Prefácio

Pleitear a causa orgânica de um estado de espírito religioso e em seguida refutar a sua pretensão de possuir valor espiritual superior é completamente ilógico e arbitrário, a menos que já tenha sido trabalhada com antecedência alguma teoria psico-física a qual liga os valores espirituais em geral com determinados tipos de alteração fisiológica. Caso contrário, nenhum de nossos pensamentos e sentimentos, nem mesmo nossas doutrinas científicas, nem mesmo as nossas "des"-crenças poderiam reter qualquer valor como revelações da verdade, pois cada um deles, sem exceção, decorre do estado do corpo do seu possuidor no momento.

É desnecessário dizer que o materialismo médico não mostra de fato nenhuma conclusão cética completa. É certo, assim como cada homem simples é certo, que alguns estados da mente são interiormente superiores aos outros, e revelam-nos mais a verdade, e nisto simplesmente faz uso de um julgamento espiritual comum. Não tem nenhuma teoria fisiológica da produção desses estados que é favorita, pelo qual possa sancioná-los; e sua tentativa de desacreditar os estados que não gosta, vagamente associando-os com os nervos e o fígado e conectando-os com nomes que conotam aflições corporais é completamente ilógico e incoerente.

Prof. William James

E foi-me dado uma vara semelhante a um bastão: e chegou o anjo, dizendo: Levanta-te, e mede o templo de Deus e o altar, e os que nele adoram.

--- Apoc. xi. 1.

A Questão

Ave!

Deve ter havido um momento na vida de cada estudante dos mistérios em que ele fez uma pausa durante a leitura da obra ou da vida de algum Místico famoso, um momento de perplexidade em que, confuso, voltou-se para si mesmo e perguntou: "Será que este está me dizendo a verdade?"

Ainda mais se esta pancada nos atinge quando estamos voltados para qualquer trabalho comentativo sobre o Misticismo, como "Bases of the Mystic Knowledge" de Recejac, ou "Varieties of Religious Experience" de William James. De fato, até o ponto que a menos que sejamos mais do que normalmente céticos quanto às teorias prolixas que tentam explicar estas afirmações prolixas, somos obrigados a dar as mãos com a grande escola do materialismo médico, o que é muito fundamental na presente hora, e demitir todos os que tiveram um vislumbre de algo que não vemos como detraques , degenerados, neuropatas, psicopatas, hipocondríacos e epiléticos.

Bem, mesmo se o fizermos, esses termos explicam muito pouco, e na maioria dos casos, especialmente quando aplicados aos estados místicos, absolutamente nada; no entanto, eles formam uma lacuna excelente pela qual os ignorantes podem rastejar quando confrontados com uma dificuldade que não tenham a energia ou a inteligência para superar.

Verdadeiramente, o caos absoluto entre todos os sistemas de magia e misticismo que prevaleceu no Ocidente durante os últimos dois mil anos, em parte, senão inteiramente, explica a forma não-crítica em que estes sistemas têm sido tratados por mentes doutra forma críticas.

Ainda hoje, apesar de muitos milhares de anos depois que eles foram escritos inicialmente, encontramos uma maior simplicidade e verdade nos rituais e hinos antigos do Egito e da Assíria do que no emaranhado extraordinário de sistemas que despertou durante os primeiros quinhentos anos da era cristã. E no Oriente, desde a mais remota antiguidade até os dias atuais, os sistemas científicos do iluminismo tem sido praticados diariamente do mais alto ao mais baixo na terra; embora, como consideramos, muito danificado por um sacerdócio ignorante, por superstições absurdas e por uma ciência que se abateu a uma revelação divina ao invés de elevar-se a uma sublime arte.

No Ocidente, por cerca de mil e quinhentos anos, o Cristianismo tem influenciado a mente dos homens dos mares Árticos ao Mediterrâneo. A princípio apenas uma das muitas pequenas religiões emergentes, que surgiram como fungos entre os detritos soberbos das religiões do Egito, Babilônia e Grécia, não demorou muito para que (por conta de seus princípios bélicos e da pronfunda natureza mágica de seus ritos 1 ) forçasse sua cabeça e depois os braços acima dos ombros dos seus irmãos mais fracos; e quando uma vez em posição de ataque, intimidou tão completamente todos os concorrentes que aos poucos saiam do interior para fora da Igreja, para salvar a pele machucada das crenças que ainda eram estimadas, foram, para auto-preservação, obrigados a vesti-la no ouropel de verbosidade, em valores selvagens e símbolos e cifras extravagantes; o resultado é o caos que se acumulou sobre o caos, até que todos os sentidos tornaram-se envoltos em um obscurantismo truculento. Ainda assim, por quem tem olhos é que vai ser visto que através de toda essa escuridão foi que brilhou o glamour de uma grande e bonita Verdade.

Pouco é de se admirar, então, nesses dias atuais superficialmente intelectuais, que quase qualquer um que tenha estudado, ou sequer ouvido falar, nas teorias de qualquer ninguém famoso do momento, uma vez relega ao museu ou ao cesto de papéis essas teorias e sistemas, que eram o próprio sangue do mundo, e que na verdade são tão quietas, embora alguns poucos suspeitem delas.

Verdade é Verdade; e a Verdade de ontem é a Verdade de hoje, e a Verdade de hoje é a Verdade de amanhã. Nossa missão, então, é descobrir a Verdade, e atingir o miolo a partir da casca, o texto a partir do comentário.

Começar do princípio parece ser o curso adequado a adotar; mas se começarmos a peneirar o cascalho da areia com o ano de 10.000 AC, há uma pequena probabilidade de nunca chegar-mos a uma distância mensurável dos dias atuais. Felizmente, para nós, não precisamos começar com qualquer período anterior ao nosso, ou sobre qualquer assunto fora das nossas verdadeiras naturezas. Mas duas coisas nós devemos aprender, se quisermos nos tornar inteligíveis para os outros, e estas são, em primeiro lugar um alfabeto e, em segundo uma linguagem em que possamos expressar nossos pensamentos; pois sem um sistema definido de expressão do nosso curso, somente podemos permanecer em silêncio, com medo de mais confusão ser adicionada ao caos já desconcertante.

Isso será ao menos uma vez dito por qualquer um que tenha lido essa medida: "Eu lanço-lhe qualquer chance de que o escritor deste livro irá provar ser o primeiro transgressor" E com toda a humildade vamos o declarar de uma vez culpado deste delito. Infelizmente é assim, e deve em primeiro lugar ser assim; ainda se no final conseguirmos criar apenas a primeira letra do novo Alfabeto, nós não deveremos considerar que falhamos; longe disso, pois nos alegraremos disso, o limite emaranhado foi ultrapassado, o objetivo, embora distante, está finalmente à vista.

Em um hospital, uma ficha é normalmente mantida para cada paciente, sobre a qual pode ser visto o progresso exato, desde o início do caso em questão. Com isso o médico pode avaliar diariamente o crescimento ou declínio da doença contra a qual está lutando. Na quinta-feira, digamos, a temperatura do paciente era de 38°; à noite é dado a ele um copo de caldo de carne (o paciente até o momento tinha sido estritamente mantido sobre uma dieta do leite); na manhã seguinte o médico descobre que sua temperatura subiu para 40°, e logo conclui que a febre ainda não foi suficientemente abatida pela mudança definitiva da dieta a ser adotada, e que, "tirando fora" o caldo de carne, abaixa a temperatura.

Assim, se ele é digno de ser um médico, vai estudar seu paciente, nunca esquecendo dos detalhes aparentemente mais insignificantes que podem ajudá-lo a realizar o seu objettivo, ou seja, recuperação e saúde.

Este sistema de apuramento não se aplica somente aos casos de doenças e enfermidades, mas a todos os ramos de vida saudável, bem como, sob o nome de "negócios"; o melhor homem de negócios é aquele que reduz a sua ocupação especial na vida de "trapalhada" para "ciência".

Na religião ocidental nada nunca surgiu sozinho a partir do caos; e a hora, ainda que seja tarde, quando atingida, sem medo ou tremor adeptos surgiram para fazer para a Fé o que Copérnico, Kepler e Newton fizeram para o que é conhecido vulgarmente como "Ciência". E como a Fé, envelhecendo antes do seu dia, retirou a Ciência com uma mão cruel, então vamos agora, enquanto a Ciência ainda é jovem, avançar rapidamente e reivindicar os nossos direitos, ao invés de nos determos se nós também encontramos a criança da Manhã mais uma vez estrangulada no estômago de uma segunda Noite.

Agora, até mesmo como ainda meros estudantes nos mistérios, já deve ter ficado evidente que há momentos na vida dos outros, se não em suas próprias, que trazem consigo um enorme senso de autoridade interna e iluminação; momentos que criaram épocas em nossas vidas, e que, mesmo quando eles acabam, destacam-se como picos luminosos no luar do passado. É triste dizer, eles vêm, mas raramente, tão raramente que muitas vezes eles são observados como visitas milagrosas de algum grande e vasto poder muito além e externo a nós. Mas quando eles vêm, as maiores alegrias da terra murcham diante deles como folhas secas no fogo, e desaparecem do firmamento das nossas mentes como as estrelas da noite perante o sol nascente.

Agora, se fosse possível induzir esses estados de êxtase ou alucinação, ou qualquer coisa pelo qual queira chamá-los, por assim dizer, deveríamos ter realizado o que foi chamado uma vez e que ainda é conhecido como a Grande Obra, e ter descoberto a Pedra do Sábio, esse dissolvente universal. O sofrimento cessaria e daria lugar à alegria, e a alegria à uma felicidade inimaginável demais para todos os que ainda não a tenham experimentado.

São João da Cruz, escrevendo sobra as "intuições" pelas quais Deus chega à alma, diz:

"Elas nos enriquecem maravilhosamente. Uma única delas pode ser suficiente para eliminar certas imperfeições as quais a alma durante toda a sua vida tem tentado em vão se livrar, e deixá-la decorada com virtudes e carregada com dons sobrenaturais. Uma única dessas consolações intoxicantes pode recompensá-lo por todos os trabalhos submetidos em sua vida --- mesmo que foram inúmeros. Investido com uma coragem invencível, preenchido com um desejo apaixonado de sofrer por seu Deus, a alma, então, é tomada por um estranho tormento --- de não ser permitida a sofrer bastante."2

Nos velhos tempos, quando apenas uma pequena porção do globo havia sido conhecida pelo homem civilizado, o explorador e o viajante voltava para suas casas com estranhas, fantásticas estórias de grandes homens armados, de monstros impossíveis, e terras de fadas prodígias. Mas aquele que viaja agora e acontece de ver um gorila ou uma girafa, ou talvez um vulcão, se esquece de mencionar isso mesmo em sua correspondência mais casual! E por quê? Porque ele aprendeu a compreender o que são essas coisas. Nomeou-los, e, tendo feito isso, para ele acabam como objetos de interesse. Em um aspecto, ele dá a luz à uma grande verdade, que ele ao mesmo tempo cancela dando nascimento a uma grande falsidade; porque a sua reverência, bem como o seu desdém, dependem do valor de um nome.

Não assim, contudo, o adepto; pois um zoólogo não perde o seu interesse na raça símia porque ele aprendeu a chamar um homem peludo de braços longos de gorila; de modo que ele, aprendendo a se explicar com clareza, e a transmitir a imagem de seus pensamentos com precisão para o cérebro de outro, está separando o trigo do joio, a Verdade do Símbolo da Verdade.

Agora, quando São João da Cruz diz-nos que uma única visão de Deus pode recompensar-nos de todos os trabalhos desta vida, estamos em perfeita liberdade, nestes dias tolerantes, para gritar "Sim!" ou "Não!" Podemos ir além: podemos enaltecer São João à posição de segundo George Washington, ou podemos chamá-lo de "mentiroso maldito!" ou, ainda, se não quisermos ser considerados rudes, de "neuropata", ou alguns outros sinônimos igualmente amáveis. Mas nenhuma dessas expressões explica-nos muito bem; todas são igualmente vagas --- ou melhor (curiosas de se relacionar!), até mesmo místicas --- e como tal pertencem ao Reino de Zoroastro, o reino da pura fé: ou seja, a fé em São João, ou a fé em algo oposto a São João.

Mas agora vamos emprestar de Pirro --- o Cético, o homem perspicaz da ciência --- aquela palavra "POR QUê", e aplicá-la ao nosso "Sim" e nosso "Não", tal como um médico pergunta a si mesmo e ao paciente sobre a doença; e muito em breve vamos achar que estamos sendo levados a uma conclusão lógica, ou pelo menos a um ponto em que uma conclusão se torna possível. 3

E a partir deste ponto a labuta do lavrador não deve ser condenada até que chegue a Estação na qual a árvore que plantou dê fruto; então pelos seus frutos deve ser conhecido, e por seus frutos deve ser julgado. 4

"Que direito temos de acreditar na Natureza sob qualquer obrigação de fazer o seu trabalho por meio das mentes completas apenas? Ela pode achar uma mente incompleta um instrumento mais adequado para uma finalidade específica. É o trabalho que foi feito, e a qualidade no trabalhor pelo qual foi feito, que é só de momento; e pode não ser grande do ponto de vista cósmico, se em outras qualidades de caráter ele é singularmente deficiente --- se de fato ele fosse hipócrita, adúltero, excêntrico ou louco. ... Aqui chegamos novamente, então, ao velho e último recurso da certeza, --- nomeadamente o assentimento comum da humanidade, ou da autoridade competente pela instrução e formação entre a humanidade."

"Em outras palavras, não a sua origem, mas a maneira em que trabalha sobre tudo é o teste final de uma crença de Dr. Maudsley. Este é o nosso próprio critério empirista; e esse critério foi o mais arrogante e insistente na origem sobrenatural onde têm sido forçado a usar no final." --- "The Varieties of Religious Experience", págs. 19, 20.

Colocando vulgarmente, "a prova do pudim está em comê-lo", e é pura perda de tempo censurar o cozinheiro antes de provar do seu prato.

Esta aplicação da palavra "Por quê" é o longo e o curto do que foi chamado de Iluminismo Científico, 5 ou a ciência de aprender a não dizer "Sim" até saber que é SIM, e como não dizer "Não" até que você saiba que é NÃO. É a palavra mais importante de nossas vidas, a pedra angular do Templo, a pedra-chave da abóboda, o mangual que bate o trigo do joio, a peneira por onde passa e Falsidade e onde permanece a Verdade. É, de fato, o equilíbrio da balança, o gnômon do relógio de sol, o que, se aprendemos a ler corretamente, vai nos dizer em que hora de nossas vidas nós chegamos.

Através da falta disso os reinos que caíram em decadência e por isso os impérios foram criados; e seu inimigo temido é a necessidade de "dogma".

Logo, quando um homem começa a dizer "Sim" sem a pergunta "Por quê?" ele se torna um dogmático, um mentiroso potencial, se não um real. E é por isso que somos tão radicalmente opostos à utilização de palavras tão contundentes contra o racionalista atual 6 quando o atacamos. Pois vemos que ele está fazendo por Darwin, Huxley, Spencer o que os primeiros Cristãos fizeram por Jesus, Pedro e Paulo; e isto é, que ele, já tendo os idealizado, está agora no ato de idolatrá-los. Logo, se não atacados, sua palavra se tornará A PALAVRA , e no lugar do "Livro do Gênesis" teremos a "Origem das Espécies", e no lugar do cristão aceitar como verdade a palavra de Jesus teremos o racionalista aceitando como Verdade a palavra de Darwin.

Mas e quanto ao verdadeiro homem da ciência? você diz; aqueles homens dúbios que silenciosamente trabalham em seus laboratórios, sem aceitar a teoria, não importa quão maravilhosa seja, até que a teoria tenha dado à luz ao fato. Concordamos --- mas e quanto aos Magos? nós respondemos; os poucos fragmentos de cuja sabedoria escaparam das chamas cristãs serão aos olhos de todos os homens como uma maravilha. Foram os cristãos que mataram a magia de Cristo, e assim será, se eles estão autorizados a viver, os Racionalistas que matarão a magia de Darwin; de modo que daqui há quatrocentos anos, portanto, por acaso algum discípulo de Lamarck será despedaçado nas salas da Royal Society pelos seguidores de Haeckel, assim como Hypatia, o discípulo de Platão, foi feito em pedaços na Igreja de Cristo pelos seguidores de S. João.

Nós não temos nada a dizer contra os homens de ciência, não temos nada a dizer contra os grandes místicos --- toda saudação para ambos! Mas de seus seguidores que aceitaram as doutrinas de um ou outro como um dogma, nós aqui pronunciamos abertamente que são uma desgraça, uma maldição e uma peste para a humanidade.

Por que supor que apenas um sistema de ideias pode ser verdadeiro? E quando você responder a esta questão, haverá tempo suficiente para assumir que todos os outros sistemas estão errados. Comece com uma folha limpa, e escreva de forma clara e bonita sobre ela, para que outros possam lê-la corretamente; não comece com palimpsestos velhos, para depois escrever tudo sobre ele de qualquer jeito, pois então certamente outros virão com a pronta certeza de que você distorceu.

Se Osíris, Cristo e Maomé eram loucos, então realmente é uma loucura a chave para a porta do Templo. Ainda se só fossem chamados de louco por serem sábios além da sanidade, então lhe pergunto por que suas doutrinas trouxeram com eles os crimes de intolerância e os horrores da loucura? E a nossa resposta é que, embora eles tenham amado a Verdade e se casado com a Verdade, eles não podiam explicar a Verdade, e os seus discípulos, portanto, tiveram de aceitar os símbolos da Verdade como Verdade, sem a possibilidade de perguntar "Por quê?" ou então rejeitam totalmente a Verdade. Assim aconteceu que, quanto maior o Mestre, menos ele foi capaz de explicar a si mesmo, e quanto mais obscuras as suas explicações mais escurecidas tornaram-se a mente dos seus seguidores. Era a velha história da luz que cega a escuridão. Você pode ensinar um colono a somar um mais um, e ele pode, depois de algum ensinamento, alcançar a idéia de "dois"; mas não tente ensinar-lhe o cálculo diferencial! O primeiro pode ser comparado ao estudo das ciências físicas, sendo as últimas a das mentais; pois tudo o mais devemos perseverar para elaborar corretamente as aparentemente mais absurdas diferenças infinitesimais, e talvez um dia, quando tivermos aprendido a adicionar uma unidade à outra, um milhão e uma milionésima parte de uma unidade será nossa.

Concluiremos agora esta parte do nosso prefácio com duas longas citações do excelente livro de professor James; a primeira das quais, um pouco resumida, é a seguinte:

"É o terror e a beleza do fenômeno, a "promessa" do alvorecer e do arco-íris, a "voz" dos trovões, a "gentileza" da chuva de verão, a "sublimidade" das estrelas, e não as leis físicas que estas coisas se seguem, pelo qual a mente religiosa continua a ser muito impressionada; e assim como de outrora o homem devoto diz-lhe que na solidão de seu quarto ou dos campos ele ainda sente a presença divina, e que os sacrifícios a essa realidade invisível o preenchem de segurança e paz.

"Anacronismo puro! diz a teoria da sobrevivência; --- anacronismo para os quais deantropomorfização da imaginação é o remédio necessário. A menos que misturemos o privado com o cosmos, quanto mais vivemos no universal em termos impessoais, mais verdadeiros herdeiros da Ciência nos tornamos.

"Apesar do apelo que essa impessoalidade da atitude científica faz a uma certa magnanimidade de temperamento, eu acredito que ela seja superficial, e posso agora manifestar minha razão em relativamente poucas palavras. Essa razão é que, enquanto lidamos com o cósmico e o geral, lidamos apenas com os símbolos da realidade, mas assim como lidamos com o pessoal e fenômenos particulares, como tal, lidamos com realidades no mais completo sentido do termo. Eu acho que posso facilmente tornar claro o que quero dizer com estas palavras.

"O mundo de nossa experiência consiste em todos os momentos de duas partes, uma objetiva e uma subjetiva, das quais a primeira pode ser incalculavelmente mais vasta do que a última, e ainda assim esta última nunca deve ser omitida ou suprimida. A parte objetiva é a soma de tudo a qualquer momento do que podemos estar pensando, a parte subjetiva é o "estado" interior onde o pensamento venha a acontecer. O que nós pensamos pode ser enorme -- os tempos e espaços cósmicos, por exemplo --- enquanto que o estado interno pode ser a atividade da mente mais evasiva e mais insignificante. No entanto, os objetos cósmicos, tanto quanto a experiência lhes proporcionou, são apenas imagens de algo ideal cuja existência não possuimos interiormente, mas apenas um ponto no exterior, enquanto o estado interior é a nossa própria experiência em si; a sua realidade e a de nossa experiência são uma. Um campo de consciência mais seu objeto conforme sentido ou pensado mais uma atitude em relação ao objeto mais o sentido de um self a quem pertence a atitude concreta --- tal pedaço concreto de experiência pessoal pode ser um pequeno pedaço, mas é um pedaço sólido enquanto durar; não oco, não um mero elemento abstrato da experiência, tal como é o 'objeto' quando tomado sozinho. É um fato completo , mesmo que seja um fato insignificante, é do tipo ao qual todas as realidades devem pertencer, não importa qual; as correntes do motor do mundo atravessam o gosto dela, ela está na linha conectando eventos reais com eventos reais. Esse sentimento não compartilhável que cada um de nós tem de arrancar do seu destino individual como ele se sente privado rolando na roda da fortuna pode ser desvirtuado por seu egoísmo, pode ser menosprezado como não científico, mas é a única coisa que enche a medida da nossa realidade concreta, e qualquer suposta existência que faltasse com esse sentimento, ou seu análogo, seria um pedaço da realidade apenas pela metade.

"Se isso for verdade, é um absurdo para a ciência dizer que os elementos egoísticos da experiência devem ser suprimidos. O eixo da realidade é executado unicamente através dos lugares egoísticos --- eles são amarrados em cima dele como muitas pérolas. Para descrever o mundo com todos os diversos sentimentos da pinça individual do destino, deixar todas as diversas atitudes espirituais de fora da descrição --- elas serão tão descritíveis como qualquer outra coisa --- seria algo como oferecer um canhoto impresso da tarifa como o equivalente de uma refeição sólida. A religião não faz tais disparates... Um canhoto de tarifa junto com uma uva passa real em vez do termo "uva passa" e um ovo de verdade em vez da palavra "ovo" pode ser uma refeição inadequada, mas ao menos seria um começo da realidade. A afirmação da teoria de sobrevivência de que devemos manter a elementos não pessoais parece dizer exclusivamente que devemos estar sempre satisfeitos com a mera leitura do canhoto de tarifa. ... Isto não procede, porque os nossos antepassados cometeram tantos erros de fato e os misturaram com sua religião, que devemos deixar de ser religiosos. Sendo religiosos nós nos estabelecemos na posse da realidade última apenas nos pontos em que a realidade nos é dada a guarda. Nossa preocupação responsável é com o nosso destino privado, apesar de tudo." 7

"Em seguida devemos passar além do ponto de vista da utilidade meramente subjetiva, e fazer inquérito sobre o conteúdo intelectual propriamente dito.

"Primeiro, há, sob todas as discrepâncias dos credos, um núcleo comum para que o seu testemunho seja unânime?

"E em segundo lugar, devemos considerar verdadeiro o testemunho?

"Tomarei a primeira pergunta, e responder-lhe-ei imediatamente em afirmativo. Os deuses e fórmulas em guerra das várias religiões de fato se anulam, mas há uma certa libertação uniforme em todas as religiões que aparentam se encontrar. Ela consiste de duas partes:

"(1) Uma inquietude; e

"(2) Sua solução.

"1. A inquietude, reduzida a seus termos mais simples, é uma sensação de que há algo errado conosco como nós naturalmente sustentamos.

"2. A solução é a sensação de que somos salvos do erro fazendo a conexão apropriada com os poderes superiores.

"Nestas mentes mais desenvolvidas que estamos estudando, o erro tem um caráter moral, e a salvação tem um tom místico. Acho que deve manter-se bem dentro dos limites do que é comum a todas as mentes do tipo se formularmos a essência de sua experiência religiosa em termos como estes:

"O indivíduo, na medida em que ele sofre com seu erro e o critica, está para essa medida conscientemente além dela, e ao menos em possível contato com algo superior, se algo superior existir. Junto com a parte errada existe, portanto, uma parte melhor dele, ainda que apenas seja o germe mais impotente. Com qual parte ele deve identificar seu ser real não é de forma alguma evidente nesta fase; mas quando a Fase 2 (fase de solução ou salvação) chega, o homem identifica seu verdadeiro ser com a parte superior germinal de si mesmo; e o faz da seguinte forma: Ele se torna consciente de que esta parte superior é coincidente e contínua com MAIS da mesma qualidade, que está em operação no universo fora dele, e que ele pode se manter em contato prático, de forma a ficar a bordo e salvar a si mesmo quando todo o seu ser inferior for despedaçado no naufrágio " 8 .

Essas últimas linhas trazem-nos face a face com o tema deste volume, a saber: ---

Frater P.

Para entrar em um assunto um tanto irrelevante, isso é o que realmente aconteceu com o compilador do livro:

Por dez anos ele tinha sido um cético, na medida em que o sentido da palavra geralmente é transmitido pelos termos infiel, ateu e livre pensador; de repente, num único momento, retirou todo o ceticismo com o qual ele havia atacado a religião, e arremessou-o contra o livre-pensamento em si; e como o anterior havia sido reduzido a pó, agora o último desapareceu na fumaça.

Neste momento de crise não havia doença da alma, nenhuma divisão de si; pois ele simplesmente virou uma esquina no caminho pelo qual ele estava viajando e, de repente, tornou-se ciente do fato de que a gama poderosa de montanhas cobertas de neve sobre a qual ele tinha até agora imaginado que ele estava olhando, afinal de contas, era um grande acumulo de nuvens. Então ele passou a sorrir a si mesmo à sua própria ilusão infantil.

Pouco depois ele se familiarizou com um certo irmão da Ordem da A∴A∴, e ele mesmo um pouco mais tarde tornou-se um iniciado no primeiro grau dessa Ordem.

Nesta Ordem, no momento de sua adesão, estava certo irmão de nome P., que só tinha acabado de voltar da China, e que tinha sido seis anos antes enviado pela Ordem para viajar através de todos os países do mundo e recolher todo o conhecimento possível no tempo que aflorava as experiências místicas da humanidade. Este P. fez o melhor de sua habilidade, e se ele tivesse apenas peregrinado na Europa, no Egito, Índia, Ceilão, China, Birmânia, Arábia, Siam, Tibete, Japão, México e Estados Unidos da América, assim tão profundo foi o seu estudo e tão exaltado foi o seu entendimento que foi considerado pela Ordem que ele já havia recolhido material e depoimentos o suficiente sobre os quais compilar um livro para a instrução da humanidade. E, como Frater N.S.F. era um escritor de alguma habilidade, os diários e observações de Frater P. foram dados a ele e um outro, e eles foram encarregados de a arruma-los juntos de tal maneira que eles se tornassem um auxílio ao candidato nos mistérios, e seria como uma taverna em uma estrada cercada de muitos perigos e dificuldades, onde o viajante pode encontrar bom ânimo e vinho que fortalece e restaura a alma.

Portanto, é sinceramente esperado que este livro se torne como um refúgio para todos, onde um guia pode ser contratado ou instruções livremente procuradas; mas o candidato é solicitado --- ou melhor, ordenado --- com toda a devida solenidade pela Ordem da A∴A∴ a não aceitar nada como Verdade até que ele tenha provado que assim seja, para sua própria satisfação e para a sua própria honra.

E é ainda esperado que ele possa, ao fechar este livro, ser um pouco iluminado, e, mesmo que através de um vidro escuro, ver a grande sombra da Verdade além, e um dia entrar no Templo.

Chega deste assunto; agora vamos ao objeto deste volume:

O Augoeides. 9

"Lytton o chama de Adonai em 'Zanoni', e muitas vezes eu uso este nome nos cadernos de anotações.

"Abramelin o chama de Sagrado Anjo Guardião. Eu o adoto:

"1. Porque o sistema de Abramelin é muito simples e eficaz.

"2. Porque uma vez que todas as teorias do universo são absurdas, é melhor falar na língua de uma que seja manifestamente absurda, de modo a mortificar o homem metafísico.

"3. Porque uma criança pode entender.

"Teósofos o chamam de Eu Superior, Vigilante Silencioso, ou Grande Mestre.

"A Golden Dawn o chama de Gênio.

"Gnósticos dizem o Logos.

"Zoroastro fala sobre unir todos esses símbolos na forma de um Leão --- veja os Oráculos Caldeus. 10

"Anna Kingsford o chama de Adonai (Vestido com o Sol). Budistas o chamam de Adi-Buda --- (diz H.P.B.)

"O Bhagavad-Gita o chama de Vishnu (Capítulo XI).

"O I Ching o chama de "A Grande Pessoa."

"A Cabala o chama de Jechidah.

"Nós começamos também a análise metafísica da Sua natureza, mais e mais profundamente de acordo com a sutileza do escritor; pois esta visão --- tudo isso é um mesmo fenômeno, variadamente colorido por nossos variados Ruachs 11 --- é, acredito, a primeira e a última de todas as Experiências Espirituais. Pois apesar de que Ele seja atribuído a Malkuth, 12 e à Porta do Caminho de Sua ofuscação, Ele também está em Kether (Kether está em Malkuth e Malkuth em Kether --- "como acima, assim é abaixo"), e ao Fim do "Caminho dos Sábios" está a identidade com Ele.

"Assim que, enquanto ele é o Sagrado Anjo Guardião, Ele também é Hua 13 e o Tao. 14

"Pois uma vez que Intra Nobis Regnum deI 15 todas as coisas são em Nós mesmos, e toda a Experiência Espiritual é uma Revelação mais ou menos completa Dele.

"Embora seja apenas no Pilar do Meio 16 que a Sua manifestação é de qualquer modo perfeita.

"A invocação do Augoeides é tudo. Só que é muito difícil; alguns vão através de todos os cinquenta portões de Binah 17 de uma só vez, mais ou menos iluminados, mais ou menos iludidos. Mas o Primeiro e o Último é esta Invocação do Augoeides".

O Livro

Este Livro está dividido em quatro partes:

  1. Os Alicerces do Templo.
  2. Os Andaimes do Templo.
  3. O Portal do Templo.
  4. O Templo do Rei Salomão.

Três métodos de expressão são utilizadas para iluminar e instruir o leitor:

  1. Símbolos pictóricos.
  2. Descrições expressas metaforicamente.
  3. Fatos expressos cientificamente.

O primeiro método se encontra anexado a cada um dos quatro Livros, equilibrando, por assim dizer, Iluminismo e Ciência.

O segundo método é encontrado quase que exclusivamente no primeiro Livro e as várias imagens são intituladas: 18

  • A Torre-de-Vigia Negra, ou o Sonhador.
  • O Avarento, ou o Deísta.
  • O Perdulário, ou o Panteísta.
  • O Falido, ou o Ateu.
  • O Hipócrita, ou o Racionalista.
  • A Criança, ou o Místico.
  • O Perverso, ou o Incrédulo.
  • O Escravo, ou aquele que está diante do véu da Corte Exterior.
  • O Guerreiro, ou aquele que está diante do véu da Corte Interior.
  • O Rei, ou aquele que está diante do véu do Abismo.
  • A Torre-de-Vigia Branca, ou o Iluminado.

O terceiro método é encontrado quase totalmente no segundo Livro.

O terceiro e quarto Livros deste ensaio consistem em imagens puramente simbólicas. Pois a Chave do Portal o neófito deve descobrir por si mesmo; e até que ele encontre a Chave o Templo do Rei Salomão deve permanecer fechado para ele.

Vale!

1 O Cristianismo Primitivo teve uma adaptaptabilidade maior do que qualquer outra religião contemporânea de assimilar para si tudo o que era mais particularmente pagão no politeísmo; o resultado é que ele ganhou existência sobre as grandes massas do povo, que então era, como agora, de natureza conservadora.

2 "OEuvres", ii. 320. Prof William James escreve: "Os grandes místicos espanhóis, que carregam o hábito de êxtase na medida em que tem sido muitas vezes realizado, aparentam, na maior parte, ter mostrado espírito e energia indomáveis, tanto mais para os transes em que se afundam."

Escrevendo sobre Santo Inácio, ele diz: "Santo Inácio foi um místico, mas seu misticismo fez dele seguramente um dos mais poderosos motores das práticas humanas que já existiu" (The Varieties of Religious Experience", p. 413).

3 "No âmbito das ciências naturais e artes industriais isso nunca ocorre a qualquer um ao tentar refutar as opiniões mostrando-se o temperamento neurótico de seus autores. As opiniões aqui estão, invariavelmente, testadas pela lógica e pela experimentação, não importa qual seja o tipo neurológico de seu autor. Não deveria ser diferente com as opiniões religiosas." --- "The Varieties of Religious Experience", págs. 17, 18.

4 "Dr. Maudsley talvez seja o mais inteligente dos refutadores da religião sobrenatural em fundamentos de origem. No entanto, ele se vê forçado a escrever ("Natural Causes and Supernatural Seemings" ("Causas Naturais e Aparências Sobrenaturais"), 1886, págs. 256, 257)

5 Ou Pirro-zoroastrismo.

6 "Nós temos que confessar que a parte dela [vida mental] de que o racionalismo pode dar conta é relativamente superficial. É a parte que tem o prestígio, sem dúvida, pois ela tem a loquacidade, pode desafiá-lo a provar, e talhar a lógica, e colocá-lo abaixo com palavras. Mas vai falhar em convencer ou converter a todos, se suas mudas intuições se opõem às suas conclusões. Se você tem intuições em tudo, elas vêm de um nível mais profundo de sua natureza que o nível loquaz em que o racionalismo habita. "---"The Varieties of Religious Experience", p. 73.

7 "The Varieties of Religious Experience", pags. 498-501.

8 "The Varieties of Religious Experience", pags. 498-501.

9 De uma carta de Frater P.

10 "Um Fogo fulgurante similar estendendo-se através das precipitações de Ar, ou um Fogo informe de onde vem a Imagem de uma Voz, ou mesmo uma pulsante Luz abundante, revolvendo, girando para fora, clamando. Também há a visão do fulgurante Corcel de Luz, ou ainda uma Criança, levada sobre os ombros do Corcel Celestial, ardente, ou vestido de ouro, ou nu, ou disparando flechas de Luz com arco, e em pé sobre os ombros do cavalo; então, se tua meditação se prolonga, hás de unir todos esses símbolos na Forma de um Leão".

11 Ruach: a terceira forma, a Mente, o Poder de Raciocínio, que possui o Conhecimento do Bem e do Mal.

12 Malkuth: a décima Sephira.

13 O supremo e secreto título de Kether.

14 O grande extremo do I Ching.

15 I.N.R.I.

16 Ou "Suavidade", o pilar à direita sendo o da "Misericórdia", e o da esquerda "Justiça". Trata-se da Árvore da Vida Cabalística.

17 Binah: a terceira Sephira, a Compreensão. Ela é a Mãe Suprema, distinta de Malkuth, a Mãe Inferior. (Nun) é atribuída ao entendimento, e seu valor é 50. Vide "O Livro do Mistério Oculto", seção 40.

18 Nove fotos entre Trevas e Luz, ou onze no total. A união do Pentagrama e do Hexagrama é de se notar; também o nome de onze letras ABRAHADABRA; 418; Achad Osher, ou Um e Dez; as Onze Sephiroth Inversas; e Adonai.


Traduzido por Phelipe Balisa, Helusa Soares e Guthiere Felix.

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