Riso

Um capítulo de: Pequenos Ensaios em Direção à Verdade

O senso de humor como uma salvaguarda na senda.

Riso

O defeito comum de todos os sistemas místicos, anteriores àqueles do Êon cuja Lei é Thelema, é que não havia lugar para o Riso. Mas a tristeza da Mãe enlutada e a melancolia do Homem moribundo são varridos para o limbo do passado pelo sorriso confiante da Criança imortal.

E na carreira do Adepto de Hórus não há Visão mais crítica do que a Piada Universal.

Nesse Transe ele aceita completamente a Fórmula de Osíris, e no ato transcende-a; a lança do Centurião passa inofensivamente por seu coração, e a espada do Executor ataca preguiçosamente seu pescoço. Ele descobre que a Tragédia que foi exagerada durante tantos séculos é apenas uma farsa para entreter as crianças. Punch[1] é derrubado apenas para se levantar sorrindo com seu alegre “Rut-tu-tu-tit! Nós aqui de novo!” Judy, Beadle, Hangman e o Diabo são apenas os companheiros de sua brincadeira.

Assim, uma vez que (afinal de contas) os fatos que ele considerava trágicos são bastante reais, a essência de sua solução é que eles não são verdadeiros, como ele pensava, sobre si; eles são apenas um conjunto de fenômenos, tão interessantes e tão impotentes para afetá-lo quanto qualquer outro conjunto. Sua dor pessoal devia-se à sua insistência apaixonada em contemplar um insignificante conglomerado de Eventos como se fosse a única realidade e importância na massa infinita da Manifestação.

É assim que a Percepção da Piada Universal conduz diretamente ao Entendimento da Ideia do Self como sendo contíguo ao Universo, e ao mesmo tempo um com ele, criadora dele, e separado dele; cujo Estado Triuno é, como bem se sabe, um dos estágios mais necessários do Samādhi. (É o culminar de um dos dois capítulos mais importantes do Bhagavad Gītā.)

Há mais um mérito neste assunto. A ideia da Crueldade é inerente à do Riso, como foi demonstrado por muitos filósofos; e isto é, sem dúvidas, porque ela foi excluída pelas Escolas Místicas dos tratantes da Piedade de seus currículos monótonos. A única resposta é encolher os ombros em humorístico desprezo. Pois contra esta rocha, e nenhuma outra, todos os seus valentes barcos afundaram um a um em meio aos ἀνήριθμον γέλασμα[2] do Oceano. A natureza é cheia de crueldade; seus pontos mais altos de alegria e vitória são marcados pelo riso. É a verdadeira explosão e relaxamento fisiológicos que o produzem. Notavelmente, drogas como Cannabis Indica e Anhalonium Lewinii, que realmente “soltam as vigas da alma que dão a ela respiração”[3], provocam o riso imediato como um de seus efeitos mais característicos.

Ó, o enorme desprezo completo pelo self limitador que brota do sentimento de gigantesca desproporção percebido por este Riso! Ele realmente mata, com festins canibais dos mais alegres, aquele azedo missionário de capa preta, o sério Ego, e o coloca na panela. Rá-rá! — a Voz da Civilização — o Mensageiro do Deus do Homem Branco — blup, blup, blup! Jogue outro punhado de sálvia, irmão! E a fumaça com cheiro adocicado eleva-se e vela com requintada sedução tímida os corpos desavergonhados das Estrelas!

Além de tudo isso, por um valor prático — já que as placas de sinalização em todas as curvas do Caminho dos Sábios dizem perigo — ainda que brotando diretamente dele em virtude desse mesmo assassinato do Ego, está o uso do Riso como uma salvaguarda da sanidade. Quão fácil é, para os charlatões da oratória, seduzir o entusiasmo simples da alma! Que ajuda temos a menos que tenhamos a sagacidade de percebê-los como sendo ridículos? Não há limite para o abismo da Idiotice no qual os charlatões nos mergulharam — nosso único reflexo salvador é a piada automática do Senso de Humor!

Robert Browning não estava longe do Reino de Deus quando escreveu:

Alegra-te que o homem seja arremessado
     De mudança a mudança incessantemente,
As asas de sua alma nunca se fecharam

e afinal de contas, há pouco sal no desdém de Juvenal “satur est, cum dīcit Horatius, Evoe”[4]! Pois ainda não há registros de que qualquer homem tenha trazido ajuda ou consolo a seu companheiro através de lamúrias.

Não, a Piada Universal, embora não seja um verdadeiro Transe, é certamente um meio de Graça, e muitas vezes prova o ingrediente principal do Solvente Universal.

De volta para Browning, às bravas últimas palavras que ele escreveu, quando seu relógio marcava oitenta anos:

Cumprimente o não-visto com alegria!
Convide-o, de peito ou de costas, como for.
‘Esforça-te e prospera’ brada ‘Avante — siga lutando, continuamente ‘Lá como aqui!’

Amém.

Se o mundo fosse compreendido
     Vós veríeis que ele era bom,
Uma dança de um ritmo delicado!

Sim! vamos terminar com a mais súbita e surpreendente Palavra de um certo Anjo d’A Visão e a Voz, que deixou o Vidente cair em seu solene Transe com a frase jubilante e alegre — “Mas eu parto dançando!”

As Tábuas da Lei? Bá! Solvuntur tabulae — rīsū[5]!


[1] «Punch and Judy, um show de marionetes britânico.»

[2] «“Inúmeros sorrisos” em grego.»

[3] «Oráculos Caldeus, v. 88. Há uma versão alternativa na Coletânea Hermética de William Wynn Westcott, Editora Madras: “Os principais suportes da Alma, que dão a ela respiração, são fáceis de serem soltos”»

[4] «Latim para “Horácio estava de barriga cheia quando declarou ‘Evohé’!”, um trecho de Juvenal e Persius

[5] «Latim para “as tábuas são quebradas em meio a risos”.»


Traduzido por Alan M. W. Quinot

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