Menor, 5=6 correspondendo a Tiphereth, o Reconciliador, no meio da Árvore Sephirótica. Adeptus Major, ou Adepto Maior, 6=5 correspondendo a Geburah. E Adeptus Exemptus, ou Adepto Isento, 7=4 correspondendo a Chesed”.



  1. «“Hermetic Order of the Golden Dawn” no original.» ↩︎

  2. Consulte “The Real History of the Rosicrucians” de A. E. Waite. ↩︎

  3. A saber, Christian Rosencreutz. ↩︎

  4. Vide Diagrama dos Caminhos e Graus. ↩︎

  5. «William Robert Woodman, William Wynn Westcott e Samuel Liddell McGregor Mathers, três maçons e membros da Societas Rosicruciana in Anglia.» ↩︎

  6. «Sapiens Dominabitur Astris, Anna Sprengel.» ↩︎

  7. «S’Rhiogail Ma Dhream, S. L. MacGregor Mathers (1854-1918)» ↩︎

  8. «William Robert Woodman (1828-1891).» ↩︎

  9. «William Wynn Westcott (1848-1925).» ↩︎

  10. «Perdurabo, Aleister Crowley (1875-1947).» ↩︎


Capítulo traduzido por Alan Willms em dezembro de 2022. Foto de Sergio R. Ortiz no Unsplash.