A Cabala: O Melhor Treinamento para a Memória

Este artigo é um capítulo de Magia Sem Lágrimas

Um modo de aprender e construir sua própria Cabala.

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Capítulo IV:
A Cabala:
O Melhor Treinamento para a Memória

Cara Soror,

Faz o que tu queres será o todo da Lei.

Agora você precisa aprender Cabala. Aprenda este Alfabeto da Magia. Você deve aceitá-lo com fé, assim como uma criança aceita o próprio alfabeto dela. Ninguém jamais descobriu por que a ordem das letras é como é. Provavelmente não há uma resposta para isso.

Se você soubesse o que estou endereçando no Yì Jīng! – a ordem dos sessenta e quatro hexagramas. Estou convencido de que ela é extremamente significativa, que implica um sublime sistema filosófico. Já avancei o suficiente para ter certeza de que existe um ritmo necessário; e está me matando aos poucos descobrir por que cada par sucede o anterior. Perdoe estas lágrimas!

Mas o nosso Alfabeto Mágico não é composto primariamente de letras, mas sim de figuras; não de sons, mas sim de ideias matemáticas. Sir Humphrey Davy, ao sair de sua famosa iluminação (com alguma ajuda de óxido nitroso para entrar nela), exclamou: O Universo é composto unicamente de ideias1. Nós, analisando isso um pouco, dizemos: O Universo é uma expressão matemática.

Sir James Jeans poderia ter dito isso, mas seu banqueiro o aconselhou a confiar em Deus. A forma mais simples dessa expressão é 0=2, já amplamente explicada em outros lugares. Esse 2 pode ser expresso de inúmeras maneiras. Todo número primo, incluindo alguns que não pertencem à série dos “números naturais”, é um indivíduo. Os demais números, com talvez algumas exceções (como o 418)2, são compostos por seus primos.

Cada uma dessas ideias pode ser explicada, investigada e compreendida por diversos meios. Em primeiro lugar, os números hebraicos, gregos e arábicos também são letras. Em seguida, cada uma dessas letras é descrita por um dos (arbitrariamente compostos) “elementos da Natureza”: os Quatro (ou Cinco) Elementos, os Sete (ou Dez) Planetas e os Doze Signos do Zodíaco.

Todos esses elementos estão dispostos em um desenho geométrico composto por dez “Sephiroth” (números) e vinte e dois “caminhos” que os unem; isso é chamado de Árvore da Vida.

Toda ideia pode e deve ser atribuída a um ou mais desses símbolos primários; assim, o verde, em diferentes tonalidades, é uma qualidade ou função de Vênus, da Terra, do Mar, de Libra e outros. O mesmo se aplica a ideias abstratas; desonestidade significa “um Mercúrio aflito”, generosidade um Júpiter bom, embora nem sempre forte; e assim por diante.

A Árvore da Vida precisa ser aprendida de cor; você deve conhecê-la de trás para frente, de frente para trás, de todos os lados e de cabeça para baixo; ela deve se tornar o pano de fundo automático de todos os seus pensamentos. Você deve continuar pendurando tudo o que surgir em seu caminho no galho correto.

No início, é claro, tudo isso é terrivelmente confuso; mas persista, e chegará o momento em que todas as peças se encaixarão no quebra-cabeça, e você contemplará – com grande admiração e espanto! – a maravilhosa beleza e simetria do sistema cabalístico.

E então – que arma você terá forjado!

Que poder de analisar, ordenar e manipular os seus pensamentos!

E quando alguém elogiar sua memória ou a clareza de seus pensamentos, lembre-se de atribuir o mérito à Cabala!

“Está bem” – parece que até consigo te ouvir ronronar – “essa máquina parece adorável. O projeto é muito elegante; e esse seu broche é um charme. Só tem um problema: como faço essa maldita coisa funcionar?”

Ah sim, como aquela criatura do Apocalipse, o ferrão está no rabo3.

Sinceramente, não precisa se preocupar; ela funciona com rolamentos ou algo do tipo, e sempre há as “Treze Fontes de Óleo Magnífico jorrando da Barba do Macroprosopo” caso ela faça algum ruído quando ligar. Mas, falando sério, toda a matemática necessária é simples Adição e Multiplicação.

“Sim!” – você responde com grosseria – “É o que você pensa; mas você não avançou muito na Cabala!”

É verdade, irmã. O próprio Livro da Lei insiste no fato de conter uma Cabala que estava além da minha compreensão na época de seu ditame, está além da minha compreensão agora e sempre estará além da minha compreensão nesta encarnação. Permita-me direcionar sua atenção espiritual para AL I:54; I:56; II:54-55; II:76; III:474.

Naquela época já havia informações suficientes e compreensíveis para me assegurar de que o Autor do Livro conhecia pelo menos tanta Cabala quanto eu; posteriormente, descobri mais do que o suficiente para ter certeza, sem erro, de que ele sabia muito mais, e de uma ordem muito superior, do que eu; finalmente, vislumbres de luz, lançados pelo tempo e por estudos intensos, sobre muitas outras passagens obscuras, não deixam dúvida alguma em minha mente de que ele é, de fato, o maior cabalista de todos os tempos.

“Eu te perguntei como ela funciona”.

Não seja tão irritadiça, queixosa e impaciente; seu zelo é louvável, mas é uma perda de tempo tentar me apressar.

Bem, quando você tiver decorado este Alfabeto de Números (em seu formato correto), com o máximo de conjuntos de atribuições que conseguir memorizar sem se confundir, poderá tentar alguns exercícios fáceis, começando pelo passado.

(“Quantos conjuntos de atribuições?” – Bem, certamente, os alfabetos hebraico e grego com os nomes e números de cada letra e seu significado; algumas listas de nomes de deuses, com uma ideia clara do caráter, qualidades, funções e importância de cada um; a escala de cores “do Rei”; todas as atribuições do Tarô, é claro; depois animais, plantas, substâncias, perfumes, uma ou duas listas de arcanjos, anjos, inteligências e espíritos – isso deve ser suficiente para começar.)

Agora você está armada! Pergunte a si mesma: por que a influência de Tiphareth é transmitida a Yesod pelo Caminho de Samekh, uma cerca, 60, Sagitário, o Arqueiro, Arte, azul — e assim por diante; mas a Hod pelo Caminho de Ayin, um olho, 70, Capricórnio, o Bode, o Diabo, Índigo etc.

Treze é o número de Achad (אחד), Unidade, e Ahebah (אהבה), Amor; então, que palavra deve surgir quando você a expande pela Díade Criativa e obtém 26? E quando você a multiplica por 4 e obtém 52? Então, suponha que o Pentagrama também se ocupe, 13×5 = 65, e quanto a isso?

Agora, nem pense em rastejar até mim e pedir as respostas; descubra você mesma que tipo de palavras elas devem ser e, em seguida, verifique seu resultado consultando esses números no Sepher Sephiroth: The Equinox Vol. I, Nº 8, Suplemento.

Quando você for realmente hábil em todos esses cálculos bem conhecidos, “prepare-se para entrar na Região Incomensurável” e desvendar o Desconhecido.

Você deve construir a sua própria Cabala!

Ninguém pode fazer isso por você. Qual é o seu próprio verdadeiro Número? Você deve encontrá-lo e provar que está correto. Em poucos anos, você deverá ter construído um Palácio de Glória Inefável, um Jardim de Deleite Indescritível. Nem o Tempo nem o Destino podem domar essas torres tranquilas, esses Minaretes de Música, nem murchar uma única flor nessas aleias de Perfume!

Hum! Que maldade a minha, mas acabei de pensar que talvez fosse melhor se você criasse seu próprio Sepher Sephiroth! Que sugestão absolutamente grotesca! No entanto, eu realmente sugiro isso.

Afinal, é bastante simples. Para cada palavra que encontrar, some seu valor e anote-as ao lado do número correspondente em um caderno reservado para isso. Isso pode parecer tedioso e bobo; por que você deveria fazer tudo de novo, algo que eu já fiz por você? O motivo é simples: fazer isso lhe ensinará Cabala como nada mais poderia. Além disso, você não ficará sobrecarregada de palavras que não significam nada para você; e se por acaso precisar de uma palavra para explicar algum número específico, poderá procurá-la no meu Sepher Sephiroth.

Por meio desse método, você também poderá descobrir uma rica fonte de palavras próprias que eu tenha deixado passar.

Sem dúvida, um Professor Realmente Bom teria dito: “Cuidado! Usem meu dicionário, e somente o meu! Todos os outros são espúrios!” Mas eu não sou um P.R.B. desse tipo.

Para começar, é claro, você deve anotar as palavras que certamente surgirão em seu caminho: números como 11, 13, 31, 37 e seus múltiplos; os nomes de Deus e dos principais anjos; os nomes planetários e geomânticos; e seu próprio nome particular com suas ramificações. Depois disso, deixe que seu trabalho no Plano Astral a guie. Ao investigar o nome e outras palavras comunicadas a você por seres que encontrar lá, ou invocar, muitas outras surgirão em suas devidas conexões. Muito em breve, você terá um pequeno e belo Sepher Sephiroth só seu. Lembre-se de buscar, acima de tudo, a coerência.

A propósito, é uma excelente prática fazer alguns cálculos mentais durante suas caminhadas; adquira o hábito de somar todos os nomes que encontrar em sua leitura matinal. Nietzsche observou com propriedade que os melhores pensamentos surgem caminhando; e já me aconteceu, mais de uma vez, que ideias realmente importantes me vieram à mente, como que iluminadas por uma lanterna, enquanto eu caminhava.

Você deve ter notado que, nesta breve exposição, me limitei à Gematria, a relação direta entre número e palavra, omitindo qualquer referência a Notariqon, a arte maldita de formar palavras a partir de iniciais, como (na vida profana) Wren e Gestapo e sua horrenda prole, ou a Temurah, a arte de alterar a posição das letras em uma palavra, uma espécie de cifra; pois estas são quase sempre frívolas. Basear quaisquer cálculos sérios nelas seria absurdo.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Fraternalmente,

666

PS: Você deveria estudar O Templo do Rei Salomão no Equinox Vol. I, Nº 5, para uma exposição mais elaborada da Cabala.


  1. «Sir Humphry Davy (1778–1829), químico e inventor britânico teria escrito a frase “Nada existe além de pensamentos! – o universo é composto de impressões, ideias, prazeres e dores!” enquanto investigava os efeitos da inalação de óxido nitroso (gás do riso) como anestésico.» ↩︎

  2. «Crowley escreveu uma análise completa do número 418 em seu Liber LVIII↩︎

  3. «“E tinham caudas semelhantes às dos escorpiões, e aguilhões nas suas caudas; e o seu poder era para danificar os homens por cinco meses”. Apocalipse 9:10. Em outras palavras, “o pior fica pro final”.» ↩︎

  4. «“Não mudes nem mesmo o estilo de uma letra; pois vê! tu, ó profeta, não verás todos estes mistérios escondidos ali” (I:54). “[…] Todas as palavras são sagradas e todos os profetas verdadeiros; salvo apenas que eles entendem um pouco; resolvem a primeira metade da equação, deixam a segunda inatacada. Mas tu tens tudo na luz clara e algo, mas não tudo, na escuridão” (I:56). “[…] A pontuação como quiseres; as letras? não as mudes em estilo ou valor! Tu obterás a ordem & o valor do Alfabeto Inglês: tu encontrarás novos símbolos aos quais atribui-los” (II:54-55). “4 6 3 8 A B K 2 4 A L G M O R 3 Y X 24 89 R P S T O V A L. O que significa isto, ó profeta? Tu não sabes; nem saberás nunca. Lá vem alguém para te seguir: ele o exporá […]” (II:76). “Este livro será traduzido para todas as línguas: mas sempre com o original pela mão da Besta; pois na forma casual das letras e sua posição umas com as outras: nestas há mistérios que nenhuma Besta adivinhará. Que ele não busque tentar: mas um vem depois dele, de onde não digo, que descobrirá a Chave disso tudo. Então esta linha traçada é uma chave; então este círculo esquadrado em sua falha também é uma chave. E Abrahadabra […]” (III:47).» ↩︎


Traduzido por Alan Willms em março de 2026. As notas entre «aspas angulares» são do tradutor.

Próximo capítulo em breve!
O Universo: A Equação 0=2 »
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